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segunda-feira, fevereiro 25, 2019

A criança que não é “castrada psicologicamente”. Marcelo Caixeta.

A criança que não é “castrada psicologicamente” irá ter propensão a ter problemas comportamentais no futuro. Sem um “não”, sem castigos, sem força física do adulto ( às vezes na forma de uma palmadinha mesmo ) , ela irá crescer achando que pode tudo, que é mais que as outras, tolerando pouco a frustração, dando birra, com tendências a realizar todos seus impulsos e prazeres, comer demais, vício de jogos/net, usar drogas, transar demais, fugir de responsabilidades, recusar ocupações, perder a oportunidade de auferir , no tempo certo, prazer do auto-controle e do trabalho. Por exemplo, se você não ensina uma criança a obedecer, muitas não irão se curvar ao “peso das ocupações” ( toda ocupação\trabalho, no início é chata ), irão perder o “prazo de validade” para o trabalho e a responsabilidade.

Quem é mais duro nessas questões costumam ser os homens, as mulheres tendem a ser mais “boazinhas”, tendem a terem mais “dó”, tendem a ouvir as “psicólogas de blog”, tendem a criar os filhos com os “livros de pediatras”. Os homens estão relativamente alijados desse processo porque foram castrados pelo feminismo, pela intolerância de muitas mulheres ( “agora que ganho dinheiro não preciso da encheção de saco de um macho”), pelos divórcios fáceis, pela feminização masculina.

Nós estamos vivendo uma geração de homens criados por mulheres que eram executivas, operatórias, trabalhavam fora. Muitos homens são fracos , são carentes de mãe, são o “elemento fraco da relação”. Estão sempre em busca de uma “mãe amorosa”, têm pouca assertividade. Muitas dessas mães executivas eram também “estressadas”, depressivas, isso aumenta a carência dos homens. Muitos desses homens estão tentando , com sua passividade, “suportar uma mulher chata, poderosa, reivindicativa, executiva, eternamente insatisfeita, anti-fálica (anti-macho, anti-autoridade, anti-patriarcalismo )”. Tentam fazer isso para preservar os filhos, preservar o casamento, querem um “amor que não tiveram na infância”; mas costuma não dar certo, pois muitas mulheres costumam não gostar de “homens fracos na cama” ( é um paradoxo : “querem um homem gentil, mas quando o encontram, brocham” ) . Isso vem alimentar sua eterna insatisfação com tudo. Anulam o marido ou se separam mesmo. A criança fica sem o pai de vez, piora os problemas comportamentais já listados acima.

Quando o homem é “meio psicopata” ( claro há homens escrotos também) e só faz o filho e o abandona, a mãe o cria com muito cuidado e amor, mas, sem a “castração do pai”, cresce achando que é o “fodão”, cresce sem lei, cresce paparicado, vai para o crime mesmo. Ao contrário das crianças de “pais fracos” - que podem caminhar para a depressão, auto-mutilação, suicídio, toxicomania, tudo por excesso de prazer e tédio por falta de ocupação - essas crianças de pais psicopáticos tendem a assumir a genética e a psicologia deste pai ausente : truculência e agressividade externalizada.Também irão entregar-se ao prazer sem freio e sem ocupação, assim como os filhos dos “pais fracos”, mas , ao contrário desses ( que irão para a depressão, para o “borderline” ) , eles irão prejudicar os outros muito mais do que a si mesmos ( o que caracteriza a estruturação psicopática da personalidade) .
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Marcelo Caixeta, medico especialista em Psiquiatria da Infancia e Adolescencia pela Universidade de Paris XI ( Le Kremlin-Bicêtre)

quarta-feira, junho 20, 2018

Quando encaminhar ao psiquiatra?. Marcelo Caixeta.

A colega Tábita me pergunta quando encaminhar para neurologista ou psiquiatra.

Eu poderia aumentar a pergunta para “quando encaminar para “neurologista\psicóloga\fonoaudióloga” ou para psiquiatra, já que a primeira equipe,ao se unirem tentam “resolver o problema em equipe, sem o psiquiatra”.

A colega Consuelo replica que em caso de transtornos mentais, comportamentais, deveria ir para psiquiatra. Isso parece um tanto banal - a não ser para os encaminhamentos a psicólogos, não a neurologistas .

A colega Tabita replica , então, o que fazer em casos de demencia, hiperatividade, autismo, dislexia.

A resposta é bem complexa, me desculpe a extensão e o eventual “cabotinismo” ( “puxar a sardinha para o meu lado”) pois sou psiquiatra e dou , em nosso hospital, formação psiquiátrica, não só de psiquiatria geral, mas também forense, infantil, geriátrica. Portanto, estou falando da prátiica que aprendi com meus mestres, Delfino Machado, Isaías Paim, Ajuriaguerra, Dugas, Mazet, Lebovici, Aicardi,Eneida Matarazzo. Também de uma prática que eu transmito em nosso serviço hospitalar ( Hospital Asmigo ). Não posso responder por psiquiatras não-muito-bem-formados, daquele tipo que : 1- “não atendo paciente que eu preciso conversar, estes eu mando para o psicólogo. 2- “demência” eu encaminho para neurologista. 3- não entendo nada de distúrbio de aprendizagem. 4- aqui não tem psiquiatra infantil, autismo, hiperatividade, mando para neuropediatra. Para estes não vou oferecer resposta, além de uma só : prepare-se melhor.

Vou me limitar a falar de nossa prática, que pode ser, evidentemente, rebatida.

a- O bom psiquiatra tem desaber fazer um bom exame psicopatológico. O bom exame psicopatlógico pressupõe várias coisas :
a.1. que o psiquiatra saiba reconhecer todas as manifestações semiológicas de transtornos que afetem o comportamento, as funções mentais ( sensopercepção, representação, juízo, pensamento, memória, orientação, psicomotricidade, linguagem, afetividade, humor, atenção, consciência, crítica, volição, temperamento, caráter, personalidade, sexualidade, sono, alimentação, funções instintivas, impulsividade, toxicomanias\conduta aditivas, atividades do eu, controles do impulso, atividade social\gregária , aí inclusive as funções cognitivas, afásico-agnosico-apráxico-dismnêmicas, lexicográficas-discalcúlicas.
a.2.Não basta saber reconhecer os sinais e sintomas, tem de saber identificá-los com base na fenomenologia dilthey\jasperiana.
a.2. além de conhecer as manifestações semiológicas, tem de saber como as coisas se relacionam entre si. Por exemplo, não basta reconhecer que uma criança tem uma dislexia e tem uma hipoprosexia; não basta reconhecer uma criança com autotoposomatoagnosia e comportamento hiperegocentrado; tem de entender como um se relaciona à outra. Isto é psicopatologia. O psiquiatra bem-formado tem de saber como se joga a fisiopatologia dos sinais\sintomas mentais-comportamentais com eventuais alterações fisiopatológicas cerebrais e corporais, tem de saber como os sintomas\sinais se relacionam entre si. Por exemplo, uma criança com discalculia pode ter um problema no funcionamento da atividade hemisférica parietal direita que altere sua atenção ( hipoprosexia ), altere sua atenção para com os demais ( egocentração ), altere sua gnosia espacial , altere sua simultaneognosia e suas atividades fásicas quase-espaciais, gerando problemas da compreensão das atividades matemáticas\discursivas complexas. Por exemplo, para compreender a fala :”se Maria é mais loira que Joana, qual das duas é a menos morena “? Exige-se uma habilidade linguística de modalidade quase-espacial. Isso pode estar relacionado com os problemas comportamentais de uma criança aparentemente hiperativa “simples”, mas que , na verdade, tem uma disfunção parietal-direita. Para o reconhecimento deste funcionamento, necessita-se de um conhecimento psiquiátrico.
b- diagnosticos diferenciais de autismo, requerem : psicose desintegrativa de Heller, psicose simbiótica de Mahler, psicopatia autística de Asperger, disturbio do apego infantil , depressão anaclítica de Spitz, nanismo psicogênico\failure to thrive ( transtorno de desaferentação afetiva-sensorial ), disfasia semântico-pragmática,, transtorno de ansiedade generalizada com inicio na infância , fobia social, transtorno bipolar de inicio na infância, transtorno severo da emocionalidade infantil ( dsm V), hiperatividade, síndrome de afasia adquirida-epilepsia da infância, transtorno obsessivo da criança, personalidade evitativa ou esquizoide ou esquizotípica no adolescente, esquizofrenia infantil, hiperatividade orgânico\oligofrênica, etc. Por aí vê-se que, para o diagnóstico de autismo, é necessário um profundo e rígido exame psiquiátrico.
c- o mesmo se aplica à hiperatividade\deficit atencional infantil, cuja diferenciação tem de ser feita pelo psiquiatra com os quadros de ansiedade infantil, mania infantil, estados mistos, depressão agitada, bipolaridade de início infantil, transtorno de personalidade borderline na adolescência, trnastornos dissociativos, heboidofrenia, hebefrenia, síndrome abandônica, síndrome de Landau-Kleffner, hiperatividade\hipoprosexia orgânica, esquizofrenia infantil, transtorno de apego na infância, fobia escolar, distúrbio de conduta, distúrbio opositivo-desafiante, psicose encefalitica, transtorno obsessivo, síndrome de tiques múltiplos com hiperatividade\estereotipias, síndrome de Asperger, Espectro autístico,psicoses deficitárias de Mises, Desarmonias Evolutivas de Lang, Psicose desintegrativa de Heller, Psicose simbiótica de Mahler. Portanto, a hiperatividade também, como os quadros acima, exigem atenção psiquiátrica profunda e especializada. Não vejo como um médico que não tenha profundos conhecimentos \ prática hospitalar psiquiátrica possa conseguir resolver esse tipo de problema.
d- Demência, por definição, é uma síndrome com sintomas psiquiátricos, problemas cognitivos, problemas mnêmicos, problemas comportamentais, problemas afetivos, problemas psicóticos. Ou seja, por definição, não cursa, pelo menos inicialmente, com sintomas neurológicos ( sensitivo-motores ). Não há , na definição, necessidade de plegias, paresias, parestesias, convulsões, disautonomias, dis-sensoriopatias. Portanto, por definição - repetindo - é uma síndrome cognitivo-comportamental, que ao meu ver, necessita de atendimento psiquiátrico, inclusive porque grande parte de sintomas cognitivo-demenciais têm causas afetivas, a chamada “pseudodemencia depressiva”, alem de parafrenias discognitiva, rebaixamentos vesânicos, envelhecimento da bipolaridade ou esquizofrenia, síndromes tóxico-demenciais ( tabagismo, alcoolismo, voláteis, etc ), ou seja, quadros extremamente comum em psiquiatria geriatrica. Evidentemente, quando e se o quadro demencial tornar-se neurológico, com os típicos sintomas sensitivo-motores, deve ser enviado ao médico neurologista. Por outro lado, evidentemente, quadros geriátricos puramente ou sobremaneiramente sensitivo-motores, sem sintomas psiquiátricos, p.ex., alguns Parkinson, Esclerose Múltiplas, epilepsias, etc, não necessitam de irem para médico\hospital psiquiátrico.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra

domingo, março 11, 2018

Quem vai "destruir" este médico? Marcelo Caixeta.

Sei que vou ser “destruído” pela opinião que vou emitir , mas acho isso bom, estou em busca é de críticas mesmo ( claro, desde que sejam construtivas e com respeito ). Minha opinião - que é a de todo mundo que ainda não entrou em Medicina, ou não passou em Residência - é abominada por aqueles que já passaram ou já entraram.
A tese é a seguinte : o Brasil precisa, sim, de mais médicos e mais especialistas ( não sou diretor de faculdade, não sou diretor de pós-graduação médica, não sou empresário de ensino médico ou pós-graduado, ou seja, não ganho dinheiro com isso – é bom ir avisando, nesses tempos de necessária transparência) .
Na viagem vertiginosa e caótica que se segue abaixo, tento demonstrar como a mente do médico brasileiro foi distorcida por um modelo que associa uma grande intervenção estatal ( políticas de “esquerda”) com um grande corporativismo ( políticas de “direita” ).
Não me preocupo muito com os “absurdos” que vou dizer abaixo porque, como o raciocínio é extremamente longo e “enfadonho”, poucos médicos irão ter “paciência com o textão”, irão pulá-lo rapidamente. Isso só fará corroborar uma de minhas teses : o intelecto do médico brasileiro é “treinado na Universidade para ser rasteiro”, ser superficial.

Como sempre gosto de fazer, começo meu “estudo” a partir de “casos clínicos reais”, recolhidos via depoimentos nas redes sociais, ou via nosso grupo de pesquisas em psicologia médica. Vou dar alguns dados práticos :

1. O colega médico me diz : “ontem, ao levar meu pai em uma UTI, fui recebido pelo médico de plantão, que me atendeu no corredor, me ouviu 3 minutos, e já disse que “tinha entendido tudo”. Ora, é um caso complicadíssimo, de uma insuficiência cardíaca grau IV, acidente vascular encefálico, hipopotassemia, hiperaldosteronismo, anemia perniciosa macrocítica, hipovitaminose cianocobalamínica/hidroxicobalamínica, hiperhomocisteinemia com síndrome de hipercoagulabilidade, betabloqueador necessário para ICC bradicardizando demais, espironolactona levando a anorexia, etc, etc. Era caso para um relato de no mínimo 40 minutos, o colega me ouviu por 3 minutos, no corredor”. Como sempre, , como todo médico brasileiro, “corrido”, cheio de pacientes, correndo de um lado para outro, ganhando pouco em todos esses lugares, etc.
2. Quando eu fiz residência na França ( R4 Pq Inf) , um residente de psiquiatria tinha sob seus cuidados hospitalares ( internados ) dois, três, no máximo quatro pacientes. A média que se vê no Brasil é de 25 pacientes por cada residente...
3. Retirando-se a Africa, o Brasil é o único país onde se ouve : “nossa , atendi hoje, em 12 horas de plantão, 85 pacientes”.
4. As sessões clínicas ( discussões de caso ) que eu via na França duravam até 8 horas... sim, um dia todo !. No Brasil, passou de 20 minutos, o pessoal começa a “cansar”.
5. Na França, pelos idos de 1988/89 (especifico isso porque pode ter mudado ), a dialética, a discussão, a oposição, eram a tônica de um serviço médico. No Brasil, se você “ousa” discordar de um colega, ele te julga como “inimigo”, ou no mínimo um “chato”.
6. No Brasil, rarissimamente, ( acho que , na verdade, nunca vi isso ), um médico que fez um diagnóstico, propõe um tratamento, muda de opinião, mesmo que lhe mostrem que esteja errado, que está prejudicando o paciente, mesmo que o paciente morra. Nunca ouvi a frase : “é, colega, acho que você está certo, sabe mais que eu, tem mais experiência que eu, vou mudar meu diagnóstico e tratamento”. Há um orgulho médico indestrutível , entre nós.
7. Dirijo um serviço hospitalar com residentes médicos. Um dos nossos residentes, que obrigatoriamente fazem psicoterapia com os pacientes, com as famílias, conversam sobre os problemas, a doença, etc, consegue atender , no máximo, 3 pacientes internados. Se fosse apenas para “tacar remédio no paciente”, “dopar o paciente”, um residente desses, então, poderia, de fato, atender até 25 pacientes...
8. O Brasil é o único país do mundo onde os casos mais complexos, graves, difíceis ( casos hospitalares/casos de emergência médica ) estão nas mãos dos profissionais menos capacitados ( geralmente recém-formados, geralmente quem não passou em residências médicas, geralmente os que “não conseguiram outra coisa”, etc), menos numerosos, com menos recursos.
9. É o único país do mundo onde uma família paga 900 reais em uma consulta com um “grande especialista”, mas , na hora de hospitalizar seu ente querido, acha “certo” pagar ( ou o convênio pagar ) um honorário médico de 50 reais para que um médico olhe seu parente grave em 24 horas, e em meio a uns 25 outros pacientes, pois com esse preço de honorários médicos, o hospital não consegue pagar mais médicos... ( estou falando da maioria dos hospitais pequenos/médicos Brasil afora, não nos padrão Einstein/Sírio, etc) .
10. Talvez seja o único país do mundo ( excetuando-se Cuba) onde o médico forma-se com um modelo de “saúde pública”, “saúde coletiva”, voltado para um péssimo atendimento, o SUS. Sim, TODO programa de ensino médico ( graças às políticas esquerdistas do MEC) é voltado para formar o “médico de pés-descalços”, aquele que, no máximo, vai passar vermífugo na periferia e dar palestras de “hipertensão” no postinho de saúde ou de “drogas e sexo na adolescência na escola pública do bairro”.
11. Este médico, “formado para ser médico do SUS na periferia”, é também formado para pensar e trabalhar como um médico de periferia, sem hospital, sem “aparelhos”, sem “grandes complexidades”, sem “doenças raras”. É pensado para ser como aquele garoto atendente de balcão de farmácia : “para febre, um antitérmico”, “para dor, um analgésico”, “para cólica um antiespasmódico”, para “depressão um antidepressivo”, para “psicose um antipsicótico”, e assim por diante.
12. Ou seja, é formado na superficialidade, na “rapidez” ( uma consulta a cada 3 minutos, a média do SUS ), na base de “sintomas e tratamento”. A medicina científica é uma coisa totalmente diferente. Sintoma é só o início de uma longuíssima cadeia de raciocínio, cuja parte principal, inclusive, é uma coisa chamada “fisiopatologia”( algo complicado que não vou explicar aqui ), coisa que muitíssimos poucos médicos brasileiros sabem pensar... O raciocínio é sempre em cima do “sintoma e tratamento”, não em cima de como um sintoma se relaciona com outro, como um sintoma se liga a esta ou aquela alteração biológica, como uma lesão ou disfunção liga-se a outros sistemas orgânicos, etc.
13. Esse tipo de raciocínio exige tempo, profundidade, estudo complexo, coisas que os estudantes e residentes no Brasil não são treinados. Isso acontece por vários motivos : modelo de “saúde pública”, faculdades gananciosas que tem alunos demais, não dão prática, residentes que só tocam serviço, não tem tempo para estudar, debruçar-se sobre cada caso, estudantes/residentes sem professores suficientes, capacitados ( p.ex., aprox. 60% dos professores dos cursos de medicina não são médicos !!).
14. Todos os fatores acima impactam enormemente no tema principal desse artigo : a necessidade de mais e mais médicos. Isso acontece por dois motivos básicos : como são mal-formados, a resolutividade é péssima, então, para resolver um único problema – que exigiria um único médico – são necessários 10... E o outro problema é que, com estes médicos superficiais, que dão pouca atenção ao paciente, que pensam pouco sobre o paciente, debruçam-se pouco sobre cada caso, acontece que onde um único médico cuida de 25 pacientes, seria, na verdade, necessário que houvesse 6 médicos !!
15. Em psiquiatria, em hospitais, que é onde exerço minha atividade, vejo muito isso, a toda hora, como já especifiquei acima. Fico sabendo , por exemplo, de um médico residente atendendo 25, 30, pacientes, e, é claro, atendendo mal, só “tacando remédio”, “dopando”, “colocando para dormir”, quando, na verdade, deveriam haver 6 ou 7 médicos para este tanto de pacientes, de modo a fazer psicoterapia, atenção familiar, estudar o caso, pedir exames adequados, acompanhar e estudar os exames, etc, etc.
16. As distorções apontadas acima estão tão enraizadas na mente do médico e na cultura brasileira que ninguém se dá conta delas. Todo mundo acha que é “assim mesmo”, que o “normal mesmo é ver um médico esbaforido, correndo , grosso, frio, estressado, rejeitante, “sem tempo para ouvir isso”, “sem tempo para ler isso tudo”, “sem tempo para conversar tanto sobre isso”. O Brasil acostumou com o “padrão SUS do médico”. E este padrão se repete em todos os níveis, não só nos convênios médicos mas até nos níveis particulares. É a “fôrma” dentro da qual o médico se formou. Mesmo para os médicos que a gente paga particular, quase sempre o padrão é esse mesmo, “pressa”, grosseria, impaciência, sarcasmos ( “você quer saber mais que eu”? “você quer me ensinar”? ), orgulhos, condutas intempestivas e superficiais, “pouco raciocinadas”. O SUS moldou a “mente médica brasileira”, todos acham : “é assim mesmo”. É tudo na base da “correria”, na base “daquele tanto de gente”, na base do “hospitais lotados”, “hospitais no limite”, sem-condições, “mal-atendido”, etc. O Governo implantou o padrão-SUS de ser na Saúde.
17. Mesmo que esses médicos acima descritos fossem bem-formados, com alta resolutividade, mesmo assim seriam necessários mais médicos do que os que há no Brasil. Faça um teste simples : quantos médicos você conhece que não “estejam corridos” ? “apressados” ? “estressados”? “não tenham tempo para conversar o necessário”? “não te escutem o necessário”? “não vejam e estudem todos os seus exames e todos os seus relatórios médicos”? Nas minhas contas, seriam uns 10% dos médicos que se enquadram nisso, e olhe lá... Portanto, se 90% está apressado, é porque o atendimento está falho em algum lugar, de algum modo. E isso indica que há necessidade de mais médicos.
18. É claro que os médicos, com razão, irão chiar com esta minha tese : “mas a gente corre porque ganha pouco”. Sim, é correto, para muitos ( não para todos, pois há aqueles que , por ganância, mesmo ganhando bem, irão correr muito também).
19. A solução para isso seria desmontar toda essa máquina pérfida que o Governo ( associado a Grandes Empresas /Grupos Médicos-Hospitalares-Convênios ) montaram contra o médico brasileiro, a começar da mais completa desvalorização do principal Ato Médico, o ato onde todo o “raciocínio fino” é feito, a famigerada “consultinha” ( até o termo é pejorativo , além de extremamente mal-remunerado). Mas, mesmo se os honorários médicos fossem bem pagos, o que aconteceria ? Os médicos teriam de se dedicar mais e mais profundamente a cada paciente, e aí sobrariam muitos outros pacientes necessitando de atendimento. Daí a necessidade de mais médicos e mais especialistas, como que queria demonstrar desde o começo.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra. (hospitalasmigo@gmail.com)

domingo, julho 10, 2016

Exercício ilegal de Medicina

LESÃO AXONAL DIFUSA em "Casa de Recuperação" - Caso Clínico No 2 : Série : CASOS GRAVES DECORRENTES DO EXERCICIO ILEGAL DA MEDICINA ( consequência do Veto do Ato Mèdico ).
Esta semana hospitalizei um paciente depressivo que estava em “clínica de recuperação para dependentes”, sem assistência médica-psiquiátrica nenhuma. Ele é que estava se “prescrevendo” e usando medicamentos por conta própria, as quais ele tinha acesso na clínica. Era assim : um “interno” dizia para ele – “olha, toma lítio que é bom” – e aí ele tomava lítio. Durante algum tempo, usou o tal do lítio, mas, sem acompanhamento médico, intoxicou-se ( é uma droga relativamente fácil de autointoxicar-se ). Foi levado para uma UTI, de onde saiu numa cadeira de rodas, teve trombose venosa profunda. No entanto, voltou para a mesma “casa de recuperação”, agora sem o lítio. Lhe disseram de novo – “ah, não deu certo com o lítio, toma imipramina que é bom” . Ele começou usar, mas esta medicação é indicada para depressão unipolar, e ele tinha depressão bipolar, aí piorou, ficou mais agitado, ficou insone, irritado. Além disso, não parou de fumar, e na medicina psiquiátrica bem feita é impossível tratar bem, com estabilidade adequada, um depressivo bipolar que fuma.
Muitas vezes, os antidepressivos , nos depressivos bipolares, podem até precipitar surtos suicidas, é fato comum que a gente vê em hospitais psiquiátricos.
Pois bem, o nosso paciente, fez uso do tal antidepressivo, ficou muito agitado, irritado, insone, começou a ficar com uma psicose depressiva grave. Foi até um banheiro, amarrou uma corda e enforcou-se. Com isto, ele fez um movimento de pêndulo, bateu violentamente com a cabeça na porta do banheiro, fez um grande estrondo, chamou a atenção de outros internos, mas ficou bloqueando a porta. Isso atrasou vários minutos o seu socorro. Resultado, foi para UTI de novo, e dessa vez teve grave lesão cerebral, um tipo de lesão chamada LAD- lesão axonal difusa. Se já estava “ruim das pernas” ( tanto pela trombose venosa quanto por uma polineuropatia alcoólica também não diagnosticada e tratada ), agora saiu de lá numa cadeira de rodas, também com graves seqüelas cognitivas. Está, agora, em nosso hospital, paraplégico, com incontinência urinária, fecal, e demenciado. Era um rapaz de 42 anos de idade, forte, inteligente, sadio, trabalhador, antes destas tragédias todas...
Alguém foi punido ? - a família notificou alguém ? – alguém foi processado por exercício incompetente da medicina ? A resposta é não. Uma das causas disso tudo é que não há instrumento legal para punir ninguém, uma vez que o PT/Dilma aboliram a lei da regulamentação da Medicina. Para o PT/Dilma, de acordo com o entendimento legal vigente, qualquer pessoa não-médica é capaz de fazer diagnósticos de doenças. Se pode diagnosticar, ainda mais facilmente pode também tratar, uma vez que a compra e venda de medicações, de instrumentações cirúrgicas, é praticamente liberada no país. Hoje em dia , por exemplo, conforme amplamente divulgado nas redes sociais, já é até permitido “consultas médicas e prescrições médicas em unidades de saúde”, privadas e públicas, feitas por profissionais não-médicos... Consultas nas quais diagnostica-se doenças ( sabe-se lá como ) e se medica...[ claro, para medicar-se alguma coisa , há de se ter diagnóstico dessa alguma coisa ]. Nem médicos e nem famílias de pacientes lesados- como esse descrito aí acima - têm instrumentos práticos para recorrer à Justiça face a estes descalabros. Por isso praticamente todos se calam. Até os médicos, que estão vendo o “resultado” destas seqüelas no seu dia-a-dia hospitalar. Isso também acontece porque nenhum médico tem tempo, dinheiro, assessoria legal, política, interesse corporativista, ou mesmo ódio, suficientes para encetar uma “cruzada” contra esse estado de coisas – e depois ser retaliado . Sobretudo porque vendo esse tipo de caso todos os dias , praticamente a toda hora ( chego a ver uns quatro tipo de exercício ilegal da medicina por dia ) , teria de virar quase que um “médico-de-porta-de-cadeia” para fazer isso.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra

segunda-feira, maio 30, 2016

Análise psiquiátrica do assediador de Ana Hickmann. Marcelo Caixeta

ANÁLISE PSIQUIÁTRICA DO ASSEDIADOR DE ANA HICKMANN.
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Rodrigo Pádua, 30 anos, estava “perseguindo” pela internet a apresentadora/modelo Ana Hickmann há vários meses. Em algumas ocasiões chegou a achar que estava sendo correspondido. Por fim invadiu seu quarto de hotel em Belo Horizonte , xingou-a, ameaçou-a, atirou na ajudante dela; aparentemente foi executado com dois tiros na nuca ( alega-se “legítima defesa” do segurança, cunhado de Ana) .
O jornal Correio Brasiliense, em 23/5/16 entrevista um psicólogo, coordenador de curso universitário de psicologia em MG. Este diz que : “é incomum que alguém que ame uma pessoa possa atacá-la. Por isso precisamos afastar a idéia , que muitas vezes é disseminada, do louco perigoso. Em 99% dos casos de psicose não ocorrem atos de periculosidade. As paixões por ídolos não levam à violência. Quando alguém coloca em prática o seu delírio “os especialistas” chamam isso de “passagem ao ato”.
Bem , vamos começar a discussão destas afirmações pelo final, ou seja, pelo conceito de “passagem ao ato”. Este conceito, ao contrário do que diz o psicólogo, não é aplicado à psicóticos, e sim aos “desquilibrados psicopatas”, conforme Henri Ey, Tratado de Psiquiatria, Ed. Toray, pag.331, capitulo “Los desequilibrados”. Ey cita explicitamente :Vários autores, p.ex., Cadwell, Rodgers, Trillat, atestam que a “passagem ao ato” é uma conduta haloplástica- ou seja, voltada para os demais, para o externo – ao passo que a conduta autoplástica, contrária a esta, é voltada para o próprio indivíduo, como se vê nos neuróticos e psicóticos ( ou seja, delirantes) . Portanto, ao contrário do que diz o psicólogo, e como mostra abalizada literatura médica psiquiátrica, o termo “passagem ao ato” aplica-se a estruturas psicopatológicas do tipo “psicopático” ( “personalidades psicopáticas” ) e não do tipo psicótico, delirante, ou neurótico.
As incongruências da afirmação do profissional da psicologia não terminam por aí. Ele diz que Rodrigo Pádua é pretensamente delirante, portanto “louco”, mas que nem todos os loucos, só 1% deles ( não sei como conseguiu esta estatística ) o é. É provavelmente uma estatística da cabeça do profissional, pois , em ensaios clínicos modernos, dificilmente haverá uma figura clínica tão ampla como “psicóticos” ( isto não é uma doença, não é um substantivo, é um adjetivo ), os tais 99% sem riscos. No hospital psiquiátrico onde trabalho, há 35 anos, a estatística de pacientes agressivos é enormemente maior, no âmbito de várias patologias mentais, e é um enorme desserviço ( e perigoso ) afirmar-se que doentes psiquiátricos graves não sejam perigosos. É exatamente por pensarem assim que os familiares de Rodrigo parecem não ter-se incomodado , ou não tê-lo incomodado, apesar de seu comportamento altamente psiquiátrico anterior ( “parar de trabalhar”, “parar com tudo”, “ficar o dia todo no quarto”, “ficar obcecado com a modelo”, etc ). Presta um enorme desserviço à população, tanto o profissional quanto o veículo de informação que diz que não devemos nos incomodar muito com a periculosidade de pacientes psicóticos. Pelo contrário, como eu já disse, a agressividade é fenômeno clínico muito comum em doenças psiquiátricas, e vemos isto estampado nas capas de jornais todos os dias, infelizmente da maneira mais tenebrosa. No Brasil, de fato, o que há é uma sub-notificação , sub-informação, e conseqüente sub-tratamento de doenças psiquiátricas graves. Inclusive, grandes jornais, “boa imprensa”, não sabe diferenciar o que é um problema psicológico de uma doença psiquiátrica estabelecida, confundido perigosamente as duas, e confundindo juntamente a população... Por que nunca chamam um psiquiatra, um médico, para falar de “testes psicológicos”, mas sempre chamam psicólogos para falarem de doenças psiquiátricas ? Seria uma certa “psiquiatro-fobia” que permeia toda sociedade brasileira ?
Aliás, fosse o profissional consultado um psiquiatra, facilmente teria feito o diagnóstico de uma síndrome de Clerambault, ou distúrbio erotomaníaco, claramente manifesto nos sintomas : crença delirante de ser amado, crença de que está sendo correspondido, crença de que o objeto de sua paixão é “culpado” de alguma forma pelo despertar e manutenção do sentimento, crença de que o objeto tem de ser seu, atuação psicótica de seu delírio de ser amado, etc. É uma síndrome esplendidamente estudada pelo psiquiatra francês Gaetan de Clérambault, logo no início do século XX, conforme pode ser compilado em seus geniais e eméritos escritos ( “Oeuvres Psychiatriques”, Ed. PuF, Paris, 1942 ). O médico francês perfila a erotomania com outras várias “psicoses passionais”, tais como os idealistas , os fanáticos, os querelantes, os reivindicatórios, os regicidas. O tratamento envolve medicação adequada, p.ex., normotimicos, antipsicóticos, eventualmente antidepressivos/antiobsessivos serotoninergicos de uso pontual e breve ( usos prolongados , intensivos e não acompanhados por outras medidas podem piorar a condição ) , além de postura psicoterápica por parte do médico psiquiatra . Portanto, mais uma vez, fosse o entrevistado um psiquiatra, como deveria ser, seguramente saberia destas informações, ao menos por alto.
Tais psicoses passionais, como diz Clérambault, são um “exagero da afetividade fisiológica”, exagero este que muitos estudos , hoje, mostram ligados à depressão e à doença bipolar. Sem tratamento o desfecho, ao contrário do que diz o psicólogo, é comumente sério, com perseguições, ataques, assassinatos, escândalos, difamações, injúrias, etc. Ao contrário do que diz o psicólogo, o quadro é tão comum que a psiquiatria forense americana até lhes cunha um nome , “stalkers”. Também, ao contrário do que diz o psicólogo, mais uma vez “confundindo as bolas”, erotomania não é “amor normal”, e o próprio profissional consultado entra em contradição flagrante ao dizer que quem ama não mata, para logo após diz que o amor é o de um delirante ( “louco”). Ora, um amor delirante não é um amor normal, e portanto, ao amor patológico não se aplica o epíteto do “quem ama não mata”. É um desserviço do jornal e do profissional “desinformar” as pessoas deste jeito. A síndrome de Clérambault é doença psiquiátrica grave, que quando diagnosticada, deve ser submetida a rigoroso tratamento, às vezes até com hospitalização, sob o risco de ter-se um desfecho fatal como este. O diagnóstico médico é imprescindível , senão muitos destes pacientes serão submetidos apenas a tratamentos com psicólogos, temerosas procrastinações que tenderão a piorar a doença e propiciar-lhes um êxito muitas vezes letal, ou com suicídio ou com homicídio. Esconder o problema ,ou eliminá-lo como um caso de polícia ou de distúrbio criminoso de caráter, com dois tiros na nuca, não é política médica satisfatória. O satisfatório é o diagnóstico e tratamento temporâneo.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

A psiquiatria e o hospital psiquiátrico tem mais é de acabarem mesmo. Marcelo Caixeta

Não resta a menor dúvida, para ninguém, que a IstoÉ, hoje, é uma revista anti-esquerdista. No entanto, vejamos um fato curioso que aparentemente derruba esta informação : em sua edição de 10.fev.16, a coluna “Brasil Confidencial”, da repórter Débora Bergamasco ( da qual reproduzo pequena parte na ilustração ), ocupa uma tira vertical de página inteira para ripar o atual coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde, nunca empossado, pelo jeito só porque é médico, é psiquiatra, só porque já foi diretor de um “abominável” hospital psiquiátrico ( que a autora, assim como os esquerdistas-corporativistas-coitadistas, optam por propalar, prejorativamente, como “manicômios”). Tudo é muito bem escondido nas entrelinhas, é claro. Vejamos:
1/ a autora grifa o nome do “psiquiatra” ( sim, faz também questão de dizer esta “abominável” palavra ) em negrito, assim como também , logo abaixo, faz questão de também grifar em negrito – “o maior manicômio da América Latina” - também o hospital onde trabalhou. Mais “propaganda subliminar” do que isto, impossível. Mas não acaba por aí, tem muito mais.
2/ a reportes ( jornalista ?) continua destilando seu veneno subliminar : logo após o negrito “MAIOR MANICÔMIO”, ela diz : “interditado”, “denúncias”, “violações de direitos humanos”.
3/ Para mostrar a “força coletiva” antipsiquiátrica, a autora diz : “mais de 600 entidades assinam manifesto”.
4/ Diz que “preparam um dossiê de memória e da verdade” sobre o tratamento dado a 70 anos de funcionamento do MANICÔMIO no Rio.
5/ Continua a coluna da revista : o grupo que invadiu o Ministério da Saúde, há quase 2 meses, só sai quando vencer o atual ministro ( PMDB ) da saúde, “coincidentemente” também psiquiatra, Marcelo Castro. Não se leva em conta que o atual ministro, no que pese o estigma e a “delinqüência” de ser psiquiatra, possa estar com boas intenções para os cofres públicos : estancar a sangria de recursos para centros governamentais antipsiquiátricos que só tem feito aumentar as estatísticas de doenças psiquiátricas : suicídios, homicídios, mortes nas ruas, encarceramento de doentes mentais, toxicomanias, “loucos nas ruas”, infanticídios, overdoses, etc. Não que a hospitalização psiquiátrica maciça seja a solução para nada; como tudo , em medicina, só tem razão de ser para diagnóstico e tratamento especializado e complexo. Mas, pelo menos, que se mostre então, cientificamente, estatisticamente, que a atual política antipsiquiátrica dos centros governamentais têm razão de continuar sorvendo bilhões dos cofres públicos, num momento em que falta dinheiro até para a merenda das criancinhas. Não se diz, nem na IstoÉ, nem em momento algum, que a relativa retirada de força e poder de décadas, dos antipsiquiátricos no Ministério da Saúde, possa ser uma estratégia plausível de Marcelo Castro : tudo tem de ser escamoteado para mostrar só seu abominável lado “médico”, lado “´psiquiátrico”, lado “pró-manicômio-particular-de-70-anos-de-tortura”.
6/ A revista continua sua peçonha antipsiquiátrica : Só desocuparão o Ministério, continua a coluna, quando Dilma nomear, é claro, um antipsiquiatra, diz a reportagem “identificado com as políticas antimanicomiais”.
7/ E, para fechar sua tese do apoio coletivo-social-esquerdista- coitadista-antiautoritarista-governamental aos anti-hospitais-psiquiátricos, a autora diz que a política antimanicomial é bem chancelada pelas Conferências Nacionais de Saúde.
Eu particularmente já considero a batalha do nome da psiquiatria perdido no Brasil- portanto que meus contendores sorvam , felizes e calmos, a doce taça da vingança contra o médico.... Assim como o “hospital psiquiátrico”, já sou cachorro-morto que, sadicamente, pode ser alegremente pisado e cuspido, vocês venceram ....
Quanto aos hospitais psiquiátricos, nem preciso dizer nada : já estão quase todos fechados mesmo ( 95% em 10 anos ) , apesar de, -na surdina, como se procura uma prostituta na escuridão- nós, psiquiatras hospitalares, fomos transformados nas Genis do sistema judiciário, delegados, pronto-socorros, ambulâncias de convênios médicos, etc, que vivem nos IMPLORANDO por vagas psiquiátricas. Estes, no entanto, sobretudo o sistema judiciário-ministério público-setor público da saúde, para não dizer usuários e familiares, jamais vêm em nosso socorro dizer : “peraí, hospitalização psiquiátrica, assim como qualquer hospitalização médica, ainda é necessária, tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento”.
Quando o problema não ocorre dentro de casa, todos têm algum motivo para negar a hospitalização psiquiátrica. Vejamos :
a/ Entidades religiosas : precisam açambarcar fiéis dizendo que “depressão não é problema médico, é problema espiritual”. Todas as religiões, a começar da Cientologia do Tom Cruise, passando pelas evangélicas, católicas, e até espírita ( da qual sou adepto ), adoram negar o fato do adoecimento cerebral com repercussão mental. Estes dias li em folders e banners numa livraria espírita, Chico Xavier, em Caldas Novas : “depressão é problema fácil de resolver”, “não se entregue à medicações alopáticas”, “a cura é espíritual”, etc.
b/ Pacientes psiquiátricos, sobretudo aqueles menos graves, que têm um problema de personalidade ou temperamento, odeiam a psiquiatria, o médico, o hospital, pois estes “restringem sua criatividade”, “sua capacidade de amar”, querem tolhê-los, prendê-los, dopá-los. Tão logo quando melhoram de seus surtos são os melhores antipsiquiatras que existem. É claro, são cheios de história, sobretudo de “médicos e hospitais frios e desumanos” ( que, exatamente por serem tão desvalorizados, não recebem o suficiente para darem um atendimento mais “humano” para seus clientes ).
c/ Estes pacientes acima são usados como “massa -de-manobra” ideal ( assim como os universitários para o esquerdismo ) para as lutas “antipsiquiátricas”. São massa-de-manobra fundamentalmente para os grupos de pressão corporativa-profissional para o aumento de vagas de emprego nos centros psicossociais do Governo. Aqui entra também o viés “feminista” da luta contra o “falo” do abominável “homem-frio-ganancioso- psiquiatra”, pois a maioria dos funcionários destes centros é de mulheres , e , para uma mulher, é bem mais fácil ser “antiautoridade” do que para um homem.
d/ Ser “anti-psiquiatra”, ser “anti-hospital”, “anti-prisão”, “anti-manicômio”, ser “anti-retirar-a-pessoa-do-convívio-social”, “anti-truculência-masculina-capitalista”, tudo isso é, hoje, tão “na moda” quanto ser pró-direitos humanos, pró-direitos dos animais, pró-defesa-do-verde, pró-defesa-das-vítimas-da-pedofilia, pró-crianças-exiladas-mortas-nas-prais-da-Europa, etc. Não há como não ser tudo isso, é o completo “espírito dos tempos” e ninguém está fora dele. Esta é uma agenda tão poderosa que, como mostra a revista IstoÉ - repetindo, notoriamente de direita - ultrapassou e venceu a pretensa rejeição da ideologia esquerdista ( provavelmente nem a revista se deu conta de que está fazendo uma apologia governista ). Quem não tem alguém muito próximo, tipo um parente, um amigo, uma namorada, um fiel da Igreja, um ativista pelos direitos humanos, um estudante de psicologia, sociologia, filosofia, serviço social, um pastor, um médium, etc, que estão cheios de “razão anti-psiquiátrica” de ser ?
d/ Vejam bem, só até aqui, já temos fortíssimos grupos de pressão anti-médico-psiquiátrico : o esquerdismo ( para quem é importante acabar com a “iniciativa privada dos hospitais psiquiátricos” ), o governismo ( para quem é importante acabar com redes privadas para aumentar o poder de contratação no Estado e o poder da “saúde pública” face à “saúde privada” ), o feminismo ( para quem é importante “fincar o pé” contra a autoridade fálica ), os coitadinhos ( que tem de ser protegidos da sanha dos capitalistas, da sanha dos frios, truculentos, torturadores ), a imprensa ( que tem de jogar para toda esta galera aí acima ), os poderes constituídos, executivo, judiciário, legislativo, promotores, etc ( que têm de fazer seus cabides-de-emprego, seus currais-eleitorais, seus “fãs-que-adoram-as-ações-politicamente-corretas-justificando-assim-altos-cargos-altos-salários” ), os convênios médicos ( para quem é muito interessante negar a necessidade da hospitalização psiquiátrica para baixar custos : “manda todo mundo para a “fazendinha-clínica-religiosa de recuperação” ) . Há também o fortíssimo corporativismo, para o qual seria muito interessante se a psiquiatria desaparecesse da face da Terra, como vem acontecendo nos EUA, onde , p.ex., psicólogos, já viraram psiquiatras forenses, já prescrevem medicações, avaliam e solicitam exames médicos, internam, dão alta, etc. É até paradoxal falarem tanto contra a “dopação psiquiátrica” e depois, como nos EUA, como aqui no Brasil, numa lei de autoria da senadora-psicóloga Marta Suplicy, reivindicarem o “poder médico” de prescreverem as mesmas abomináveis drogas... Como se vê , é muito importante, e para muita gente, que a psiquiatria desapareça, e ela vai desaparecer, creia-me. Ela, hoje, é o “contrário de tudo que aí está”, não há prognóstico...
e/ Portanto, caro leitor, é inimigo demais, a psiquiatria não agüenta, não vai agüentar, por isso, como eu disse acima, estou “jogando a toalha” de ser psiquiatra, e se depender de mim, nenhum hospital mais se intitula “hospital psiquiátrico” ( diga-se : “manicômio” ). Você vai ser psiquiatra e trabalhar em hospital psiquiátrico para quê ? Para fugirem de você ? Para o paciente dizer que o hospital onde você trabalha “parece hospital mesmo e não aqueles manicômios veiculados no filme do “Bicho-de-Sete-Cabeças?” Para o paciente que você cuida com o maior carinho e atenção virar e dizer : “Que não sei porque me trouxeram em você , aqui neste hospital, pois tenho problema no cérebro, é coisa neurológica, não sou louco, não sou delinqüente para ficar preso, não tenho desvio de caráter para ter privação de liberdade deste jeito” ? Não é tudo mais fácil dizer que você é um “médico do cérebro” e que trabalha em um hospital de “doenças do cérebro?”.
e/ E é muito fácil para todos estes aí acima serem antipsiquiatras, pois a doença psiquiátrica não sangra; não se “morre” de doença psiquiátrica : suicídio, homicídio, mutilações ( auto e hetero ), overdose, cirrose, hepatite, afogamento, atropelamento, acidente automobilístico, AVC, convulsão, arritmia, tudo isto é “conseqüência” ( quase nunca vista ) da doença mental, mas não “é” a doença mental. Ninguém, portanto, morre ou se seqüela de doença psiquiátrica, por isto é muito fácil, facílimo, acabarem com a especialidade, como vem acontecendo e vai continuar acontecer. Asfixiados desse jeito, não há defesa possível para o psiquiatra, a psiquiatria e seu hospital.
f/ Os próprios médicos já jogaram a toalha, e por vários motivos. Algumas especialidades médicas adorariam ver o fim da psiquiatria. Um exemplo, uma porcentagem esmagadora de doentes “neurológicos”, na verdade, padecem de problemas psiquiátricos ( e para estes, há a feliz associação do profissional médico-não-psiquiatra com a profissional não-médica, sobretudo psicóloga ). É uma vertente que favorece aos dois, tanto médicos quanto não-médicos, para o fim-da-psiquiatria.
g/ Outra vertente : as próprias entidades psiquiátricas ( como “toda” boa entidade médica ) engalfinham-se entre si, médicos são os maiores inimigos de si mesmos. Já vi associações psiquiátricas fazerem até homenagens públicas repetidas para os anti-manicomiais que vivem com a faca em suas costas. Mas, para muitos psiquiatras, muitos à cabeça de instituições, é muito importante serem “amigos” de profissionais que verdadeiramente conversam com seus pacientes, pois estes lhes encaminham para a “sedação” ( olha o dindin aí ), do mesmo modo que eles, psiquiatras, têm de “dopar” e encaminhar para alguém fazer o “serviço humanizado” para eles ( “eu não converso, quem conversa é a psicóloga”). É , importante, portanto, dentro da própria psiquiatria, ser “humanista”, “jogar para a galera”, mesmo que , com isto, tenha de destruir a própria atividade profissional e os próprios locais de trabalho. Se o psiquiatra é um "mero prescritor de remédios para o cérebro" ( perdeu sua função humanística-psicoterápica ) , não é muito melhor ir no neurologista, pois afinal o "médico do cérebro não é ele?". E, não se preocupem, a própria medicina já preparou “nomes” para renomear a prática psiquiátrica dentro da medicina, p.ex., “neurologia cognitiva”, “neurologia comportamental”, “neuropsicologia”, “pediatria do desenvolvimento e do comportamento”, “psicologia médica”, “psicossomática”, etc, etc, e por aí vai...
Como eu já disse lá em cima, não escrevo tanta coisa para defender um cadáver, portanto não tenho esperanças de melhora nem da psiquiatria, do psiquiatra ou do hospital psiquiátrico. Escrevo por mero exercício intelectual, pelo “prazer lógico” de mostrar à jornalista (?) de IstoÉ que há muuuuuito mais coisa por debaixo da manifestação em sua coluna do que mostra sua horizontalidade superficial ( isto apesar de ser uma coluna vertical que pega a página inteira ).
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Marcelo Caixeta é médico, "especializado em doenças cerebrais, trabalha em hospital especializado em doenças cerebrais".

sexta-feira, novembro 27, 2015

Gaúchos. Marcelo Caixeta

Marcelo Ferreira Caixeta, gostaria que vc fizesse uma análise médicopsicológica do que vou escrever abaixo.
É o seguinte : o centro-sul adora meter o pau no Norte-Nordeste, mas veja bem :
Você viu o que o pessoal do RS fez com um motorista da uber? Andei pensando. Esses gaúchos são herdeiros de europeus sindicalistas e estatistas que vieram ao Brasil na época do auge do nacionalismo. Ao mesmo tempo em que se acham superiores aos brasileiros, com seus sobrenomes (muitas vezes dos tetravôs) europeus), eles parecem ser ainda mais socialistas e comunistas que os seus odiados compatriotas. Outra coisa que li é que sociedades escandinavas têm pouca desigualdade porque as pessoas tendem a ter comportamento solidário para com quem se parece com elas (uma utilização inadequada e involuntária de uma tendência ao nepotismo, galgada na evolução das espécies). Você vê mais motivos para os gaúchos serem tão avessos à livre iniciativa? Lembro - lhe que eles nos deram Maria do Rosário, Luis Carlos Prestes, Manoela D'avilla, Tarso e Luciana Genro, Olívio Dutra e o berço esplêndido do petismo. Não podemos nos esquecer do Grande Ditador Getulio Vargas, aliás modelo de Lula.
Outra dúvida: por que a desigualdade no tratamento aos homossexuais chama muito mais atenção do que a dada aos nordestinos? Quantos artistas de sucesso, não caricatos, são nordestinos? Quer que uma banda não dê certo: mantenha seu sotaque do nordeste. Sou individualista e odeio pautas coletivistas. Minha dúvida é apenas pq algumas pautas coletivas têm tanto apelo e essa não.
Penso que o gaúcho olha para seu "compatriota" loiro dos olhos azuis e pensa que é seu irmão, tem vontade de ajudar, de tornar todos iguais. Isso muito mais que os outros brasileiros.
Eu, Marcelo, digo, Caro colega, eu iria tentar responder isso, mas só a pergunta já é tão polêmica que eu resolvi deixar prá lá. Se vira nos trinta e guenta o fogo, "táca-lhe-o-pau" piá ....!!

terça-feira, novembro 03, 2015

Homossexualidade. Bipolaridade. Marcelo Caixeta

Sou um doente psiquiátrico, sou um "doente sexual". Não me sinto diminuido por isto. Por que tantos se sentem?
Marcelo Caixeta,médico psiquiatra.


Nos últimos artigos, sobre aspectos biológicos, psicológicos e sociológicos da transexualidade, a inteligente e esclarecedora transgênero B.C. nos mostrou que sofreu e sofre muito preconceito, e julga que “ser diagnosticada por psiquiatras” é um deles. De fato, a sociedade tem de dar a mão à palmatória e confessar que tem preconceitos não só contra transexuais, mas contra o fenômeno “homossexualidade” de um modo geral. Isto tem raízes psicopatológicas profundas : uma delas advêm do fato dos homens terem verdadeiro horror ao sentirem-se penetrados passivamente, analmente, por outro. Para eles é um misto de “nojo anal”, sentimento de humilhação, de fraqueza, de “sujeira”, de submissão a outro mais forte, a outro dominador. O “dominar”, o “ser o forte”, o “ativo”, o “altivo”, faz parte da psicologia masculina profunda, e a penetração anal anula escandalosamente este fantasma. Submeter-se “femininamente” a outro, causa horror, um horror tanto mais terrorífico quanto se aproxima da bissexualidade que muitos homens viveram na infância, puberdade, adolescência. É muito comum que, nesta fase etária, ainda sem “disponibilidade sexual ” de mulheres, ou premidos por uma “hipersexualidade hormonal” favorecida por certas “oportunidades” ( “dormir na casa de amigos, acampar, embriaguez, etc), homens se entreguem à atividades francas ou fantasias homossexuais. Isto depois os horrorizará o resto da vida, transformando-se em uma espécie de “nojo homossexual”. Este “nojo” será ainda amplificado quando são “cantados”, ou mesmo imaginam-se sendo cantados por outros homens. Em muitos casos, as agressões homofóbicas advêm deste evento : serem “cantados”. A psicologia humana, cuja consciência nasce da interação social e não de fenômenos biológicos, não interpreta fenômenos comportamentais como algo que tem causa biológica e sim como algo “social”, “moral”, ou seja, que depende da vontade do indivíduo : “ele é assim por que quer”, “é falta de vergonha”, “é falta de uma taca”. Homossexuais/transexuais, por sua vez, vítimas de discriminação real, tendem a projetar este esmagamento para toda figura “máscula”, para toda “figura de autoridade” ( inclusive psiquiatras ), como vimos , nos outros artigos, no caso de B.C. Em muitos casos, homossexuais inteligentes, cheios de orgulho, energia e força, como o filósofo Michel Foucault, tendem a tornarem-se “ativistas” contra a opressão, justamente porque sentem-se oprimidos pelo próprio “masoquismo sexual” ( querer sofrer a penetração anal brutal ). Não há, nestes casos, sintonia dentro da mesma pessoa entre um “ego fálico masculino” e um “corpo feminino passivo-masoquista”. Esta “revolta interior inconsciente” projeta-se sobre o mundo exterior, daí o motivo de sempre sentirem-se “discriminados” por todos. Eu, por exemplo, não vejo vergonha nenhuma em dizer que sou um doente, inclusive doente psiquiátrico, inclusive portador de uma doença – bipolar - que, em algumas ( muitas ) ocasiões poderia levar-me a sérios descarrilamentos sexuais ( satirismo - “taradismo”, ninfomania, inversões sexuais, pedofilias, gerontofilias, sadismo sexual, masoquismo sexual, etc) . No entanto, quando se diz, entre outras coisas, que há associação entre homossexualidade e doença bipolar – alto sobejamente descrito na literatura médica – muitos se arvoram, como a transexual B.C., a dizer que “estão sendo discriminados”, “estão sendo tratados como doentes”, “estão-lhe sendo retirados direitos individuais, sociais, humanísticos”. Na verdade, não há nada disto. Eu mesmo, como bipolar, não me sinto discriminado em momento algum; é claro que, se algum dia, eu quiser atuar uma eventual pedofilia, aí sim serei discriminado, mas não pela minha condição psicopatológica, mas sim pela minha “falha de caráter” ao não impedi-la. Todos nós, humanos, somos mais ou menos “psicopatológicos”; por exemplo, um homem bem-casado, que tenha esposa boa, sexy, filhos amorosos, etc, se tiver fortes inclinações poligâmicas, que o levem a destruir sua célula psicossocial ( a família ), pode ser julgado como um “doente biológico”. Seu corpo pede coisas que irão destruí-lo psicossocialmente, justamente porque a sociedade pede um padrão de comportamento ( monogamia ) que é tolerável e realizável para a maior parte dos homens “normais” ( não “tarados”, não “obsessivamente poligâmicos” ). Se o seu corpo não consegue utilizar-se do amor dos filhos, do sexo da esposa, para manter o núcleo familiar, é provável que este corpo tenha uma condição ( “satirismo”,
“hipersexualidade”) que possa ser chamada de “biologicamente doentia”. A “doença”, portanto, não é a “vergonha”; a vergonha, socialmente denominada, advêm da “falha de caráter” em não conseguir deter a biologia. Como não conhece a “força enorme da biologia”, a sociedade tende a interpretar tudo como falta de caráter, falha de caráter, inclusive a condição homossexual. Um “homem hipersexual” não se importaria de ser chamado de “doente”, ao passo que um homossexual , sim. Talvez pelo fato de que, como dissemos acima, este último já tenha sido muito esmagado pela sociedade e , principalmente, pelos seus próprios fantasmas internos, que, de um modo geral, não aceitam e não convivem harmonicamente com sua condição de “passivo-e-agressivo”, “sádico-e-masoquista”, “orgulhoso-e-submisso”.
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Marcelo Caixeta é médico psiquiatra. Artigos às terças, sextas, domingos . ( hospitalasmigo@gmail.com

domingo, outubro 04, 2015

Uma Análise Psiquiátrica da mulher que sonhava em ser cega e teve produto de limpeza derramado em seus olhos por seu psicólogo.

Uma Análise Psiquiátrica da mulher que sonhava em ser cega e teve produto de limpeza derramado em seus olhos por seu psicólogo.
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Desde adolescente que esta mulher, hoje casada e com filhos, queria ser cega. Tinha obsessão por isto, até que seu psicólogo realizou seu desejo. O caso pode ser visto em : http://www.jornalciencia.com/…/5403-mulher-que-sonhava-em-s…
É muito comum, na prática psiquiátrica, pacientes que querem ter alguma modificação corporal, p.ex., anorexicos, ortorexicos, acromaníacos ( querem se mutilar, cortar pernas, braços, reduzir a mandíbula ), dismorfofóbicos ( nariz menor, querem orelhas menos evertidas, pés menores, grandes lábios reduzidos, etc ) . São pessoas com algum tipo de obsessão, e esta obsessão geralmente tem uma base em uma ansiedade de natureza bipolar. Sem diagnóstico/tratamento psiquiátrico adequado, só restou mesmo ao psicólogo, como se viu, "cumprir a vontade do paciente".
Este tipo de situação é bem mais comum do que se imagina. Em minha prática psiquiátrica já vi pacientes que só gostavam de relacionar-se sexualmente com mulheres obesas mórbidas, outro só com mulheres amputadas, uma de minhas pacientes cortou, com gilete, os grandes lábios ( achava que eram exagerados), outra de nossas pacientes resolveu desbastar a própria mandíbula com uma lixa mecânica ( maquita ), logo após ter feito uma “auto-cirurgia” sobre o queixo, retalhando-o em cruz, rebatendo as partes moles e aí atingindo o osso com a serra elétrica. Alguns chegam a emascular-se ( castração ) e outros a enuclear os globos oculares.
Uma outra paciente, com anorexia/bulimia nervosa, enfiava colheres e facas quentes no abdome, para atingir a camada gordurosa ( tecido adiposo subcutâneo ) e assim “queimar a obesidade”. Outra chegava a cortar os tecidos na crista ilíaca superior ( quadril ) para ver o osso, coisa que ela chamava “ver meu trofeuzinho” ( tinha vontade ser magra como um esqueleto ).
Tais obsessões devem ser combatidas vigorosamente, tanto com medicações quanto com psicoterapia, o paciente não pode ser “simplesmente satisfeito” em suas demandas, pois estas são insanas. Por tras destas obsessões geralmente há muita ansiedade, muita depressão, muita inquietação interior, o que faz com que o paciente não se sinta feliz com as coisas normais da vida, amar, trabalhar, servir, relacionar-se, divertir-se, e aí partem em busca de “novas sensações”. Uma tentativa de minorar estas sensações ego-distônicas internas. Como vimos acima, esta obsessão pode fixar-se sobre qualquer parte do corpo, gerando as “obsessões corporais”. A escolha da parte do corpo muitas vezes não é aleatória; por exemplo, a paciente do queixo mutilado, aí acima, de fato, tinha ligeiro prognatismo e ligeira protusão zigomática. O paciente que gostava de obesas mórbidas tinha tido , quando da primeira infância, uma babá obesa que o iniciou na vida sexual precoce. A paciente que queria ficar cega, por exemplo, pode ter tido uma experiência prazerosa na infância, com alguma pessoa querida que fosse cega, uma pessoa que lhe deu conforto, uma pessoa cega que ela viu e que a fez sentir-se calma ( “seria tão bom ser como esta pessoa, ela é tão calma, seus movimentos são lentos, ela vive numa paz interior, ela é cuidada por todos, admirada por todos, todos querem ajudá-la, são solícitos com ela, ela tem toda atenção que uma pessoa carente merece, ela é uma heroína de ser cega e de conseguir dar a volta por cima, é glamouroso ser deficiente, chamar a atenção, chamar a comiseração, chamar a admiração das pessoas”).
Pacientes que tenham alguma obsessão deste tipo e que, além disto, tenham algum tipo de carência intra-familiar, são mais propensos a buscarem este tipo de auto-mutilação, uma vez que nem seu sistema psíquico interno nem o apoio externo são muito confortantes.
Em outros casos, a “sensação de ter controle total” é importante para o paciente obsessivo. Muitas anoréxicas nos dizem, enquanto internadas em hospitais psiquiátricos quase à morte, que preferem morrer do que perderem o “controle sobre o próprio corpo”. A obsessão envolve um prazer pelo controle e este prazer pode ser maior do que o bem-estar corporal e até a vida.
Também,como foi dito acima, esta obsessão, na maioria dos casos, é acompanhada por depressão, e o paciente pode achar que vai sentir-se melhor enquanto tiver sua obsessão/controle satisfeita. Aí ele pensa : “eu me sentirei muito melhor depois da mutilação”, ou algo do tipo “é melhor estar bem psiquiatricamente do que estar bem corporalmente”. “Não adianta ter um corpo perfeito e ser infeliz”, é outro tipo de pensamento.
Em muitos casos, estas cirurgias, ou controles, ou obsessões satisfeitas, têm duração efêmera : logo o sintoma da ansiedade/depressão/obsessão voltam e agora sobre nova base, uma nova “mania”. Por exemplo, a paciente que descrevi aí acima, que achava que tinha o queixo muito proeminente , e que o desbastou com uma lixa elétrica, após atingir seu desiderato, passou a achar que , agora, seu próximo alvo seria desbastar o arco zigomático ( diz ela : “ele é muito protuso”) , e já estava “estudando anatomia e cirurgia” para fazer sua próxima intervenção na região .
Por serem doenças ligadas ao espectro do transtorno bipolar, muitas vezes, requerem em seu tratamento, além da psicoterapia por parte do seu psiquiatra, de medicações , ora normotímicas, ora serotoninérgicas ( “anti-obsessão”), ora “anti-drive” (naltrexona, topiramato, antiglutamatérgicas ), etc.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra. Artigos ( dmdigital.com.br ) as terças, sextas, domingos. ( hospitalasmigo@gmail.com ).

quarta-feira, setembro 23, 2015

As múltiplas, perigosas e desconhecidas faces da doença bipolar. Marcelo Caixeta

As múltiplas, perigosas e desconhecidas faces da doença bipolar

Além da euforia e da tristeza, há muitos outros sintomas, até então desconhecidos, da doença

Até muito pouco tempo atrás, a psiquiatria reconhecia apenas a “face mais simples” da doença bipolar: aquela da chamada “psicose maníaco-depressivo”. Como o nome diz, esta se caracteriza por intensos e graves transtornos do humor, tanto para o lado da exaltação quanto para o lado da depressão. Hoje se sabe que as coisas, infelizmente, não são tão simples assim: além da euforia e da tristeza, há muitos outros sintomas, até então desconhecidos, da doença. Em primeiro lugar notou-se que a exaltação não se dá só na forma de euforia, mas também na forma de outros muitos comportamentos : compras excessivas, jogo excessivo, sexualidade excessiva, gastos excessivos, abuso de alcóolicos e de drogas, excesso de atividade laboral, de produtividade artística, excesso de busca de prazer, descuidos sazonais e temporários com a família, com o trabalho, com as responsabilidades.
Recentemente, por exemplo, atendi duas garotas, adolescentes, bem jovens, cujo principal sintoma era a “porralouquice”: saíam demais, festas demais, namoros demais, transas demais, começaram a fumar, beber, ir para beira de rios, dormir fora de casa, ficar viajando de cidade para cidade em garupas de motos, com grupos de jovens errantes; abandonaram, de certa forma, a família, escola, obrigações, religião etc. Esta é, por assim dizer, a “face psicopática”, “delinqüencial” ou toxicomaníaca da doença.
Este “excesso de atividades”, muitas vezes, pode fazer confundir a doença bipolar com o transtorno de hiperatividade. Isto é tão mais fácil na medida em que, hoje em dia, o início do transtorno bipolar está cada vez mais precoce. Como a família descreve que o adolescente era agitado desde pequeno, todos pensam que se trata de uma hiperatividade, quando, na verdade, o problema é da bipolaridade.
Outra manifestação muito comum, e desconhecida, da bipolaridade precoce é a depressão grave na infância. Eu mesmo já atendi crianças deprimidas com sete anos de idade, cuja evolução posterior mostrou-se bipolar. A negligência deste transtorno fica por conta de mães, professores e profissionais não-médicos que julgam que o problema, por se tratar de uma criança, é puramente condicionado por fatores psicológicos ou sociais.
Não só na adolescência, mas também na fase adulta, é muito comum a manifestação “psicopática”, alcóolica e toxicomaníaca da doença. São pessoas que, à primeira vista, não passam de “drogados, mimados, inconseqüentes”, sempre em busca de prazer intenso, muitas vezes um prazer exagerado, inconseqüente e até pervertido (por exemplo, é comum no adulto jovem com este tipo de problema a manifestação de ninfomania na mulher – desejo e entrega sexual exagerada – e de perversões hipersexuais no homem: bissexualidade, pedofilia, satirismo, poligamia etc.).
Outra face muito desconhecida da bipolaridade são os transtornos de ansiedade e depressivos. É muito comum o início ou a manifestação da doença apenas como uma fobia social (retraimento, isolamento, medo de multidão, de sair de casa etc.), como um transtorno de ansiedade generalizada (pessoa sempre “tensa”, “estressada”, “agitada”, preocupada em excesso) ou como transtorno de pânico. As depressões ligadas à bipolaridade são as mais perigosas, pois seu índice de impulsividade é muito grande, levando facilmente ao suicídio. O que é grave no depressivo bipolar é que ele tem oscilações muito rápidas de humor e nestas oscilações ele pode, repentina e desavisadamente, cometer um ato de suicídio. São aqueles casos onde todo mundo acha que a pessoa está bem, até alegre, e “ela vai ali para o canto e se mata”. São depressões silenciosas, das quais, ao contrário das “depressões neuróticas”, o paciente se queixa pouco, às vezes nem se diz deprimido. Por vezes, é uma depressão que se manifesta apenas na forma de uma irritabilidade aumentada, uma intolerância, agressividade e tendência à passagens-ao-ato impulsivas.
Outras vezes, são depressões que se manifestam de forma psicótica. Recentemente, atendi um adolescente que ficou três anos trancado em um quarto, debaixo de uma coberta, achando que seu rosto estava deformado, que seus pés eram grandes demais, que suas unhas eram horríveis (inclusive, passava o tempo todo arrancando e sangrando as unhas do pé). Este adolescente foi tratado muito tempo como esquizofrênico, mas na verdade se tratava de uma forma delirante da depressão bipolar.
Muitos adolescentes e adultos jovens também recebem o diagnóstico irremediável de esquizofrenia depois de um primeiro surto psicótico, surto este que, de fato, é muito parecido com uma esquizofrenia, confundindo mesmo psiquiatras muito experientes. São psicoses que se manifestam abruptamente, com perplexidade do paciente, atitudes de terror, medo intenso, “sustos”, delírios de perseguição, delírios de influência, alterações do pensamento, insônia, falta de apetite etc. O que é grave é que, muitas vezes, estes pacientes recebem medicação para esquizofrenia durante anos, acabando por lesar seu cérebro (quando se medica erradamente um bipolar – ou seja, como se ele fosse um esquizofrênico – há um risco aumentado de se causar lesão cerebral – denominada de discinesia tardia – em decorrência do tratamento equivocado).
Outra manifestação muito comum e desconhecida da bipolaridade é a querelância e a erotomania. Na primeira, o paciente se torna um “cri-cri”, pega no pé de alguém, denuncia, fica com “idéia fixa” em relação àquela pessoa, àquele fato, leva na Justiça, não deixa a pessoa em paz – é a isto que se chama, em psiquiatria, de “querelantes” (aqueles sempre em busca de “querelas”, brigas, desavenças continuadas no plano judicial, afetivo, político, econômico). São pessoas que têm uma energia enorme para gastar em pendências que os outros, os normais, simplesmente “deixam para lá”. Um tipo de “pendência” como esta é aquela que se manifesta no plano afetivo-sexual, pessoas que se “encasquetam” com a outra, ficam obcecadas, e ficam “atazanando”, assediando, propondo romances, coisas eróticas, casamentos, tudo isso porque botaram na cabeça que aquela pessoa lhes deu bola, que há “algo profundo entre eles”, que é coisa de “química”, de “outra encarnação”, que “aquela pessoa tem de ser dela e de mais ninguém” etc.
As obsessões na bipolaridade não se restringem a isto, de modo que a doença pode se manifestar até na forma de um transtorno obsessivo-compulsivo (ao contrário do transtorno obsessivo-compulsivo verdadeiro, cuja história é a de uma obsessão contínua, crônica, a evolução do bipolar “pseudo-obsessivo” é feita por fases, por melhoras e por pioras, por “épocas do ano”, além de outros sintomas comuns da bipolaridade, tais como a depressão e a exaltação que podem acompanhar a obsessão nesses casos).
A lista de manifestações “traiçoeiras” da bipolaridade é enorme e não caberia aqui (inclusive, a genialidade pode se dever, em alguns casos, a ela). Vamos terminar citando uma última: uma das mais dramáticas é a daquelas pessoas que chegam ao hospital tidas como “possuídas”, chegam como “caso de exorcismo”, chegam se dizendo o “diabo”, “a pomba-gira”, “exu”. Outros chegam dizendo-se possuídos por demônios de outro sexo, íncubos e súcubos. Uma de nossas pacientes, muito jovem, nessas fases dizia-se, além de possuída por vários demônios, também possuída pelo espírito do lesbianismo: dizia-se apaixonada por mulheres, com intenso desejo sexual por elas etc. Basta tratar-se a doença bipolar para que esses sintomas, que tinham aparecido depois de uma fase normal do desenvolvimento, desapareçam.

Marcelo Caixeta, da Universidade Federal de Goiás (UFG), é médico pós-graduado em
Psiquiatria pela USP e pela Universidade de Paris XI e é o atual diretor do Instituto de Psicologia Médica, onde também, como consultante em Psicologia Médica, exerce atividades clínicas e psicoterápicas (terapia familiar). Ex-professor de pós-graduação em Psicologia junto à UniCatGO.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Será que a Dilma tá "psiquiátrica" ?? Marcelo Caixeta


O jornal francês Le Monde diz que Dilma está "desorientada politica\economicamente". Para mim, como médico especialista, e pensando bem, a desorientação dela já parece roçar o âmbito do psiquiátrico. Falas emboladas, pensamentos desconexos, atitudes intempestivas, irritação, insociabilidade, isolamento, pragmatismo errático. Sendo ela uma "ânsio-obsessiva-hiperlaboral" é o tipo de personalidade\constituição muito sujeita à descarrilamentos psicopatológicos insones, ansiosos, depressivos. Nestas circunstâncias, o altíssimo estresse ( algo inerente à condição que o PT gerou no Brasil ) é nada mais do que "lenha na fogueira", ou seja, não há remédio que aguente. Consequência : incapacitação psiquiátrica para o cargo ? O Lula, com a "fria psicopatia" que o caracteriza( para alguns cargos isto é vantagem , por exemplo, para os políticos ), daria bem mais conta do recado...

sábado, agosto 29, 2015

"Como os Caps ( "Centros Psicológicos" do Governo ) estão sequelando milhares de pessoas pelo Brasil. Marcelo Caixeta

"Haldol com Fenergan trata qualquer doença em psiquiatria" - ou - [mostrando o que a mídia "não vê"]"
Recebemos em nosso hospital um rapaz de 19 anos, em tratamento neuroléptico para "esquizofrenia" desde os 8 anos de idade. Já está com sequelas motoras distônicas graves ( discinesia tardia ) por causa desta medicação , irreversíveis, quase impossibilidade de comer e de andar, daí estar emagrecendo, desidratando, desnutrindo, etc. Hoje, lesionado, há muito pouco a ser feito por ele. Enorme sofrimento e dor , para ele e sua mãe. Detalhes : nunca foi visto por psiquiatra, NÃO TEM ESQUIZOFRENIA ( tem uma síndrome de Asperger associada à bipolaridade, que, portanto, é outra doença, requer outro tipo de tratamento ). 95% dos Caps na região onde trabalho ( Goiás) não têm psiquiatras. Se este garoto tivesse sido diagnosticado e tratado corretamente, não teria estas lesões cerebrais produzidas pela medicação errada. Pois bem, é isto que o Governo vem fazendo : colocando clínicos gerais para atenderem em seus "Centros Psicológicos-Sociais", quando não cubanos para "repetir receita", depois de dizer que os hospitais psiquiátricos não-governamentais ( centros especializados neste tipo de medicina ) deveriam ser fechados e que toda a população deveria ser encaminhada para os Caps. De fato, os Caps estão cada vez mais lotados, mas de toda uma clientela silenciosa, dopada, mal-diagnosticada, consequentemente mal-tratada, que vem sequelando-se dia-a-dia. Como médico que faz perícias psiquiátricas de casos graves, vejo isto todo dia. São milhares de pacientes, aproximadamente 80% com diagnosticos\tratamentos errados, muitos deveriam estar hospitalizados para diagnosticos, exames, tratamentos intensivos. Mas estão esparramados pelos Caps do Brasil, sendo dopados ( não tratados ), sendo sequelados como este caso aí. O custo social, humano, previdenciário, sofrimento, dor, morte, são enormes e incomensuráveis, e não aparecem na mídia, não aparecem nas estatísticas. O Governo disse que "fechando os hospitais psiquiátricos" está "resolvendo o problema da assistência psiquiátrica do Brasil". Nada mais faz do que jogar toda uma enorme "sujeira humana" para debaixo do tapete. Em pseudo-psiquiatria é muito fácil engambelar. É como se ficássemos tratando , por anos, um tumor cerebral com doses cavalares de dipirona. Em pseudo-psiquiatria, há dois remédios que "resolvem qualquer coisa", "resolvem qualquer doença", seja qual for sua causa, seja qual for seu sintoma : haldol com fenergan. Isto "dopa" qualquer um, "trata" qualquer doença, "melhora qualquer sintoma", "acalma qualquer moléstia". Como o "problema agudo resolveu" todos os leigos e médicos semi-leigos acham que "o problema está resolvido", o diagnóstico e o tratamento é isto mesmo, "não melhora mais que isto". No entanto, é pura "brasa sob as cinzas". O paciente está "sedado", "dopado", "parou de dar trabalho", mas as sequelas estão lá, silenciosamente sendo produzidas.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra

sexta-feira, agosto 14, 2015

As drogas e o STF

Sou um puta bipolar, mas , para lidar com minha enorme ansiedade, ao invés de usar maconha, eu tomo remédio ou simplesmente rezo ( ou : eu sei que um juiz do Partido dos Trabalhadores \ STF , tipo Lewandowski, é poderosíssimo e ganha 60 mil por mês, mas isto lhe dá poderes médicos de diagnosticar e pontificar sobre dependência química ? )
Está em “debate”, mais uma vez, entre os juízes do Supremo Tribunal Federal ( STF ) , se uso de maconha é crime ou não. Ou seja, gente que não entende nada disto, com todo o poder de decidir sobre isto.
Um médico de Monte Azul - MG ganha 1.300 reais por mês para diagnosticar dependência de maconha. Um Juiz ganha uma média de 60.000 reais por mês para diagnosticar dependência de maconha. As diferenças não acabam só aí. Tais diferenças mostram duas coisas : 1/ o desprestígio da Medicina brasileira. 2/ o super-prestígio do Estado brasileiro. Como é que um juiz ( mesmo um "juiz competente do competente STF", como o Lewandowski ) consegue diferençar se quem porta maconha é um doente, dependente, psicótico esquizofreniforme por uso de maconha, ou apenas um "usuário portador"? O "poder" que ele tem o ensinou medicina ? No hospital do SUS onde eu trabalho, no momento, entre 8 pacientes sob meus cuidados, estou cuidando de cinco com psicoses graves induzidas por maconha ( todos ainda "defendendo" que "maconha não faz mal" ) . E estou ganhando do SUS 6 reais para cuidar deles por 24 horas, andando ou em coma, comendo ou com sonda, urinando ou cateterizado. E com todo o "prestígio" que o "título" de "médico do SUS que cuida de maconha" me dá.
Tal debate renitente na sociedade brasileira ( “vamos descriminalizar drogas” ) reflete o atual espírito dos tempos : “libertário e anti-autoritário”. Usuários de maconha, que se dizem recreativos e funcionais, assim como os alcoolistas e tabagistas, querem o “direito” de usar o que querem. Até aí é compreensível, cada um faz com seu corpo o que lhe aprouver. O problema é quando este “prazer do corpo” psicotiza, mata, acidenta, suicida, milhares de outras pessoas. Poucos concordam que armas de fogo deveriam ser liberadas e deixadas ao alcance de crianças. O que é um doente mental que não uma criança, em alguns aspectos ? Devemos transar com uma maníaca em surto de furor sexual ? Ou com uma criança com alteração hormonal gerando puberdade precoce ? Devemos deixar à disposição de doentes mentais, potencialmente suicidas, o livre-acesso à drogas desestabilizadoras ? Daí minha opinião ser ainda mais radical do que o momento atual : tudo que é potencialmente lesivo deveria ter divulgação e comercialização proibidas, aí inclusas as bebidas alcóolicas e cigarros. Usa quem quer, se a pessoa é “usuária recreativa”; mas então que então pague o ônus de contrabandear e usar clandestinamente aquilo que prejudica milhões.
Como saber quem vai ser “usuário recreativo” e quem vai se psicotizar ? Quem vai desenvolver uma encefalopatia alcoólica ou quem vai ter uma doença cerebrovascular de Buerger pelo uso de nicotina ? Vai ser o Juiz Lewandowski que vai saber disto ?
Evidentemente que um dependente, pego com maconha, não deve ir para a cadeia. Mas, caso um médico competente - e não um juiz - o julgue doente, dependente, psicótico, alucinótico, etc, não deveria ser “simplesmente solto em liberdade”. Deveria ser obrigado a tratar-se, pois mais cedo ou tarde o prejuízo a si ou a outrem ( geralmente mais a outrem do que a si ) será inevitável. Para se ter uma ideia, há 10 anos atrás, 20% dos meus pacientes psicóticos eram usuários de drogas; hoje chegam a quase 85% . O problema é epidêmico, mas, prá variar, quem entende do assunto, quem está lidando com o assunto, não é ouvido numa Sociedade onde o Estado ( e seus representantes, togados ou não ) é soberano.
Os “representantes deste Estado-esquerdista”, hoje, em sua maioria, acham “bonitinho” “jogar para a galera” , ou seja, darem ouvidos aos “revoltadinhos anti-autoridade”. Tais “anti-autoridade-maconheiros” geralmente utilizam-se da droga para ficarem “mais calmos”, extamente porque são portadores de uma ansiedade num contexto de transtorno bipolar. Transtorno este que os faz exatamente também mais querelantes, “idealistas”, “passionais”, “reivindicativos”, “orgulhosos”, “ativistas”, do que as pessoas normais. O ativismo “anti-autoridade” nada mais é, em muitos casos, do que um sintoma de um “ego orgulhoso”, um “ego hiperativo”, hiperpoderoso, voluntarioso, um ego superexpansivo exatamente porque é o “toque bipolar” quem lhe dá esta expansividade. Nada contra os bipolares, inclusive tenho orgulho de me perfilar entre eles. Só que, para aplacar minha ansiedade e minha querelância, eu rezo, ao invés de fumar maconha.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra.

quinta-feira, agosto 13, 2015

Dizem que o Brasil é fraco de ciência : mentira!! Marcelo Caixeta

Dizem que o Brasil é fraco de ciência : mentira!!
"Vejam abaixo, na reportagem da Isto É, uma constatação inovadora : conseguimos eliminar as doenças psiquiátricas no âmbito policial !! É muita coisa, gente !! .
A reportagem mostra que as "doenças psiquiátricas" foram eliminadas por nossos pesquisadores, psicólogos, sociólogos e jornalistas : agora os policiais padecem é de "problemas de saúde psicológica", "sofrimento psíquico", ( ansiedade, depressão, pensamentos suicidas,citados na reportagem, deixaram de ser problemas psiquiátricos ), padecem é de "sofrimento psicológico", e há , em execução "programas de assistência psicológica" para eles. As "ultrapassadas, estigmatizadas, autoritárias e de direita" DOENÇAS PSIQUIÁTRICAS deixaram de existir....
Eu, um "ultrapassado psiquiatra" é que estou desinformado. As dezenas de "hiperativos\bipolares-que-entraram-na-polícia-em-busca-de-aventura-e-depois-surtaram" não passam de alucinação de um "psiquiatrão" envelhecido."

sábado, agosto 08, 2015

Procure um psiquiatra que converse com o paciente

Marcelo Caixeta

"Marcelo, olha só o absurdo da Medicina de hoje. Atendi num posto de saúde o parente bipolar grave deste paciente aí abaixo, que recentemente, matou a namorada e suicidou-se ( tinha profissão que permitia porte de arma ). O laudo do médico, que se diz psiquiatra, fala que ele está bem da Psiquiatria, mas que , tudo segundo a família, teria de procurar psicóloga, para fazer psicoterapia ( está escrito mesmo no laudo ) . Poucos dias deste laudo dizendo que ele não tinha nada ele suicidou-se e matou a namorada".
Eu respondo : Caro colega, de fato é lamentável e mostra , ao meu ver, certo "descuido" com uma especialidade que muitos metem a mão, ou a fazem superficialmente e sem profundidade diagnóstica e psicopatológica porque não sai sangue, mas, como se vê, nem por isto deixa de matar ( não só a si, mas os outros ).
Mostra também grande incongruência do colega (será psiquiatra mesmo?) que diz que ele não tem nada do ponto de vista psiquiátrico mas o manda para psicóloga. Como é que é isto ? Existe alguma "doença psicológica" que não seja psiquiátrica ? Se um paciente psiquiátrico precisa de psicoterapia ele deixa de ser psiquiátrico? ( só porque não está tomando remédio )? É possível aprofundar na mente de um paciente sem iniciar ou fazer uma psicoterapia com ele ? É possível tratar de problemas psiquiátricos , só "superficialmente", isto é, separando o que é 'farmacológico" do que é "psicológico" ? ( coisa que nem os maiores gênios da humanidade conseguiram ? - vide, p.ex., Espinosa, Kant, Freud, etc ). Acho que isto que aconteceu mostra muito bem a minha tese : psiquiatra que não conversa muito e profundamente com seu paciente está sujeito à picaretagem ( e à morte ). Psiquiatra que não se aprofunda na psicopatologia do paciente, não conversa com ele, com a familia, com a namorada ( ou seja, em tese, fazendo psicoterapia ) , ao meu ver, corre o grande risco de caminhar para a picaretagem. É claro que este paciente tinha uma grave psicopatologia, talvez não identificada porque o médico, ao invés de aprofundar-se nele, resolveu delegar esta função para a psicóloga.... Portanto, o psiquiatra fazer psicoterapia, ao meu ver, não é apenas uma questão ética, moral, "mimimi" , "coisinha de mulher", mas sim uma premente necessidade TÉCNICA."

domingo, agosto 02, 2015

Após estimular o "feminismo" contra o masculino, governo esquerdista... Marcelo Caixeta

Após estimular o "feminismo" contra o "masculinismo", Governo esquerdista paga "pais de aluguel" para tentar resolver o problema que isto gerou nas famílias.
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Uma "Guerra de Gêneros" ? Escolas militares ( "masculinas") , hoje, no Brasil, são mais valorizadas do que as escolas normais ( "femininas").
Em Niterói a possibilidade de fechamento de uma escola militar para adolescentes causou “revolta popular”. Em Goiás, aparentemente, o Governo vem substituindo as “escolas pedagógicas normais” por cada vez mais escolas militares ; e por aí vai, no Brasil todo.
1) Causa ,de fato, estranheza que a pedagogia, a psicologia, a sociologia, a filosofia escolares, ciências reputadamente sérias, estejam todas sendo substituídas pelo militarismo. Seria um puro “retrocesso à direita” ?
2) O problema é que estas ciências estão todas muito contaminadas pela ideologia de esquerda atual : anti-força-da-autoridade, anti-homens ( anti-falo ), anti-disciplina, anti-regras, anti-religião, anti-ciência, anti-mérito-pessoal, anti-hierarquia, anti-técnica, etc. É importante ressaltar que quando aqui me refiro a “falo”, a “homens”, isto é uma metáfora psicológica, portanto se aplica tanto ao sexo masculino quanto ao feminino, não é uma questão gonádica, é uma questão de “atividade” ou “passividade e submissão” de espírito
3) A Humanidade moldou as políticas “anti-autoridades” na tentativa de controlar os “homens truculentos”. O problema é que “errou a mão”, exagerou. Isto é : não só controlou aqueles que pertubavam a ordem, a iniciativa e a evolução social com sua truculência e maldades ( isto , de fato é necessário ) mas também anulou toda a força da individualidade humana - o que é catastrófico .
4) Exagerou também ao “abolir todas as regras que asfixiam a liberdade do espírito” ( coisa de fato necessária ) porque o espírito precisa ser livre inclusive para aprender com as regras dos outros e colocar-se regras a si mesmo.
5) O esquerdismo, feminismo, anti-autoritarismo, anti-religiosismo, anti-cientificismo, etc, criaram um “ambiente de tanta liberdade” que ninguém mais respeita o outro. Ou seja, se antes era a autoridade excessiva que sufocava o espírito, agora é a liberdade excessiva que não o deixa viscejar. Não há mais clima para um adolescente estudar, em meio a dez que só querem curtir.
6) A criança, o adolescente, aqueles que ainda não têm experiência de vida, ainda não têm disciplina, precisam, sim, de uma “disciplina externa”, até que aprendam a decidir por si sós com propriedade. Um adolescente normal, por exemplo, odeia trabalhar, muitas vezes odeia estudar, até que “sejam forçados a isto” e aí aprendam todo o prazer de uma ocupação útil. Sem a disciplina , deixados à própria natureza, só querem “curtir”.
7) Os Governos tem alijado os homens de suas estruturas. Grande parte dos funcionários e políticas públicas são de mulheres ou então são de homens des-falicizados, aqueles “castrados”, enfraquecidos pelo doença, pelos chifres, pelo legalismo paralisante, pelo cansaço, pelo comodismo, oportunismo preguiçoso, ou simplesmente “velhacos” que utilizam deste “feminismo ideológico” como “massa-de-manobra” para atingirem seus objetivos ( são os “sedutores”, aqueles que, como Lula-cheio-de-lábia, ou como o “bonitão José Dirceu”, tentam abolir a “autoridade fálica” daqueles que iriam se contrapor à sua política de “chefes-de-harém”) .
8) Os homens, ( referência metafórica ao sexo, como já falei acima ) ,de modo geral, debandam do Serviço Público. Este não lhse oferece oportunidade para exercer seu falo, sua iniciativa fálica, sua criatividade, sua individualidade, sua evolutividade cognitiva, laboral, empresarial. Grande parte debanda ou se torna descompromissado, demissionário. Ficam no Serviço Público , por exemplo, apenas aqueles homens que recebem “melhor”, os do Judiciário, Ministério Público, alta cúpula Militar. É a cúpula militar que dirige as escolas, estão lá o tempo todo, militarmente obrigam os que recebem menos a lá ficarem tembám, são os “novos-pais-pagos-pelo-Estado” para dar aquela “disciplina masculina” que a Sociedade, dentro das “famílias-sem-pai”, dentro das “escolas-sem-homens”, raivosamente, retirou de si mesma. No militarismo o “homem-pai-cumpre-o-horário”, no resto do Governo, ele se torna “demissionário” num esquema de “bicos” ou passividade.
9) Então, nas “bases” dos Governos ( lugares onde não se recebe muito dinheiro ) , o único lugar onde se fica no emprego é no militarismo; estes são, então, recrutados para serem o “pai-pago-pelo-Estado”. Vemos então que, curiosamente, o “Estado-que-abole-o-pai” ( ou seja, que estimula as “políticas anti-autoridade” ) é o mesmo que agora cria o “pai-artificial”. Nas “escolas particulares”, faixa etária púbere-adolescente, ainda há a “disciplina-do-pai” , pois a maioria dos diretores/donos é de homens. Mas, estes, o Governo também tenta des-falicizar com sua política de “estatização da Educação”; por exemplo, com a criação de cursos técnicos públicos, universidades públicas, com o fim/redução do crédito educativo ( FIES e outros ), com a instituição de “cotas de alunos públicos” para as Universidades estatais, com taxas e mais taxas/impostos sobre os não-governamentais, valoriza só o que é público e ajuda a “quebrar” a Educação privada.
10) Mas, como já dizia o naturalista Darwin, mesmo que os Governos tentem “anular a vida”, anular oo indivíduo, sempre há o “efeito tiririca” : a grama rompendo o asfalto, a vida, a verdade, arrumando um jeito de contornar os obstáculos que os homens lhe contrapõem. Anulam o homem-falo dentro do Governo ( “políticas pedagógicas”, “políticas psicológicas”, “políticas de Direitos Humanos”, etc ) mas este “falo” ressurge em outro lugar, seja na forma da autoridade paterna-militar, seja no “direitismo da política”, seja na revolta do mérito e da individualidade contra o clientelismo passivo-coletivista.
11) Obs- antes que digam que “na minha escola não é assim”, “no meu Governo não é assim”, “eu não sou assim”, etc, cito o refrão de sempre : para todas as generalidades que eu falei acima há honrosas exceções.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra

terça-feira, julho 28, 2015

A pediatria no SUS. Marcelo Caixeta

"Gostaria de desabafar o que aconteceu comigo. Eu era pediatra-neonatologista-intensivista na UTI neonatal da Sta Casa de Y [ SUS] , e ganhava "X", fui reclamar para a diretoria, que estava baixo demais, e ao invés de tentarem aumentar, me demitiram, contrataram um médico não-pediatra, não-intensivista, não-neonato, com 3 anos e meio de formado, recebendo X/2. Resultado: me disseram que em aproximadamente um mês morreram quase 10 crianças, a média antes era de uns 4 óbitos...Como vc acha que vai-se resolver ( ou não ) esta situação no Brasil "?
Eu opino : Cara amiga, pessoas como você, que me parecem ser competentes, não tem muito espaço no SUS, onde a qualidade não conta e onde pode morrer 10 pessoas que 8 a terra encobre e 2 a papelada encobre. Os filantrópicos, ou Organizações Sociais [OS] ( a nova "moda" ) também não costumam pautar pela meritocracia ( "posso não gostar de você , mas você vale quanto produz, e pela qualidade do que produz" ). As OS também estão envoltas na "politicagem do SUS", assim como os filantrópicos, pois a "politicagem suja do SUS" contamina tudo. Filantrópicos também tem muito de "raiva de médicos" pois diretores geralmente não são médicos e até tem raiva de médicos que "aparecem mais que eles", "fazem o BEM mais que eles", "são mais caridosos e competentes na caridade do que eles", etc. Além do quê, sem um gerenciamento empresarial, profissional, tendem a ter muito de "compadrio", "nepotismo", "politicagem", "não-posso-demitir-fulano-porque-a-família-dele-contribui-com-a-Igreja", etc. Portanto, o único espaço que sobraria para voce seria fazer como eu que , mesmo sem dinheiro, montei meu próprio lugar de trabalho, ou então unir-se a uma instituição particular que valorize seu trabalho ( por causa da meritocracia e não porque "são seus amigos ou gostam de você"). Os particulares, no entanto, também , quando não ssão profissionais, padecem de problemas também , tipo "o diretor me demitiu para contratar a filha dele".... Enfim, problemas, mas acho que você teria mais chance de ser valorizada num serviço particular ( "profissional", "gerencial", "empresarial" ) do que em qualquer coisa ligada a SUS, pois nestes lugares não se importa muito com quem morre ( e com quantos morrem ).

sexta-feira, julho 24, 2015

A profissão impossível. Marcelo Ferreira Caixeta

A PROFISSÃO IMPOSSÍVEL : PORQUE, HOJE EM DIA NO BRASIL, É CADA VEZ MAIS PERIGOSO SER UM BOM MÉDICO.

Marcelo Ferreira Caixeta

A PROFISSÃO IMPOSSÍVEL : PORQUE, HOJE EM DIA NO BRASIL, É CADA VEZ MAIS PERIGOSO SER UM BOM MÉDICO.
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Há poucos dias, em Goiânia, uma paciente, 24 anos, dona-de-casa, mãe de dois filhos, morreu de uma doença disseminada, epidêmica, mas pouco conhecida, chamada “conluio do anonimato” . Esta doença foi descoberta pelo psiquiatra húngaro M. Balint, relatada em seu livro “O médico, seu paciente e a doença”. A paciente citada, com acidente vascular hemorrágico, ou seja, artéria sangrando dentro do cérebro, peregrinou por 10 hospitais de Goiânia, sem que nenhum tivesse assumido seu caso prá valer; médicos e hospitais se esconderam no “anonimato de uma rede complexa”, hospitalar, governamental, conveniada com o SUS, privada, dentro da qual “ninguém é dono do paciente”. Agora, após a morte, fala-se em “punir culpados”, mas, eu pergunto, “que culpados?”. Os dez hospitais ? As dezenas de médicos pelos quais ela passou ? Os gestores públicos, os governadores, a presidente, os prefeitos ? Nenhum deles, a culpa está estrategicamente diluída. Um dos motivos pelos quais os donos de hospitais particulares estão fechando seus estabelecimentos é este : não querem mais ficar na linha de frente, como pessoa física, como sujeitos a processos e indenizações. Querem, como as instâncias governamentais, como os “médicos de convênio”, como os “hospitais dos planos de saúde”, diluírem a culpa... e assim livrarem-se dela.
Nos convênios médicos é assim, vou citar exemplos concretos. Chega em nosso hospital psiquiátrico uma senhora com 83 anos de idade, quase morta de tanto remédio, de tantas condutas médicas, de tanta intoxicação e intervenções, procedimentos, etc. Dizem que ela tem diabetes, hipertensão, hipotiroidismo, parkinson, depressão, psicose, ileo paralítico ( “intestino que não funciona” ), epilepsia, AVC, excesso de ácido úrico, falta de vitamina B12, etc. Aí a gente interna a paciente e começa a investigar, vai tirando remédio para diabetes, vai tirando remédio para hipertensão, para tireoide, etc, etc, no final não sobra quase nada. Ou seja, a paciente estava sendo “morta” por tanto entulho de remédios e diagnósticos que ela estava recebendo por médicos “superficiais”, cada um “tratando” os efeitos colaterais que o outro “médico superficial” produziu. E nenhum coordenando nada, nenhum pensando o quadro dela como um todo. Diriam eles : “mas como você quer que a gente se debruce sobre um quadro complicado destes ganhando 40 reais por consulta ? ( é 70, mas retirando taxas, impostos, secretária, aluguel, consultório, condomínio, conselho de medicina, sindicato, combustível, telefone, etc, só sobra isto mesmo ) . Ou seja, a paciente é de todo mundo mas não é de ninguém, ninguém se responsabiliza por ela, ninguém, de fato, “sabe o que está acontecendo”. No SUS, nem precisa falar, é pior ainda. No mundo hospitalar, o mesmo problema se aplica. Aí, se aparece um médico, um hospital, que resolve “assumir” tudo, pegar no chifre do boi, são estes que irão levar chumbo da família, pois estes são “pessoa física”, são “pessoas-em-carne-e-osso”. Estes estão ali para o que der e vier e, como todos sabem, as maiores decepções a gente tem com quem a gente mais ajudou, com quem a gente mais deu amor. Quando estoura um problema, quando morre alguém, quando as sequelas advêm, aí os parentes, os pacientes, vêem em cima de quem está ali. Eles não vão em cima da “cadeia enorme de anonimato” que só “deu uma olhadinha, fez um examezinho, fez um diagnoticozinho, deu uma dicazinha, e passou por cima, lavou as mãos”. Você que está ali, “segurando o boi pelo chifre”, é que vai levar fumo... Vai levar as reclamações e os processos daquela família. O resto apenas faturou o seu e vazou, mas quem ficou é quem se lasca. Hospitais conveniados, médicos conveniados, sejam pelo SUS, sejam por convênios, sempre terão esta desculpa : “é problema do Governo, é problema do Convênio”, é o Governo que não deu condições, é o plano de saúde que não deu condições. Os próprios médicos, em sua maioria, preferem trabalhar nestas condições de anonimato, por isto os “clínicos de consultório”, os “clínicos de beira-de-leito”, estão desaparecendo, você não acha mais um médico que “cuide” de fato de seu parente, de você mesmo. Cada um só quer ser uma “parte da engrenagem”, justamente para, na hora do pepino, “ele não ter nada a ver com a aquilo”. No caso mesmo desta dona-de-casa que morreu com AVC, agora cada um dilui a sua culpa : “não tínhamos neurocirurgião”, “não tinhamos aparelhos de neuroradiologia intervencionista”, “não fomos notificados, ela chegou andando no hospital”, “enquanto ficou aqui, por uns poucos dias, poucas horas, não apresentou estes problemas”, “encaminhamos para fazer exames”, “encaminhamos para fazer cirurgia”, “o hospital X ou a central de regulação Y não autorizou o procedimento”, etc. Ou seja, é uma teia tão grande de “anonimato” que todos se protegem debaixo dela e passa a ser praticamente impossível julgar responsabilidades no meio de uma selva tão escura. “Bobo”, então, do médico e do hospital que, hoje em dia, resolverem “assumir” qualquer paciente, todo o peso da responsabilidade recairá sobre ele. Isto é outra coisa que sofro em nosso hospital; a gente tenta tratar o paciente do melhor modo possível, com toda individualidade, mas aí “os santos pagam pelos pecadores”, ontem mesmo uma paciente disse : “eu vou filmar o que vocês estão dizendo, vou filmar o que vocês estão fazendo comigo” ( isto porque ela queria dois colchões em sua cama, por causa de problemas de coluna ). É uma paciente com problemas muito graves e que, modestia a parte, nunca havia sido examinada e acompanhada com tanto denodo ( até 5 visitas médicas por dia, duas juntas médicas por dia ). Ela ficou num hospital onde, segundo ela, em 30 dias, fora “vista” apenas duas vezes, ou seja, uma vez a cada 15 dias. Nunca falou em “processar” esta clínica, agora, no nosso hospital, onde recebeu uma atenção que nunca havia recebido, quer “filmar, gravar e processar”. Quer fazer isto porque aqui o nosso hospital tem um nome, tem uma individualidade, tem uma “pessoa física”, ao passo que, nos locais onde ela passou, tanto ela era diluída enquanto pessoa física ( não passava de um número ) quanto os próprios serviços médico-hospitalares eram impessoais... De modo que, hoje, em medicina, quanto melhor você trabalha, ou tenta trabalhar, pior prá você.