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domingo, dezembro 26, 2021

DESENCANTO. Manuel Bandeira. 239

 

Manuel Bandeira

 

 

DESENCANTO


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

— Eu faço versos como quem morre.

De tanto fazer a corte no meu peito houve um corte sangra o meu coração por mote oh doce senda do amor!

TIM TIM. Charles Fonseca

TIM TIM

Charles Fonseca 

uma tarde em Humaitá 
uma noite em Amaralina
manhã radiosa menina
madrugada o luar

passeio no Shopping Barra 
de mãos dadas um caruru
depois a um céu azul
cerveja sem alcool uma farra

vale até um vinho tinto
uma picanha ao ponto
Pelourinho num encontro
mãos a brindar tim tim 

sábado, dezembro 25, 2021

CONHAQUE. Charles Fonseca

CONHAQUE

Charles Fonseca 

vejo faces sorriso largo
nas fotos não mais em paredes
agora expostas nas redes
creio que há risos amargos

mas estes estão nas penumbras
empoeirados nos sótãos
nos ermos sombrios
nos grotãos
nos tragos conhaque amargo

MOUCO. Charles Fonseca

MOUCO

Charles Fonseca 

era o despontar da existência 
botão de rosa primor
a filha na Beneficência
Portuguesa, meu amor 

até hoje oh Salvador 
faço em versos palavras 
da emoção me são marcas
por onde fluem o amor

e no entanto ainda é pouco
muito mais há de afeto
que guardo em meu ser discreto
por este ainda 'stou mouco

O VOVÔ. Charles Fonseca

O VOVÔ 

Charles Fonseca 

quero um presente de Natal
seja homem seja mulher
venha netinho teu avô quer
dar-te um abraço viva a mulher

que em si guarda tanto amor
consubstanciado em fruto
viva o homem pai por justo
vivam todos, já sou vovô 

AO LONGE OS BARCOS DE FLORES. Camilo Pessanha. 303

 

Camilo Pessanha

 


AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,
— Perdida voz que de entre as mais se exila,
— Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

sexta-feira, dezembro 24, 2021

CRIMES. Charles Fonseca

CRIMES

Charles Fonseca 

meninos vejo bem cuidados
tão amados desde sempre 
fico a cismar quão docemente
quero ensinar meus passos dados

aqueles por evitar
os que devem ocorrer
dos que fujam de morrer 
os passos que levem ao altar

os que vi serem sublimes
aqueles tão odiados
os que dei com meus amados 
os roubados de mim, crimes.


UIVO. Allen Ginsberg. 238

Allen Ginsberg Tradução: Cláudio Willer UIVO (trecho inicial) Para Carl Solomon Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, "hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos, que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra, que foram expulsos das universidades por serem loucos e publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas de papel, escutando o Terror através da parede, que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York, que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam terebentina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite, (...)

"Sou um taquígrafo de minha mente. Escrevo o que se passa nela, não o que me circunda.Sou um poeta". Allen Ginsberg

quinta-feira, dezembro 23, 2021

MARROM. Charles Fonseca

MARROM

Charles Fonseca 

eu e mais dois pastores 
olhando a imensidão 
a aragem do verão 
réveillon cheio de dores

eles nem aí em silêncio 
eu só com eles amigos
toca o celular me intrigo
quem seria neste sereno

dois mil e um réveillon 
era ela a minha amada
de Ilhéus eu dei risada 
feliz ano novo, sorri marrom.

A lua. Manuel Bandeira

A lua

Manuel Bandeira


A proa reta abre no oceano
Um tumulto de espumas pampas.
Delas nascer parece a esteira
Do luar sobre as águas mansas.

O mar jaz como um céu tombado
Ora é o céu que é um mar, onde a lua,
A só, silente louca emerge
Das ondas-nuvens toda nua.

A PRAÇA. Charles Fonseca

A PRAÇA 

Charles Fonseca 

o povo em paz na praça
correria alvoroço 
perdi namorada colosso
e a barbárie dos praças 

uma coronhada reaça
desce o povo o Lacerda
perdi a mulher na pressa
e eu a um canto da praça 

quarta-feira, dezembro 22, 2021

VELHO TEMA. Charles Fonseca

VELHO TEMA

Charles Fonseca


Sete anos sem notícia
Dada à mãe dado por morto
Dado ser um filho torto
Ás dum jogo dito víspora


Pai de um feito distante
Avô foi mas sem ter causa
Presente, longa a saga,
A espera dum instante


De rever a descendência
De remir a solidão
Dar aos netos sua bênção
Teve pai na inocência


Pôs-se então a ser poeta
De um drama tão comum
Onde dois esquecem um
Onde todos gemem, peça


De poema por proscênio
De amar à exaustão
Do mais querer só que então
Baixa o pano, velho tema!

APENAS. Charles Fonseca

APENAS 

Charles Fonseca 

Mulher, estavas doida 
ou era tua mãe doente 
décadas eu paciente 
do desafeto de ti louca 

e dela por decadente 
creio até bipolar 
eu no polo frio ao ar 
foi um golpe indecente 

agora dizes que pena 
não fosse tantas as mágoas 
ainda juntos até que dava 
surdo não cego fiz-me apenas

ARIEL. Sylvia Plath. 237

 

Sylvia Plath

 

ARIEL


Estase no escuro.
E um fluir azul sem substância
De rochedos e distâncias.

Leoa de Deus,
Como nos unimos,
Eixo de calcanhares e joelhos! — O sulco

Divide e passa, irmão do
Arco castanho
Do pescoço que não posso pegar,

Olhinegras
Bagas lançam escuros
Ganchos —

Goles de sangue negro e doce,
Sombras.
Algo mais

Me arrasta pelos ares —
Coxas, pêlos;
Escamas de meus calcanhares.

Godiva
Branca, me descasco —
Mãos mortas, asperezas mortas.

E agora
Espumo com o trigo, um brilho de mares.
O choro da criança

Dissolve-se no muro.
E eu
Sou a flecha,

Orvalho que voa
Suicida, e de uma vez avança
Contra o olho

Vermelho, caldeirão da manhã.

terça-feira, dezembro 21, 2021

CIDADE. Donizete Galvão. 302

 

Donizete Galvão

 

 


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 De Azul Navalha (1988)  
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CIDADE

ó blues de cruciais impossibilidades
           dores de amores inexistentes
rosas amarelas mortas no apartamento
           beijos e saliva nas tardes desérticas

ó visão depressiva do asfalto molhado
           prédios encardidos & a horda dos bárbaros
arquitetura de guerra de dias provisórios
           espelho poluído da cidade da chuva

ó mundo artificial com sua natureza de néon
           espetáculo de vitrines e exibições
nada de eterno palpita no seu coração
           tudo já nasce velho para ser refeito amanhã

domingo, dezembro 19, 2021

PESARES. Charles Fonseca

PESARES

Charles Fonseca 


de mim não espere um olhar terno
tampouco que seja odioso 
um pouquinho amoroso
como qualquer um merece

foi demais a minha espera
a esperança se esvaiu
ao desalento sucumbiu 
o meu coração em pedra

se e quando voltares
se ainda aqui estiver
foi demais pra mim, mulher
a ti não te espero, pesares.