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terça-feira, setembro 10, 2019

sexta-feira, agosto 22, 2014

Separação... Mônica Klein. Prosa

Separação...
Mônica Klein

A dor de uma separação é, na verdade, um conjunto de dores...é a dor do fracasso por ter investido tanto sentimento, tempo e esperança em uma relação que chegou ao fim. É a dor de ter que se desfazer de tantos planos e sonhos imaginados juntos e ter que aceitar que agora cada um vai para um lado...é a dor do desapego, ou da tentativa do desapego, afinal, não se deixa de amar de uma hora pra outra. É a dor de saber que, apesar de não ter mais que lidar com os defeitos do outro, que tanto machucavam, também não haverá mais aqueles momentos que tornavam tudo especial. É a dor da ausência, ausência de tudo, do corpo e do espírito, das risadas, dos xingamentos, das piadas particulares, dos significados de olhares que só vocês entendiam... é a dor da lembrança, que permanece em todos os cantos que vocês já passaram, em todos os restaurantes em que vocês já jantaram, em todas as musicas que vocês já cantaram ou escutaram juntos...

O que mais dói na separação é aquela sensação de impotência, de vazio, de desgaste emocional... é como se um imenso aspirador tivesse sugado toda a sua alma e não houvesse mais energia pra continuar. É uma sensação de culpa que fica, e que por mais que a gente racionalmente acredite que fez o que pôde, sempre vai nos cutucar com um “e se?”, porque no fundo acreditamos que não existe um único culpado na história. É a dor da preocupação com o outro... de querer saber como ele está passando sem você, e ao mesmo tempo a dor da vaidade, do medo de descobrir que ele está melhor do que você imagina. É a dor da contradição, de querer que o tempo apague tudo o mais rápido possível, de querer se afastar de tudo de uma vez, mas ficar checando a caixa de e-mail, o MSN, o celular a cada minuto, esperando um sinal, a menor desculpa pra dar uma segunda chance.

Às vezes,no entanto, a separação é necessária, porque por mais dolorosa que seja, pode ser ainda menos dolorosa que a decisão de continuar. Às vezes, é preciso ouvir um pouco menos o coração e colocar tudo numa balança. Tudo mesmo. Se possível, fazer um gráfico, medindo o seu grau de felicidade, satisfação, desde o início do relacionamento. Se a balança pesar mais pro lado negativo ou se o gráfico for nitidamente descendente, algo está obviamente errado. A menos que você seja um daqueles que acreditam que o amor é sofrimento, não se conforme com menos do que merece. Procure ver se o problema é algo passageiro, ou se é questão de formas diferentes de ver o mundo, objetivos de vida muito distintos, valores e princípios incompatíveis etc. Não caia na conversa de que opostos se atraem. Isso não é regra. É preciso uma liga entre os dois, algo que nutra admiração e que sirva como base sólida para construir algo juntos... e acredite, por melhor que seja o sexo, isso nunca vai sustentar nenhum romance por muito tempo.

Não caia no erro de apoiar sua felicidade no futuro próximo, na idéia de que as coisas irão mudar e de que as transformações irão acontecer mais cedo ou mais tarde. Ou você se conforma com a idéia de que talvez ele nunca pare de fumar, de que seu temperamento difícil faz parte de sua personalidade e de que sua mania de organização não é um T.O.C e sim motivo de orgulho pra ele, ou você vai ficar sempre adiando sua felicidade, se sentindo frustrada e decepcionada com o agora. É um grande engano ficar idealizando um futuro perfeito para os dois, se o próprio presente não está agradando. É mais fácil que as coisas piorem que o contrário. Pelo menos o melhor é acreditar nisso, pois assim o que vier de melhora é lucro. Acreditar que o outro tem que mudar pra você ser feliz, além de ser burrice é egoísta, pois parte do pressuposto de que você não aceita a pessoa como ela é.

Amar significa, antes de tudo, estar bem. O amor tem que representar tranqüilidade e ser um porto seguro. A paixão é adrenalina, é aquele frio na barriga antes de se encontrar, é o medo de não ser tão boa, tão gostosa ou tão inteligente a ponto de ele te querer... é a insegurança, medo, a sensação de que tudo depende de você e de que você está sendo testada o tempo todo. É colocar o outro no centro das atenções, é atribuir ao outro a própria felicidade, é ser exagerada, incontida, impulsiva. Isso é maravilhoso, mas cá pra nós, ninguém consegue viver nessa montanha russa o tempo todo, nessa rotina frenética e intensa...daí vem o Amor, que é um suspiro de alívio, uma sensação de paz que traz consigo uma certa dose de maturidade, cumplicidade... é o Amor que te dá segurança emocional, que faz você perceber que ele estará ao seu lado, ainda que você acorde mal humorada, fique doente ou use pijamas de flanela. É o Amor que faz você se sentir compreendida e que te dá suporte, caso todo o resto esteja indo mal. É o Amor que te dá amparo pra enfrentar qualquer coisa, qualquer problema. Amar alguém e ser amado é isso. É confiar no outro e ser correspondida. É não se sentir sozinha. É saber que sua felicidade é prioridade pra ele e vice-versa.

Se o amor não for capaz de te dar isso, então não vale a pena continuar. Se além de todas as preocupações que temos no dia-a-dia, o relacionamento for mais uma constante preocupação e mais um motivo de estresse, então o Amor perde o seu sentido, a sua razão de ser. Não adianta continuar por medo de ficar sozinha. A solidão independe de estar ou não com alguém. Não viva acumulando mágoas, guardando ressentimentos, trocando ofensas... isso não é bom pra nenhum dos dois. E não pense que você deve bancar a Madre Teresa de Calcutá pra ser altruísta nessas horas. Se vc ama, então merece ser amada. Se não está sendo correspondida, seja corajosa e saia desse relacionamento. Talvez o problema não seja necessariamente ele ou você, em particular. Talvez vocês simplesmente não combinem. Talvez uma amizade seja a melhor saída. Só não saia acreditando que ele é o ultimo biscoito do pacote. Simples assim... bom, talvez nem tanto... Dói? Dói. Você vai chorar, vai ficar arrasada, vai achar que talvez nunca mais encontre alguém mais interessante e blá blá blás...mas no final das contas, o que sobrevive pra contar a história é a experiência, a sabedoria e a certeza de que nem mesmo os poetas morrem literalmente de amor.



Mônica M. Klein

domingo, janeiro 12, 2014

O Poder dos Quietos. Mônica Klein. Prosa

O Poder dos Quietos
Mônica Klein

Uma cachaça. Não, duas cachaças. Não, duas cachaças, um Rivotril ou qualquer outra substância psicotrópica que seja capaz de me deixar em um estado de torpor por todo o tempo necessário e imprevisível de uma apresentação em público. Necessário, pois a sociedade acadêmica exige este ritual de passagem, de finalização. Imprevisível, pois nada sai como planejado e o que resta sempre é a sensação de frustração e a impotência de não poder voltar atrás e passar uma borracha em cada gaguejo, em cada “né?” pronunciado milhões de vezes após o final de cada frase, em cada branco e em cada construção de raciocínio que chocaria e faria estremecer qualquer estudante de retórica.

Meu medo de falar em público vem do meu amor por aquilo que foge do que pode ser dito, por aquilo que se perde irreversivelmente até na fala mais articulada. Eu amo me perder no mundo imaterial apresentado pelos livros, e por isso ler sempre foi o meu forte, ao contrário de falar. Pelos livros posso dialogar com meus personagens telepaticamente, em diversos idiomas, em todos os lugares do mundo (e fora dele) sem correr o risco de não ser compreendida ou de não achar o caminho de volta. No mundo dos livros, me dou ao luxo de absorver cada experiência e cada mensagem sinestesicamente, pelo cheiro, pelo paladar, pelo tato, pela música que envolve cada cenário meticulosamente criado pela minha mente criativa e displicentemente alheia às proporções matemáticas e leis humanas que regem o mundo físico.

Através dos livros, posso acessar o que existe de mais iluminado e mais tenebroso em mim mesma, posso enfrentar as mais difíceis situações, sofrer as dores mais incapacitantes, amar da forma mais apaixonada, me colocar em apuros, viajar para os recônditos mais inóspitos do planeta e até morrer de morte morrida ou de morte matada, para depois retornar ilesa fisicamente, mas completamente transformada. No momento em que leio, o livro não é mais do autor, é meu. Eu detenho todo o direito sobre suas palavras, sobre as interpretações, sobre o raciocínio. Ninguém mais tem acesso ao meu livro, porque ninguém tem acesso às minhas ideias. Eu e o livro somos um todo, ele e eu somos completos.

E por isso tenho medo de falar em público. Porque ler sempre foi o meu forte e eu sempre preferi ler a falar. Com isso, não desenvolvi a incrível habilidade de transpor um conjunto de ideias vagantes e livres na minha cabeça para um encadeamento sistemático e minimamente inteligível para o ouvinte. O falar me exige um esforço sobre-humano, me estressa. É como ser jogada aos leões em uma arena, sem exageros. Sinto-me vulnerável, insegura, exposta e analisada por um público impiedoso, sem enxergar nenhuma saída. Sinto-me pressionada a me encaixar em cada expectativa lançada sobre mim naquele momento. Sinto-me injustamente julgada e mal representada por mim mesma, reduzida a tudo aquilo que foi dito e rejeitada por tudo o que ainda tinha por dizer (e não disse).

Invejo aqueles que já nascem loquazes, que irrompem do ventre com tal habilidade de oratória que chegam a arrancar exclamações de entusiasmo e admiração da própria equipe médica. Invejo aqueles que anseiam por expor suas ideias ao mundo material tão logo elas surgem, seja por instinto ou mesmo por pura ingenuidade. Invejo-os porque é deles este mundo. O mundo é dos que se expõem, dos que se sobressaem pela voz, dos que lideram multidões, dos que estabelecem o maior número de contatos, dos que expandem infinitamente seu network. É o mundo dos espaços lotados, dos holofotes, dos aplausos, das gargalhadas, dos múltiplos estímulos. O mundo de fora, o mundo visível, o mundo audível, o mundo palpável.

Meu mundo é dos quietos, da imersão em si mesmo. É um mundo que cabe numa tenda de lençol improvisada entre dois móveis e que passa despercebida pelos olhares mais apressados, pela contagem onipresente do relógio. Meu mundo tem o tempo como amigo e não está sujeito à implacável perfeição do mundo real. Minhas palavras boiam na minha cabeça e esperam o momento certo para serem convidadas a sair, se quiserem sair e se forem necessárias. Mas é justamente aí que encontro o meu poder. Porque ao mesmo tempo em que invejo aqueles que sempre têm algo a dizer, aqueles que sempre anseiam por falar, eu me sinto privilegiada por buscar apenas em mim aquilo o que eu sou, me bastando como locutora, ouvinte e meio da minha própria mensagem.

O que eu economizo com as palavras eu libero em pensamentos. E por isso, a minha fala não me define, não me prende e também não magoa (tanto). O meu pensamento, no entanto, corre solto, desenvolto, para frente e para trás, de trás para frente e até de cabeça pra baixo. Volto no pensamento tal como nunca poderia voltar com as palavras proferidas. Xingo, grito, ameaço, manipulo, filosofo, perdoo e amo todos, tudo em pensamento, sem perda de sentido ou significado. Tudo o que eu leio e tudo o que eu observo ao meu redor permanece em mim e transborda de emoções em seu estado mais puro e mais forte, sem filtros sociais, sem pudores, sem regras, sem controle. É meu mundo, um mundo à parte, ao qual só eu tenho acesso. E sua riqueza é tamanha, e tamanha é sua complexidade que, nunca, nem em 40 minutos nem em uma vida inteira este mundo poderia ser reduzido ou minimamente representado em uma sequencia lógica, ordenada, e previamente orquestrada de palavras.


21-10-2013

sexta-feira, novembro 16, 2012

A viagem. Mônica Klein.

A viagem
Mônica Klein

Quem é que está aqui, neste corpo presente?
É tanta carne, tanto osso, tanta pele...
Não há espaço para nada, por mais que se apele
Não há espaço para nada, neste corpo presente.

Falta tato, falta oco, falta o tudo
Que lá fora tudo envolve e me reclama
Qual a graça de caber no próprio drama
Se no fim o corpo todo fica mudo?