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terça-feira, fevereiro 11, 2020

terça-feira, julho 03, 2018

Pau de Dois Bicos – Fábula de Monteiro Lobato

Pau de Dois Bicos – Fábula de Monteiro Lobato

Um morcego estonteado pousou certa vez no ninho da coruja, e ali ficaria de dentro se a coruja ao regressar não investisse contra ele.

– Miserável bicho! Pois te atreves a entrar em minha casa, sabendo que odeio a família dos ratos?

– Achas então que sou rato? Não tenho asas e não vôo como tu? Rato, eu? Essa é boa!…

A coruja não sabia discutir e, vencida de tais razões, poupou-lhe a pele.

Dias depois, o finório morcego planta-se no casebre do gato-do-mato. O gato entra, dá com ele e chia de cólera.

– Miserável bicho! Pois te atreves a entrar em minha toca, sabendo que detesto as aves?

– E quem te disse que sou ave? – retruca o cínico – sou muito bom bicho de pêlo, como tu, não vês?

– Mas voas!…

– Vôo de mentira, por fingimento…

– Mas tem asas!

– Asas? Que tolice! O que faz a asa são as penas e quem já viu penas em morcego? Sou animal de pêlo, dos legítimos, e inimigo das aves como tu. Ave, eu? É boa…

O gato embasbacou, e o morcego conseguiu retirar-se dali são e salvo.

Moral da Estória:
O segredo de certos homens está nesta política do morcego. É vermelho? Tome vermelho. É branco? Viva o branco!

sábado, maio 09, 2015

Fábula. Monteiro Lobato.

— Que história é essa de gato “fazendo sonetos à Lua?” – interpelou a menina. A senhora está
ficando muito “literária”, vovó...
Dona Benta riu-se.
— Sim, minha filha. Apesar do meu desamor pela “literatura”, às vezes faço alguma. Isso aí é
uma “imagem literária”. A Lua é um astro poético, e quando um gatinho anda miando pelo
telhado, um poeta pode dizer que ele está fazendo sonetos à Lua. É uma bobagenzinha poética.
— “Desamor pela literatura”, vovó? Estranhou Pedrinho. Então a senhora desama a literatura?
Dona Benta suspirou.
— Meu filho, há duas espécies de literatura, uma entre aspas e outra sem aspas. Eu gosto desta
e detesto aquela. A literatura sem aspas é a dos grandes livros; e a com aspas é a dos livros que
não valem nada. Se eu digo: “Estava uma linda manhã de céu azul”, estou fazendo literatura sem
aspas, da boa. Mas se eu digo: “Estava uma gloriosa manhã de céu americanamente azul”, eu
faço “literatura” da espada – da que merece pau.
— Compreendo, vovó – disse a menina – e sei dum exemplo ainda melhor. No dia dos anos da
Candoca o jornal da vila trouxe uma notícia assim: “Colhe hoje mais uma violeta no jardim da
sua preciosa existência a gentil Senhorita Candoca de Moura, ebúrneo ornamento da sociedade
itaoquense”. Isto me parece literatura com dez aspas.
— E é, minha filha. É da que pede pau... 1882


domingo, abril 12, 2015

A assembléia dos ratos. Monteiro Lobato. Prosa

A assembléia dos ratos
Monteiro Lobato

Um gato de nome Faro-Fino deu de fazer tal destroço na rataria duma casavelha que os
sobreviventes, sem ânimo de sair das tocas, estavam a ponto de morrer de fome.
Tornando-se muito sério o caso, resolveram reunir-se em assembléia para o estudo da
questão. Aguardaram para isso certa noite em que Faro-Fino andava aos miados pelo telhado,
fazendo sonetos à Lua.
— Acho – disse um deles – que o meio de nos defendermos de Faro-Fino é lhe atarmos um
guizo ao pescoço. Assim que ele se aproxime, o guizo o denuncia, e pomo-nos ao fresco a
tempo.
Palmas e bravos saudaram a luminosa idéia. O projeto foi aprovado como delírio. Só votou
contra um rato casmurro, que pediu a palavra e disse:
— Está tudo muito direito. Mas quem vai amarrar o guizo no pescoço de Faro-Fino?
Silêncio geral. Um desculpou-se por não saber dar nó. Outro, porque não era tolo. Todos,
porque não tinham coragem. E a assembléia dissolveu-se no meio de geral consternação.

Dizer é fácil; fazer é que são elas!

quinta-feira, setembro 18, 2014

Fábulas. Monteiro Lobato. Prosa

As fábulas constituem um alimento espiritual correspondente ao leite na primeira infância. Por intermédio delas a moral, que não é outra coisa mais que a própria sabedoria da vida acumulada na consciência da humanidade, penetra na alma infante, conduzida pela loquacidade inventiva da imaginação. Esta boa fada mobiliza a natureza, dá fala aos animais, às árvores, às águas e tece com esses elementos pequeninas tragédias donde ressurte a ‘moralidade’, isto é, a lição da vida. O maravilhoso é o açúcar que disfarça o medicamento amargo e torna agradável a sua ingestão."
- Monteiro Lobato, em Fábulas, 1918.