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quinta-feira, março 26, 2020

ELEVADORES. Ronaldo Costa Fernandes

ELEVADORES
Ronaldo Costa Fernandes

É um estômago de ferro
que devora e vomita
todos na barriga da baleia
em sua viagem vertical.

Em que andar descerei
quando chegar a minha hora?
No térreo das poucas ideias?
Na planta baixa
da arquitetura do marasmo?

Ou arranharei os céus
com a hipótese das ascensões?

segunda-feira, setembro 02, 2019

ESPIRAL DOS CAMINHOS. Ronaldo Costa Fernandes. Poesia.

ESPIRAL DOS CAMINHOS
Ronaldo Costa Fernandes

Haveria um santo dos caminhos
que fizesse reto o que Deus gosta de entortar.
Deus deveria ter um caderno
de caligrafia para melhorar a letra.
Os caminhos que são linhas tortas
corrompem a emoção.
O peso dos outros é sempre
desigual, inumano e cheira a culpa.
Os caminhos emanam cheiro de futuro.
O ódio, o amor, o riso.
Tudo tem seu cheiro e sua medida.
Um metro de ódio,
uma dose de amor,
uma talagada de riso.
Aqui estão os caminhos espiralados,
os caminhos sem chão,
as retas que não levam à lucidez.

segunda-feira, julho 01, 2019

DEDOS. Ronaldo Costa Fernandes. Poesia.

DEDOS
Ronaldo Costa Fernandes

Meus dedos têm desertos.
Há areia fina na minha vontade.
Meus dedos são hipótese
como gaiola vazia.
Não têm tato,
só conhecem o tagarelar dos acenos.

Meus dedos demoram a pensar.
Têm memória curta.
Têm a surpresa do estalo,
mas não regulam bem,
cada qual em seu drama:
a polegada de vida medida,
o fura-bolo do desatino,
o maior-de-todos os descompassos,
seu-vizinho do medo de viver
e a vida mindinha que se leva.


Ronaldo Costa Fernandes




segunda-feira, dezembro 17, 2018

O TEMPO. Ronaldo Costa Fernandes. Poesia.

O TEMPO
Ronaldo Costa Fernandes

O tempo e sua matéria
a máquina dos meus humores
tão rica e mineral
enquanto lá for
a sonata dos desatinos
orquestra o boi que se estende no varal.

O tempo e sua miséria,
deus negro que não encontra o sono.

O tempo e sua morfologia
feita de nada e de tudo
como alguém que anda
com os calcanhares para a frente.

O tempo e sua bílis negra,
atrabiliário e perverso,
monstro do Loch Ness,
ó profundeza feita de vazio.

O tempo e sua caixa de música
o lugar dos sons prisioneiro,
o que se escuta é o silêncio das horas
lambendo o ar rarefeito.

O tempo — animal que não envelhece,
nós é que passamos por ele
como alguém que acena de um ônibus
para a imobilidade saudosa
de um bar à beira da estrada.