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sábado, dezembro 02, 2023

O ROLÉ

Hoje dei um rolé pelo Shopping e fiquei preocupado. Não vi um só conhecido. Tenho quase 79. Ou morreram ou traíram o Shopping que os alegrava. Ou estão cansados ou sem poder andar. Que será que houve?

sábado, agosto 05, 2023

AS MEMÓRIAS. Charles Fonseca

Chegou a maturidade teus filhos já adultos teus pais já não estão nem ossos talvez cinzas resta ainda a memória a saudade. Que tal só a só vontade da volta do fazer de novo o que deve o tem que ser feito agora de outro jeito escrito da só memória?

segunda-feira, julho 31, 2023

ERA ASSIM EM IBICUÍ. Charles Fonseca

 

Ela era agente postal telegráfica. Não existia radio-amador. Comunicação à distância só por carta ou telegrama. O antigo e-mail. As cartas devidamente seladas a goma arábica. Alguns molhavam o selo na língua e o colavam no envelope. Se era de grande responsabilidade registravam a mesma e lhes era dado recibo de protocolo. Maior responsabilidade ainda pagavam mais e a carta no seu verso era derramado lacre quente e sobre este era aposto o carimbo do correio datado. Já os telegramas aos sete anos de idade minha mãe, a agente, me deu o encargo de transmiti-los para a agência dos correios do povoado de destino. O telefone era aquele de parede e manivela como nos filmes do velho oeste americano. Uma manivelada, chamava Iguaí. Duas Nova Canaã. Três Poções. E assim eu sabia das notícias urgentes. E quando recebia de volta a resposta ia levá-las ao destinatário. Geralmente me davam 500 réis. Os mais abastados 1.000 réis. Era assim em Ibicuí.

sábado, julho 29, 2023

O MAL DE POTT. Charles Fonseca

Ela parecia ter oito. Das costas a coluna vertebral drenava secreção purulenta há muitos anos. Minha mãe me ensinou "é o mal de Pott". Arranjou um ortopedista que gratuitamente a curou. Mas também tinha lábio lepirino. Anos depois eu já estudante de medicina me pediu que arranjasse um cirurgião plástico que a operasse. Mandou a menina de Jequié a Salvador com esse fim. Fui buscá-la num beco da Baixa dos Sapateiros em Salvador onde morava minha tia que me abrigara quando fui morar com ela. Em troca uma filha foi morar em Jequié. Despesa contra despesa. Um a um. Voltemos à menina já bem crescida. Operada no Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia, ficou quase bonita. E muito feliz.

sexta-feira, julho 28, 2023

ATAIDE. Charles Fonseca

 

Sabia que era hora de partir. Que indo não haveria mais volta. Dizia com a mão ao peito estou preparado. Nenhum sinal de tristeza. Nenhuma melancolia. A paz era o que infundia. E a doença batendo à porta. Assim se foi em paz. A paz foi sua grande marca registrada. A fé de ser salvo. De que para si tinha uma morada eterna. Das muitas moradas uma era a sua. Cada qual por si. Por estes orava. Beira os noventa e cinco. Já não falava. Já não via. A todos ouvia. Fim da jornada. Se foi Ataide.

AS COISAS. Charles Fonseca

 

Tenho memória de eventos que prefiro que os esqueça. Mas eles não me esquecem. São fantasmas que adquiriram vida própria e me entristecem. Aí eu escrevo. E faço minha catarse literária. Aí simbolizo. Os prendo ao um fio condutor e os deslizo. Os transformo. Faço de mim um escritor. Um memorialista. Transformo o imaterial incômodo em coisas. Em letras.

quinta-feira, julho 27, 2023

AS OPÇÕES. Charles Fonseca

Diminuir ou aumentar a chama de amores simultâneos e distintos cada qual em seu tempo e lugar. Há que fazer opções dolorosas. Melhor conversar claro com os atores do drama. E assumir os efeitos.

quarta-feira, julho 26, 2023

A FILHA DO DELEGADO. Charles Fonseca

 

Em 1969 morei em Camaçari por seis meses. Eram muitas as chácaras. Aluguei uma casa e a mobiliei. A filha do delegado vinha ao por do sol conversar comigo à janela. O prefeito deu um passeio comigo pela estrada de barro da via Parafuso. Tensiômetro e estetoscópio de braço em braço de peito em peito. E a miséria. A outra filha do delegado de vez em quando me lavava os pratos. Era dada a essas gentilezas. A cinco quilômetros o futuro Polo petroquímico onde comecei a trabalhar. Com a filha de minha recepcionista na cidade fiz uma venturosa viagem a Salvador. Hospedou-se conosco na casa de meu pai que me flagrou pegando onde não devia. Fiquei acanhadíssimo. Como até hoje. Como preposição.

terça-feira, julho 25, 2023

A ESTATÍSTICA E O MEU HUMOR. Charles Fonseca

 

O YouTube me pregou uma peça. Como faço diariamente postei uma frase poética de algum poeta mais sensível ao belo. Foi de manhã por volta das onze horas. E a receptividade do público em míseros quatro curtidores. Até que por volta das dezoito horas, de quatro pulou para seiscentos e noventa e cinco visualizadores a me tirarem do triste. Fico feliz com a fama dos outros que divulguei. Sem monetização ainda meu humilde canal. Mas pudera, a concorrência é brutal. E os temas dos outros atraem a massa para outras demandas. Amanhã tem mais. Uma postagem por dia. Citando algum gênio empoeirado.

domingo, julho 23, 2023

O MEU AMOR POR CAIRU. Antonio Isaias Ribeiro

Amigo poeta Charles Fonseca A imagem que acaba de postar me alcança num entrelaçar de fé, de referências comunitárias, históricas e culturais. Está à sombra da Matriz do Rosário e o braço de mar ali adiante compondo a cortina de manguezais da contra costa de Tinharé é imagem que arrebata e encanta. Para os cairuenses de todas as épocas é paisagem simbólica, fundante da sua identidade, é imagem que marcou, reflete e eterniza momentos. Momentos históricos e festivos, ricos de simbolismo, momentos que vêm de longe, como o que aguarda em silêncio o final da última Novena do Rosário, para a “explosão” sonora de enxadas, tambores, cuícas, búzios, (o que mais?) em ensaio geral dos zambiapungas (ou caretas?) que logo mais anunciarão o Domingo do Rosário; momentos musicais de cantos e encantos de músicos e ativistas culturais, gente criativa e consagrada como Armandinho e Gerônimo, Nelson Rufino e Carla Visi.

Momentos, em particular da história comunitária, familiar, pessoal e afetiva. Para visitantes é paisagem que vai seguir arrebatando e encantando; para o poeta e filósofo Eduardo Gianetti “é a beleza que acaricia o olhar”; para o poeta Almiro Sousa, que seja inspiração, para este que rascunha estas notas é berço, é vida marcada, bem marcada do seu lugar; é esticada de tardes juvenis, embalando os primeiros romances e sonhos. Momentos ainda do amor de gerações cairuenses!

sábado, julho 22, 2023

NÃO LEIA ESTA HISTÓRIA. Charles Fonseca

 

Não leia esta história se és jovem, tem pais já idosos, ou parentes beirando os oitenta. Se a leres será por teimosia. Minha mulher está a poucos dias de não beijar abraçar cheirar ouvir ou ver filha única. E neta única. E eu não sei o que fazer. É da vida. Volto com ela deixando o organizado Canadá para o bagunçado Brasil. Que amo como a melhor pátria para se viver. É atávico. Estou beirando os setenta e nove. Se fosse para se afastar forçado de filhos com vinte ou vinte e dois anos vá lá. Melhor nem pensar. Filhos não têm idade. Sempre nossas crianças. O coração aperta, a insônia bate, viras poeta. E a saudade.

quarta-feira, julho 19, 2023

VIAGENS FAMILIARES. Charles Fonseca

Não mais que trinta dias. E de preferência um pra ir cinco pra ficar e um pra voltar. Trinta só se for pra rever parentes ou amigos em dias separados com intervalos de dois a três dias. Pra dar tempo de descansar das emoções advindas esperadas e as de surpresa. Ou então pra ver filhos disponíveis. Netos se possível de modo mais amiudado sem atrapalhar a rotina da nova família. 

E voltar pra casa. As rotinas de há muito. As conversas, os olhares, os silêncios.

CINZAS. Charles Fonseca

 

Atualmente o que compartilho no meu Blog, Facebook, WhatsApp e YouTube é visto ou ouvido por cerca de 1.250 pessoas. Troco tudo isso por três conversas diárias com pessoas amigas. Alma com alma. Pode ser só digitado. Mas se houver um olhar à distância vou dizer ouvir entender consolar e ser consolado muito mais. Não precisa toque de mãos. Aí eu sou tímido. É como quando o avião decola. Prefiro que não. Não quero entrar em autocombustão. Acho que me entende. E não sopre as cinzas. As suas.

O leão e o burro

segunda-feira, julho 17, 2023

A RAIVA. Charles Fonseca

ia escrever uma crônica 

desisti por ser comprida

contaria sacanas brigas

com alguém que tirei da lona


diz ele mas eu não acho

simples diverticulite

outra vez pensou infarto

só dor precordial por raiva


desta bastou minha mão no peito

um carinho no inimigo

calma amigo Deus é contigo

a alma jogada ao eito

NA BIBLIOTECA DE ALEXANDRIA. Charles Fonseca

Num Kindle podes ter milhares de livros num aparelhinho pouco maior que um celular. Onde houver wi fi aí estará tua biblioteca maior que a de Alexandria com seus livros em tijolos de barro cozido. Conversa com filhos ou sobrinhos a respeito.

UM JACOBINO. Charles Fonseca

Moravam na Junqueira Ayres. Subida para a General Labatut. À esquerda uma namoradinha já falecida. À  direita outra a posteriori. Saudades de Graziela. De Jacobina. Perdi ela menina. Onde está ela, onde ela?

domingo, julho 16, 2023

DENTRO DO PEITO. Charles Fonseca

Conversar e ver os netos. O meu programa de hoje. O meu que fazer maior. Já feito, o dia é só felicidade. É ser no mundo. Estar a levitar. Nada mais hoje precisa ocorrer. É só o recordar. São migalhas do destino. À distância e tão dentro do peito.

sábado, julho 15, 2023

A cadela e a carne. Esopo

Uma Cadela levava na boca um pedaço de carne quando, ao passar por um riacho, viu a sua imagem refletida na água. No reflexo, a carne parecia muito maior. Então a cadela soltou a carne que levava entre os dentes para tentar pegar a que via na água. Assim, acabou ficando sem as duas carnes. Sem a do reflexo, que não existia, e sem a verdadeira, que foi levada pela correnteza. 


 Moral: As ambições só são saudáveis na medida em que não arriscam aquilo que já possuímos.

OS ARREPIOS. Charles Fonseca

Prefeito de 65 passa férias com ex miss adolescente no Caribe. Que novidade! Sem ironia. Natural a agonia. O quero mais o que você prometia. Esse o bate papo essa tal de vontade. Nada de aragem de cotovia. 

E que tal um pouco de filosofia? E a geografia as reentrâncias os promontórios os arrebites ao sul os arrebitados seios os vales os veios os arrepios?