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sexta-feira, agosto 28, 2015

Youssef, Fernando Baiano, as narrativas concertadas de bandidos e a delação premiada

Youssef, Fernando Baiano, as narrativas concertadas de bandidos e a delação premiada
Reinaldo Azevedo

Pois é, pois é…

Jornalistas, no geral, se dão bem com as convicções — quase sempre à esquerda — e mal com as leis. Mas os advogados não costumam comer bola. A que me refiro? Explico.

Tudo indica, e o Estadão assegura que sim, que o delator a que Alberto Youssef se referiu em acareação na CPI seja mesmo Fernando Baiano. Para lembrar: o doleiro afirmou que ele próprio não fez repasse nenhum a Antonio Palocci em 2010, conforme assegura Paulo Roberto Costa, e que essa questão seria em breve esclarecida por outra pessoa, que já entabulara a delação premiada.

Estranhezas:
1: como é que Youssef sabe quem vai e quem não vai fazer delação?;
2: como é que Youssef conhece o conteúdo de delação sigilosa?;
3: delações sigilosas são de conhecimento, primeiro, do Ministério Púbico e, depois da Justiça. Youssef, que se saiba, já é condenado em algumas ações e réu em outras.

A imprensa achou tudo normal. Mas não o advogado do doleiro, Antonio Figueiredo Basto, que não é besta. Ao contrário: é um profissional competente — especialmente no gênero “delação premiada”. Ele sentiu o cheiro de pólvora. Basto se disse surpreso com a afirmação de seu cliente e tentou arranjar uma explicação para ela:
“Eles [Baiano e Youssef] estavam na mesma carceragem da Polícia Federal. Eles podem ter conversado sobre isso. Acho que foi um ato de desabafo de Youssef na CPI para falar que a culpa não é dele.”

Venham cá: vocês acham que Baiano, que ainda não havia decidido fazer delação, iria se entregar a confidências justamente com Youssef, o delator que abriu a fila? Baiano trouxa nasceu morto.

A propósito: Basto, hoje, é advogado de Youssef e de Júlio Camargo, ex-cliente de Beatriz Catta Preta — aquela que decidiu sumir da advocacia e da imprensa. Uma coisa é óbvia, né? Os dois certamente estão empenhadíssimos em falar a verdade!!! A única coisa que não vai acontecer é um falar uma “verdade” que conteste a “verdade” do outro.

Então ficamos assim: ambos vão falar a “verdade” que interessa a seus respectivos pescoços. E o roteirista que compatibiliza a verossimilhança das personagens é Basto.

A Lava-Jato, sem dúvida, é um capítulo da desratização do Brasil. Mas precisa ser vista com olhos críticos, objetivos e técnicos. É evidente que a delação premiada é um estatuto que está a pedir regulamentação.

Eu continuo a achar o fim da picada que um bandido anuncie numa CPI que outro bandido vai se encarregar de esclarecer determinadas dúvidas, quando o depoimento deste segundo ainda está sob sigilo.

Mais um pouco, os advogados de delatores premiados marcam uma convenção num hotel para amarrar as pontas do roteiro, eliminando as contradições.

Por Reinaldo Azevedo

sexta-feira, junho 12, 2015

Marcola é só um Lênin primitivo. Reinaldo Azevedo. Política.

Marcola é só um Lênin primitivo
Reinaldo Azevedo

Cinco homens estupraram quatro garotas na cidade de Castelo do Piauí (PI). Um deles tem 41 anos, os outros quatro, entre 15 e 17. Dois desses rapazes somam 120 ocorrências entre polícia e Conselho Tutelar. Uma das vítimas foi enterrada na segunda (8). Duas outras seguem internadas. O adulto deve pegar uns bons anos de cana. Os outros quatro estarão soltos daqui a três anos. Com alguma manha, posam de anjos da cara suja e saem antes. A ficha deles será tão limpa como a sua, leitor. O registro de seus respectivos nomes desaparecerá dos arquivos oficiais. Estarão prontos para arrumar emprego em escolinha infantil.

Na quarta (10), estudantes ligados à UNE e à UBES, aparelhos do PCdoB cujo comando é definido em eleição indireta, e militantes de outras seitas invadiram a Câmara, onde se encontravam deputados eleitos diretamente, para impedir que a comissão especial votasse o relatório de Laerte Bessa (PR-DF) favorável à PEC que baixa a maioridade penal de 18 para 16 anos. Sim, está longe de ser o ideal.

O sensato seria eliminar da Constituição a linha da inimputabilidade e definir, na legislação ordinária, as penas segundo o crime cometido e a situação objetiva do criminoso. Menores de 18 e maiores não dividiriam a mesma instituição prisional, mas a ninguém seria garantida a impunidade. Com pequenas variações nas faixas etárias, assim é em países em que há menos de um homicídio por 100 mil habitantes. No Brasil, há 26.

O que levou aqueles brucutus à Câmara? Esquerdistas, como regra, são intelectualmente brutos e brutais, embora hábeis em fingir-se de guardiões do humanismo. Contam, para isso, com a ajuda de... intelectuais! Recomendo, a propósito, o livro "O Retrato", de Osvaldo Peralva, que trabalhou nesta Folha, publicado em 1962, reeditado agora pela editora Três Estrelas.

O jornalista expõe as entranhas do PCB. Naquele passado remoto, os camaradas julgavam ter descoberto a chave do futuro da humanidade; nos dias correntes, os companheiros reivindicam o monopólio do inconformismo com as iniquidades. Aqueles acreditavam ser preciso eliminar os reacionários para conciliar a história com a sua vocação: o socialismo; os de agora querem eliminar os reacionários para fazer justiça.

Por alguma razão que a economia política não explica, infere-se que a delinquência comum é subproduto de uma tensão que seria revolucionária se os protagonistas da barbárie tivessem consciência de seu papel. Esse novo Rousseau é ainda mais tarado do que o original: o homem nasce revolucionário; o capital é que o corrompe.

Eis por que a incrível e triste história de rapazes assassinos e seus pais desalmados costuma mobilizar mais o verbo caridoso de jornalistas do que a das vítimas. É um mecanismo mental perverso: quando um desses menores mata, só então ele exerce o seu papel na narrativa. Tem de ir fundo no crime para ser vítima e herói trágico, provando a perversidade do sistema. Só quando mata, ele se torna, então, um verdadeiro inocente. Entenderam? Com a revolta no lugar certo, Marcos Willians Herbas Camacho seria Lênin, não "Marcola".

No livro "Rebeldes Primitivos", Eric Hobsbawm foi buscar em seitas secretas rurais, em conflitos da era pré-industrial e em movimentos milenaristas manifestações, digamos, seminais da luta revolucionária que se desenvolveria mais tarde. As nossas esquerdas primitivas acham que o homicídio é a véspera da redenção

sexta-feira, maio 29, 2015

Ódio a Cunha é ódio à democracia. Reinaldo Azevedo. Política

Ódio a Cunha é ódio à democracia
Reinaldo Azevedo

O presidente da Câmara avançou mais em uma semana do que seus antecessores em 12 anos

Gosto da pauta –com exceções– e do estilo do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara. Há muito tempo não havia uma pessoa tão determinada e operosa sentada naquela cadeira, disposta a fazer uso das prerrogativas que lhe facultam a Constituição e as leis. E isso significa levar ao limite a independência do Poder Legislativo –ao menos no âmbito da Casa sob o seu comando.

Como sou um fanático da democracia representativa e um discípulo de Montesquieu, eu o aplaudo. E entendo que esquerdistas possam atacá-lo, não é? Sonham ver em seu lugar um militante socialista. Vamos fazer um acordo, camaradas? Primeiro vocês vençam a revolução e, depois, implementem o socialismo. Que tal? Enquanto não fizerem a primeira no berro, não tentem ter o segundo no… berro.

Sim, eu sei que Cunha é um dos investigados da Operação Lava Jato. Caso venha a ser colhido por algo que eventualmente tenha feito (ou que não tenha) –e torço para que seja inocente –, será uma pena. Em quatro meses, fez mais à frente da Câmara do que seus antecessores em 12 anos. Desde 2003, o PT chama a reforma política de a mãe de todas as reformas. Mas sempre a ignorou. Quando o partido resolveu cuidar do assunto, mandou o país às favas e pensou apenas num projeto continuísta. Deu-se mal, felizmente!

Na terça passada, a Câmara fez uma besteira e não deu os 308 votos necessários ao texto que constitucionalizava a contribuição de empresas a partidos e candidatos. Corrigiu, em grande parte, a tolice na quarta, permitindo tal modalidade de financiamento a partidos apenas, por 330 votos a 141. A imprensa, inclusive esta Folha, chamou essa votação de “manobra de Cunha”. Se me demonstrarem que não foi regimental, também chamarei. Como foi, manobra não é.

Se alguém quer uma medida da bobagem feita na terça, basta atentar para o placar de outra votação, na quarta: 163 a favor do financiamento público de campanha e 240 contra. Huuummm… Levados a sério os dois resultados, não haveria nem dinheiro público nem dinheiro privado nas eleições. A grana viria de onde? Cairia do céu, como maná?

Felizmente, o PMDB e Cunha foram derrotados, sim, no embate sobre o distritão, que é pior, entendo, do que o sistema proporcional. Mas não me parece ter sido uma derrota pessoal. A Câmara deixou claro que não quer mudança nesse particular –afinal, as alternativas foram igualmente recusadas.

A Casa também se manifestou, por esmagadora maioria –452 a 19– em favor do fim da reeleição, à qual sempre me opus. Em 1997, os petistas chamaram a aprovação de tal emenda de “golpe”. Era por oportunismo, não por princípio. Quando o instrumento passou a lhes ser útil, nunca mais falaram em extingui-lo. O expediente só nos trouxe malefícios. Seria muito bom ver o Parlamento brasileiro aprovar o mandato único de cinco anos para o Executivo –único mesmo, sem reeleição em qualquer tempo. Oxigenaria a política e ajudaria a pôr fim a zumbis como Lula.

Corrijo-me. Cunha avançou mais em uma semana do que seus antecessores em 12 anos. É o presidente legítimo da Câmara e exerce as suas prerrogativas dentro dos limites da institucionalidade. Se errou, que pague pelo que fez. Este texto trata do político que está acertando. Odiá-lo corresponde a odiar os fundamentos da própria democracia representativa. Enquanto as esquerdas não pegarem no berro, terão de se contentar com o berro. E com o voto.

sexta-feira, maio 15, 2015

Lula e FHC. Ou: De Senectude. Reinaldo Azevedo. Política

Lula e FHC. Ou: De Senectude
15/05/2015 02h00

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu na terça, dia 12 de maio, em Nova York, o prêmio "Pessoa do Ano", conferido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA. Fez um discurso duro, mas sereno. A reparação histórica começou, quero crer, mais cedo do que ele imaginava.

A máquina de moer reputações do petismo foi desmoralizada pelos ladrões da Petrobras. A era dita inaugural dos companheiros foi desmascarada pelos juros estratosféricos, pela inflação renitente e pela recessão. É um retrato. O desastre foi meticulosamente engendrado, com uma incompetência fanática.

Ao longo de 12 anos, o PT elegeu como adversário preferencial o que havia de mais moderno nos tucanos: o seu viés –não mais do que viés– liberal. Cavalgando o jumento do nacional-estatismo, a companheirada satanizou à vontade os adversários, desmoralizou-os, acusou-os de inimigos dos pobres.

No discurso que fez nos EUA a uma plateia de 1.200 pessoas, FHC apontou os retrocessos em curso no Brasil, mas recomendou, em seminário no dia seguinte, perseverança e otimismo. No tempo em que sua herança foi enxovalhada pelos governos petistas, nunca perdeu nem serenidade nem bom humor.

Como Cícero recomendava em "De Senectude", FHC, 84 anos no mês que vem, descobriu os prazeres da maturidade. O espírito de alguns livros, de alguns vinhos e, acrescentaria eu, de alguns uísques requer um repertório que é dado pela experiência, não pelo ímpeto. Nota à margem: o próprio Cícero, coitado!, se foi bem antes, aos 63, com cabeça e mãos literalmente cortadas.

E Lula? Ah, Lula... À beira dos 70 anos, poderia ele também estar pacificado. Embora repudie a sua obra, reconheço-lhe a trajetória invulgar. Por que não faz do prateado do rosto e da cabeça o retrato da temperança? Se não o socorre outro saber que não a disputa pelo poder –e assim é por escolha, não por determinação; é ele que foge dos livros, não o contrário–, que as virtudes do conselheiro se sobreponham às do guerreiro. Mas não!

Agora ele anuncia uma cruzada para mobilizar as esquerdas e os movimentos sociais em defesa do PT. A agitação sindical que promove, e não alguma suposta conspiração de Eduardo Cunha, derrotou o governo na votação sobre o fator previdenciário. O chefão petista vaga por aí como alma penada, sem se dar conta de que a sua militância já é coisa do passado. Só sobrevive o que consegue se adaptar às novas circunstâncias; só se conserva o que é capaz de mudar. Não é lei dos homens, mas da natureza.

Fora do poder há 13 anos, mesmo tendo a sua biografia política cotidianamente esmagada pela máquina de propaganda petista, FHC fala a um país nascente. E o faz com discrição e sem pretensões de exercer alguma forma de liderança. Lula, ao contrário, tornou-se apenas um velho reacionário, que busca, desesperadamente, um modo de calar as ruas. Fala à terra dos mortos.

Registro rápido: a investigação de um esquema que é a síntese da forma como o PT capturou o Estado brasileiro tem dois peemedebistas como alvos principais: Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Não há algo de estranho nessa narrativa? E os "spin doctors" do petismo espalham a versão de que é o PMDB quem pretende secar a Lava Jato. Vai ver os companheiros querem investigar tudo, né? A má-fé é uma forma de burrice ou a burrice uma forma de má-fé?

sexta-feira, abril 17, 2015

Governo fora das leis. Reinaldo Azevedo. Política

Governo fora das leis
17/04/2015
A gente percebe a escalada da crise quando se estreita a distância entre um pico de tensão e outro. Sem que houvesse razão para tanto, é bom que se diga, o governo ameaçou comemorar, ainda que discretamente, a suposta baixa adesão aos protestos de domingo... O PT, por exemplo, em seu site, menosprezou os "apenas" (?) 250 mil nas ruas. Ainda que o número estivesse certo (não está), não custa lembrar que, cinco dias antes, os companheiros mal conseguiram lotar uma Kombi no protesto contra a terceirização e em defesa do governo Dilma. O suspiro de falso alívio mal durou 24 horas.

Na terça, dia 14, Leandro Colon, desta Folha, detonava a bomba: a Controladoria Geral da União (CGU) amoitou informação e provas de que a SBM havia pagado propina a funcionários da Petrobras. O início da investigação propriamente, que poderia ter-se dado no dia 29 de agosto do ano passado, foi postergado para 17 de novembro, já selado o destino das urnas. A CGU, como reza a sua página na internet, é um braço da Presidência, cuja titular é Dilma. Toda a hierarquia incidiu na Lei de Improbidade Administrativa, que pode resultar em cassação de mandato.

Raiou o dia 15, e lá estava na cadeia João Vaccari Neto, o tesoureiro do PT. Há pouco mais de dois meses, ele e Dilma compareceram a um mesmo evento, aplaudindo os 35 anos de fundação do partido, que veio à luz em 1980 prometendo "mais ética na política". Vaccari teve participação ativa nas duas campanhas eleitorais da presidente. Há ali uma mistura de fios desencapados com nitroglicerina. Qualquer movimento brusco, buuummm!!!

A notícia da prisão de Vaccari chegou pouco depois de o Planalto ter tomado ciência de que o ministro José Múcio, do Tribunal de Contas da União, decidira acatar parecer dos técnicos e recomendar que se investiguem as chamadas "pedaladas fiscais", com o que concordaram os seus pares na própria quarta. Para maquiar as contas, o primeiro governo Dilma retardou desembolsos devidos à CEF, ao Banco do Brasil e o BNDES. Esses entes tiveram de arcar com o custo de políticas públicas federais apelando aos próprios recursos, o que caracteriza uma forma de empréstimo ao Tesouro, pratica vedada pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

É crime de responsabilidade. Rodrigo Janot, com a anuência de Teori Zavascki, faz uma leitura rasa da Constituição e assegura que Dilma não pode ser processada por atos anteriores ao mandato em curso. É? Tal dispositivo da Carta antecede o estatuto da reeleição. Duas perguntas para a dupla: a) então um presidente pode cometer um crime para se reeleger –dar pedaladas fiscais, por exemplo– e não terá de responder por isso no curso do novo mandato?; b) a eleição acontece em outubro; a posse, só em janeiro. Um reeleito, portanto, tem uma janela de dois meses para delinquir contra a responsabilidade, doutores? Que diabo de leitura é essa?

Que Janot mantenha a sua interpretação obtusa –ao menos até que um dos legitimados para tanto recorra contra ela com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental. Independentemente da Lei de Responsabilidade, a pedalada fiscal também atropelou a Lei da Improbidade Administrativa.

Dilma deve lamentar como nunca o malogro daquela sua lojinha de bugigangas. Poderia ser hoje uma próspera empresária. O negócio não deu certo. Virou presidente do Brasil.

sexta-feira, março 20, 2015

O PT e os pistoleiros. Reinaldo Azevedo. Política

O PT E OS PISTOLEIROS
Reinaldo Azevedo

Esse negócio de que, mesmo antigos, devemos conservar, diante de tudo, o olhar de surpresa e de novidade típico da juventude é conversa mole. Como é mesmo? O diabo é diabo porque velho, não porque sábio. Mas não sou do tipo que deixa cair as bochechas, com as retinas cansadas. Aos 53, é dever não se assustar nem se prostrar. Mas eis que os poderosos de turno, a seu modo, fazem com que me sinta um recém-nascido. Produzem o inédito, falam o inaudito, acenam com o inesperado. A companheirada tem me permitido vivenciar a tábula rasa. Meu cérebro não tem prescrição para o que está aí. É como se eu tivesse chegado ao mundo deles sem experiência anterior.

Cid Gomes, até quarta ministro da Educação (nada menos!) de um governo em crise, afirmou haver no Congresso 300 achacadores e foi chamado a se explicar na Câmara. Em vez de buscar uma forma decorosa de se desculpar, deu um piti ridículo, à moda dos Gomes, e foi demitido em seguida. Quem exibiu a sua cabeça foi Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Casa. Cid saiu de lá dirigindo o próprio carro e foi aplaudido por uma claque de cearenses. Há ou não os achacadores? Em setembro de 1993, um certo Lula disse que havia "300 picaretas no Congresso". Em 2015, o PT é o protagonista do petrolão. "Boquirrotice" é lixo.

A cena momesca se deu um dia depois de ter vindo a público um documento da Secretaria de Comunicação da Presidência em que o governo reconhece usar os chamados blogs sujos para o serviço de pistolagem política. O documento prega a intensificação de uma parceria que parece ser comercial e criminosa. O texto sabe ser explícito: "A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele". Munição? Soldados? Disparo? O plano anuncia ainda a intenção de pôr órgãos do Estado a serviço do proselitismo rasteiro e de usar a verba oficial de publicidade para a promoção pessoal de políticos, o que afronta a Constituição.

Como o ciclo do desatino nunca está completo sem Rui Falcão, o presidente do PT compareceu ao debate. Deixando claro o que entende por "controle social da mídia" –ou "regulamentação econômica"–, o homem quer que o governo corte verba oficial de publicidade dos veículos que, segundo ele, "incentivaram" ou "convocaram" as manifestações. Só fez uma ressalva: "A Record, que sempre teve uma simpatia maior por nós, no domingo, começou em rede aberta a convocar a manifestação. Foi uma briga por audiência. Nesse caso não foi nem má-fé". Entendi. É para privilegiar quem tem "simpatia por nós" e punir quem não tem.

No domingo, depois da maior manifestação política da história do país, dois ministros concederam entrevista coletiva. José Eduardo Cardozo (Justiça) defendeu uma reforma política rejeitada pelo PMDB, o maior parceiro do PT no governo. E Miguel Rossetto (Secretaria-Geral) criticou os manifestantes, tratando-os como golpistas. O país virou uma orquestra de panelas.

Vivendo e aprendendo. Nessa toada, os destrambelhados a favor derrubam Dilma antes que as ruas o façam. Ah, sim: espero que o Congresso honre as suas funções constitucionais e convoque os guerrilheiros da Secom para explicar a que custo o governo fornece "munição" para pistoleiros, chamados de "soldados de fora".

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Degenerado. Reinaldo Azevedo. Política

"É preciso distinguir a ilegalidade como desvio da norma –por obra de salafrários agindo sozinhos ou em bando– daquela outra, sistêmica, que se revela como forma de conquista do Estado, com a constituição de um governo paralelo, gerenciado por um ente de razão degenerado."

segunda-feira, outubro 27, 2014

Quanto vale uma Dilma de branco. Reinaldo Azevedo. Política

Quanto vale uma Dilma de branco. Reinaldo Azevedo.


Quanto vale uma Dilma de branco, no discurso da vitória, ao lado de Ciro Nogueira, citado no escândalo do petrolão? Ou: De terno branco, com alma vermelha. Ou: Ainda não será desta vez que Dilma vai sentir falta do meu mel

Dilma no discurso da vitória: terninho branco, alma rubra
Dilma Rousseff no discurso da vitória: terninho branco, alma rubra
A presidente reeleita, Dilma Rousseff, resolveu tirar o terninho vermelho de campanha e de debates. Em seu lugar, vestiu o branco. Há a hora do Falcão e a hora da pomba. No discurso da vitória, falou em nome da paz. Cumprimentou todos os parceiros de jornada, com salamaleques especiais a Lula — nem poderia ser diferente. Entre os presentes, Ciro Nogueira, o presidente do PP, citado no escândalo do petrolão. No discurso, aquela que, segundo Alberto Youssef, sabia das vigarices na Petrobras, prometeu combater a corrupção. Ciro Nogueira aplaudiu com entusiasmo.

Dilma negou que o país esteja dividido, rachado ao meio — embora ela saiba que está, mas esse é tema para outro comentário, que ainda farei aqui. Venceu a eleição com pouco mais da metade dos votos válidos, numa disputa em que 27,44% dos eleitores se negaram a sufragar um nome: 1,71% dos votantes decidiram pelo branco; 4,63%, pelos nulos, e 21,1% se ausentaram. De fato, ela é presidente por vontade de 38% dos eleitores aptos a participar do pleito. É bem menos do que a metade. É a reeleita legítima, mas isso não muda os números.

Assim, cumpre que Dilma busque ganhar a confiança não apenas dos 51.041.155 que votaram em Aécio, mas também dos 32.277.085 que não quiseram votar em ninguém. Juntos, eles são 83.100.453, bem mais do que os 54.501.118 que a escolheram. Neste blog, eu adverti várias vezes para esse fato, não é mesmo? Critiquei severamente a campanha suja movida pelo PT porque ela acabaria deixando um rastro de ressentimentos, de rancor.

No discurso da vitória, leiam a íntegra abaixo, Dilma afirma, por exemplo:
“Toda eleição tem que ser vista como forma pacífica e segura. Toda eleição é uma forma de mudança. Principalmente para nós que vivemos em uma das maiores democracias do mundo.”

Pois é. Posso concordar em parte ao menos, embora, de fato, nas democracias, eleições signifiquem, antes de mais nada, conservação de um método: recorre-se às urnas para decidir quem governará o país. Mas sigamos. Quando o PT e Dilma transformaram os adversários em verdadeiros satãs, que fariam o país recuar nas conquistas sociais; quando os acusaram de representantes de “fantasmas do passado” — sim, essa expressão foi empregada; quando lhes atribuíram um passado que não tiveram e intenção que não teriam, será que a presidente e seu partido expressavam, de fato, fé na democracia?

Quando a chefe da nação, ainda que nas vestes da candidata, investe contra um veículo de comunicação que apenas cumpriu o seu dever, estimulando milicianos a atacar uma empresa jornalística, onde estava essa Dilma que agora veste o branco? Quando Lula comparou os opositores do PT a nazistas, acusando-os de golpistas, onde estava o PT da paz e do entendimento? “Ah, mas Aécio Neves não criticou Dilma?” É certo que sim! Mas nunca deixou de reconhecer avanços nas gestões petistas. Uma coisa é criticar a condução de políticas; outra, distinta, é acusar o adversário de articular, de forma deliberada, o mal do país.

A fala pacificadora de Dilma não me convence — até porque Gilberto Carvalho, seu secretário-geral da Presidência, quase ao mesmo atempo, falava uma linguagem de guerra. Tratarei dele em outra oportunidade. E não me convence por quê? Porque Dilma afirmou que a principal e mais urgente tarefa de seu governo é a reforma política. Ainda voltarei muitas vezes a esse assunto. Mas a tese é falaciosa. Diz a presidente reeleita que pretende conduzir o debate por meio de plebiscito — para que e com que pergunta? Em debates na TV, expressou o entendimento absurdo de que o mal essencial do nosso sistema está no financiamento de campanhas por empresas. Errado! O mal essencial no que diz respeito ao Estado está no aparelhamento do bem público em favor de partidos e camarilhas. Ou não vimos um agente do petismo, disfarçado de presidente da Agência Nacional de Águas, a fazer proselitismo eleitoral em São Paulo de maneira descarada?

Ignorar a crise de fundamentos — para ser genérico — que hoje assola a economia brasileira e que deixa o país sem perspectiva de futuro para brincar de plebiscito, constituinte exclusiva, como ela já defendeu, e reforma política corresponde a apagar incêndio com gasolina. Dilma não tenha a ilusão de que gozará de um período de lua de mel. Com ou sem razão, espero que sem (e também sobre isso falarei em outra ocasião), naquelas partes do Brasil em que pouco se olha quem sobe ou desce a rampa, desconfia-se até da inviolabilidade das urnas eleitorais.

Se a dita reforma política vai ser o seu “chamamento à união”, então, posso afirmar, com pouca chance de errar, que ela está é querendo provocar ainda mais conflitos. Não adianta vestir um terninho branco quando a alma segue vermelha, governanta.

Em seu discurso, Dilma insiste que o Brasil votou para mudar — é, talvez para que o governo mude os métodos. No que concerne às instituições, o voto crescente é para “conservar” — no caso, conservar instituições. Espero que também as oposições se deem conta disso e não tergiversem, como já fizeram no passado, na defesa dos fundamentos da democracia representativa.

No que me que diz respeito, é preciso bem mais do que um terninho branco para me comover. Ademais, sigo a máxima de que um indivíduo se dá a conhecer muito mais por seus atos do que por suas palavras.

As palavras recentes da presidente-candidata estimularam uma milícia de vagabundos a atacar uma empresa de comunicação. Por enquanto, não tem a minha simpatia nem meu voto pessoal de confiança — sei que é irrelevante para ela, mas é meu, e dele, cuido eu. E também não consigo imaginar que alguém que proponha constituinte exclusiva para fazer reforma política esteja com boa intenção. Bondade assim, já vi antes na Venezuela, no Equador e na Bolívia.

Ainda não será desta vez que Dilma vai sentir falta do meu mel.

Por Reinaldo Azevedo

quarta-feira, julho 09, 2014

Desastre histórico 13 – A derrota da Seleção Brasileira e a do PT. Ou: É TOIS, DILMA!. Reinaldo de Azevedo

Desastre histórico 13 – A derrota da Seleção Brasileira e a do PT. Ou: É TOIS, DILMA!

Nunca achei, e os leitores sabem disto, que a vitória ou a derrota da Seleção Brasileira teria uma tradução imediata nas urnas. Tratei do assunto na minha coluna na Folha na sexta-feira passada, intitulada “A derrota da Seleção e a de Dilma”. “A derrota da Seleção e a de Dilma”. Escrevi então:
“A vigarice intelectual tenta transformar o tal ‘pessimismo com a Copa’ numa espécie de metáfora –ou metonímia– do suposto ‘pessimismo com o Brasil’. Também as críticas ao governo e o legítimo esforço para apeá-lo do poder segundo as regras do jogo seriam obra de pessoas de maus bofes, que saem por aí a espalhar o rancor e a amargura –coisa, enfim, de quem deveria deixar ‘estepaiz’, já que se mostra incapaz de amá-lo… Com todo o respeito, a tese de que o Brasil precisa perder a Copa para Dilma perder a eleição é só uma trapaça intelectual de quem quer que Dilma vença a eleição, ainda que o Brasil perca a Copa.”

O desastre a que assistimos no campo, nesta terça, ele sim, é simbólico de certo estado de coisas no Brasil. Reparem que foram muito poucas as críticas contundentes ao desempenho pífio da Seleção Brasileira nos cinco jogos anteriores. Aqui e ali se apontou o descompasso entre a realidade e os fatos, mas nada com a dureza e com a clareza que a ruindade do time estava a pedir. Por quê? Porque também o jornalismo — com raras exceções — vivia e vive sob uma espécie de tutela, com receio de ser acusado de falta de patriotismo.

O governo federal decidiu, infelizmente, fazer politicagem com a Copa do Mundo. A máquina publicitária oficial não teve pudor nem mesmo de pegar carona na contusão de Neymar, tentando transformá-lo numa espécie de herói nacional. Dilma Rousseff resolveu bater um papinho com Dilma Bolada no Facebook, de sorte que não dava para saber se a Bolada era a Rousseff ou a Rousseff, a Bolada. A presidente encontrou tempo para atacar os “urubus do pessimismo”. Referia-se, em princípio, àqueles que previam que o torneio seria um desastre organizacional, o que, é sabido, não foi. Mas não só a eles: os tais “pessimistas” estariam interessados na derrota do Brasil só para o PT perder as eleições…

Há, ainda, uma fatia dos políticos brasileiros que está convicta de que pode manipular a vontade popular a seu gosto. Sim, muitas críticas infundadas foram feitas à realização da Copa no Brasil, mas é evidente que parte delas procedia e procede — como procedentes são milhares de restrições outras que se fazem ao governo de turno, o que é normal numa democracia.

A máquina publicitária oficial, no entanto, incapaz de fazer a exploração rasteira do torneio — como esquecer as vaias do Itaquerão? —, decidiu “monitorar” às avessas o debate: tolhendo as críticas, intimidando os críticos, tentando silenciar as vozes discordantes, colando a pecha de sabotadores naqueles que dissentem. Não custa lembrar que o PT, com o apoio de setores comprados da imprensa — comprados pela publicidade oficial —, criou até uma lista negra de jornalistas, sobre a qual muita gente que chegou a me parecer séria um dia fez um silêncio cúmplice, preferindo olhar para o outro lado. Críticos do governo foram tachados de “jornalistas da oposição” e de “adversários da realização da Copa no Brasil”.

Pois é… Nos últimos dias, especialmente depois que veio a público uma pesquisa Datafolha em que Dilma havia oscilado quatro pontos para cima, na margem de erro, o Planalto se assanhou de novo em pegar carona na Copa. Dilma anunciou na sua conversa no Facebook que vai ao Maracanã, no domingo, entregar a taça ao vencedor — ocasião, então, em que “Maracanaço” talvez passe a ter outro sentido.

Qual é a última torcida que cabe à presidente? Por razões que o técnico argentino chamou nesta terça de “culturais” — ele se referia ao fato de que a imprensa de seu país comemorava o desastre brasileiro —, resta à nossa governanta torcer desde já para que seja a Holanda ou a Alemanha a vitoriosa. Ou lhe caberá a honra, depois de ter esconjurado os urubus, de entregar o troféu ao capitão da Seleção da Argentina.

Eu não acho que a derrota da Seleção fará o eleitor votar dessa ou daquela maneira. Não o subestimo assim. Isso não nega o fato de que o PT tinha planos para tentar fazer da eventual vitória uma arma para esmagar os adversários. Seria ineficaz porque, reitero, não é assim que se dão as coisas. Mas o Brasil ficaria um pouquinho mais incivilizado, matéria em que essa gente é craque.

É TOIS, DILMA!

Por Reinaldo Azevedo