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domingo, abril 26, 2020

RETRATO DE FAMÍLIA. Ana Santos

RETRATO DE FAMÍLIA
Ana Santos

O avô finge ler contos de fadas,
um volume pesado e púrpura
que ele aproxima
dos olhos iletrados. Girassóis nascem
das mãos da avó, virados para o leste.

Na cadeira de vime, tia Sybille come
doces, os papéis coloridos
sobre ventre e pernas: uma rainha
em seu trono. Anton puxa as tranças
de Johanna, cobiçando-lhe as asas
de frango; entre os dois, o cão espera
os ossos novos.

Saias secam no varal. Uma libélula
invade a cena. Tio Otto exibe amoras
e sapatos de verniz. Descalço, meu pai
me leva nas costas, não me deixa
cair. A luz recorta e guarda
o rosto de minha mãe.

      ***

“O breu consome tudo”, disse a avó
naquela manhã; consumiu também
aquela manhã. O açúcar não adoça
a língua amarga do tempo.

Num poço fundo, afogam-se
as fadas dos contos. Tombadas
casa e amoreira, nada resta
nesse chão de ervas daninhas.

(Se alguém escavasse
o quintal da infância, acharia ossos
de aves e cães, uns brinquedos
terrosos, o corpo desfeito
de um fantoche antigo.)

Os mortos ignoram sua força,
a vida que gravam nos retratos.
Sorríamos, e a noite maior
já se formava (o fim de cada um
vedado aos sais de prata):

em pleno ocaso, reluzimos
mais que sóis.

sábado, fevereiro 15, 2020

MACIEIRA. Ana Santos. Poesia

MACIEIRA
Ana Santos

Amanheci arbórea,
raízes longas,
um ninho
novo
em cada braço.

(Janela aberta.
Um farfalhar de ramos.)

Eu agito
meu cabelo:
o quarto se enche de maçãs.