sexta-feira, novembro 17, 2017

Alisai os pés uns dos outros

Homilia Diária 18/10/2017 - Pe Paulo Ricardo

Poema do dia 17.11.2017

AMADA LUA
Charles Fonseca

É noite. Nas ruas sóis de mercúrio.
A lua sozinha no firmamento
Passeia no céu em tom de lamento,
Clareia sozinha meu céu escuro.

É noite. Luzes a vapor de sódio.
Na terra me elegem pra presidente
Da ong dos homens sem sentimento
Do amor feminino, dos homens sós.

Mas chegaste, amada. Pra mim és lua.
Pros outros reservo minha clemência
De noutras buscarem, por transferência,
Teu claro luar em minha alma nua.

quinta-feira, novembro 16, 2017

Tinha eu catorze anos. Foi um amor intenso. O desenlace brutal

História do Brasil Colonial I - Pgm 1 - América indígena - parte 1

O meu peru diz gulu gulu sem estímulo algumas vezes todos os dias

Poema do dia 16.11.2017

ALÉM, MUITO ALÉM.
Charles Fonseca

Meu destino é amar-te além do mar
Das procelas qual náufrago que a terra avista
E nega a morte e a terra conquista,
Que jamais se entrega, és meu norte fanal.

Meu destino é amar-te além do horizonte
Que a vista alcança, do além do mundo,
Das estrelas, do universo profundo,
Além da esperança, beijo-te a fronte.
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A alma ferida devaneia

quarta-feira, novembro 15, 2017

Homilia Diária 15/11/2017 - Pe Paulo Ricardo

Choro por ti, Florianópolis. Tão cheia de deslumbrados!

Elevador Lacerda. Salvador. 1970

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Não venham a Florianópolis. Cidade lotada. Socorro!

Aqui tanto amor os lá tão distantes aqui um deserto e a vida um instante

O vôo. H. Dobal. Poesia

O VÔO
H. Dobal

Dói o domingo
no ninho dos tédios.

Dói o verão:
esta pele seca
estirada
sobre os ministérios vazios.

Dói o clube
dos domingos.
Dói o rito
dos domingos:
o amargo esporte
de viver.
O amargo esporte
de esquecer.

Dói a divisão da vida:
o pão subtraído,
o peixe poluído,
a paz envenenada.

Dói o vôo cortante desta tarde.

JK

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Poema do dia 15.11.2017

ACORDES ANTES QUE ACORDES
Charles Fonseca

Minha amada ainda dorme
Na alvorada que ainda é cinza.
Dorme, amada, tu que és tão linda!
Velo por ti, que ninguém te acorde.

Sonha, amada, os teus desejos,
Que chegam a ti por entre véus.
São teus, bem mereces os céus,
Aqui em terra dou-te meus beijos.

Ainda sonhas, pra ti é noite.
Acordas, logo já é de dia.
O nosso amor pela alva guia.
Fiel até o final, sou-te.
Espetáculo tem foco em aventuras e ficção cientifica

Meu neto

terça-feira, novembro 14, 2017

Faro fino. Charles Fonseca

Durante dois anos paguei as mensalidades do jovem na universidade particular. Décadas depois me hospedei na casa do dito durante duas semanas. Dormida e café da manhã. Apenas. De súbito, sem referência prévia, me disse que o preço dos alimentos estava muito caro. Saí faro fino.
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Quer dançar comigo?

Uso quatro horas do dia em atividades extra domiciliares.

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Para viver mais você tem que viver menos na internet

Espelho. Sylvia Plath. Poesia

ESPELHO
Sylvia Plath
(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício A. Mendonça)

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele
[ falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.
.
Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça
[ sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem
[ verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um
[ peixe terrível.

O ministro deste sacramento

1461. Uma vez que Cristo confiou aos Apóstolos o ministério da reconciliação (63) os bispos, seus sucessores, e os presbíteros, colaboradores dos bispos, continuam a exercer tal ministério. Com efeito, os bispos e os presbíteros é que têm, em virtude do sacramento da Ordem, o poder de perdoar todos os pecados, «em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo».

1462. O perdão dos pecados reconcilia com Deus mas também com a Igreja. O bispo, chefe visível da Igreja particular, é justamente considerado, desde os tempos antigos, como o principal detentor do poder e ministério da reconciliação: é o moderador da disciplina penitencial (64). Os presbíteros, seus colaboradores, exercem-no na medida em que receberam o respectivo encargo, quer do seu bispo (ou dum superior religioso), quer do Papa, através do direito da Igreja (65).

1463. Certos pecados particularmente graves são punidos pela excomunhão, a pena eclesiástica mais severa, que impede a recepção dos sacramentos e o exercício de certos actos eclesiásticos (66) e cuja absolvição, por conseguinte, só pode ser dada, segundo o direito da Igreja, pelo Papa, pelo bispo do lugar ou por sacerdotes por eles autorizados (67). Em caso de perigo de morte, qualquer sacerdote, mesmo que careça da faculdade de ouvir confissões, pode absolver de qualquer pecado e de toda a excomunhão (68).

1464. Os sacerdotes devem exortar os fiéis a aproximarem-se do sacramento da Penitência; e devem mostrar-se disponíveis para a celebração deste sacramento, sempre que os cristãos o peçam de modo razoável (69).

1465. Ao celebrar o sacramento da Penitência, o sacerdote exerce o ministério do bom Pastor que procura a ovelha perdida: do bom Samaritano que cura as feridas; do Pai que espera pelo filho pródigo e o acolhe no seu regresso; do justo juiz que não faz acepção de pessoas e cujo juízo é, ao mesmo tempo, justo e misericordioso. Em resumo, o sacerdote é sinal e instrumento do amor misericordioso de Deus para com o pecador.

1466. O confessor não é dono, mas servidor do perdão de Deus. O ministro deste sacramento deve unir-se à intenção e à caridade de Cristo (70). Deve ter um conhecimento comprovado do comportamento cristão, experiência das coisas humanas, respeito e delicadeza para com aquele que caiu; deve amar a verdade, ser fiel ao Magistério da Igreja, e conduzir o penitente com paciência para a cura e a maturidade plena. Deve rezar e fazer penitência por ele, confiando-o à misericórdia do Senhor.

1467. Dada a delicadeza e a grandeza deste ministério e o respeito devido às pessoas, a igreja declara que todo o sacerdote que ouve confissões está obrigado a guardar segredo absoluto sobre os pecados que os seus penitentes lhe confessaram, sob penas severíssimas (71). Tão pouco pode servir-se dos conhecimentos que a confissão lhe proporciona sobre a vida dos penitentes. Este segredo, que não admite excepções, é chamado «sigilo sacramental», porque aquilo que o penitente manifestou ao sacerdote fica «selado» pelo sacramento.

IX. Os efeitos deste sacramento

1468. «Toda a eficácia da Penitência consiste em nos restituir à graça de Deus e em unir-nos a Ele numa amizade perfeita» (72). O fim e o efeito deste sacramento são, pois, a reconciliação com Deus. Naqueles que recebem o sacramento da Penitência com coração contrito e disposição religiosa, seguem-se-lhe «a paz e a tranquilidade da consciência, acompanhadas duma grande consolação espiritual» (73). Com efeito, o sacramento da reconciliação com Deus leva a uma verdadeira «ressurreição espiritual», à restituição da dignidade e dos bens próprios da vida dos filhos de Deus, o mais precioso dos quais é a amizade do mesmo Deus (74).

1469. Este sacramento reconcilia-nos com a Igreja. O pecado abala ou rompe a comunhão fraterna. O sacramento da Penitência repara-a ou restaura-a. Nesse sentido, não se limita apenas a curar aquele que é restabelecido na comunhão eclesial, mas também exerce um efeito vivificante sobre a vida da Igreja que sofreu com o pecado de um dos seus membros (75). Restabelecido ou confirmado na comunhão dos santos, o pecador é fortalecido pela permuta de bens espirituais entre todos os membros vivos do corpo de Cristo, quer vivam ainda em estado de peregrinos, quer já tenham atingido a pátria celeste (76):

«É de lembrar que a reconciliação com Deus tem como consequência, por assim dizer, outras reconciliações, que trarão remédio a outras rupturas produzidas pelo pecado: o penitente perdoado reconcilia-se consigo mesmo no mais profundo do seu ser, onde recupera a própria verdade interior: reconcilia-se com os irmãos, que de algum modo ofendeu e magoou: reconcilia-se com a Igreja; reconcilia-se com toda a criação» (77).

1470. Neste sacramento, o pecador, remetendo-se ao juízo misericordioso de Deus, de certo modo antecipa o julgamento a que será submetido no fim desta vida terrena. É aqui e agora, nesta vida, que nos é oferecida a opção entre a vida e a morte. Só pelo caminho da conversão é que podemos entrar no Reino de onde o pecado grave nos exclui. (78). Convertendo-se a Cristo pela penitência e pela fé, o pecador passa da morte à vida «e não é sujeito a julgamento» (Jo 5, 24).

Poema do dia 14.11.2017

ACAUÃ
Charles Fonseca

Não mais da dor eu poeta
Ou do amor sem razão
Da amizade em senão
Do ódio teu estafeta

De cartas de amor ilusão
O teu sorriso ligeiro
Eu te olhando carneiro
Tu me olhando falcão

Eu quero do amor a pomba
Catingueira arribaçã
Não teu olhar acauã
Em minha alma tristonha.
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segunda-feira, novembro 13, 2017

Não se sepulta o sepultador com um corpo insepulto

Chore por sua ingenuidade vã

Você conhece alguma Fabiana desonesta?

Olavo explica o Protestantismo

Poema do dia 13.11.2017

ACAUÃ (II)
Charles Fonseca

Na acauã em seus olhos circunda
Faixa negra que vai à cerviz,
À cabeça branca lhe segue o verniz
Dum pardo dorso que à cauda funda.

Mancha clara circunda o pescoço
Tem faixas claras na cauda transversas,
O branco por base em seu corpo prega
A paz que ela nega sangra o dorso

Do pobre borrego, caatinga a pastar,
Da ovelha marrã que foge da onça,
E eu a lhe ver não sei que vingança
Traz-lhe no peito, sua vida é matar.
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Cristianismo e o estudo da natureza


Cristianismo e o estudo da natureza

O pensamento de Santo Agostinho foi basilar ao orientar a visão do homem medieval sobre a relação entre a fé cristã e o estudo da natureza.

Ele reconhecia a importância do conhecimento, mas entendia que a fé em Cristo vinha restaurar a condição decaída da razão humana, sendo, portanto, mais importante.

Agostinho afirmava que a interpretação das escrituras deveria ser feita de acordo com os conhecimentos disponíveis, em cada época, sobre o mundo natural.

Escritos como sua interpretação “alegórica” do livro bíblico do gênesis vão influenciar fortemente a Igreja medieval, que terá uma visão mais interpretativa e menos literal dos textos sagrados.

Durante os tempos confusos da dissolução do Império Romano do Ocidente e dos primeiros séculos da Idade Média muito da cultura clássica se perdeu, mas o declínio cultural teria sido bem mais intenso não fosse pelo monasticismo, mais especificamente pela ação dos monges copistas.

É bem verdade que os textos em grego já não estavam mais acessíveis pelo esquecimento do idioma e que os escritos que passavam pelo trabalhoso processo de cópia manual eram selecionados de acordo com a importância dada a eles pelos religiosos.

A Igreja também esteve a cargo da estrutura educacional, ou, pelo menos, supervisionando a mesma. Quando Carlos Magno chamou o monge Alcuíno para elaborar uma reforma na educação européia, a Igreja ficou responsável tanto pelas escolas monacais quanto pelas escolas catedrais.

A maioria das universidades nos séculos XII e XIII surgiram precisamente de escolas ligadas às catedrais e funcionavam sob a proteção de jurisdição eclesiástica.

Com relação à investigação da natureza, que renasceu na Idade Média Clássica, já foi mencionada a importância das ordens religiosas mendicantes.

Embora Bernardo de Claraval e alguns outros religiosos tenham chegado a desencorajar o estudo das ciências por entenderem que muitos buscavam esses conhecimentos por vaidade, seus pontos de vista jamais foram adotados.

A Inquisição estava presente, mas a Igreja concedia aos professores muita elasticidade em suas doutrinas e, em muitos casos, estimulou as investigações científicas.

Nas universidades, o campo da filosofia natural dispunha de grande liberdade intelectual, desde que restringisse suas especulações ao mundo natural.

Embora se esperassem retaliações e castigos caso os filósofos naturais passassem desse limite, os procedimentos disciplinares da Igreja eram voltados principalmente aos teólogos, que trabalhavam numa área bem mais perigosa.

Em geral, havia suporte religioso para a ciência natural e o reconhecimento de que esta era um importante fator no aprendizado.
GLÓRIA DA IDADE MÉDIA: Ordenadas pela lógica floresceram ciências como a mecânica, as matemáticas, a física e a astronomia

domingo, novembro 12, 2017

Fale de modo que pareça quase amor

Antes distantes que próximos que te arranham

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As cismas do destino. Augusto dos Anjos

As cismas do destino
Augusto dos Anjos

I

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia... O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!

Tal uma horda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!

Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro.

Livres de microscópios e escalpelos,
Dançavam, parodiando saraus cínicos,
Biliões de centrosomas apolínicos
Na câmara promíscua do vitellus.

Mas, a irritar-me os globos oculares,
Apregoando e alardeando a cor nojenta,
Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-me as mãos rudimentares!

Mostravam-me o apriorismo incognoscível
Dessa fatalidade igualitária,
Que fez minha família originária
Do antro daquela fábrica terrível!

A corrente atmosférica mais forte
Zunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,
Julgava eu ver o fúnebre candeeiro
Que há de me alumiar na hora da morte.

Ninguém compreendia o meu soluço,
Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas,
O vento bravo me atirava flechas
E aplicações hiemais de gelo russo.

A vingança dos mundos astronômicos
Enviava à terra extraordinária faca,
Posta em rija adesão de goma laca
Sobre os meus elementos anatômicos.

Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!

Mas o vento cessara por instantes
Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orco
Abafava-me o peito arqueado e porco
Num núcleo de substâncias abrasantes.

É bem possível que eu um dia cegue.
No ardor desta letal tórrida zona,
A cor do sangue é a cor que me impressiona
E a que mais neste mundo me persegue!

Essa obsessão cromática me abate.
Não sei por que me vêm sempre à lembrança
O estômago esfaqueado de uma criança
E um pedaço de víscera escarlate.

Quisera qualquer coisa provisória
Que a minha cerebral caverna entrasse,
E até ao fim, cortasse e recortasse
A faculdade aziaga da memória.

Na ascensão barométrica da calma,
Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,
Que uma população doente do peito
Tossia sem remédio na minh'alma!

E o cuspo que essa hereditária tosse
Golfava, à guisa de ácido resíduo,
Não era o cuspo só de um indivíduo
Minado pela tísica precoce.

Não! Não era o meu cuspo, com certeza
Era a expectoração pútrida e crassa
Dos brônquios pulmonares de uma raça
Que violou as leis da Natureza!

Era antes uma tosse úbiqua, estranha,
Igual ao ruído de um calhau redondo
Arremessado no apogeu do estrondo,
Pelos fundibulários da montanha!

E a saliva daqueles infelizes
Inchava, em minha boca, de tal arte,
Que eu, para não cuspir por toda a parte,
Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!

Na alta alucinação de minhas cismas
O microcosmos líquido da gota
Tinha a abundância de uma artéria rota,
Arrebentada pelos aneurismas.

Chegou-me o estado máximo da mágoa!
Duas, três, quatro, cinco, seis e sete
Vezes que eu me furei com um canivete,
A hemoglobina vinha cheia de água!

Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,
Sob a forma de mínimas camândulas,
Benditas sejam todas essas glândulas,
Que, quotidianamente, te segregam!

Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do Cristianismo!

Porque, se no orbe oval que os meus pés tocam
Eu não deixasse o meu cuspo carrasco,
Jamais exprimiria o acérrimo asco
Que os canalhas do mundo me provocam!

II

Foi no horror dessa noite tão funérea
Que eu descobri, maior talvez que Vinci,
Com a força visualística do lince,
A falta de unidade na matéria!

Os esqueletos desarticulados,
Livres do acre fedor das carnes mortas,
Rodopiavam, com as brancas tíbias tortas,
Numa dança de números quebrados!

Todas as divindades malfazejas,
Siva e Arimã, os duendes, o In e os trasgos,
Imitando o barulho dos engasgos,
Davam pancadas no adro das igrejas.

Nessa hora de monólogos sublimes,
A companhia dos ladrões da noite,
Buscando uma taverna que os acoite,
Vai pela escuridão pensando crimes.

Perpetravam-se os actos mais funestos,
E o luar, da cor de um doente de icterícia,
Iluminava, a rir, sem pudicícia,
A camisa vermelha dos incestos.

Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me,
Mas um lampião, lembrava ante o meu rosto,
Um sugestionador olho, ali posto
De propósito, para hipnotizar-me!

Em tudo, então, meus olhos distinguiram
Da miniatura singular de uma aspa,
À anatomia mínima da caspa,
Embriões de mundos que não progrediram!

Pois quem não vê aí, em qualquer rua,
Com a fina nitidez de um claro jorro,
Na paciência budista do cachorro
A alma embrionária que não continua?!

Ser cachorro! Ganir incompreendidos
Verbos! Querer dizer-nos que não finge,
E a palavra embrulhar-se no laringe,
Escapando-se apenas em latidos!

Despir a putrescível forma tosca,
Na atra dissolução que tudo inverte,
Deixar cair sobre a barriga inerte
O apetite necrófago da mosca!

A alma dos animais! Pego-a, distingo-a,
Acho-a nesse interior duelo secreto
Entre a ânsia de um vocábulo completo
E uma expressão que não chegou à língua!

Surpreendo-a em quatriliões de corpos vivos,
Nos antiperistálticos abalos
Que produzem nos bois e nos cavalos
A contracção dos gritos instintivos!

Tempo viria, em que, daquele horrendo
Caos de corpos orgânicos disformes
Rebentariam cérebros enormes,
Como bolhas febris de água, fervendo!

Nessa época que os sábios não ensinam,
A pedra dura, os montes argilosos
Criariam feixes de cordões nervosos
E o neuroplasma dos que raciocinam!

Almas pigméias! Deus subjuga-as, cinge-as
À imperfeição! Mas vem o Tempo, e vence-O,
E o meu sonho crescia no silêncio,
Maior que as epopéias carolíngias!

Era a revolta trágica dos tipos
Ontogênicos mais elementares,
Desde os foraminíferos dos mares
À grei liliputiana dos pólipos.

Todos os personagens da tragédia,
Cansados de viver na paz de Buda,
Pareciam pedir com a boca muda
A ganglionária célula intermédia.

A planta que a canícula ígnea torra,
E as coisas inorgânicas mais nulas
Apregoavam encéfalos, medulas
Na alegria guerreira da desforra!

Os protistas e o obscuro acervo rijo
Dos espongiários e dos infusórios
Recebiam com os seus órgãos sensórios
O triunfo emocional do regozijo!

E apesar de já ser assim tão tarde,
Aquela humanidade parasita,
Como um bicho inferior, berrava, aflita,
No meu temperamento de covarde!

Mas, refletindo, a sós, sobre o meu caso,
Vi que, igual a um amniota subterrâneo,
Jazia atravessada no meu crânio
A intercessão fatídica do atraso!

A hipótese genial do microzima
Me estrangulava o pensamento guapo,
E eu me encolhia todo como um sapo
Que tem um peso incômodo por cima!

Nas agonias do delirium-tremens,
Os bêbedos alvares que me olhavam,
Com os copos cheios esterilizavam
A substância prolífica dos semens!

Enterram as mãos dentro das goelas,
E sacudidos de um tremor indômito
Expeliam, na dor forte do vômito,
Um conjunto de gosmas amarelas.

Iam depois dormir nos lupanares
Onde, na glória da concupiscência,
Depositavam quase sem consciência
As derradeiras forças musculares.

Fabricavam destarte os blastodermas,
Em cujo repugnante receptáculo
Minha perscrutação via o espetáculo
De uma progênie idiota de palermas.

Prostituição ou outro qualquer nome,
Por tua causa, embora o homem te aceite,
É que as mulheres ruins ficam sem leite
E os meninos sem pai morrem de fome!

Por que há de haver aqui tantos enterros?
Lá no "Engenho" também, a morte é ingrata...
Há o malvado carbúnculo que mata
A sociedade infante dos bezerros!

Quantas moças que o túmulo reclama!
E após a podridão de tantas moças,
Os porcos esponjando-se nas poças
Da virgindade reduzida à lama!

Morte, ponto final da última cena,
Forma difusa da matéria embele,
Minha filosofia te repele,
Meu raciocínio enorme te condena!

Diante de ti, nas catedrais mais ricas,
Rolam sem eficácia os amuletos,
Oh! Senhora dos nossos esqueletos
E das caveiras diárias que fabricas!

E eu desejava ter, numa ânsia rara,
Ao pensar nas pessoas que perdera,
A inconsciência das máscaras de cera
Que a gente prega, com um cordão, na cara!

Era um sonho ladrão de submergir-me
Na vida universal, e, em tudo imerso,
Fazer da parte abstracta do Universo,
Minha morada equilibrada e firme!

Nisto, pior que o remorso do assassino,
Reboou, tal qual, num fundo de caverna,
Numa impressionadora voz interna,
O eco particular do meu Destino:

III

"Homem! por mais que a Idéia desintegres,
Nessas perquisições que não têm pausa,
Jamais, magro homem, saberás a causa
De todos os fenômenos alegres!

Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas
A estéril terra, e a hialina lâmpada oca,
Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!)
O conteúdo das lágrimas hediondas.

Negro e sem fim é esse em que te mergulhas
Lugar do Cosmos, onde a dor infrene
É feita como é feito o querosene
Nos recôncavos úmidos das hulhas!

Porque, para que a Dor perscrutes, fora
Mister que, não como és, em síntese, antes
Fosses, a reflectir teus semelhantes,
A própria humanidade sofredora!

A universal complexidade é que Ela
Compreende. E se, por vezes, se divide,
Mesmo ainda assim, seu todo não reside
No quociente isolado da parcela!

Ah! Como o ar imortal a Dor não finda!
Das papilas nervosas que há nos tatos
Veio e vai desde os tempos mais transatos
Para outros tempos que hão de vir ainda!

Como o machucamento das insônias
Te estraga, quando toda a estuada Idéia
Dás ao sôfrego estudo da ninféia
E de outras plantas dicotiledôneas!

A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua
Que da ígnea flama bruta, estriada, espirra;
A formação molecular da mirra,
O cordeiro simbólico da Páscoa;

As rebeladas cóleras que rugem
No homem civilizado, e a ele se prendem
Como às pulseiras que os mascates vendem
A aderência teimosa da ferrugem;

O orbe feraz que bastos tojos acres
Produz; a rebelião que, na batalha,
Deixa os homens deitados, sem mortalha,
Na sangueira concreta dos massacres;

Os sanguinolentíssimos chicotes
Da hemorragia; as nódoas mais espessas,
O achatamento ignóbil das cabeças,
Que ainda degrada os povos hotentotes;

O Amor e a Fome, a fera ultriz que o fojo
Entra, à espera que a mansa vítima o entre,
— Tudo que gera no materno ventre
A causa fisiológica do nojo;

As pálpebras inchadas na vigília,
As aves moças que perderam a asa,
O fogão apagado de uma casa,
Onde morreu o chefe da família;

O trem particular que um corpo arrasta
Sinistramente pela via-férrea,
A cristalização da massa térrea,
O tecido da roupa que se gasta;

A água arbitrária que hiulcos caules grossos
Carrega e come; as negras formas feias
Dos aracnídeos e das centopéias,
O fogo-fátuo que ilumina os ossos;

As projecções flamívomas que ofuscam,
Como uma pincelada rembrandtesca,
A sensação que uma coalhada fresca
Transmite às mãos nervosas dos que a buscam;

O antagonismo de Tifon e Osíris,
O homem grande oprimindo o homem pequeno,
A lua falsa de um parasseleno,
A mentira mateórica do arco-íris;

Os terremotos que, abalando os solos,
Lembram paióis de pólvora explodindo,
A rotação dos fluidos produzindo
A depressão geológica dos pólos;

O instinto de procriar, a ânsia legítima
Da alma, afrontando ovante aziagos riscos,
O juramento dos guerreiros priscos
Metendo as mãos nas glândulas da vítima;

As diferenciações que o psicoplasma
Humano sofre na mania mística,
A pesada opressão característica
Dos dez minutos de um acesso de asma;

E, (conquanto contra isto ódios regougues)
A utilidade fúnebre da corda
Que arrasta a rês, depois que a rês engorda,
A morte desgraçada dos açougues...

Tudo isto que o terráqueo abismo encerra
Forma a complicação desse barulho
Travado entre o dragão do humano orgulho
E as forças inorgânicas da terra!

Por descobrir tudo isso, embalde cansas!
Ignoto é o gérmen dessa força ativa
Que engendra, em cada célula passiva,
A heterogeneidade das mudanças!

Poeta, feto malsão, criado com os sucos
De um leite mau, carnívoro asqueroso,
Gerado no atavismo monstruoso
Da alma desordenada dos malucos;

Última das criaturas inferiores
Governada por átomos mesquinhos,
Teu pé mata a uberdade dos caminhos
E esteriliza os ventres geradores!

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes,
Análogo é ao que, negro e a seu turno,
Traz o ávido filóstomo noturno,
Ao sangue dos mamíferos vorazes!

Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes
A perfeição dos seres existentes,
Hás de mostrar a cárie dos teus dentes
Na anatomia horrenda dos detalhes!

O Espaço — esta abstração spenceriana
Que abrange as relações de coexistência
É só! Não tem nenhuma dependência
Com as vértebras mortais da espécie humana!

As radiantes elipses que as estrelas
Traçam, e ao espectador falsas se antolham
São verdades de luz que os homens olham
Sem poder, no entretanto, compreendê-las.

Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes
Que essa mão, de esqueléticas falanges,
Dentro dessa água que com a vista abranges,
Também prova o princípio de Arquimedes!

A fadiga feroz que te esbordoa
Há de deixar-te essa medonha marca,
Que, nos corpos inchados de anasarca,
Deixam os dedos de qualquer pessoa!

Nem terás no trabalho que tiveste
A misericordiosa toalha amiga,
Que afaga os homens doentes de bexiga
E enxuga, à noite, as pústulas da peste!

Quando chegar depois a hora tranqüila,
Tu serás arrastado, na carreira,
Como um cepo inconsciente de madeira
Na evolução orgânica da argila!

Um dia comparado com um milênio
Seja, pois, o teu último Evangelho...
E a evolução do novo para o velho
E do homogêneo para o heterogêneo!

Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo
A apodrecer!. .. És poeira, e embalde vibras!
O corvo que comer as tuas fibras
Há de achar nelas um sabor amargo!"

IV

Calou-se a voz. A noite era funesta.
E os queixos, a exibir trismos danados,
Eu puxava os cabelos desgrenhados
Como o Rei Lear, no meio da floresta!

Maldizia, com apóstrofes veementes,
No estentorde mil línguas insurrectas,
O convencionalismo das Pandectas
E os textos maus dos códigos recentes!

Minha imaginação atormentada
Paria absurdos... Como diabos juntos,
Perseguiam-me os olhos dos defuntos
Com a carne da esclerótica esverdeada.

Secara a clorofila das lavouras.
Igual aos sostenidos de uma endeixa,
Vinha me às cordas glóticas a queixa
Das coletividades sofredoras.

O mundo resignava-se invertido
Nas forças principais do seu trabalho...
A gravidade era um princípio falho,
A análise espectral tinha mentido!

O Estado, a Associação, os Municípios
Eram mortos. De todo aquele mundo
Restava um mecanismo moribundo
E uma teleologia sem princípios.

Eu queria correr, ir para o inferno,
Para que, da psique no oculto jogo,
Morressem sufocadas pelo fogo
Todas as impressões do mundo externo!

Mas a Terra negava-me o equilíbrio...
Na Natureza, uma mulher de luto
Cantava, espiando as árvores sem fruto,
A canção prostituta do ludíbrio!

A palavra de Cristo não é um livro

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Creio na humanidade de Cristo

Poema do dia 12.11.2017

ABOIO
Charles Fonseca

Um pastor toca no vale
Docemente sua tuba
Quem o segue não se turba
Berra um, um outro bale.

Tange um contra espinhos
Outro cerca, desce a vara
Docemente e cara a cara
Se entendem há um caminho

A seguir há um horizonte
Os espera um beira rio
Ri o pastor, aboio é o fio
Condutor, adia
nte a fonte.

Ergue a fronte, vem a tarde
Todos seguem ao aprisco
Já cevados, longe o risco,
Põe-se o sol, a noite invade.

Clique:
http://charlesfonseca.blogspot.com.br/2012/03/o-aboio-do-vaqueiro-nordestino.html

A chave para entender o Protestantismo

Quem se arrisca a adivinhar o nome do próximo bandido a ser preso?

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sábado, novembro 11, 2017

Dá ouvidos a teu pai, àquele que te gerou e não desprezes tua mãe quando envelhecer.

Provérbios, 23

1.Quando te assentares à mesa com um grande, considera com atenção quem está diante de ti: 2.põe uma faca na tua garganta, se tu sentes muito apetite; 3.não cobices seus manjares que são alimentos enganosos. 4.Não te afadigues para te enriqueceres, evita aplicar a isso teu espírito. 5.Mal fixas os olhos nos bens, e nada mais há, porque a riqueza tem asas como a águia que voa para o céu. 6.Não comas com homem invejoso, não cobices seus manjares, 7.porque ele se mostra tal qual se calculou em si mesmo. Ele te diz: Come e bebe, mas seu coração não está contigo. 8.Comido o bocado, tu o vomitarás e desperdiçarás tuas amabilidades. 9.Não fales aos ouvidos do insensato porque ele desprezaria a sabedoria de tuas palavras. 10.Não toques no marco antigo, não penetres na terra dos órfãos 11.porque seu vingador é poderoso e defenderá sua causa contra ti. 12.Aplica teu coração à instrução e teus ouvidos às palavras da ciência. 13.Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não morrerá, 14.castigando-o com a vara, salvarás sua vida da morada dos mortos. 15.Meu filho, se o teu espírito for sábio, meu coração alegrar-se-á contigo! 16.Meus rins estremecerão de alegria, quando teus lábios proferirem palavras retas. 17.Que teu coração não inveje os pecadores, mas permaneça sempre no temor do Senhor 18.porque [então] haverá certamente um futuro e tua esperança não será frustrada. 19.Ouve, meu filho: sê sabio, dirige teu coração pelo caminho reto, 20.não te ajuntes com os bebedores de vinho, com aqueles que devoram carnes, 21.pois o ébrio e o glutão se empobrecem e a sonolência veste-se com andrajos. 22.Dá ouvidos a teu pai, àquele que te gerou e não desprezes tua mãe quando envelhecer. 23.Adquire a verdade e não a vendas, adquire sabedoria, instruções e inteligência. 24.O pai do justo exultará de alegria; aquele que gerou um sábio alegrar-se-á nele. 25.Que teu pai se alegre por tua causa, que viva na alegria aquela que te deu à luz! 26.Meu filho, dá-me teu coração. Que teus olhos observem meus caminhos, 27.pois a meretriz é uma fossa profunda e a entranha, um poço estreito: 28.como um salteador ele fica de emboscada e, entre os homens, multiplica os infiéis. 29.Para quem os ah? Para quem os ais? Para quem as contendas? Para quem as queixas? Para quem as feridas sem motivo? Para quem o vermelho dos olhos? 30.Para aqueles que permanecem junto ao vinho, para aqueles que vão saborear o vinho misturado. 31.Não consideres o vinho: como ele é vermelho, como brilha no copo, como corre suavemente! 32.Mas, no fim, morde como uma serpente e pica como um basilisco! 33.Os teus olhos verão coisas estranhas, teu coração pronunciará coisas incoerentes. 34.Serás como um homem adormecido no fundo do mar, ou deitado no cimo dum mastro: 35.Feriram-me, dirás tu; e não sinto dor! Bateram-me... e não sinto nada. Quando despertei eu? Quero mais ainda!"

Em que local você teve dificuldade em ser pessoa honesta?

Homilia Diária.689: Memória de São Martinho de Tours, Bispo

Poema do dia 11.11.2017

A CEIFA DERRADEIRA
Charles Fonseca

Tu que vieste na hora derradeira
De sua partida o que de mim levaste?
Trouxeste a pá de cal, à sombra calaste,
E foste em silencio, alcoviteira.

Vieste a mim no leva-e-traz de falas
Do falso brilho vieste dar faxina
De falsa sina, mataste à surdina
O que em mim restava, jogaste às valas.
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Ney Matogrosso Mal Necessário (Legendado) HD 2014

quinta-feira, novembro 09, 2017

Deixe tudo em pratos limpos

Amor filial em ato

O filho que tantas vezes duvidou que era seu pai cuidou do velhinho com desvelo até sua partida.

Rembrandt. Pintura

Amigo

Em silêncio apertou minha mão com um leve sorriso que interpretei como a dizer: amigo.

Poema do dia 09.11.2017

A CADA DIA
Charles Fonseca

A cada dia o início mais distante,
Está mais próximo o fim, a cada noite,
Da partida, só a esperança não foi-se
De ainda estar contigo mais um instante.

A cada vez, afunda no oceano
A nau de minha vida, estou num bote,
Mar em procelas me afastam do meu norte,
Que és tu, amada minha, só a ti amo.
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Dona Yvonne Lara - Sorriso Negro - Ao vivo

Homilia Diária.687: Festa da Dedicação da Basílica do Latrão

Valença. Bahia


A mediação sobre o Tietê. Mário de Andrade

A MEDITAÇÃO SOBRE O TIETÊ
Mário de Andrade
(trecho inicial)

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
— Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...

É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco
[ admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oleosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite tão vasta
O peito do rio, que é como se a noite fosse
[ água,
Água noturna, noite líquida, afogando de
[ apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De
[ repente
O óleo das águas recolhe em cheio luzes
[ trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios
[ e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e
[ fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada
[ forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E
[ deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de
[ novo,
Está negro. As águas oleosas e pesadas se
[ aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um
[ caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração
[ devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite
[ insone e humana.

Ariano Suassuna • Me dê Sua Tristeza, Que lhe Dou Minha Alegria

Subliminar

Ocorre às vezes se evitar maior convivência da pessoa alienável com seus filhos. Subliminar.

Quando a dor for demais, chore.

quarta-feira, novembro 08, 2017

Atos dos Apóstolos, 27

1.Logo que foi determinado que embarcássemos para a Itália, Paulo foi entregue com outros presos a um centurião da coorte Augusta, chamado Júlio. 2.Embarcamos num navio de Adramito que devia costear as terras da Ásia, e levantamos âncora. Em nossa companhia estava Aristarco, macedônio de Tessalônica. 3.No dia seguinte, fazendo escala em Sidônia, Júlio, usando de bondade com Paulo, permitiu-lhe ir ver os seus amigos e prover-se do que havia de necessário. 4.Dali, fazendo-nos ao mar, fomos navegando perto das costas de Chipre, por nos serem contrários os ventos. 5.Tendo atravessado o mar da Cilícia e da Panfília, chegamos a Mira, cidade da Lícia. 6.O centurião encontrou ali um navio de Alexandria, que rumava para a Itália, e fez-nos passar para ele. 7.Por muitos dias navegamos lentamente e com dificuldade até diante de Cnido, onde o vento não nos permitiu aportar. 8.Fomos então costeando ao sul da ilha de Creta, junto ao cabo Salmona. Navegando com dificuldade ao longo da costa, chegamos afinal a um lugar, a que chamam Bons Portos, perto do qual está a cidade de Lasaia. 9.Passara o tempo - já havia passado a época do jejum - e a navegação se tornava perigosa. Paulo advertiu-os: 10.Amigos, vejo que a navegação não se fará sem perigo e sem graves danos, não somente ao navio e à sua carga, mas ainda às nossas vidas. 11.O centurião, porém, dava mais crédito ao piloto e ao mestre do que ao que Paulo dizia. 12.O porto era impróprio para passar o inverno, pelo que a maior parte deles foi de parecer que se retornasse ao mar, na esperança de chegar a Fenice, para passar ali o inverno, por ser esse um porto de Creta, abrigado dos ventos do sudeste e do nordeste. 13.Soprava então brandamente o vento sul. Julgavam poder executar os seus planos. Levantaram a âncora e foram costeando de perto a ilha de Creta. 14.Mas, não muito depois, veio do lado da ilha um tufão chamado Euroaquilão. 15.Sem poder resistir à ventania, o navio foi arrebatado e deixamo-nos arrastar. 16.Impelidos rapidamente para uma pequena ilha chamada Cauda, conseguimos, com muito esforço, recolher o batel. 17.Içaram-no e, depois, como meio de segurança, cingiram o navio com cabos. Então, temendo encalhar em Sirte, arriaram as velas e entregaram-se à mercê dos ventos. 18.No dia seguinte, sendo a tempestade ainda mais violenta, atiraram fora a carga. 19.No terceiro dia, atiramos para fora com as nossas próprias mãos os acessórios do navio. 20.Ora, não aparecendo por muitos dias nem sol nem estrelas e sendo batidos por forte tempestade, tínhamos por fim perdido toda a esperança de sermos salvos. 21.Desde muito tempo ninguém havia comido nada. Paulo levantou-se no meio deles e disse: Amigos, deveras devíeis ter-me atendido e não ter saído de Creta, e assim evitar esse perigo e essas perdas. 22.Agora, porém, vos admoesto a que tenhais coragem, pois não perecerá nenhum de vós, mas somente o navio. 23.Esta noite apareceu-me um anjo de Deus, a quem pertenço e a quem sirvo, o qual me disse: 24.Não temas, Paulo. É necessário que compareças diante de César. Deus deu-te todos os que navegam contigo. 25.Por isso, amigos, coragem! Eu confio em Deus que há de acontecer como me foi dito. 26.Vamos dar a uma ilha. 27.Já estávamos na décima quarta noite, pelo mar Adriático, quando, pela meia-noite, os marinheiros pressentiram que estavam perto de alguma terra. 28.Então, atirando a sonda, perceberam que a profundidade era de vinte braças. Depois, um pouco mais adiante, viram que era de quinze braças. 29.Temendo que déssemos em algum recife, lançaram quatro âncoras da popa, esperando ansiosos que amanhecesse o dia. 30.Imediatamente, os marinheiros procuraram fugir e, sob o pretexto de largar as âncoras da proa, lançaram o bote ao mar. 31.Paulo disse ao centurião e aos soldados: Se estes homens não permanecerem no navio, não podereis salvar-vos. 32.Os soldados cortaram, então, os cabos do bote e deixaram-no cair. 33.Enquanto ia amanhecendo, Paulo encorajou a todos que comessem alguma coisa, e disse: Já faz hoje catorze dias que estais em jejum, sem comer nada. 34.Rogo-vos que comais alguma coisa, no interesse de vossa vida, porque nem um cabelo da cabeça de alguém de vós perecerá. 35.Tendo dito isso, tomou do pão, pronunciou uma bênção na presença de todos e, depois de parti-lo, começou a comer. 36.Com isso, todos cobraram ânimo e puseram-se igualmente a comer. 37.No navio éramos ao todo duzentas e setenta e seis pessoas. 38.Depois de terem comido à vontade, aliviaram o navio, atirando o trigo ao mar. 39.Afinal, clareou o dia. Os marinheiros não reconheceram a terra, mas viram uma enseada com uma praia, na qual tencionavam encalhar o navio, caso o pudessem. 40.Levantaram as âncoras e largaram ao mesmo tempo as amarras dos lemes. Desfraldaram ao vento a vela mestra e rumaram para a praia. 41.Mas deram numa língua de terra, e o navio encalhou aí. A proa, encalhada, permanecia imóvel, ao mesmo tempo que a popa se abria com a força do mar. 42.Os soldados tencionavam matar os presos, por temerem que algum deles fugisse a nado. 43.O centurião, porém, querendo salvar Paulo, impediu que o fizessem e ordenou que aqueles que pudessem nadar fossem os primeiros a lançar-se ao mar e alcançar a terra. 44.Os demais, uns atingiram a terra em tábuas, outros em cima dos destroços do navio. Desse modo, todos conseguiram chegar à terra, sãos e salvos."

Embora só a conheça a treze anos sou apaixonado por ela desde a sua infância

segunda-feira, novembro 06, 2017

Nem toda conversa humilde é totalmente sincera

Todos escondem uma sujeirinha

Epigrama. Nuno Giudice

EPIGRAMA
Nuno Júdice

A loucura é a grandeza dos simples:
assim são eles mais do que eles,
colhendo flores brancas e reles.

Os doidos, de olhos arregalados,
crescem devagar como as árvores:
só não dão folhas nem frutos.

Amo as suas frases sem sentido:
dobram nelas os sinos abstractos
de um campanário sem janelas.

Dai-me, ó loucos, a vossa razão
— esses remos de subir o tempo
até à fonte de um deus obsceno e nu.

Ensina à criança o caminho que ela deve seguir; mesmo quando envelhecer, dele não se há de afastar.

Provérbios, 22

1.Bom renome vale mais que grandes riquezas; a boa reputação vale mais que a prata e o ouro. 2.Rico e pobre se encontram: foi o Senhor que criou a ambos. 3.O homem prudente percebe a aproximação do mal e se abriga, mas os imprudentes passam adiante e recebem o dano. 4.O prêmio da humildade é o temor do Senhor, a riqueza, a honra e a vida. 5.Espinhos e laços há no caminho do perverso; quem guarda sua vida retira-se para longe deles. 6.Ensina à criança o caminho que ela deve seguir; mesmo quando envelhecer, dele não se há de afastar. 7.O rico domina os pobres: o que toma emprestado torna-se escravo daquele que lhe emprestou. 8.Aquele que semeia o mal, recolhe o tormento: a vara de sua ira o ferirá. 9.O homem benevolente será abençoado porque tira do seu pão para o pobre. 10.Expulsa o mofador e cessará a discórdia: ultrajes e litígios cessarão. 11.Quem ama a pureza do coração, pela graça dos seus lábios, é amigo do rei. 12.Os olhos do Senhor protegem a sabedoria, mas arruínam as palavras do pérfido. 13.Há um leão do lado de fora!, diz o preguiçoso, eu poderei ser morto na rua! 14.A boca das meretrizes é uma cova profunda; nela cairá aquele contra o qual o Senhor se irar. 15.A loucura apega-se ao coração da criança; a vara da disciplina afastá-la-á dela. 16.Quem oprime o pobre, enriquece-o. Quem dá ao rico, empobrece-o. 17.Presta atenção às minhas palavras, aplica teu coração à minha doutrina, 18.porque é agradável que as guardes dentro de teu coração e que elas permaneçam, todas, presentes em teus lábios. 19.É para que o Senhor seja tua confiança, que quero instruir-te hoje. 20.Desde muito tempo eu te escrevi conselhos e instruções, 21.para te ensinar a verdade das coisas certas, para que respondas certo àquele que te indaga. 22.Não despojes o pobre, porque é pobre, não oprimas o fraco à porta da cidade, 23.porque o Senhor pleiteará sua causa e tirará a vida aos que os despojaram. 24.Não faças amizade com um homem colérico, não andes com o violento, 25.há o perigo de que aprendas os seus costumes e prepares um laço fatal. 26.Não sejas daqueles que se obrigam, apertando a mão, e se fazem fiadores de dívidas; 27.se não tens com que pagar, arrebatar-te-ão teu leito debaixo de ti. 28.Não passes além dos marcos antigos que puseram teus pais. 29.Viste um homem hábil em sua obra? Ele entrará ao serviço dos reis, e não ficará entre gente obscura."

E se casou com um patrimônio inexistente

Do meu quintal


domingo, novembro 05, 2017

Não tente ultrapassar seus limites mesmo que o professor de educação física lhe acene com uma cenoura

A infância dos filhos pode ser a primeira e única concessão a uma paternidade feliz

Se te nomeiam como exemplo a ser seguido te aprisionam e a inveja te olhará trás as grades

Filhas raramente perdoam a separação do pai

Jane Austen en Bath Festival Baile de Máscaras

Pois que há um sorriso triste

Deus nos torna capazes de amar

A Graça e o Diálogo Ecumênico

Amigos delicados silenciam amigos inoportunos semanalmente

Democraticamente acolha o companheiro que pensa ser popular

O pai Olavo

"Minha Filha,

Eu felizmente mudei, você e seus amigos não.

Mas te perdoo.

Seu Pai, Olavo.”

sábado, novembro 04, 2017

Pleno. Charles Fonseca. Poesia

PLENO
Charles Fonseca

Até amanhã todos os dias
Todas as noites durma meu bem
Nas madrugadas sem mais ninguém
Eu te abraço e em agonias

Te quero mais inda que menos
Te tenha perto braços Morfeu
Te embalam muito espero eu
Te aguardo e cresço por ti pleno

Atos dos Apóstolos, 26

1.Agripa disse a Paulo: Tens permissão de fazer a tua defesa. Paulo então fez um gesto com a mão e começou a sua justificação: 2.Julgo-me feliz de poder hoje fazer a minha defesa, na tua presença, ó rei Agripa, de tudo quanto me acusam os judeus, 3.porque tu conheces perfeitamente os seus costumes e controvérsias. Peço-te, pois, que me ouças com paciência. 4.Minha vida, desde a minha primeira juventude, tem decorrido no meio de minha pátria e em Jerusalém, e é conhecida dos judeus. 5.Sabem eles, desde longa data, e se quiserem poderão testemunhá-lo, que vivi segundo a seita mais rigorosa da nossa religião, isto é, como fariseu. 6.Mas agora sou acusado em juízo, por esperar a promessa que foi feita por Deus a nossos pais, 7.e a qual as nossas doze tribos esperam alcançar, servindo a Deus noite e dia. Por essa esperança, ó rei, é que sou acusado pelos judeus. 8.Que pensais vós? É coisa incrível que Deus ressuscite os mortos? 9.Também eu acreditei que devia fazer a maior oposição ao nome de Jesus de Nazaré. 10.Assim procedi de fato em Jerusalém e tenho encerrado muitos irmãos em cárceres, havendo recebido para isso poder dos sumos sacerdotes; quando os sentenciavam à morte, eu dava a minha plena aprovação. 11.Muitas vezes, perseguindo-os por todas as sinagogas, eu os maltratava para obrigá-los a blasfemar. Enfurecendo-me mais e mais contra eles, eu os perseguia até no estrangeiro. 12.Nesse intuito, fui a Damasco, com poder e comissão dos sumos sacerdotes. 13.Era meio-dia, ó rei. Eu estava a caminho quando uma luz do céu, mais fulgurante que o sol, brilhou em torno de mim e dos meus companheiros. 14.Caímos todos nós por terra, e ouvi uma voz que me dizia em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra o aguilhão. 15.Então eu disse: Quem és, Senhor? O Senhor respondeu: Eu sou Jesus, a quem persegues. 16.Mas levanta-te e põe-te em pé, pois eu te apareci para te fazer ministro e testemunha das coisas que viste e de outras para as quais hei de manifestar-me a ti. 17.Escolhi-te do meio do povo e dos pagãos, aos quais agora te envio 18.para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em mim, recebam perdão dos pecados e herança entre os que foram santificados. 19.Desde então, ó rei, não fui desobediente à visão celestial. 20.Preguei primeiramente aos de Damasco e depois em Jerusalém e por toda a terra da Judéia, e aos pagãos, para que se arrependessem e se convertessem a Deus, fazendo dignas obras correspondentes. 21.Por isso, os judeus me prenderam no templo e tentaram matar-me. 22.Mas, assistido do socorro de Deus, permaneço vivo até o dia de hoje. Dou testemunho a pequenos e a grandes, nada dizendo senão o que os profetas e Moisés disseram que havia de acontecer, 23.a saber: que Cristo havia de padecer e seria o primeiro que, pela ressurreição dos mortos, havia de anunciar a luz ao povo judeu e aos pagãos. 24.Dizendo ele essas coisas em sua defesa, Festo exclamou em alta voz: Estás louco, Paulo! O teu muito saber tira-te o juízo. 25.Paulo, então, respondeu: Não estou louco, excelentíssimo Festo, mas digo palavras de verdade e de prudência. 26.Pois dessas coisas tem conhecimento o rei, em cuja presença falo com franqueza. Sei que nada disso lhe é oculto, porque nenhuma dessas coisas se fez ali ocultamente. 27.Crês, ó rei, nos profetas? Bem sei que crês! 28.Disse então Agripa a Paulo: Por pouco não me persuades a fazer-me cristão! 29.Respondeu Paulo: Prouvera a Deus que, por pouco e por muito, não somente tu, senão também quantos me ouvem, se fizessem hoje tal qual eu sou... menos estas algemas! 30.Então o rei, o governador, Berenice e os que estavam sentados com eles se levantaram. 31.Retirando-se, comentavam uns com os outros: Esse homem não fez coisa que mereça a morte ou prisão. 32.Agripa ainda disse a Festo: Ele poderia ser solto, se não tivesse apelado para César."

Homilia Diária.683: Memória de São Carlos Borromeu, Bispo

Um dia, quem sabe, um dia...

sexta-feira, novembro 03, 2017

Fale comigo com polissílabos em série

Nascimento do poema. Dora Ferreira da Silva

NASCIMENTO DO POEMA
Dora Ferreira da Silva

É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.

De Andanças (1948-1970)

Só extremado amor aos filhos faz prolongar conivência capenga

Lindo


quinta-feira, novembro 02, 2017

Fundo de casa


Já descansei de te esperar

Lagoa da Conceição. Florianópolis.


Deus existe? Suma Teológica. São Tomás de Aquino

Questão 2: Deus existe?
O principal intento, pois, da doutrina sagrada é transmitir o conhecimento de Deus, não somente enquanto existente em si, mas ainda como princípio e fim dos seres, e, especialmente, da criatura racional, como é claro pelo que antes se disse. Ora, pretendendo fazer a exposição desta doutrina,
1o. trataremos de Deus; 2o. do movimento da criatura racional para Deus; 3o. de Cristo que, enquanto homem, é via para tendermos a Deus.
Mas a consideração sobre Deus será tripartida. Assim, 1o. trataremos do que pertence à essência divina;
2o. do que pertence à distinção das pessoas; 3o. do que pertence à processão, que de Deus têm as
criaturas.

Sobre a essência divina, porém, devemos considerar: 1o. se Deus existe; 2o. como é, ou antes, como não
é; 3o. devemos considerar o que pertence à operação de Deus, a saber, a ciência, a vontade e o poder.

Na primeira questão discutem-se três artigos:
Art. 1 — Se a existência de Deus é por si mesma conhecida.
(I Sent., dist. 3, q. 1, a. 2; Cont. Gent. I, 10, 11; III, 38; De Verit., q. 10, a. 12; De Pot., q. 7, a. 2, ad 2; in Os
8; in Boet. De Trin., q. 1, a. 3, ad 6)
O primeiro discute-se assim — Parece que a existência de Deus é conhecida por si mesma.
1. — Pois são assim conhecidas de nós as coisas cujo conhecimento temos naturalmente, como é claro
quantos aos primeiros princípios. Ora, diz Damasceno: O conhecimento da existência de Deus é
naturalmente ínsito em todos. Logo, a existência de Deus é conhecida por si mesma.
2. Demais — Dizem-se por si mesmas conhecidas as proposições que, conhecidos os termos,
imediatamente se conhecem, o que o filósofo atribui aos primeiros princípios da demonstração; pois
sabido o que são o todo e a parte, imediatamente se sabe ser qualquer todo maior que a parte. Ora,
inteligida a significação do nome Deus, imediatamente se intelige o que é Deus. Pois, tal nome significa
aquilo do que se não pode exprimir nada maior; ora, maior é o existente real e intelectualmente, do que
o existente apenas intelectualmente. Donde, como o nome de Deus, uma vez inteligido, imediatamente
existe no intelecto, segue-se que também existe realmente. Logo, a existência de Deus é por si mesma
conhecida.
3. Demais — A existência da verdade é por si mesma conhecida, pois quem lhe nega a existência a
concede; porquanto, se não existe, é verdade que não existe. Portanto, se alguma coisa é verdadeira, é
necessária a existência da verdade. Ora, Deus é a própria verdade, como diz a Escritura (Jo 14, 6): Eu sou
o caminho, a verdade e a vida. Logo, a existência de Deus é por si mesma conhecida.
Mas, em contrário — Ninguém pode pensar o contrário do que é conhecido por si, como se vê no
Filósofo, sobre os primeiros princípios da demonstração. Ora, podemos pensar o contrário da existência
de Deus, segundo a Escritura (Sl 52, 1): Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Logo, a existência
de Deus não é por si conhecida.

SOLUÇÃO. — De dois modos pode uma coisa ser conhecida por si: absolutamente, e não relativamente
a nós; e absolutamente e relativamente a nós. Pois qualquer proposição é conhecida por si, quando o
predicado se inclui em a noção do sujeito, p. ex.: O homem é um animal, pertencendo animal à noção
de homem. Se, portanto, for conhecido de todos o que é o predicado e o sujeito, tal proposição será
para todos evidente; como se dá com os primeiros princípios da demonstração, cujos termos — o ser e
o não ser, o todo e a parte e semelhantes — são tão comuns que ninguém os ignora. Mas, para quem
não souber o que são o predicado e o sujeito, a proposição não será evidente, embora o seja,
considerada em si mesma. E por isso, como diz Boécio, certas concepções de espírito são comuns e
conhecidas por si, mas só para os sapientes, como p. ex.: os seres incorpóreos não ocupam lugar.
Digo, portanto, que a proposição Deus existe, quanto à sua natureza, é evidente, pois o predicado se
identifica com o sujeito, sendo Deus o seu ser, como adiante se verá (q. 3, a. 4). Mas, como não
sabemos o que é Deus, ela não nos é por si evidente, mas necessita de ser demonstrada, pelos efeitos
mais conhecidos de nós e menos conhecidos por natureza.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Conhecer a existência de Deus de modo geral e com
certa confusão, é-nos naturalmente ínsito, por ser Deus a felicidade do homem: pois, este naturalmente
deseja a felicidade e o que naturalmente deseja, naturalmente conhece. Mas isto não é pura e
simplesmente conhecer a existência de Deus, assim como conhecer quem vem não é conhecer Pedro,
embora Pedro venha vindo. Pois, uns pensam que o bem perfeito do homem, a felicidade, consiste nas
riquezas; outros, noutras coisas.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Talvez quem ouve o nome de Deus não o intelige como significando o ser,
maior que o qual nada possa ser pensado; pois, alguns acreditam ser Deus corpo. Porém, mesmo
concedido que alguém intelija o nome de Deus com tal significação, a saber, maior do que o qual nada
pode ser pensado, nem por isso daí se conclui que intelija a existência real do que significa tal nome,
senão só na apreensão do intelecto. Nem se poderia afirmar que existe realmente, a menos que se não
concedesse existir realmente algum ser tal que não se possa conceber outro maior, o que não é
concedido pelos que negam a existência de Deus.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A existência da verdade em geral é conhecida por si; mas a da primeira
verdade não o é, relativamente a nós.

Dali. Pintura


Poema à Virgem. Padre José de Anchieta

Poema à Virgem

Padre José de Anchieta
Escrito pelo Padre nas areias da Praia de Iperoig em Ubatuba.

Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?
Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?
Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,
Que a morte tão cruel do FILHO chora tanto?

E cujas entranhas sofre e se consome de dor,
Ao ver, ali presente, as chagas que ELE padece?
Em qualquer parte que olha, vê JESUS,
Apresentando aos teus olhos cheios de sangue.

Olha como está prostrado diante da Face do PAI,
Todo o suor de sangue do seu corpo se esvai.
Olha a multidão se comporta como ELE se ladrão fosse,
Pisam-NO e amarram as mãos presas ao pescoço.

Olha, diante de Anás, como um cruel soldado
O esbofeteia forte, com punho bem cerrado.
Vê como diante Caifás, em humildes meneios,
Aguenta mil opróbrios, socos e escarros feios.

Não afasta o rosto ao que bate, e do perverso
Que arranca Tua barba com golpes violento.
Olha com que chicote o carrasco sombrio
Dilacera do SENHOR a meiga carne a frio.

Olha como lhe rasgou a sagrada cabeça os espinhos,
E o sangue corre pela Face pura e bela.
Pois não vês que seu corpo, grosseiramente ferido
Mal susterá ao ombro o desumano peso?

Vê como os carrascos pregaram no lenho
As inocentes mãos atravessadas por cravos.
Olha como na Cruz o algoz cruel prega
Os inocentes pés o cravo atravessa.

Eis o SENHOR, grosseiramente dilacerado pendurado no tronco,
Pagando com Teu Divino Sangue o antigo crime! (Pecado Original cometido pelos primeiros pais e os subsequentes pecados da humanidade)
Vê: quão grande e funesta ferida transpassa o peito, aberto
Donde corre mistura de sangue e água.

Se o não sabes, a Mãe dolorosa reclama
Para si, as chagas que vê suportar o FILHO que ama.
Pois quanto sofreu aquele corpo inocente em reparação,
Tanto suporta o Coração compassivo da Mãe, em expiação.

Ergue-te, pois e, embora irritado com os injustos judeus
Procura o Coração da MÃE DE DEUS.
Um e outro deixaram sinais bem marcados
Do caminho claro e certo feito para todos nós.

ELE aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,
Ela o solo regou com lágrimas tremendas.
A boa Mãe procura, talvez chorando se consolar,
Se as vezes triste e piedosa as lágrimas se entregar.

Mas se tanta dor não admite consolação
É porque a cruel morte levou a vida de sua vida,
Ao menos chorarás lastimando a injúria,
Injúria, que causou a morte violenta.

Mas onde te levou Mãe, o tormento dessa dor?
Que região te guardou a prantear tal morte?
Acaso as montanhas ouvirão Teus lamentos?
Onde está a terra podre dos ossos humanos?

Acaso está nas trevas a árvore da Cruz,
Onde o Teu JESUS foi pregado por Amor?

Esta tristeza é a primeira punição da Mãe,
No lugar da alegria, segura uma dor cruel,
Enquanto a turba gozava de insensata ousadia,
Impedindo Aquele que foi destruído na Cruz.

Mãe, mas este precioso fruto de Teu ventre
Deu vida eterna a todos os fieis que O amam,
E prefere a magia do nascer à força da morte,
Ressurgindo, deixou a ti como penhor e herança.

Mas finda Tua vida, Teu Coração perseverou no amor,
Foi para o Teu repouso com um amor muito forte!
O inimigo Te arrastou a esta cruz amarga,
Que pesou incomodo em Teu doce seio.

Morreu JESUS traspassado com terríveis chagas
ELE, formoso espírito, glória e luz do mundo;
Quanta chaga sofreu e tantas LHE causaram dores;
Efetivamente, uma vida em vós era duas! (Natureza Humana e Natureza Divina do SENHOR)

Todavia conserva o Amor em Teu Coração, e jamais
Evidentemente deixou de o hospedar no Coração,
Feito em pedaços pela morte cruel que suportou
Pois à lança rasgou o Teu Coração enrijecido.

O Teu Espírito piedoso e comovido quebrou na flagelação,
A coroa de espinhos ensanguentou o Teu Coração fiel.
Contra Ti conspirou os terríveis cravos sangrentos,
Tudo que é amargo e cruel o Teu FILHO suportou na Cruz.

Morto DEUS, então porque vives Tu a Tua vida?
Porque não foste arrastada em morte parecida?
E como é que, ao morrer, não levou o Teu espírito,
Se o Teu Coração sempre uniu os dois espíritos?

Admito, não pode tantas dores em Tua vida
Suportar, aguentando se não com um amor imenso;
Se não Te alentar a força do nascimento Divino
Deixará o Teu Coração sofrendo muito mais.

Vives ainda, Mãe, sofrendo muitos trabalhos,
Já te assalta no mar onda maior e cruel.
Mas cobre Tua Face Mãe, ocultando o piedoso olhar:
Eis que a lança em fúria ataca pelo espaço leve,
Rasga o sagrado peito ao teu FILHO já morto,
Tremendo a lança indiferente no Teu Coração.

Sem dúvida tão grande sofrimento foi à síntese,
Faltava acrescentá-lo a Tuas chagas!
Esta ferida cruel permaneceu com o suplício!
Tão penoso sofrimento este castigo guardava!

Com O querido FILHO pregado a Cruz Tu querias
Que também pregassem Teus pés e mãos virginais.
ELE tomou para SI a dura Cruz e os cravos,
E deu-Te a lança para guardar no Coração.

Agora podes, ó Mãe, descansar, que possui o desejado,
A dor mudou para o fundo do Teu Coração.
Este golpe deixou o Teu corpo frio e desligado,
Só Tu compassiva guarda a cruel chaga no peito.

Ó chaga sagrada feita pelo ferro da lança,
Que imensamente nos faz amar o Amor!
Ó rio, fonte que transborda do Paraíso,
Que intumesce com água fartamente a terra!

Ó caminho real com pedras preciosas, porta do Céu,
Torre de abrigo, lugar de refúgio da alma pura!
Ó rosa que exala o perfume da virtude Divina!
Jóia lapidada que no Céu o pobre um trono tem!

Doce ninho onde as puras pombas põem ovinhos,
E as castas rolas têm garantia de suster os filhotinhos!
Ó chaga, que és um adorno vermelho e esplendor,
Feres os piedosos peitos com divinal amor!

Ó doce chaga, que repara os corações feridos,
Abrindo larga estrada para o Coração de CRISTO.
Prova do novo amor que nos conduz a união! (Amai uns aos outros como EU vos amo)
Porto do mar que protege o barco de afundar!
Em TI todos se refugiam dos inimigos que ameaçam:
TU, SENHOR, és medicina presente a todo mal!
Quem se acabrunha em tristeza, em consolo se alegra:
A dor da tristeza coloca um fardo no coração!

Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança,
Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!
Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo,
Jorrando água para a vida eterna!

Esta ferida do peito, ó Mãe, é só Tua,
Somente Tu sofres com ela, só Tu a podes dar.
Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança,
Para que possa viver no Coração do meu SENHOR!

Entrando no âmago amoroso da piedade Divina,
Este será meu repouso, a minha casa preferida.
No sangue jorrado redimi meus delitos,
E purifiquei com água a sujeira espiritual!

Embaixo deste teto (Céu) que é morada de todos,
Viver e morrer com prazer, este é o meu grande desejo.