PALAVRAS
Gilberto Nable
Nem tudo se tem coragem de dizer.
Mas dizer é uma coisa muito forte,
e, afinal, somos quase que só palavras,
em cada vão do corpo, cada fresta.
Esse o delicado abismo que habitamos,
e medeia de uma frase a outra frase,
embora cá dentro, um vasto mundo,
entre as duras bolhas dos silêncios.
Que luz me ilumina quando falo?
E quando escrevo o que se acende em mim?
Uma palavra brilha e se liga a outra,
e nenhuma está morta em dicionário.
E qual dicionário poderia contê-las?
Não as contêm o meu próprio peito,
nem extenso país, nem qualquer língua.
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sexta-feira, abril 10, 2020
PALAVRAS. Gilberto Nable. Poesia
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sexta-feira, novembro 22, 2019
PERCURSO DA AUSÊNCIA - VIII Gilberto Nable
PERCURSO DA AUSÊNCIA - VIII
Gilberto Nable
O que é? Já foi.
Ponha o dedo na ferida. Dói?
Não. Sempre doía.
Desce Morfeu sobre a dor,
mas com delírio e náusea.
Abra as gavetas da alma,
deixe-as ventando na planície.
E elas não recolherão nada,
a não ser tua solidão.
Gilberto Nable
O que é? Já foi.
Ponha o dedo na ferida. Dói?
Não. Sempre doía.
Desce Morfeu sobre a dor,
mas com delírio e náusea.
Abra as gavetas da alma,
deixe-as ventando na planície.
E elas não recolherão nada,
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sábado, março 09, 2019
PERCURSO DA AUSÊNCIA. Gilberto Nable.Poesia.
PERCURSO DA AUSÊNCIA
Gilberto Nable
III
Para Abgar Renault
Vejo-o ali,
frente ao muro escuro,
onde nascem escorpiões
e andorinhas.
Está ali,
descalço na rua luminosa,
sob o céu claro da infância.
Mas não sou eu.
Esse menino é um outro:
conhece trilhas, passarinhos,
e viu montanhas e lírios vermelhos.
(Nos ninhos de pedra,
as andorinhas sonham
com meninos distantes,
e doces libélulas.)
Arquivo cruel é a memória,
e nela estamos presos
como numa armadilha;
a ver por detrás das vidraças,
embaçadas pelo hálito,
as mesmas, eternas andorinhas,
mortas há trinta anos.
Gilberto Nable
III
Para Abgar Renault
Vejo-o ali,
frente ao muro escuro,
onde nascem escorpiões
e andorinhas.
Está ali,
descalço na rua luminosa,
sob o céu claro da infância.
Mas não sou eu.
Esse menino é um outro:
conhece trilhas, passarinhos,
e viu montanhas e lírios vermelhos.
(Nos ninhos de pedra,
as andorinhas sonham
com meninos distantes,
e doces libélulas.)
Arquivo cruel é a memória,
e nela estamos presos
como numa armadilha;
a ver por detrás das vidraças,
embaçadas pelo hálito,
as mesmas, eternas andorinhas,
mortas há trinta anos.
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