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sexta-feira, abril 12, 2019

É O VENTO. Ivan Junqueira. Poesia.

É O VENTO
Ivan Junqueira

É o vento que vem uivando
pelas frinchas do infinito
é o vento que vem gemendo
na espinha do plenilúnio
é o vento que vem rolando
como um cascalho de treva

É o vento que vem quebrando
as vidraças do silêncio
é o vento que vem abrindo
as cicatrizes da véspera
é o vento que vem pulsando
nas veias murchas do tempo

É o vento que vem mordendo
a carne tenra das nuvens
é o vento que vem regendo
a sinfonia das águas
é o vento que vem varrendo
a nostalgia dos túmulos

É o vento que vem trazendo
teu sorriso embalsamado
é o vento que vem despindo
a salsugem de teus seios
é o vento que vem moldando
tua gótica nudez

É o vento que vem brincando
de roda com minha infância
é o vento que vem tangendo
meus pensamentos sem rumo
é o vento que vem traçando
o mapa de minha face

É o vento que vem roendo
o pergaminho das horas
que monótonas gotejam
sobre as escarpas herméticas
do abismo turvo insondável
que me separa de mim



quinta-feira, junho 23, 2011

Que sabem os deuses? Ivan Junqueira. Poesia

QUE SABEM OS DEUSES?
Ivan Junqueira

Que sabem os deuses desse amor terreno
ungido de luxúria e de apetência
que ofende como um fauno à transcedência
e que, conquanto humano, se quer pleno?


Que sabem eles do ácido veneno
que o ser absorve em  lúdica demência
e em luz dissolve a trôpega existência
desse bicho da terra tão pequeno?


De nada sabem os deuses nem o inventam:
antes maldizem essa abissal loucura
dos que no amor se ferem e se atormentam

e nele expiam a solidão mais dura...
Os que trocaram os céus pelos infernos
e, mais que os deuses se fizeram eternos.



domingo, junho 13, 2010

E se eu disser? Ivan Junqueira. Poesia

E SE EU DISSER
Ivan Junqueira

E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfada
ou se te apraz o emprego de tais meios?

E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?

E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?

Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.