CANTARES DE SOLIDÃO
Um sino toca ao longe:
é tarde no meu sertão
e o vento sopra ao contrário,
seca olho e plantação..
Tão longe o meu pensamento
Tão perto o meu violão
Toada na hora pronóbis
Rebento chegando então.
E as beatas ligeiras
com rosário em mão
rezam ave-marias ,
em dia de procissão.
Eu sou homem assustado:
das sombras tenho receio
Vivo sempre acordado
faço a lua de esteio
Dizem que há lobisomem
atras da serra vermelha
que espreita a hora certeira
de roubar mulher rendeira.
Nessas paragens de sono
de silêncio e ventania
muita mulher foi levada
mode desafiar valentia
Tem jagunço de asfalto
rondando a terra da gente
matando e prendendo rebelde
que desafia tenente.
Tem muito carro e doutor
que desafia a sêca e o cansaço
numa tal transposição
que promete inundar pasto.
Ah! já nem tenho esperança,
foi tanta tarde amarela
tanta poeira na pele
tanta sêde maldita
tanto bezerro morrendo
tanto menino magrinho
tanta morte espreitando
o vale da terra do sino...
E minhas mãos calejadas
pegam balde e água no açude
e mulher é que não falta
todo tempo parindo.
É terra de homem forte
pivete na rua dormindo
menina-moça sem dote
velho sem dente sorrindo..
E o tempo que não passa
a redenção que não chega
meu destino na vidraça
e a sorte na contra-mão.
Um sino toca ao longe
nas tardes do meu sertão.
Marcia Tigani
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domingo, junho 16, 2013
Cantares de Solidão. Marcia Tigani
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quarta-feira, agosto 01, 2012
Agosto. Marcia Tigani
AGOSTO
Marcia Tigani
Agosto da secura interminável,
do sabor acre, de folhas quietas.
Um ar pesado e irrespirável ,
do sal na terra, de vidas sêcas.
Agosto de sol inclemente
de tarde morna, da hora lenta.
Um calendário que não se move
marcando a vida que se ausenta.
Agosto do gosto do nada,
do fogo e fumaça, de areia e pó.
Cortina densa, triste e cinzenta
embaçando tudo sem piedade e dó.
Agosto do amor que parte
na sexta feira, no dia treze.
Nó na garganta que queima e arde
como se agua jamais bebesse.
Agosto, do gosto e desgosto,
de tantos lamentos, de tantos ais,
é o pranto que a terra verte
e o vento leva prá nunca mais.
Marcia Tigani
Agosto da secura interminável,
do sabor acre, de folhas quietas.
Um ar pesado e irrespirável ,
do sal na terra, de vidas sêcas.
Agosto de sol inclemente
de tarde morna, da hora lenta.
Um calendário que não se move
marcando a vida que se ausenta.
Agosto do gosto do nada,
do fogo e fumaça, de areia e pó.
Cortina densa, triste e cinzenta
embaçando tudo sem piedade e dó.
Agosto do amor que parte
na sexta feira, no dia treze.
Nó na garganta que queima e arde
como se agua jamais bebesse.
Agosto, do gosto e desgosto,
de tantos lamentos, de tantos ais,
é o pranto que a terra verte
e o vento leva prá nunca mais.
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domingo, junho 17, 2012
INTERLÚDIO
Marcia Tigani
Entre o amor e a catástrofe
há uma trégua (ou regato)
em meio à sêca do deserto
em que se abre um hiato.....
Entre estrofes do poema, novo fato:
enlaça-me, perdoo e até sinto.
No palco,uma peça em três atos:
a paixão, névoa da razão, enquanto minto.
No cânone,na ópera,há uma pausa:
entreatos onde ensaia-se a partida.
O elo no lapso de tempo volta à vida
e de novo vens dançar a nossa valsa.
Eu ator, tu atriz:uma só dor
que escorre pelos dedos,que se esvai...
A liturgia que consagra nosso amor
é a mesma que tua face já não trai.
Sigamos pelo palco (até quando?),
em ritos, cultos, sacramentos.
A noite insinua-se em cada pranto
e a coda* adia assim o seu momento.
* CODA: tradução do italiano para o português: quer dizer cauda_é a seção com que se termina uma música ou partitura.
Marcia Tigani
Entre o amor e a catástrofe
há uma trégua (ou regato)
em meio à sêca do deserto
em que se abre um hiato.....
Entre estrofes do poema, novo fato:
enlaça-me, perdoo e até sinto.
No palco,uma peça em três atos:
a paixão, névoa da razão, enquanto minto.
No cânone,na ópera,há uma pausa:
entreatos onde ensaia-se a partida.
O elo no lapso de tempo volta à vida
e de novo vens dançar a nossa valsa.
Eu ator, tu atriz:uma só dor
que escorre pelos dedos,que se esvai...
A liturgia que consagra nosso amor
é a mesma que tua face já não trai.
Sigamos pelo palco (até quando?),
em ritos, cultos, sacramentos.
A noite insinua-se em cada pranto
e a coda* adia assim o seu momento.
* CODA: tradução do italiano para o português: quer dizer cauda_é a seção com que se termina uma música ou partitura.
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sábado, junho 09, 2012
Ciclo
CICLO
Marcia Tigani
Tudo gira e se repete :o vento,a sêde,a sina,
Cada folha que cai ao sabor da brisa,
Ondas do mar por sobre pedra acima.
Sou apenas gota d'um imenso mar,
Pedra bruta que desconhece ainda
Os segredos d'agua , fogo e verbo amar.
Cada dia é apenas vôo impreciso e ritmado
dum tempo que me foi predestinado:
viver é seguir um ciclo renovado.
A chuva inunda pasto , faz corredeira,
Meu coração é esse vale aberto,sem qualquer critério,
por onde escoa o mêdo da morte e da maré cheia.
Há na estrada tanto sol,poeira , cansaço...
Quem há de atrever-se nessa caminhada
se o destino é só incerteza a cada passo?
A noite tambem imprime em mim a sua hora ,
é tênue véu que me a recobre a tez
e suas estrelas sempre vem e vão embora.
Mas ,se meu destino é não ter nada,é não ter rumo,
é ser folha sêca em meio a vendaval,
é ser grão e pólen ou ave sem prumo.
Devo renovar o meu olhar a cada instante:
sou pássaro livre a buscar no céu
o interminável giro da sextante.
Marcia Tigani
Tudo gira e se repete :o vento,a sêde,a sina,
Cada folha que cai ao sabor da brisa,
Ondas do mar por sobre pedra acima.
Sou apenas gota d'um imenso mar,
Pedra bruta que desconhece ainda
Os segredos d'agua , fogo e verbo amar.
Cada dia é apenas vôo impreciso e ritmado
dum tempo que me foi predestinado:
viver é seguir um ciclo renovado.
A chuva inunda pasto , faz corredeira,
Meu coração é esse vale aberto,sem qualquer critério,
por onde escoa o mêdo da morte e da maré cheia.
Há na estrada tanto sol,poeira , cansaço...
Quem há de atrever-se nessa caminhada
se o destino é só incerteza a cada passo?
A noite tambem imprime em mim a sua hora ,
é tênue véu que me a recobre a tez
e suas estrelas sempre vem e vão embora.
Mas ,se meu destino é não ter nada,é não ter rumo,
é ser folha sêca em meio a vendaval,
é ser grão e pólen ou ave sem prumo.
Devo renovar o meu olhar a cada instante:
sou pássaro livre a buscar no céu
o interminável giro da sextante.
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quarta-feira, maio 02, 2012
Brechó. Marcia Tigani.
BRECHÓ
Marcia Tigani
Basta-nos revolver lembranças rotas,
penduradas em cabides da história,
para que o pêndulo do tempo traga coisas notas
adormecidas e dobradas, na memória.
Coisas (sem importância?) enxovalhadas,
pelo esverdeado mofo do momento
deixadas à esmo, quase que jogadas
num baú de lembrança e esquecimento.
O olhar oblíquo de mulher apaixonada
e o riso íntimo, anterior e amante
lágrimas de despedida, sonho dissonante
em tardes cor de âmbar, em meio ao nada.
Apenas um antiquário de momentos,
lugar de pedra, lágrima, sentimento...
Entre vestidos de seda pura , chapéus de crepe
a vida reaberta assim, exposta em leque.
O véu da noiva, sutil e transparente
que de esperança de afeto se esgarçou,
longe adormece, é só velha semente
das juras do amor eterno, que findou.
Letra cursiva escrita em vãos de memória
cartas de amor jamais entregues.
Lembranças escorrem e contam história
dos empoeirados sonhos das mulheres.
E esse espectro mundano que insiste,
a atravessar solene os pátios ermos
sabendo-se sobra do que não mais existe ,
a especular o passado e os seus termos.
Meu Deus, como tantos sonho e desejo
vão parar assim, em inertes prateleiras
e despertam um dia, sem dó , sem pejo,
a cobrar -nos a morte que lhes foi certeira?
Marcia Tigani
Basta-nos revolver lembranças rotas,
penduradas em cabides da história,
para que o pêndulo do tempo traga coisas notas
adormecidas e dobradas, na memória.
Coisas (sem importância?) enxovalhadas,
pelo esverdeado mofo do momento
deixadas à esmo, quase que jogadas
num baú de lembrança e esquecimento.
O olhar oblíquo de mulher apaixonada
e o riso íntimo, anterior e amante
lágrimas de despedida, sonho dissonante
em tardes cor de âmbar, em meio ao nada.
Apenas um antiquário de momentos,
lugar de pedra, lágrima, sentimento...
Entre vestidos de seda pura , chapéus de crepe
a vida reaberta assim, exposta em leque.
O véu da noiva, sutil e transparente
que de esperança de afeto se esgarçou,
longe adormece, é só velha semente
das juras do amor eterno, que findou.
Letra cursiva escrita em vãos de memória
cartas de amor jamais entregues.
Lembranças escorrem e contam história
dos empoeirados sonhos das mulheres.
E esse espectro mundano que insiste,
a atravessar solene os pátios ermos
sabendo-se sobra do que não mais existe ,
a especular o passado e os seus termos.
Meu Deus, como tantos sonho e desejo
vão parar assim, em inertes prateleiras
e despertam um dia, sem dó , sem pejo,
a cobrar -nos a morte que lhes foi certeira?
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