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domingo, fevereiro 02, 2020

FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO. Wislawa Szymborska

FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO
Wislawa Szymborska

Saltaram dos andares em chamas —
um, dois, alguns mais
acima, abaixo.

A fotografia os susteve em vida
e agora os mantém
sobre a terra em direção à terra.

Cada um ainda é um todo
com um rosto próprio
e o sangue bem escondido.

Há bastante tempo
para os cabelos se soltarem
e dos bolsos caírem
chaves, dinheiro trocado.

Ainda estão ao alcance do ar,
nos limites dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só posso fazer duas coisas por eles —
descrever esse voo
e não acrescentar a última sentença.

quinta-feira, dezembro 12, 2019

MEDO DO PALCO. Wislawa Szymborska, Poesia.

MEDO DO PALCO
Wislawa Szymborska

Poetas e escritores.
É assim que se diz.
Logo, poetas não são escritores, então o quê —

Os poetas são poesia, os escritores são prosa —

Na prosa pode caber tudo, inclusive a poesia,
mas na poesia deve haver só poesia —

De acordo com o cartaz que a anuncia
com o floreio art nouveau de um P maiúsculo,
inscrito nas cordas de uma lira alada,
eu deveria entrar voando, não andando —

E não estaria melhor descalça
do que com esse sapato comum
batendo o salto, rangendo,
desajeitado substituto de um anjo? —

Se ao menos o vestido fosse mais longo, esvoaçante,
e os versos saíssem não da bolsa, mas da manga,
e versassem sobre a festa, o desfile, o sino solene,
dim dom
ab ab ba —

Mas lá no pódio já espreita uma mesinha,
meio de sessão espírita, com pés dourados,
e na mesinha esfumaça um castiçal —

De onde deduzo
que terei que ler à luz de velas
o que escrevi à luz de uma lâmpada comum
tac tac tac na máquina —

Sem me preocupar antes do tempo
se isto é poesia
e que poesia —

Se aquela na qual a prosa é malvista —
Ou aquela que é bem-vista na prosa —

E que diferença é essa,
perceptível apenas na penumbra,
sobre o fundo de uma cortina bordo
com franjas violeta?

quarta-feira, julho 03, 2019

O TERRORISTA, ELE OBSERVA. Wislawa Szymborska. Poesia.

O TERRORISTA, ELE OBSERVA
Wislawa Szymborska

A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.
O terrorista já está do outro lado da rua.
A distância o protege de qualquer perigo.
E, bom, é como assistir a um filme.
Uma mulher de casaco amarelo, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Jovens de jeans, eles conversam
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo, ele se salvou, sai de lambreta.
E aquele mais alto, ele entra.
Treze e dezessete e quarenta segundos.
A moça ali, ela tem uma fita verde no cabelo.
Mas o ônibus a encobre de repente.
Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Era tola o bastante para entrar, ou não?
Saberemos quando retirarem os corpos. Treze e dezenove.
Ninguém mais parece entrar.
Um careca obeso, no entanto, está saindo.
Procura algo nos bolsos e
às treze e dezenove e cinqüenta segundos
ele volta para pegar suas malditas luvas. São treze e vinte.
O tempo, como se arrasta
É agora.
Ainda não.
Sim, agora.
A bomba, ela explode.


Wislawa Szymborska



sexta-feira, junho 28, 2019

Medo do palco. Wislawa Szymborska. Poesia.

Poetas e escritores.
É assim que se diz.
Logo, poetas não são escritores, então o quê —
Os poetas são poesia, os escritores são prosa —
Na prosa pode caber tudo, inclusive a poesia,
mas na poesia deve haver só poesia —