O poliamor
Arnaldo Jabor
Santo Deus, estou sendo influenciado por meus imitadores
O texto abaixo parece um daqueles falsos artigos com meu nome que aparecem na internet. Santo Deus, estou sendo influenciado por meus imitadores. Tudo bem, porque não aguento mais falar da Dilma, Petrolão e das delações premiadas. Falemos das neomulheres e dos homens-objeto. Vamos a isso.
Antes, os homens desejavam a mulher. Hoje, queremos ser desejados. No tempo de meus pais, elas não davam: só casando. Os noivos galopavam como centauros para o quarto nupcial avançando sobre as noivas pálidas de terror. Filho dessa geração, eu achava que o desejo da mulher era “consequência” do nosso, que elas ansiavam por nosso assédio, em delíquios desmaiados. Eu achava que levar uma mulher para a cama era algo só de minha responsabilidade, que elas cumpriam cabisbaixas, trêmulas e, depois, gratas (ou não...). Elas “davam” como uma tarefa obrigatória. Histéricas, elas só amavam os que as rejeitavam. Nelson escreveu a parábola do “cafajeste do smoking impecável”. A mulher insultava o amante aos berros; ele imóvel, num smoking perfeito, fumando de piteira, indiferente às ofensas que ela atirava, de dedo espetado e olho em brasa. Aí, ela arriscou: “Você não é homem!” O cafajeste jogou o cigarro fora, guardou a piteira com discreta elegância e assestou uma bofetada rutilante na mulher. Pronto! Banhada em lágrimas de paixão ela agarrou-se às suas pernas. Era o amor, enfim.
Hoje, os homens é que dão. Elas comem. Os homens se raspam, para ficar com o corpo feminino. Os homens malham, para ficarem magníficos objetos de prazer. Antes, não. Eram barrigudos informes, sórdidos, com lindas damas ao lado, brutais machões dominando ninfas. Hoje, elas escolhem: “Aquele ali. Vou comer…”. Somos analisados minuciosamente nas conversas dos vestiários. Dizem-me informantes traidoras que o papo é mais grosso que conversa de marinheiro. Os pintinhos são analisados com régua e compasso. A barriga derruba um apaixonado, a bunda (isso é novo) passou a ser um objeto sexual fundamental para as moças: “Que bundinha ele tem!” Nosso pobre feminismo deu nisso: as mulheres analisam os homens como imaginam que são analisadas por nós: “Que gato, eu ia te comer todinho...” Hoje, nós somos as caricaturas das caricaturas que fazíamos delas.
Fui educado pelos jesuítas, o melhor caminho para a perversão. Sempre imaginei as mulheres como usáveis, romanticamente ingênuas, ou santas ou decaídas... Mas nunca imaginei ver esse exército de rostos lindos mas duros, implacáveis na avaliação do sujeito, nos olhando como sargentos examinando recrutas. O que nos excitava, fazia-nos apaixonados, era ver em seus olhos a busca de proteção, quase um apelo de socorro. Nossa virilidade era quixotesca, salvadora. Sua fragilidade, mesmo fingida, era erotizante. Outro dia, vi um documentário antigo com a Jackie Kennedy falando com a voz fininha; parecia uma meninha, uma “Barbie” ingênua. Era a moda.
É claro que não me refiro às pobres desamparadas socialmente, às desvalidas; falo das peruas de esquerda (elas existem...) e de direita, falo da vanguarda das gostosas. Transar com uma mulher hoje é passar por um teste. E surge a dúvida máxima: o que dar às mulheres? Carinho? Proteção? Porrada? Desprezo? Companheirismo? Dar o quê? Dinheiro? Já servimos para sustentá-las, mandar nelas: “Oh, bobinhas... não é assim, é assado...” Mas, não sabemos mais o que oferecer. Diante disso, o amor vira uma batalha de desencontros e dores, uma guerra constante e excitante, ciúmes afrodisíacos, ódios excitantes para o “make-up fuck” (a f... melhor que há). Os amores duram semanas; casou, perdeu a graça. Os jovens ricos vivem em haréns de luxo. (ahh, verde inveja...). Claro que o amor dos desvalidos continua igual: porrada, alcoolismo, e abandono. Repito que falo das “vanguardas” neossacanas.
Creio que a revolução sexual se deu mais por via das mulheres do que dos homens. Elas mudaram desde a pílula até hoje, impulsionadas pela tecnologia veloz, pela industria da punheta das revistas pornô, pelo fetichismo das partes ao contrário do todo. São pedaços que vemos. O conjunto nos angustia. Disse-me uma psicanalista outro dia que o que mudou foi a transformação do sexo em ginástica, num atletismo em que as perversões proibidas se transformaram em brincadeiras polimorfas. Ninguém peca mais. E a culpa? O que foi feito dela? O limite é o quê? A morte? Há um recrudescimento da sacanagem como parques de diversões. As famosas surubas de antigamente (oh, crime nefando...), hoje são cirandas-cirandinhas felizes e gargalhantes. O bom e velho orgasminho não basta mais. É preciso ir mais longe. Até onde?
Talvez busquemos um êxtase permanente num mundo que se aquece, nas beiras da catástrofe, num presente enorme que não acaba. No Brasil, a ostentação de sexualidade é espantosa até em menininhas, miniperiguetes.
E que orgasmo é esse que atroará os ares? Que transgressão suprema acabará com todos os limites? Nesta neolibertinagem, queremos ir além das coisas que viramos. Há um desejo de aperfeiçoar os desempenhos, como se moderniza um avião ou um chip. Nas casas de swing, por exemplo, há uma utopia de se atingir um gozo além do ciúme, além da posse, um companheirismo pacífico entre putas e cornos. O swing sonha com uma democracia sexual. E há agora o novo hype do “poliamor” — não mais o velho ninguém é de ninguém, mas todos são de todos.
Dentro em pouco, talvez ressurja uma onda romântica, diante da angustia que a liberdade está gerando. Teremos amores melodramáticos, beijos eternos, fidelidades sem fim? No entanto, onde se aninharão os casais ? No campo? Nas neves derretidas? No pó das cidades? Onde? Não temos onde amar. Não há casulos disponíveis. Famílias, lares? Não. Haverá talvez bordeis românticos, motéis da paixão, onde a paz infinita irá alem dos gritos de tesão.
Ninguém aguenta mais tanta liberdade...(Pronto, escritores apócrifos, podem publicar que este é meu.)
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terça-feira, setembro 01, 2015
O poliamor. Arnaldo Jabor
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segunda-feira, julho 06, 2015
Monólogo do comuna feliz. Arnaldo Jabor.
Monólogo do comuna feliz
Arnaldo Jabor
'A direita do latifúndio e do imperialismo americano estão massacrando meus ideais, mas eu não ligo'
“Eu sou mais eu. A direita do latifúndio e do imperialismo americano estão massacrando meus ideais, mas eu não ligo. Eu sou mais eu. Eu tenho a linha justa. Eu e meu partido sabemos que sempre houve esta divisão entre oprimidos e opressores, desde que um macaco mais forte explorou macaquinhos, roubando-lhes as bananas. Não me venham com enganações tipo sociedade global, nova era, direitos humanos, esse papo furado. A História é a história da luta de classes — ponto. Nós somos o bem. Nós defendemos os oprimidos, e eles, os opressores. Por isso somos assim: nós e eles.
“Estou convencido de que sou superior a esta manada de babacas, burgueses, alienados, como por exemplo aquela marcha de 2013, inventada pelo CIA e adotada pela “elite branca” que não suporta que os pobres andem de avião.
“Eu sou superior, eu sou um agente da História que marchará com nossos militantes para um futuro cheio de delícias e harmonia, quando distribuiremos toda a produção como me disseram no cursinho do partido: ‘A cada um segundo suas habilidades, a cada um segundo suas necessidades’. Nunca li Marx, mas sempre soube isso porque não precisei estudar — bastou-me o prefácio de um livro da Academia de Ciências da URRS. Os pobres são puros, e deles emana uma sabedoria que me basta. Por exemplo, pensei muito e digo: qual o problema de roubar, ou melhor, ‘desapropriar’ grana da Petrobras? Esse dinheiro todo servirá para financiar a marcha para o socialismo do século XXI, como batizou o grande Chávez.
“Ah, que saudades da república soviética, quando tudo marchava sob a batuta de Stalin, com a produção industrial imensa. Claro que precisava mão de ferro para conseguir isso, e nosso guia o fez. É verdade que muitos reacionários resistiram, como os kulaks, os camponeses fascistas e sabotadores que queriam impedir a agricultura coletiva. Camponeses reacionários tinham de sumir. Teve de matar uns 20 milhões de ‘alienados’, mas era para o Bem.... E falam em massacre, violências e outras mumunhas, mas, como disse o traidor Trotsky: ‘Quem foi que disse que a vida humana é sagrada?’ Esta foi a sua única grande frase. O resto é lixo, que nosso Stalin raspou da terra, com a mão sagrada do vingador Ramon Mercader, no México, onde Trotsky se gabava de comer a Frida Kahlo. Foi uma bela machadada naquele agente do fascismo.
“Agora, vamos combinar que o grande culpado de toda essa provocação que vemos hoje é um nome só: Nikita Kruschev, canalha revisionista que denunciou o que ele chamou de crimes de Stalin. Foi ali que começou nossa desgraça, piorada pelo maior cão imperialista da CIA: O Gorbachov... Que ‘glasnost’ou ‘perestroika’ porra nenhuma, aquilo foi uma missão da burguesia internacional. Ainda bem que o grande Putin da KGB está botando a Rússia nos eixos de sua antiga grandeza. Como me alegrei quando Mao Tsé-Tung proibiu Beethoven na ‘revolução cultural’, declarando: ‘Temos de raspar tudo o que a burguesia inventou e começar de novo’.
“Ainda bem que o companheiro Osama usou armas dos capitalistas contra eles mesmos... Ah, a beleza das torres caindo em Nova York! Inesquecível.
“A única coisa que importa é o controle da sociedade. Temos de tutelá-la. O povo deve ser educado com o mesmo cuidado com que um jardineiro cultiva um pé de alface. Por isso, sabem os militantes como eu, que o Estado tem de ser o centro do amor ao povo que de nada sabe, por isso é belo ver como infiltramos nossos homens no Estado brasileiro. Dizem que são aparelhados, pois são, sim, deles depende nossa marcha para a vitória que almejamos. Muita vezes somos duros, sim, cruéis até, mas não ligamos, porque como disse nosso grande líder: ‘Compaixão é um sentimento de enfermeiras, assim como a gratidão é uma doença de cachorros’. Aliás, este lero-lero de defender a democracia é só enganação. Democracia é o cacete! Usamos muito essa palavra para disfarçar e atingir nossos planos de, por exemplo, controlar essa mídia reacionária, encanar opositores, assim como nos ensina o grande sucessor de Chávez, dando uma porrada nos senadores de direita que outro dia quiseram invadir a Venezuela, vanguardeira da América Latina. E falam em ‘direitos humanos’... Idiotas.. Não sabem que o homem novo que estamos forjando não sente falta da individualidade perdida. Eu conheço a beleza, o encanto infinito da servidão, a alegria de pertencer a um partido infalível. Dá um imenso alívio não ter que pensar, só obedecer.
“O comunismo, camarada, é o substituto do sonho de ‘imortalidade’ dos cristãos. Comunista não morre; vira um conceito. O homem é um ser social, não é? Pois é — o ser social nunca morre. O individuo é uma ilusão que criou essa dor melodramática. Quem morre é pequeno-burguês. Aliás, esses sentimentos burgueses: angústia, medo, fobias, solidão, amor, paixão são bobagens psicológicas de direita que nada explicam dos homens. A verdade revolucionária está nos termos: sectarismo, alienação, aventureirismo, traição, massa atrasada e massa adiantada, revisionismo. Os operários não têm pátria. A nossa revolução é a locomotiva da História. Vamos beijar os seios nus da liberdade e tingir de sangue os lençóis dos traidores neoliberais.
“Já antevejo nosso paraíso brasileiro no socialismo do século XXI: os grandes festivais de balalaicas russas e de pachangas cubanas, os lindos cantos de hinos sertanejos do MST, todos uniformizados em terninhos vermelhos e enxadas erguidas contra os fascistas da agroindústria, a paz da ignorância, a visita ao campo dos refugiados burgueses obrigados a cantar a Internacional na colheita da soja.
“E há o grande, imponente monumento do Homem Novo, uma cópia do “Davi” de Michelangelo com grande bandeira vermelha hasteada em seu pênis revolucionário.
“E finalmente a visita ao Museu Lula, onde está seu corpo embalsamado para toda a eternidade”.
Arnaldo Jabor
'A direita do latifúndio e do imperialismo americano estão massacrando meus ideais, mas eu não ligo'
“Eu sou mais eu. A direita do latifúndio e do imperialismo americano estão massacrando meus ideais, mas eu não ligo. Eu sou mais eu. Eu tenho a linha justa. Eu e meu partido sabemos que sempre houve esta divisão entre oprimidos e opressores, desde que um macaco mais forte explorou macaquinhos, roubando-lhes as bananas. Não me venham com enganações tipo sociedade global, nova era, direitos humanos, esse papo furado. A História é a história da luta de classes — ponto. Nós somos o bem. Nós defendemos os oprimidos, e eles, os opressores. Por isso somos assim: nós e eles.
“Estou convencido de que sou superior a esta manada de babacas, burgueses, alienados, como por exemplo aquela marcha de 2013, inventada pelo CIA e adotada pela “elite branca” que não suporta que os pobres andem de avião.
“Eu sou superior, eu sou um agente da História que marchará com nossos militantes para um futuro cheio de delícias e harmonia, quando distribuiremos toda a produção como me disseram no cursinho do partido: ‘A cada um segundo suas habilidades, a cada um segundo suas necessidades’. Nunca li Marx, mas sempre soube isso porque não precisei estudar — bastou-me o prefácio de um livro da Academia de Ciências da URRS. Os pobres são puros, e deles emana uma sabedoria que me basta. Por exemplo, pensei muito e digo: qual o problema de roubar, ou melhor, ‘desapropriar’ grana da Petrobras? Esse dinheiro todo servirá para financiar a marcha para o socialismo do século XXI, como batizou o grande Chávez.
“Ah, que saudades da república soviética, quando tudo marchava sob a batuta de Stalin, com a produção industrial imensa. Claro que precisava mão de ferro para conseguir isso, e nosso guia o fez. É verdade que muitos reacionários resistiram, como os kulaks, os camponeses fascistas e sabotadores que queriam impedir a agricultura coletiva. Camponeses reacionários tinham de sumir. Teve de matar uns 20 milhões de ‘alienados’, mas era para o Bem.... E falam em massacre, violências e outras mumunhas, mas, como disse o traidor Trotsky: ‘Quem foi que disse que a vida humana é sagrada?’ Esta foi a sua única grande frase. O resto é lixo, que nosso Stalin raspou da terra, com a mão sagrada do vingador Ramon Mercader, no México, onde Trotsky se gabava de comer a Frida Kahlo. Foi uma bela machadada naquele agente do fascismo.
“Agora, vamos combinar que o grande culpado de toda essa provocação que vemos hoje é um nome só: Nikita Kruschev, canalha revisionista que denunciou o que ele chamou de crimes de Stalin. Foi ali que começou nossa desgraça, piorada pelo maior cão imperialista da CIA: O Gorbachov... Que ‘glasnost’ou ‘perestroika’ porra nenhuma, aquilo foi uma missão da burguesia internacional. Ainda bem que o grande Putin da KGB está botando a Rússia nos eixos de sua antiga grandeza. Como me alegrei quando Mao Tsé-Tung proibiu Beethoven na ‘revolução cultural’, declarando: ‘Temos de raspar tudo o que a burguesia inventou e começar de novo’.
“Ainda bem que o companheiro Osama usou armas dos capitalistas contra eles mesmos... Ah, a beleza das torres caindo em Nova York! Inesquecível.
“A única coisa que importa é o controle da sociedade. Temos de tutelá-la. O povo deve ser educado com o mesmo cuidado com que um jardineiro cultiva um pé de alface. Por isso, sabem os militantes como eu, que o Estado tem de ser o centro do amor ao povo que de nada sabe, por isso é belo ver como infiltramos nossos homens no Estado brasileiro. Dizem que são aparelhados, pois são, sim, deles depende nossa marcha para a vitória que almejamos. Muita vezes somos duros, sim, cruéis até, mas não ligamos, porque como disse nosso grande líder: ‘Compaixão é um sentimento de enfermeiras, assim como a gratidão é uma doença de cachorros’. Aliás, este lero-lero de defender a democracia é só enganação. Democracia é o cacete! Usamos muito essa palavra para disfarçar e atingir nossos planos de, por exemplo, controlar essa mídia reacionária, encanar opositores, assim como nos ensina o grande sucessor de Chávez, dando uma porrada nos senadores de direita que outro dia quiseram invadir a Venezuela, vanguardeira da América Latina. E falam em ‘direitos humanos’... Idiotas.. Não sabem que o homem novo que estamos forjando não sente falta da individualidade perdida. Eu conheço a beleza, o encanto infinito da servidão, a alegria de pertencer a um partido infalível. Dá um imenso alívio não ter que pensar, só obedecer.
“O comunismo, camarada, é o substituto do sonho de ‘imortalidade’ dos cristãos. Comunista não morre; vira um conceito. O homem é um ser social, não é? Pois é — o ser social nunca morre. O individuo é uma ilusão que criou essa dor melodramática. Quem morre é pequeno-burguês. Aliás, esses sentimentos burgueses: angústia, medo, fobias, solidão, amor, paixão são bobagens psicológicas de direita que nada explicam dos homens. A verdade revolucionária está nos termos: sectarismo, alienação, aventureirismo, traição, massa atrasada e massa adiantada, revisionismo. Os operários não têm pátria. A nossa revolução é a locomotiva da História. Vamos beijar os seios nus da liberdade e tingir de sangue os lençóis dos traidores neoliberais.
“Já antevejo nosso paraíso brasileiro no socialismo do século XXI: os grandes festivais de balalaicas russas e de pachangas cubanas, os lindos cantos de hinos sertanejos do MST, todos uniformizados em terninhos vermelhos e enxadas erguidas contra os fascistas da agroindústria, a paz da ignorância, a visita ao campo dos refugiados burgueses obrigados a cantar a Internacional na colheita da soja.
“E há o grande, imponente monumento do Homem Novo, uma cópia do “Davi” de Michelangelo com grande bandeira vermelha hasteada em seu pênis revolucionário.
“E finalmente a visita ao Museu Lula, onde está seu corpo embalsamado para toda a eternidade”.
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segunda-feira, junho 22, 2015
Garotas de Ipanema. Arnaldo Jabor. Prosa
Ela pegou o cigarro e queimou a mão. Eu corri para impedir, mas ela fugiu e continuou a queimar a mão... Dizia que isso era para ela sofrer mais na pele o que estava doendo dentro de si. Seu ciúme era desmesurado, assustador, sem motivo real, mas ela me olhava como se eu estivesse arruinando a sua vida. E não adiantava falar, porque ela dizia que eu estava comendo todo mundo porque as mulheres não mais tinham medo de engravidar e ficavam rondando os homens. E ameaçou me jogar um elefante de louça de cima da prateleira.
É verdade. As mulheres não mais tinham medo de engravidar porque a pílula anticoncepcional tinha chegado.
A liberdade sexual foi uma revolução dos sentidos. Mas com a liberdade veio também a angústia que ela traz. Nada mais confuso do que ser livre para as meninas da época. Mesmo depois da pílula, persistia o terror de uma liberdade inesperada; havia ainda um forte apego a vestidos de debutantes, ao organdi branco, aos buquês e véus de noiva esvoaçando nas almas virgens. Os rapazes tinham uma experiência sexual mais aberta, com a benção dos bordéis, mágicos redutos dos pecados – pequenas “revoltas conformistas”. As relações amorosas ficaram complicadas principalmente para as mulheres, enquanto nós contemplávamos sua desorientação como se tivéssemos um harém. Não sabíamos direito quais eram os limites, e aí surgiram tentativas de amores experimentais, poligamia assumida, sexo a quatro, surubas desastrosas. Um amigo meu bem cínico sentenciou: “Suruba tem de ser ímpar”. O sexo dos 60 era um comício; queria acabar com a culpa, com o proibido. Falo de Ipanema, claro. Todas as sacanagens foram testadas, mas chegou-se ao outro lado com uma vaga insatisfação. O que faltava? Faltava o pecado. O desejo sempre precisou da lei. Hoje, as relações não têm mais o caráter de uma mutação histórica, quando sexo era político. Eu me lembro de mim mesmo tentando convencer (sordidamente) uma moça a entrar no apartamento: “Meu bem, nosso amor também é uma luta contra o imperialismo norte-americano”. E, mesmo assim, ela (talvez uma “neoliberal” prematura) não entrou.
Na época, a liberdade criou um mercado novo: os motéis, decisivos para a vida sexual daqueles tempos. Lembro-me quando surgiu o Kings, luxuoso, com neon e fachada greco-romana, diferente dos secretos e pulguentos hoteizinhos tolerantes.
Na universidade, as moças se sentiam na obrigação de “dar”. E era tudo muito desastrado; as transas não davam certo – gozos frios, broxadas irreversíveis. Como ser livre sem ser “fácil”, as chamadas “galinhas”?
As meninas foram divididas em dois grupos: as “inatingíveis” e as “sem-vergonha”. Eu, pessoalmente, desenvolvi um covarde romantismo: de longe, eu era um fauno e, de perto, um pierrô. As meninas que eu amava não “existiam”; elas flutuavam diante de mim como “dulcinéias” impossíveis. A pílula também me libertou, e parti para as neo-garotas de Ipanema. E comecei a conhecer mais as dores de amor da vida real.
Isabela já tinha sido deflorada, mas se recusava a repetir a dose porque sonhava com um casamento feliz. Não adiantava implorar, pois ela não cedia: “Não dou mais para ninguém; quero ser virgem de novo!”
A Ciomara tinha três namorados (ela achava isso) e chorava na cama, num transe meio epiléptico, com olhos revirados em alvo, num sacrifício ritual de gritos, do qual acordava sem se lembrar de nada. Ela vivia culpada porque achava que estava traindo os outros dois; mal sabia que os três se revezavam em machismos secretos, narrando detalhes íntimos da cama.
Flavia ficou meio paranoica porque tinha uma bundinha linda e achava que os rapazes só a queriam por causa disso. E era verdade. Os rapazes se regalavam com o súbito aumento do mercado sexual. No entanto, com a liberdade, as paixões não tinham mais o paradigma dos namoros, noivados e casamentos. Sem projeto e sem linguagem, as ligações ficaram frágeis, e as rupturas, mais frequentes. Fui a uma festa em 1968 em que se separaram dezenas de casais, inclusive eu.
E, com sua independência proclamada, as mulheres se vingavam da arrogância dos machinhos. Assim, os homens sofreram com a multiplicação dos cornos. Mulheres mais livres fizeram seus preconceitos machistas aparecerem na “cornidão”. Creio mesmo que homem só vira homem quando ganha chifres didáticos. Aí, conhecem o vazio da solidão. E sujeitos onipotentes viram românticos chorosos. Também havia as tragédias. Um desses traídos que conheci, lindo, rico, por dor de corno meteu a cabeça no forno e abriu o gás, com as frestas da cozinha vedadas com fita isolante. E deixou um aviso na porta: “Cuidado. Não acendam fósforos”.
A mulher de um amigo meu era frígida como a neve. Sentia-se como uma aleijada indesejável. Cada vez que ia para a cama, era um calvário. Ele tentou tudo, nada rolou. Até que, em meio a uma discussão, ele falou que ia embora, e ela disse-lhe: “Tudo bem, você sai pela porta, e eu saio pela janela”. E se jogou do oitavo andar.
Meu drama foi diferente. Quando ela queimou a mão com o cigarro, confesso que me emocionei com aquela dor. Pareceu-me uma paixão sem limites. Ela era linda, corpaço, e às vezes saía da tristeza e ficava eufórica, rindo muito. Eu ficava nervoso com aquela louca instabilidade, mas sua beleza me aprisionava.
Até que um dia, depois de severa briga, ela me apareceu na porta do apartamento e, diante de mim, fez dois cortes no braço. “Passou a dor de dentro... Isto é um presente para você”, disse, ensanguentada. Em pânico, comecei a fugir dela. Tive de viajar por meses, e sumimos um do outro.
Talvez um ano depois, passava de carro pela avenida Atlântica de madrugada e, numa esquina do Posto Seis, eu a vi, em pé, linda, de saia de couro curta e cabelos alourados. Não parei, ainda com a dúvida se era ela mesma. Era, sim. Depois da dor dos cortes, entendi que ela queria conhecer os mistérios da prostituição.
É verdade. As mulheres não mais tinham medo de engravidar porque a pílula anticoncepcional tinha chegado.
A liberdade sexual foi uma revolução dos sentidos. Mas com a liberdade veio também a angústia que ela traz. Nada mais confuso do que ser livre para as meninas da época. Mesmo depois da pílula, persistia o terror de uma liberdade inesperada; havia ainda um forte apego a vestidos de debutantes, ao organdi branco, aos buquês e véus de noiva esvoaçando nas almas virgens. Os rapazes tinham uma experiência sexual mais aberta, com a benção dos bordéis, mágicos redutos dos pecados – pequenas “revoltas conformistas”. As relações amorosas ficaram complicadas principalmente para as mulheres, enquanto nós contemplávamos sua desorientação como se tivéssemos um harém. Não sabíamos direito quais eram os limites, e aí surgiram tentativas de amores experimentais, poligamia assumida, sexo a quatro, surubas desastrosas. Um amigo meu bem cínico sentenciou: “Suruba tem de ser ímpar”. O sexo dos 60 era um comício; queria acabar com a culpa, com o proibido. Falo de Ipanema, claro. Todas as sacanagens foram testadas, mas chegou-se ao outro lado com uma vaga insatisfação. O que faltava? Faltava o pecado. O desejo sempre precisou da lei. Hoje, as relações não têm mais o caráter de uma mutação histórica, quando sexo era político. Eu me lembro de mim mesmo tentando convencer (sordidamente) uma moça a entrar no apartamento: “Meu bem, nosso amor também é uma luta contra o imperialismo norte-americano”. E, mesmo assim, ela (talvez uma “neoliberal” prematura) não entrou.
Na época, a liberdade criou um mercado novo: os motéis, decisivos para a vida sexual daqueles tempos. Lembro-me quando surgiu o Kings, luxuoso, com neon e fachada greco-romana, diferente dos secretos e pulguentos hoteizinhos tolerantes.
Na universidade, as moças se sentiam na obrigação de “dar”. E era tudo muito desastrado; as transas não davam certo – gozos frios, broxadas irreversíveis. Como ser livre sem ser “fácil”, as chamadas “galinhas”?
As meninas foram divididas em dois grupos: as “inatingíveis” e as “sem-vergonha”. Eu, pessoalmente, desenvolvi um covarde romantismo: de longe, eu era um fauno e, de perto, um pierrô. As meninas que eu amava não “existiam”; elas flutuavam diante de mim como “dulcinéias” impossíveis. A pílula também me libertou, e parti para as neo-garotas de Ipanema. E comecei a conhecer mais as dores de amor da vida real.
Isabela já tinha sido deflorada, mas se recusava a repetir a dose porque sonhava com um casamento feliz. Não adiantava implorar, pois ela não cedia: “Não dou mais para ninguém; quero ser virgem de novo!”
A Ciomara tinha três namorados (ela achava isso) e chorava na cama, num transe meio epiléptico, com olhos revirados em alvo, num sacrifício ritual de gritos, do qual acordava sem se lembrar de nada. Ela vivia culpada porque achava que estava traindo os outros dois; mal sabia que os três se revezavam em machismos secretos, narrando detalhes íntimos da cama.
Flavia ficou meio paranoica porque tinha uma bundinha linda e achava que os rapazes só a queriam por causa disso. E era verdade. Os rapazes se regalavam com o súbito aumento do mercado sexual. No entanto, com a liberdade, as paixões não tinham mais o paradigma dos namoros, noivados e casamentos. Sem projeto e sem linguagem, as ligações ficaram frágeis, e as rupturas, mais frequentes. Fui a uma festa em 1968 em que se separaram dezenas de casais, inclusive eu.
E, com sua independência proclamada, as mulheres se vingavam da arrogância dos machinhos. Assim, os homens sofreram com a multiplicação dos cornos. Mulheres mais livres fizeram seus preconceitos machistas aparecerem na “cornidão”. Creio mesmo que homem só vira homem quando ganha chifres didáticos. Aí, conhecem o vazio da solidão. E sujeitos onipotentes viram românticos chorosos. Também havia as tragédias. Um desses traídos que conheci, lindo, rico, por dor de corno meteu a cabeça no forno e abriu o gás, com as frestas da cozinha vedadas com fita isolante. E deixou um aviso na porta: “Cuidado. Não acendam fósforos”.
A mulher de um amigo meu era frígida como a neve. Sentia-se como uma aleijada indesejável. Cada vez que ia para a cama, era um calvário. Ele tentou tudo, nada rolou. Até que, em meio a uma discussão, ele falou que ia embora, e ela disse-lhe: “Tudo bem, você sai pela porta, e eu saio pela janela”. E se jogou do oitavo andar.
Meu drama foi diferente. Quando ela queimou a mão com o cigarro, confesso que me emocionei com aquela dor. Pareceu-me uma paixão sem limites. Ela era linda, corpaço, e às vezes saía da tristeza e ficava eufórica, rindo muito. Eu ficava nervoso com aquela louca instabilidade, mas sua beleza me aprisionava.
Até que um dia, depois de severa briga, ela me apareceu na porta do apartamento e, diante de mim, fez dois cortes no braço. “Passou a dor de dentro... Isto é um presente para você”, disse, ensanguentada. Em pânico, comecei a fugir dela. Tive de viajar por meses, e sumimos um do outro.
Talvez um ano depois, passava de carro pela avenida Atlântica de madrugada e, numa esquina do Posto Seis, eu a vi, em pé, linda, de saia de couro curta e cabelos alourados. Não parei, ainda com a dúvida se era ela mesma. Era, sim. Depois da dor dos cortes, entendi que ela queria conhecer os mistérios da prostituição.
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segunda-feira, junho 15, 2015
Ai de ti, Brasil. Arnaldo Jabor
AI DE TI, BRASIL!
Arnaldo Jabor
Estás perdido e cego no meio da iniquidade dos partidos que te assolam e que contemplas com medo e tolerância
Ai de ti, Brasil, eu te mandei o sinal e não recebeste. Eu te avisei e me ignoraste, displicente e conivente com teus malfeitos e erros. Ai de ti, eu te analisei com fervor romântico durante os últimos 20 anos e riste de mim. Ai de ti, Brasil! Eu já vejo os sinais de tua perdição nos albores de uma tragédia anunciada para o presente do século XXI, que não terá mais futuro. Ai de ti, Brasil — já vejo também as sarças de fogo onde queimarás para sempre! Ai de ti, Brasil, que não fizeste reforma alguma e que deixaste os corruptos usar a democracia para destruí-la. Malditos os laranjas e as firmas sem porta.
Ai de ti, Miami, para onde fogem os ladrões que nadam em vossas piscinas em forma de vagina e corcoveiam em jet-skis, gargalhando de impunidade. Malditas as bermudas cor-de-rosa, barrigas arrogantes e carrões que valem o preço de uma escola. Maldita a cabeleira do Renan, os olhos cobiçosos de Cunha, malditos vós que ostentais cabelos acaju, gravatas de bolinhas e jaquetões cobertos de teflon, onde nada cola. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Brasília? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?
Ai de vós, celebridades cafajestes, que viveis como se estivésseis na corte de Luís XIV, entre bolsas Chanel, gargantilhas de pérola, tapetes de zebra e elefantes de prata. Portais em vosso peito diamantes em que se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis. Ai de vós, pois os miseráveis se desentocarão e seus trapos vão brilhar mais que vossos Rolex de ouro. Ai de ti, cascata de camarões!
Tu não viste o sinal, Brasil. Estás perdido e cego no meio da iniquidade dos partidos que te assolam e que contemplas com medo e tolerância. Cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras e deste risadas ébrias e vãs no seio do Planalto. Ai de vós, intelectuais, porque tudo sabeis e nada denunciais, por medo ou vaidade. Ai de vós, acadêmicos que quereis manter a miséria “in vitro” para legitimar vossas teorias. Ai de vós, “bolivarianos” de galinheiro, que financiais países escrotos com juros baixos, mesmo sem grana para financiar reformas estruturais aqui dentro. Ai de ti, Brasil, porque os que se diziam a favor da moralidade desmancham hoje as tuas instituições, diante de nossos olhos impotentes. Ai de ti, que toleraste uma velha esquerda travestida de moderna. Malditos sejais, radicais de cervejaria, de enfermaria e de estrebaria — os bêbados, os loucos e os burros, que vos queixais do país e tomais vossos chopinhos com “boa consciência”. Ai de vós, “amantes do povo” — malditos os que usam esse falso “amor” para justificar suas apropriações indébitas e seus desfalques “revolucionários”.
Ai de vós, que dizeis que nada vistes e nada sabeis, com os crimes explodindo em vossas caras.
Ai de ti, que ignoraste meus sinais de perigo e só agora descobriste que há cartéis de empresas que predam o dinheiro público, com a conivência do próprio poder. Malditas sejam as empresas fantasmas em terrenos baldios, que fazem viadutos no ar, pontes para o nada, esgotos a céu aberto e rapinam os mínimos picuás dos miseráveis.
Malditos os fundos de pensão intocáveis e intocados, com bilhões perdidos na Bolsa, de propósito, para ocultar seus esbulhos e defraudações. Malditos também empresários das sombras. Malditos também os que acham que quanto pior, melhor.
A grande punição está a caminho. Ai de ti, Brasil, pois acreditaste no narcisismo deslumbrado de um demagogo que renegou tudo que falava antes, que destruiu a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises, para voltar um dia como “pai da pátria”. Maldito esse homem nefasto que te fez andar de marcha à ré.
Ai de ti Brasil, porque sempre te achaste à beira do abismo ou que tua vaca fora para o brejo. Esse pessimismo endêmico é uma armadilha em que caíste e que te paralisa, como disse alguém: és um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.
Ai de vós, advogados do diabo que conseguis liminares em chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca-do-boi de nossas prisões. Maldita seja a crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos. Malditos compradiços juízes, repulsivos desembargadores, vendilhões de sentenças para proteger sórdidos interesses políticos. Malditos sejam os que levam dólares nas meias e nas cuecas e mais ainda aqueles que levam os dólares para as Bahamas.
Ai de vós! A ira de Deus não vai tardar...
Sei que não adianta vos amaldiçoar, pois nunca mudareis a não ser pela morte, guerra ou catástrofe social que pode estar mais perto do que pensais. Mas mesmo assim, vos amaldiçoo.
Ai de ti, Brasil!
Já vejo as torres brancas de Brasília apontando sobre o mar de lama que inundará o cerrado. Já vejo São Paulo invadida pelas periferias, que cobrarão pedágio sobre vossas Mercedes. Escondidos atrás de cercas elétricas ou fugindo para Paris, vereis então o que fizestes com o país, com vossa persistente falta de vergonha. Malditos sejais, ó mentirosos, vigaristas, intrujões, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente. Ai de ti, Brasil, o dia final se aproxima.
Se vossos canalhas prevalecerem, virá a hidra de sete cabeças e dez chifres em cada cabeça e voltará o dragão da Inflação. E a prostituta do Atraso virá montada nele, segurando uma taça cheia de abominações. E ela estará bêbada com o sangue dos pobres e em sua testa estará escrito: “Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país.” Ai de ti, Brasil! Canta tua ultima canção na boquinha da garrafa.
(*) Homenagem a Rubem Braga
Arnaldo Jabor
Estás perdido e cego no meio da iniquidade dos partidos que te assolam e que contemplas com medo e tolerância
Ai de ti, Brasil, eu te mandei o sinal e não recebeste. Eu te avisei e me ignoraste, displicente e conivente com teus malfeitos e erros. Ai de ti, eu te analisei com fervor romântico durante os últimos 20 anos e riste de mim. Ai de ti, Brasil! Eu já vejo os sinais de tua perdição nos albores de uma tragédia anunciada para o presente do século XXI, que não terá mais futuro. Ai de ti, Brasil — já vejo também as sarças de fogo onde queimarás para sempre! Ai de ti, Brasil, que não fizeste reforma alguma e que deixaste os corruptos usar a democracia para destruí-la. Malditos os laranjas e as firmas sem porta.
Ai de ti, Miami, para onde fogem os ladrões que nadam em vossas piscinas em forma de vagina e corcoveiam em jet-skis, gargalhando de impunidade. Malditas as bermudas cor-de-rosa, barrigas arrogantes e carrões que valem o preço de uma escola. Maldita a cabeleira do Renan, os olhos cobiçosos de Cunha, malditos vós que ostentais cabelos acaju, gravatas de bolinhas e jaquetões cobertos de teflon, onde nada cola. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Brasília? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?
Ai de vós, celebridades cafajestes, que viveis como se estivésseis na corte de Luís XIV, entre bolsas Chanel, gargantilhas de pérola, tapetes de zebra e elefantes de prata. Portais em vosso peito diamantes em que se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis. Ai de vós, pois os miseráveis se desentocarão e seus trapos vão brilhar mais que vossos Rolex de ouro. Ai de ti, cascata de camarões!
Tu não viste o sinal, Brasil. Estás perdido e cego no meio da iniquidade dos partidos que te assolam e que contemplas com medo e tolerância. Cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras e deste risadas ébrias e vãs no seio do Planalto. Ai de vós, intelectuais, porque tudo sabeis e nada denunciais, por medo ou vaidade. Ai de vós, acadêmicos que quereis manter a miséria “in vitro” para legitimar vossas teorias. Ai de vós, “bolivarianos” de galinheiro, que financiais países escrotos com juros baixos, mesmo sem grana para financiar reformas estruturais aqui dentro. Ai de ti, Brasil, porque os que se diziam a favor da moralidade desmancham hoje as tuas instituições, diante de nossos olhos impotentes. Ai de ti, que toleraste uma velha esquerda travestida de moderna. Malditos sejais, radicais de cervejaria, de enfermaria e de estrebaria — os bêbados, os loucos e os burros, que vos queixais do país e tomais vossos chopinhos com “boa consciência”. Ai de vós, “amantes do povo” — malditos os que usam esse falso “amor” para justificar suas apropriações indébitas e seus desfalques “revolucionários”.
Ai de vós, que dizeis que nada vistes e nada sabeis, com os crimes explodindo em vossas caras.
Ai de ti, que ignoraste meus sinais de perigo e só agora descobriste que há cartéis de empresas que predam o dinheiro público, com a conivência do próprio poder. Malditas sejam as empresas fantasmas em terrenos baldios, que fazem viadutos no ar, pontes para o nada, esgotos a céu aberto e rapinam os mínimos picuás dos miseráveis.
Malditos os fundos de pensão intocáveis e intocados, com bilhões perdidos na Bolsa, de propósito, para ocultar seus esbulhos e defraudações. Malditos também empresários das sombras. Malditos também os que acham que quanto pior, melhor.
A grande punição está a caminho. Ai de ti, Brasil, pois acreditaste no narcisismo deslumbrado de um demagogo que renegou tudo que falava antes, que destruiu a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises, para voltar um dia como “pai da pátria”. Maldito esse homem nefasto que te fez andar de marcha à ré.
Ai de ti Brasil, porque sempre te achaste à beira do abismo ou que tua vaca fora para o brejo. Esse pessimismo endêmico é uma armadilha em que caíste e que te paralisa, como disse alguém: és um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.
Ai de vós, advogados do diabo que conseguis liminares em chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca-do-boi de nossas prisões. Maldita seja a crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos. Malditos compradiços juízes, repulsivos desembargadores, vendilhões de sentenças para proteger sórdidos interesses políticos. Malditos sejam os que levam dólares nas meias e nas cuecas e mais ainda aqueles que levam os dólares para as Bahamas.
Ai de vós! A ira de Deus não vai tardar...
Sei que não adianta vos amaldiçoar, pois nunca mudareis a não ser pela morte, guerra ou catástrofe social que pode estar mais perto do que pensais. Mas mesmo assim, vos amaldiçoo.
Ai de ti, Brasil!
Já vejo as torres brancas de Brasília apontando sobre o mar de lama que inundará o cerrado. Já vejo São Paulo invadida pelas periferias, que cobrarão pedágio sobre vossas Mercedes. Escondidos atrás de cercas elétricas ou fugindo para Paris, vereis então o que fizestes com o país, com vossa persistente falta de vergonha. Malditos sejais, ó mentirosos, vigaristas, intrujões, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente. Ai de ti, Brasil, o dia final se aproxima.
Se vossos canalhas prevalecerem, virá a hidra de sete cabeças e dez chifres em cada cabeça e voltará o dragão da Inflação. E a prostituta do Atraso virá montada nele, segurando uma taça cheia de abominações. E ela estará bêbada com o sangue dos pobres e em sua testa estará escrito: “Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país.” Ai de ti, Brasil! Canta tua ultima canção na boquinha da garrafa.
(*) Homenagem a Rubem Braga
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Arnaldo Jabor,
Prosa.
Escreva para o meu e-mail: silvafonseca@gmail.com
segunda-feira, junho 01, 2015
O futuro não será mais o que era. Arnaldo Jabor. Política
O futuro não será mais o que era
Arnaldo Jabor
As velhas utopias, os projetos sociais ou políticos estão irrealizáveis
Outro dia li uma história (onde?) que poderia ser o início de um romance, um mote para poesia ou um caso para se contar ao pé do fogo.
Um homem de 25 anos, casado e com um filho pequeno, resolveu escalar uma montanha nevada. Subitamente, caiu uma avalanche sobre ele, sepultando-o sob as toneladas de neve. A mulher desesperada, amigos e guardas florestais esquadrinharam tudo em volta da subida da montanha. Nada. Passaram-se os anos. Muitos anos. O menino cresceu e por volta dos 40 e tantos anos resolveu esquiar na montanha, boa para descidas alucinantes.
Embaixo, feliz com sua façanha, viu um corpo aparecendo sob a neve que já derretia com o verão. Limpou a neve, puxou o corpo e alucinado viu que era seu pai, do qual tinha uma longínqua lembrança. E seu pai estava intacto. E deu-se o fato espantoso: ele tinha quase 50 anos e estava diante de seu pai com 20 e poucos. Ele contemplava a morte ao avesso — e o tempo andou para trás. Sempre achamos que a vida e o tempo fluem para um futuro qualquer, numa linha reta. E essa linha tinha sido quebrada. Onde estava o passado e onde o presente? E ele via o passado do pai, ali presente. Não era uma múmia nem o resto de um falecido. Era o pai, com roupa, ganchos de alpinista e os olhos congelados e abertos. Aos poucos, o tempo foi reaparecendo. E ele levou o pai para o cemitério e enterrou-o como um filho.
Escrevendo esta história, me lembrei daquele outro morto eterno, na Áustria, um homem pré-histórico, com arco e flecha, sob toneladas de neve durante cinco mil anos. Passaram os impérios, as civilizações antigas, os egípcios, gregos, romanos, as guerras mundiais, as pestes, as grandes conquistas, os belos e os horrendos momentos da humanidade — e aquele homenzinho ali, dormindo enquanto a história marchava sobre sua cabeça. Hoje também há uma inversão do tempo. Melhor dizendo: o presente engoliu o passado e apagou o futuro. A ideia de “futuro” se apaga porque não há mais um lugar onde chegaremos, um dia. Há apenas num enorme presente, andando até o infinito. O futuro sempre foi imprevisível. O estranho é que agora está previsível demais: não pertence mais ao desejo dos homens — as coisas é que pensam nosso futuro. Elas têm vida própria. Como escreveu Paul Valéry nos anos 1920, o grande poeta e pensador que orienta este artigo: “O futuro não será mais o que era”. Frase irônica, profética e genial. Essas duas histórias que contei acima me levaram a ler seu prefácio para as “Cartas persas” de Montesquieu, onde ele desenvolve a ideia de que as “coisas vagas“, imprecisas, tênues, são essenciais para o pensamento das sociedades de modo a criar o desejo, aí sim, de um futuro possível.
Valéry escreveu: “Que será de nós sem criações, fábulas, arte, mitos, crenças? Que será de nós sem o socorro do que não existe?” Está sendo criada uma “epi-natureza” onde o homem não mandará mais em nada, com projetos que fugirão sempre de seu controle. As coisas nos governarão, para o bem ou para o mal. Desculpem se estou citando muito, mas, como escreveu Marx: “O capital cria não apenas objetos para o sujeito, mas também o sujeito para os objetos”. Um dia chegaremos ao tempo de uma “deliciosa reificação”, quando (quem sabe?) seremos felizes como “coisas”.
As velhas utopias, os projetos sociais ou políticos estão irrealizáveis. Como planejar algo se as incertezas do mundo nos levam de volta ao congestionamento dos “fatos”. Sim, dos fatos erráticos e intempestivos. Valéry escreve: “A barbárie é feita apenas de fatos, por isso é necessário que a era da Ordem seja o império das ficções, do que não ‘é’ ainda. (...) A Ordem exige a ação da presença das coisas ausentes. Daí resulta o equilíbrio dos instintos pelos ideais”.
Os “fatos” não se conjugam, são aleatórios. O pensamento ocidental tenta encontrar algo para explicar seu presente e futuro, alguma lógica reveladora do mundo, mas os “fatos“ se recusam a participar de qualquer processo. Vivemos uma História de fait divers. Estamos sendo arrojados a um tempo a-histórico. No futuro (!) seremos descritos como uma antiguidade composta de fatos trágicos ou ridículos — inexplicáveis. Qualquer esperança de síntese será impossível. Como escreveu Baudrillard (tão desprezado pela academia porque tinha muita imaginação): “Acabaram-se os universais; só temos hoje o singular e o mundial”.
E hoje vemos perplexos e amedrontados que o lixo que o mundo ocidental ignorou está voltando e sendo derramado sobre nós. O terrorismo do Oriente Médio é o assustador exemplo.
Eles criam catástrofes isoladas, para corroer nosso sonho de completude. É a lógica do terror: a inesperada chegada dos fatos da violência e da morte. Só produzem fatos. Os atentados buscam o incompreensível, o inimaginável. Os nazistas queriam construir o tal milênio ariano; os comunas, o paraíso social, mas os islâmicos fanáticos não querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Tudo que sempre fizemos tem o alvo na finalidade, no progresso. O Islã não quer isso. Quer o imóvel, a verdade incontestável. O Islã não quer fazer parte da História — quer mesmo desmoralizá-la. Para eles, a História é uma mentira de infiéis. Eles odeiam o passado e por isso destroem cidades milenares e tesouros culturais para apagar quaisquer vestígios de outra época.
Enquanto isso, estamos encalacrados no presente, buscando certezas que não chegam. Queremos conclusões, soluções precisas. Toda a era moderna é uma busca contínua da precisão, um rumo que elimina tudo que é vago ou irracional para privilegiar o que é mensurável e verificável.
A tecnociência talvez contribua para uma dúvida: ela é maravilhosa ou atemorizante?
Para Valéry, a antiga, a primitiva barbárie feita só de fatos não é menos perigosa do que a nova “barbárie” da ciência positiva, que restaura o domínio dos “fatos”, com potente e exata precisão. É uma nova barbárie. Voltamos a viver sob o domínio dos fatos, só que dos fatos científicos.
Arnaldo Jabor
As velhas utopias, os projetos sociais ou políticos estão irrealizáveis
Outro dia li uma história (onde?) que poderia ser o início de um romance, um mote para poesia ou um caso para se contar ao pé do fogo.
Um homem de 25 anos, casado e com um filho pequeno, resolveu escalar uma montanha nevada. Subitamente, caiu uma avalanche sobre ele, sepultando-o sob as toneladas de neve. A mulher desesperada, amigos e guardas florestais esquadrinharam tudo em volta da subida da montanha. Nada. Passaram-se os anos. Muitos anos. O menino cresceu e por volta dos 40 e tantos anos resolveu esquiar na montanha, boa para descidas alucinantes.
Embaixo, feliz com sua façanha, viu um corpo aparecendo sob a neve que já derretia com o verão. Limpou a neve, puxou o corpo e alucinado viu que era seu pai, do qual tinha uma longínqua lembrança. E seu pai estava intacto. E deu-se o fato espantoso: ele tinha quase 50 anos e estava diante de seu pai com 20 e poucos. Ele contemplava a morte ao avesso — e o tempo andou para trás. Sempre achamos que a vida e o tempo fluem para um futuro qualquer, numa linha reta. E essa linha tinha sido quebrada. Onde estava o passado e onde o presente? E ele via o passado do pai, ali presente. Não era uma múmia nem o resto de um falecido. Era o pai, com roupa, ganchos de alpinista e os olhos congelados e abertos. Aos poucos, o tempo foi reaparecendo. E ele levou o pai para o cemitério e enterrou-o como um filho.
Escrevendo esta história, me lembrei daquele outro morto eterno, na Áustria, um homem pré-histórico, com arco e flecha, sob toneladas de neve durante cinco mil anos. Passaram os impérios, as civilizações antigas, os egípcios, gregos, romanos, as guerras mundiais, as pestes, as grandes conquistas, os belos e os horrendos momentos da humanidade — e aquele homenzinho ali, dormindo enquanto a história marchava sobre sua cabeça. Hoje também há uma inversão do tempo. Melhor dizendo: o presente engoliu o passado e apagou o futuro. A ideia de “futuro” se apaga porque não há mais um lugar onde chegaremos, um dia. Há apenas num enorme presente, andando até o infinito. O futuro sempre foi imprevisível. O estranho é que agora está previsível demais: não pertence mais ao desejo dos homens — as coisas é que pensam nosso futuro. Elas têm vida própria. Como escreveu Paul Valéry nos anos 1920, o grande poeta e pensador que orienta este artigo: “O futuro não será mais o que era”. Frase irônica, profética e genial. Essas duas histórias que contei acima me levaram a ler seu prefácio para as “Cartas persas” de Montesquieu, onde ele desenvolve a ideia de que as “coisas vagas“, imprecisas, tênues, são essenciais para o pensamento das sociedades de modo a criar o desejo, aí sim, de um futuro possível.
Valéry escreveu: “Que será de nós sem criações, fábulas, arte, mitos, crenças? Que será de nós sem o socorro do que não existe?” Está sendo criada uma “epi-natureza” onde o homem não mandará mais em nada, com projetos que fugirão sempre de seu controle. As coisas nos governarão, para o bem ou para o mal. Desculpem se estou citando muito, mas, como escreveu Marx: “O capital cria não apenas objetos para o sujeito, mas também o sujeito para os objetos”. Um dia chegaremos ao tempo de uma “deliciosa reificação”, quando (quem sabe?) seremos felizes como “coisas”.
As velhas utopias, os projetos sociais ou políticos estão irrealizáveis. Como planejar algo se as incertezas do mundo nos levam de volta ao congestionamento dos “fatos”. Sim, dos fatos erráticos e intempestivos. Valéry escreve: “A barbárie é feita apenas de fatos, por isso é necessário que a era da Ordem seja o império das ficções, do que não ‘é’ ainda. (...) A Ordem exige a ação da presença das coisas ausentes. Daí resulta o equilíbrio dos instintos pelos ideais”.
Os “fatos” não se conjugam, são aleatórios. O pensamento ocidental tenta encontrar algo para explicar seu presente e futuro, alguma lógica reveladora do mundo, mas os “fatos“ se recusam a participar de qualquer processo. Vivemos uma História de fait divers. Estamos sendo arrojados a um tempo a-histórico. No futuro (!) seremos descritos como uma antiguidade composta de fatos trágicos ou ridículos — inexplicáveis. Qualquer esperança de síntese será impossível. Como escreveu Baudrillard (tão desprezado pela academia porque tinha muita imaginação): “Acabaram-se os universais; só temos hoje o singular e o mundial”.
E hoje vemos perplexos e amedrontados que o lixo que o mundo ocidental ignorou está voltando e sendo derramado sobre nós. O terrorismo do Oriente Médio é o assustador exemplo.
Eles criam catástrofes isoladas, para corroer nosso sonho de completude. É a lógica do terror: a inesperada chegada dos fatos da violência e da morte. Só produzem fatos. Os atentados buscam o incompreensível, o inimaginável. Os nazistas queriam construir o tal milênio ariano; os comunas, o paraíso social, mas os islâmicos fanáticos não querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Tudo que sempre fizemos tem o alvo na finalidade, no progresso. O Islã não quer isso. Quer o imóvel, a verdade incontestável. O Islã não quer fazer parte da História — quer mesmo desmoralizá-la. Para eles, a História é uma mentira de infiéis. Eles odeiam o passado e por isso destroem cidades milenares e tesouros culturais para apagar quaisquer vestígios de outra época.
Enquanto isso, estamos encalacrados no presente, buscando certezas que não chegam. Queremos conclusões, soluções precisas. Toda a era moderna é uma busca contínua da precisão, um rumo que elimina tudo que é vago ou irracional para privilegiar o que é mensurável e verificável.
A tecnociência talvez contribua para uma dúvida: ela é maravilhosa ou atemorizante?
Para Valéry, a antiga, a primitiva barbárie feita só de fatos não é menos perigosa do que a nova “barbárie” da ciência positiva, que restaura o domínio dos “fatos”, com potente e exata precisão. É uma nova barbárie. Voltamos a viver sob o domínio dos fatos, só que dos fatos científicos.
Marcadores:Charles Fonseca,....Charles Fonseca,
Arnaldo Jabor,
Política
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segunda-feira, maio 25, 2015
A história do meu avô. Arnaldo Jabor. Política
A história do meu avô
Arnaldo Jabor
Como um espectador privilegiado, ele presenciou eventos marcantes do país
Diante das perversões desta História torta que vivemos, desta enxurrada de absurdos, pensei: como me lembrarei de tudo isso daqui a uns anos (se eu viver)? Os fatos invadem nossa vida e criam uma História paralela, individual, feita de lembranças e impressões, para além das grandes mutações políticas. É uma história dentro do corpo, feita de vivências mínimas que nos moldam a personalidade.
Falo isso porque hoje me lembrei de meu avô. Como um espectador privilegiado, ele presenciou eventos marcantes do país, que narrava como uma história pessoal. Vovô quase não estudou, mas percebia o âmago de acontecimentos. Com suas conversas, aprendi coisas do século XX que moravam dentro de sua cabeça. Ele fazia monólogos assim:
“Eu não estudei quase nada, pois na porta do colégio, esperneava para não entrar e minha família ignorante permitia. Meu pai chamava-se Emilio Julio Hess (meu bisavô), era da Marinha e cismou de construir um submarino no fim do século XIX. Foi um sucesso e chegou a mergulhar no reservatório da Marinha. Depois, acabou morrendo de desgosto, porque seu invento foi esquecido. Acho que o Lima Barreto botou isso num livro. Ah, o Lima Barreto... bebia muito. Lá pelos anos 1920, eu levantei ele várias vezes — de porre, com a cara enfiada na sarjeta. Minha mãe morreu também e fui morar com minha avó numa casinha pobre, quase um barraco. Não sei por quê, ficamos paupérrimos.
“Não tínhamos nada, e minha avó acabou vendendo pastel na Praça XV.
“E eu, durante um tempo, vivi de ratos. Isso mesmo, meu neto. De ratos. Era a época da revolta da vacina, quando Oswaldo Cruz quis limpar o Rio da varíola e de febre amarela. Muita gente tinha o rosto picado de buracos. Mas por que vivi de ratos? Você conhece uma musiquinha assim: ‘Rato, rato, rato, por que motivo que roeste o meu baú?’ Conhece? Pois é... a prefeitura criou os caçadores de ratos, contra a peste bubônica... Eles nos davam uns trocados por cada rato morto. Vivi de rato por um tempo. Coitado do Oswaldo Cruz... Jogavam pedras na casa dele, a multidão era contra a vacina obrigatória... gente burra... tudo analfabeto...
“Dessa época, eu me lembro também do João Cândido, um crioulo muito macho que chefiou a Revolta da Chibata. Sabe o que foi? Os marinheiros levavam porrada o tempo todo. Era no chicote... Não tinham direito a nada e comiam quase lixo... Eles se revoltaram, e o Rio tinha medo de que atacassem a cidade com canhão, e foi tudo preso; fingiram que dariam anistia, mas o filho da mãe do Hermes da Fonseca mandou matar uma porrada de marujos e jogou muitos nas piores masmorras.
“E você já ouviu falar dos 18 do Forte? Em 1922, no Forte de Copacabana, uns tenentes se recusaram a se render depois de uma revolta também e saíram andando pela Avenida Atlântica debaixo das balas do Exército... O Eduardo Gomes era chefe e foi baleado, e eu me lembro também que um sujeito meio maluco, civil, se meteu na marcha e foi morto na hora... Eu estava em Copacabana... tinha uns 20 anos... não vi direito, mas lembro a sirene das ambulâncias...
“Depois, em 35, os comunistas fizeram um levante na Praia Vermelha... Foi tudo para o brejo e prenderam todo mundo... Eu estava na cidade quando eu vi o Prestes entrando num ‘tintureiro’, que era o nome dos carros da polícia... As pessoas vinham e cuspiam na cara dele... Eu vi — cuspiam nele, e ele sério, algemado, empurrado para dentro do tintureiro. Diziam que ele queria vender o Brasil para a Rússia. Cuspiam nele...
“Aí, começou a guerra, os alemães afundaram uns navios brasileiros, e como eu tinha sobrenome alemão, Hess, jogavam pedras na minha casa lá no Méier e pintaram uma cruz nazista no muro, que o jardineiro Antônio Bicho limpava, e eles pintavam de novo. Lembra dele? Um negão sem dentes e descalço que te levava no colo? Naquele tempo, preto não tinha dente nem sapato...
“Todo mundo fala do Getúlio, mas quando ele voltou em 1950 eu estava lá assistindo o discurso dele. Eu me lembro que ele disse: ‘O povo vai subir comigo as escadas do Catete!’. É... ele ganhou a eleição contra o Eduardo Gomes, o brigadeiro que, diziam, tinha perdido o saco na época dos 18 do Forte... é... bala no saco... E, como ele era solteiro, diziam que ele era broxa e sacaneavam ele cantando ‘o brigadeiro é casamenteiro’.
“Eu estava no Maracanã no dia do Brasil e Uruguai... A gente só precisava do empate e já estava um a zero nós, gol do Friaça... Até que veio a bola do Schiaffino para o Gigghia... Aí, baixou o maior silêncio que eu vi na minha vida.. Só se ouviam os sapatos... As pessoas descendo pelas rampas. Nunca tinha visto uma multidão chorando.
“E o suicídio do Getúlio? No enterro eu estava lá... Parecia um rio... Sempre eu vejo na TV uma mesma preta velha que chora em cima do caixão do homem... Eu estava perto... O Getúlio com algodão nas narinas... A Virgínia Lane era amante dele... e depois disse que ele tinha sido assassinado... Aquela que cantava ‘Sassaricando’, lembra? Isso você lembra: ‘a viúva, o brotinho e a madame!’ Aí veio Brasília, o Juscelino dançando o ‘Peixe vivo’...
“Um dia, os tanques encheram as ruas... Apareceu aquele sujeitinho pequeno que ia ser o presidente, o Castelo Branco... Mas eu não ia mesmo era com a cara daquele outro, de óculos e cara de burro, o Costa e Silva... Se você falasse mal de um general ia em cana e podia sumir... E eu me lembro que lembrava do Prestes levando cuspe na cara... Aí sua avó morreu; do que eu mais lembro e tenho saudades é que ela tinha cabelos azuis... Nunca entendi por que ela pintava o cabelo de azul... A partir daí, meu neto, eu não me lembro de muita coisa não... sei lá...ah! Só me lembro daqueles sujeitos andando na Lua. Será? Eu não acredito muito em americano, não”.
É isso. Meu avô, Arnaldo Hess, foi um belo retrato do Brasil dos anos 1940/50. Era um malandro carioca — em volta dele, gravitavam o botequim, a gravata com alfinete de pérola, o sapato bicolor, o cabelo com Gumex. Antes de morrer, me olhou, já meio gagá, e disse a frase mais linda:
“Acho chato morrer, seu Arnaldinho, porque eu nunca mais vou ver a Avenida Rio Branco”.
Arnaldo Jabor
Como um espectador privilegiado, ele presenciou eventos marcantes do país
Diante das perversões desta História torta que vivemos, desta enxurrada de absurdos, pensei: como me lembrarei de tudo isso daqui a uns anos (se eu viver)? Os fatos invadem nossa vida e criam uma História paralela, individual, feita de lembranças e impressões, para além das grandes mutações políticas. É uma história dentro do corpo, feita de vivências mínimas que nos moldam a personalidade.
Falo isso porque hoje me lembrei de meu avô. Como um espectador privilegiado, ele presenciou eventos marcantes do país, que narrava como uma história pessoal. Vovô quase não estudou, mas percebia o âmago de acontecimentos. Com suas conversas, aprendi coisas do século XX que moravam dentro de sua cabeça. Ele fazia monólogos assim:
“Eu não estudei quase nada, pois na porta do colégio, esperneava para não entrar e minha família ignorante permitia. Meu pai chamava-se Emilio Julio Hess (meu bisavô), era da Marinha e cismou de construir um submarino no fim do século XIX. Foi um sucesso e chegou a mergulhar no reservatório da Marinha. Depois, acabou morrendo de desgosto, porque seu invento foi esquecido. Acho que o Lima Barreto botou isso num livro. Ah, o Lima Barreto... bebia muito. Lá pelos anos 1920, eu levantei ele várias vezes — de porre, com a cara enfiada na sarjeta. Minha mãe morreu também e fui morar com minha avó numa casinha pobre, quase um barraco. Não sei por quê, ficamos paupérrimos.
“Não tínhamos nada, e minha avó acabou vendendo pastel na Praça XV.
“E eu, durante um tempo, vivi de ratos. Isso mesmo, meu neto. De ratos. Era a época da revolta da vacina, quando Oswaldo Cruz quis limpar o Rio da varíola e de febre amarela. Muita gente tinha o rosto picado de buracos. Mas por que vivi de ratos? Você conhece uma musiquinha assim: ‘Rato, rato, rato, por que motivo que roeste o meu baú?’ Conhece? Pois é... a prefeitura criou os caçadores de ratos, contra a peste bubônica... Eles nos davam uns trocados por cada rato morto. Vivi de rato por um tempo. Coitado do Oswaldo Cruz... Jogavam pedras na casa dele, a multidão era contra a vacina obrigatória... gente burra... tudo analfabeto...
“Dessa época, eu me lembro também do João Cândido, um crioulo muito macho que chefiou a Revolta da Chibata. Sabe o que foi? Os marinheiros levavam porrada o tempo todo. Era no chicote... Não tinham direito a nada e comiam quase lixo... Eles se revoltaram, e o Rio tinha medo de que atacassem a cidade com canhão, e foi tudo preso; fingiram que dariam anistia, mas o filho da mãe do Hermes da Fonseca mandou matar uma porrada de marujos e jogou muitos nas piores masmorras.
“E você já ouviu falar dos 18 do Forte? Em 1922, no Forte de Copacabana, uns tenentes se recusaram a se render depois de uma revolta também e saíram andando pela Avenida Atlântica debaixo das balas do Exército... O Eduardo Gomes era chefe e foi baleado, e eu me lembro também que um sujeito meio maluco, civil, se meteu na marcha e foi morto na hora... Eu estava em Copacabana... tinha uns 20 anos... não vi direito, mas lembro a sirene das ambulâncias...
“Depois, em 35, os comunistas fizeram um levante na Praia Vermelha... Foi tudo para o brejo e prenderam todo mundo... Eu estava na cidade quando eu vi o Prestes entrando num ‘tintureiro’, que era o nome dos carros da polícia... As pessoas vinham e cuspiam na cara dele... Eu vi — cuspiam nele, e ele sério, algemado, empurrado para dentro do tintureiro. Diziam que ele queria vender o Brasil para a Rússia. Cuspiam nele...
“Aí, começou a guerra, os alemães afundaram uns navios brasileiros, e como eu tinha sobrenome alemão, Hess, jogavam pedras na minha casa lá no Méier e pintaram uma cruz nazista no muro, que o jardineiro Antônio Bicho limpava, e eles pintavam de novo. Lembra dele? Um negão sem dentes e descalço que te levava no colo? Naquele tempo, preto não tinha dente nem sapato...
“Todo mundo fala do Getúlio, mas quando ele voltou em 1950 eu estava lá assistindo o discurso dele. Eu me lembro que ele disse: ‘O povo vai subir comigo as escadas do Catete!’. É... ele ganhou a eleição contra o Eduardo Gomes, o brigadeiro que, diziam, tinha perdido o saco na época dos 18 do Forte... é... bala no saco... E, como ele era solteiro, diziam que ele era broxa e sacaneavam ele cantando ‘o brigadeiro é casamenteiro’.
“Eu estava no Maracanã no dia do Brasil e Uruguai... A gente só precisava do empate e já estava um a zero nós, gol do Friaça... Até que veio a bola do Schiaffino para o Gigghia... Aí, baixou o maior silêncio que eu vi na minha vida.. Só se ouviam os sapatos... As pessoas descendo pelas rampas. Nunca tinha visto uma multidão chorando.
“E o suicídio do Getúlio? No enterro eu estava lá... Parecia um rio... Sempre eu vejo na TV uma mesma preta velha que chora em cima do caixão do homem... Eu estava perto... O Getúlio com algodão nas narinas... A Virgínia Lane era amante dele... e depois disse que ele tinha sido assassinado... Aquela que cantava ‘Sassaricando’, lembra? Isso você lembra: ‘a viúva, o brotinho e a madame!’ Aí veio Brasília, o Juscelino dançando o ‘Peixe vivo’...
“Um dia, os tanques encheram as ruas... Apareceu aquele sujeitinho pequeno que ia ser o presidente, o Castelo Branco... Mas eu não ia mesmo era com a cara daquele outro, de óculos e cara de burro, o Costa e Silva... Se você falasse mal de um general ia em cana e podia sumir... E eu me lembro que lembrava do Prestes levando cuspe na cara... Aí sua avó morreu; do que eu mais lembro e tenho saudades é que ela tinha cabelos azuis... Nunca entendi por que ela pintava o cabelo de azul... A partir daí, meu neto, eu não me lembro de muita coisa não... sei lá...ah! Só me lembro daqueles sujeitos andando na Lua. Será? Eu não acredito muito em americano, não”.
É isso. Meu avô, Arnaldo Hess, foi um belo retrato do Brasil dos anos 1940/50. Era um malandro carioca — em volta dele, gravitavam o botequim, a gravata com alfinete de pérola, o sapato bicolor, o cabelo com Gumex. Antes de morrer, me olhou, já meio gagá, e disse a frase mais linda:
“Acho chato morrer, seu Arnaldinho, porque eu nunca mais vou ver a Avenida Rio Branco”.
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segunda-feira, maio 11, 2015
Anestesia sem cirurgia. Arnaldo Jabor. Política
Anestesia sem cirurgia
A crise destrói o país e muda nossas mentes e corações
Arnaldo Jabor
Ando pelas ruas em busca de entendimento. Vejo que as pessoas não massacradas pela miséria estão pensando em alguma saída para o tornado de escândalos que se abateu sobre nossas cabeças. A crise destrói o país e muda nossas mentes e corações. Cada um leva consigo uma forma de melancolia. É a grande neurose nacional do “que fazer?”. E diante de todos se ergue o mistério da solução remota.
Um dos grupos mais comuns é a turma do “precisamos”. Eles estão em botequins, em universidades, em jornalistas e comentaristas de TV, em táxis e passageiros. Eles dizem sem parar: “Precisamos de...”
“Precisamos mudar a realidade do país!” — mas ninguém sabe como. Ficou tão visível nosso entulho histórico que “precisamos” fazer alguma coisa. Fazer o quê? Diante da muralha de impossibilidades, como destrinchar o sarapatel de crimes que se emaranham em um nó cego? Como dar conta das chicanas do Judiciário, dos cabelos implantados, das cabeças acaju ou asa-da-graúna; quem vai dar conta do cafajestismo dos donos do poder, quem punirá os conluios públicos e privados, quem vai dar dentes à população, quem vai destrinchar os aditivos de contratos, os ajustes fiscais negados por interesse pessoal, quem vai impedir os assaltos aos fundos de pensão? Quem fará? Ninguém sabe, mas nos abrigamos nessa esperança vã.
Andando, vejo que mais adiante estão os “lamentosos,” primos da turma dos “precisamos”. Os lamentosos choram pela grandeza imaginada e perdida, choram pelos sonhos que tinham para um país melhor. Sentem-se traídos pela história política, pela vida. E têm nisso um pequeno lucro: consideram-se bons, dignos sofredores, vítimas de uma grande conspiração invencível. Choram por si mesmos.
Na outra esquina, encostam-se os “pessimistas de carteirinha”. São consolados por uma sabedoria desencantada, pois acham que as vacas já foram para o brejo, que já pulamos da beira do abismo e que “essa porra não tem mais jeito, não”. E afundam em deliciosa depressão.
Nos restaurantes e em apartamentos com vista para o mundo, gargalham os “profetas felizes”, a turma do “eu não disse?”. “Sempre falei isso e ninguém ligava; agora, esta bosta explodiu mesmo!”. A zona geral lhes permite posar de profetinhas. E com desdém, com sorridente desgosto, pedem mais um uísque, felizes, orgulhosos por sua clarividência premonitória.
Nos bancos de praça e nos meios-fios, encolhem-se os “fatalistas” com amarga paralisia conformada: “tinha de ser assim, é assim que é, Maktub”, é a vida, o destino, o que fazer? Tudo estava escrito. E eles suspiram, aliviados pela paz da submissão.
Em cantos escuros e becos, em beiras de calçadas, estão os descabelados, de olhos em pânico, ameaçados pela chuva ácida das notícias. São os que sofrem do “delírio de ruína”, onde tudo que era sólido se desmancha no ar. Caem pedras, caem cometas, caem horrores, caem o PCC, a fome, o Estado Islâmico, as cabeças degoladas, os homens-bomba, as mudanças climáticas — tudo se soma numa massa informe de problemas insolúveis. E ficam desesperados em meio aos escombros: “Estamos perdidos; o mundo acabou logo agora que eu estava melhor de vida. Só falta a Terceira Guerra Mundial!”.
E, por cima deles, nos colóquios, nos seminários, nas universidades, flutuam os discursos de análise política límpidos, a sociologia infalível, a orgulhosa ostentação da verdade. “Nós sabemos a verdade: podemos simplificar tudo em fórmulas quase matemáticas. Está tudo claro em nossas teses de doutorado. O problema é que o Brasil não se curva às nossas teses...”.
Temos uma nova raça também: os “neoantipetistas”, os caras que já sacaram que Dilma virou Judas em sábado de aleluia, querem sair fora e faturar uma neo-oposição para ganhar prestígio entre os que, antes, eles chamavam de “neoliberais.” Os pais desse movimento que se espraia são os dois presidentes do Congresso, tranquilos, apesar de acusados pela Justiça. É a maravilhosa tropa de ratos pulando do navio.
E o “pavilhão dos narcisistas”? Acham que a crise é contra eles. “Sabe o que mais? Não quero saber dessa merda toda, vou me fechar em mim mesmo, curtir a vida, graças a Deus tenho uma graninha para ir para Miami. Poluíram meus sonhos de plenitude; o país estaria salvo se fosse igual a mim...”.
Temos, principalmente na Academia, o bando dos “hegelianos do barulho”, que proclamam que tudo de ruim que acontece não passa de uma “contradição negativa” que nos levará a uma síntese de harmonia. Todos os crimes são o prenúncio de uma era de vitória do “geist”, do fim da História, da qual eles se acham os agentes. Não sabem que tudo que é real é irracional. São felizes — para eles, a desgraça é a véspera da luz.
Temos também os “saudosos de porrada”, que clamam pela volta da ditadura. Anseiam pelo simplismo verde-oliva, a solução na base do “bota para quebrar, tem mais é que fuzilar essa putada corrupta!”. Comum em motoristas de táxis e milionários indiciados pela Justiça.
Temos os corruptos indignados: “que país é esse?”, sem esquecer os “enojados e os entediados”. Reclamam: “Ai, que horror, não consigo nem ver essa lama escrota, esse chiqueiro” Ou: ”Ai, que saco, não aguento mais denúncias de corrupção… coisa chata... nem leio mais jornais”.
Outra maravilha psíquica são os pelotões dos meio-intelectuais meio de esquerda, meio artistas que veem toda a catástrofe em volta, mas continuam crendo nos slogans e delírios dos neobolivarianos. É a multidão do autoengano, que não muda de opinião, a turma do “mesmo assim”: “Sei que está tudo uma bosta, mas, mesmo assim, continuo crendo na ideologia do ‘lulo-socialismo’”. É a fé: “Creio porque é absurdo”.
E temos o perigo da “pizza da sociedade”. Por causa do congestionamento dos escândalos, tantos que parecem uma enchente sem foz, a sociedade pode vir a se acostumar com nosso eterno erro histórico e, congregando os biótipos relatados acima, podem formar a intragável pizza da sociedade. Ou seja, como disse uma vez M.H. Simonsen, se essas neuroses permanecerem, seremos para sempre um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.
A crise destrói o país e muda nossas mentes e corações
Arnaldo Jabor
Ando pelas ruas em busca de entendimento. Vejo que as pessoas não massacradas pela miséria estão pensando em alguma saída para o tornado de escândalos que se abateu sobre nossas cabeças. A crise destrói o país e muda nossas mentes e corações. Cada um leva consigo uma forma de melancolia. É a grande neurose nacional do “que fazer?”. E diante de todos se ergue o mistério da solução remota.
Um dos grupos mais comuns é a turma do “precisamos”. Eles estão em botequins, em universidades, em jornalistas e comentaristas de TV, em táxis e passageiros. Eles dizem sem parar: “Precisamos de...”
“Precisamos mudar a realidade do país!” — mas ninguém sabe como. Ficou tão visível nosso entulho histórico que “precisamos” fazer alguma coisa. Fazer o quê? Diante da muralha de impossibilidades, como destrinchar o sarapatel de crimes que se emaranham em um nó cego? Como dar conta das chicanas do Judiciário, dos cabelos implantados, das cabeças acaju ou asa-da-graúna; quem vai dar conta do cafajestismo dos donos do poder, quem punirá os conluios públicos e privados, quem vai dar dentes à população, quem vai destrinchar os aditivos de contratos, os ajustes fiscais negados por interesse pessoal, quem vai impedir os assaltos aos fundos de pensão? Quem fará? Ninguém sabe, mas nos abrigamos nessa esperança vã.
Andando, vejo que mais adiante estão os “lamentosos,” primos da turma dos “precisamos”. Os lamentosos choram pela grandeza imaginada e perdida, choram pelos sonhos que tinham para um país melhor. Sentem-se traídos pela história política, pela vida. E têm nisso um pequeno lucro: consideram-se bons, dignos sofredores, vítimas de uma grande conspiração invencível. Choram por si mesmos.
Na outra esquina, encostam-se os “pessimistas de carteirinha”. São consolados por uma sabedoria desencantada, pois acham que as vacas já foram para o brejo, que já pulamos da beira do abismo e que “essa porra não tem mais jeito, não”. E afundam em deliciosa depressão.
Nos restaurantes e em apartamentos com vista para o mundo, gargalham os “profetas felizes”, a turma do “eu não disse?”. “Sempre falei isso e ninguém ligava; agora, esta bosta explodiu mesmo!”. A zona geral lhes permite posar de profetinhas. E com desdém, com sorridente desgosto, pedem mais um uísque, felizes, orgulhosos por sua clarividência premonitória.
Nos bancos de praça e nos meios-fios, encolhem-se os “fatalistas” com amarga paralisia conformada: “tinha de ser assim, é assim que é, Maktub”, é a vida, o destino, o que fazer? Tudo estava escrito. E eles suspiram, aliviados pela paz da submissão.
Em cantos escuros e becos, em beiras de calçadas, estão os descabelados, de olhos em pânico, ameaçados pela chuva ácida das notícias. São os que sofrem do “delírio de ruína”, onde tudo que era sólido se desmancha no ar. Caem pedras, caem cometas, caem horrores, caem o PCC, a fome, o Estado Islâmico, as cabeças degoladas, os homens-bomba, as mudanças climáticas — tudo se soma numa massa informe de problemas insolúveis. E ficam desesperados em meio aos escombros: “Estamos perdidos; o mundo acabou logo agora que eu estava melhor de vida. Só falta a Terceira Guerra Mundial!”.
E, por cima deles, nos colóquios, nos seminários, nas universidades, flutuam os discursos de análise política límpidos, a sociologia infalível, a orgulhosa ostentação da verdade. “Nós sabemos a verdade: podemos simplificar tudo em fórmulas quase matemáticas. Está tudo claro em nossas teses de doutorado. O problema é que o Brasil não se curva às nossas teses...”.
Temos uma nova raça também: os “neoantipetistas”, os caras que já sacaram que Dilma virou Judas em sábado de aleluia, querem sair fora e faturar uma neo-oposição para ganhar prestígio entre os que, antes, eles chamavam de “neoliberais.” Os pais desse movimento que se espraia são os dois presidentes do Congresso, tranquilos, apesar de acusados pela Justiça. É a maravilhosa tropa de ratos pulando do navio.
E o “pavilhão dos narcisistas”? Acham que a crise é contra eles. “Sabe o que mais? Não quero saber dessa merda toda, vou me fechar em mim mesmo, curtir a vida, graças a Deus tenho uma graninha para ir para Miami. Poluíram meus sonhos de plenitude; o país estaria salvo se fosse igual a mim...”.
Temos, principalmente na Academia, o bando dos “hegelianos do barulho”, que proclamam que tudo de ruim que acontece não passa de uma “contradição negativa” que nos levará a uma síntese de harmonia. Todos os crimes são o prenúncio de uma era de vitória do “geist”, do fim da História, da qual eles se acham os agentes. Não sabem que tudo que é real é irracional. São felizes — para eles, a desgraça é a véspera da luz.
Temos também os “saudosos de porrada”, que clamam pela volta da ditadura. Anseiam pelo simplismo verde-oliva, a solução na base do “bota para quebrar, tem mais é que fuzilar essa putada corrupta!”. Comum em motoristas de táxis e milionários indiciados pela Justiça.
Temos os corruptos indignados: “que país é esse?”, sem esquecer os “enojados e os entediados”. Reclamam: “Ai, que horror, não consigo nem ver essa lama escrota, esse chiqueiro” Ou: ”Ai, que saco, não aguento mais denúncias de corrupção… coisa chata... nem leio mais jornais”.
Outra maravilha psíquica são os pelotões dos meio-intelectuais meio de esquerda, meio artistas que veem toda a catástrofe em volta, mas continuam crendo nos slogans e delírios dos neobolivarianos. É a multidão do autoengano, que não muda de opinião, a turma do “mesmo assim”: “Sei que está tudo uma bosta, mas, mesmo assim, continuo crendo na ideologia do ‘lulo-socialismo’”. É a fé: “Creio porque é absurdo”.
E temos o perigo da “pizza da sociedade”. Por causa do congestionamento dos escândalos, tantos que parecem uma enchente sem foz, a sociedade pode vir a se acostumar com nosso eterno erro histórico e, congregando os biótipos relatados acima, podem formar a intragável pizza da sociedade. Ou seja, como disse uma vez M.H. Simonsen, se essas neuroses permanecerem, seremos para sempre um país “com anestesia, mas sem cirurgia”.
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segunda-feira, abril 27, 2015
A porta dos fundos. Arnaldo Jabor. Sexualidade
A porta dos fundos
Arnaldo Jabor
Como as ideologias falharam, só a sexualidade explica os rumos do mundo
Chega de política. Vou falar de sexo. Antes, havia a “sexpol”, bandeira da política sexual dos anos 1960. Hoje, temos no máximo a “polsex”, ou seja, como as ideologias dançaram, só a sexualidade explica muitos rumos do mundo e, claro, do Brasil, nosso grande motel das ilusões perdidas. Na verdade, falarei só sobre uma parte muito importante da sexualidade: a bunda.
Há um tempo, escreveram na internet um artigo com meu nome, onde meu “falso eu” dizia que mulher não precisa ter bunda dura e que as celulites eram bem-vindas. Na rua, veio uma senhora toda contente e me declarou: “Eu tenho bunda mole!” e saiu sorridente pelo artigo que eu “não” escrevi. Por isso, escrevo hoje sobre a “bunda”, a famosa “preferência nacional”, um dos poucos monumentos culturais que ainda nos restam. Por isso, e para esquecer nossa pornopolítica , escrevo, como um apócrifo de mim mesmo.
Vamos a isso. Visto de frente, o Brasil anda para trás, parece um ex-Brasil. Por isso, vou olhar pela porta dos fundos: a bunda. A palavra já soa imprópria, obscena, já traz um adjetivo acoplado. Por isso, desculpem-me os leitores, mas a palavra “bunda” é a única de que dispomos. Temos eufemismos com “nádegas”, doces apelidos como bumbum, mas o termo que usamos na vida diária é bunda mesmo, com a ressonância africana dos “bundos”, de onde vieram as vênus negras que nos miscigenaram. A bunda não começou no descobrimento do Brasil; as índias, apesar de “oferecidas”, não as tinham avolumadas, mas escorridas “em pera” , barrigudinhas e frágeis. A bunda começou nas senzalas com senhores inflamados pelas negras, longe do tédio das sinhás.
Há uma espantosa separação entre a bunda e a dona da bunda. A bunda fica mais importante do que sua dona. Conheci uma moça que ficou meio paranoica por causa do lindo rabinho que portava. Quando conversávamos, não era a ela que servíamos, mas à “outra”. Ela vivia com ciúmes de si mesma, e sua bundinha parecia dizer: “prestem atenção nela; ela também é gente...”.
Reparem que as mulheres de bunda bonita, mesmo quando estão de frente, estão de costas para nossos olhos. As mulheres de frente são mais inquietantes, porque são “sujeitos” com rosto e alma. Já as mulheres de costas aparentam um caráter mais passivo, mais “objetal”, diriam os filósofos. O desejo pelas costas é a defesa contra os perigos da vulva. A bunda é estéril; não inquieta como a vagina e seu mistério profundo. A bunda não procria — muito pelo contrário. Eu já vi belas bundinhas no passado, nas areias de Ipanema, e elas tinham uma florescência espontânea, inocente. Naquele tempo, não havia muito estímulo à punhetinha; raras eram as revistas pornográficas. Hoje, tanta oferta sexual angustia-nos, mostra que nosso desejo é programado por indústrias masturbatórias, provocando tesão para vender satisfação.
Nunca vimos tanta publicidade movida a sexo. A propaganda nos promete uma suruba transcendental. Em nenhum lugar do mundo vemos esse apelo sexual nas ruas, nas roupas das meninas — nosso feminismo resultou nisso. Quase todos os outdoors são de mulher nua — outro dia quase bati o carro por causa de um cartaz com uma lourinha nua da “Playboy”.
Hoje sexo é uma imagem farta e colorida. Na época, punheta era literatura; para nos excitar tínhamos de imaginar complicadas tramas de suspense com estrutura de filme policial e o que acendia o desejo eram justamente os obstáculos a vencer até a satisfação final.
Babávamos sim diante das vedetes do teatro rebolado, de Angelita Martinez, de Carmen Verônica, Luz del Fuego, mas elas eram pessoas verídicas, inteiras, e sua nudez tinha algo de transgressivo, de liberdade e luta. Hoje as mulheres travam uma competição frenética de bundas e seios e eu me pergunto: O que querem elas provar? Querem nos levar para o fundo do mar como sereias, querem destruir os lares, querem mostrar que o sexo sem limites resolverá os problemas do Brasil?
E agora, nesses tempos sinistros, surgiu a bunda industrial. Ela fatura milhões para as revistas de sacanagem. Elas programam nosso desejo e limitam a imaginação criadora dos praticantes do vicio solitário, como chamavam os padres no confessionário.
A bunda virou um instrumento de ascensão social. Mesmo nossas meninas mais românticas, sonhando com casamento e filhos, são obrigadas a rebolados cada vez mais desbragadas. Milhões de menininhas pelos grotões do país se olham no espelho e pensam: “Vou subir na vida”. A bunda é um capital. A pessoa não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. O corpo e a pessoa são duas coisas diferentes; a menina mostra sua bunda como se fosse uma irmã siamesa.
Agora, com o surgimento da bunda digital na internet, a bunda perdeu aquela aura de objeto único, “erguida no altar de nosso desejo” (arggh!). Viraram bundas em streaming, olhadas com tédio por nossos garotos, como um videogame superado. Depois da bunda, o que virá, já que a indústria cultural pede sempre mais? Ânus luminosos, entranhas profundas, o avesso do corpo?
No século XXI, nasce a bunda distópica, a “pós-bunda”, pela fragmentação do desejo. Desejamos as partes, mas tememos o conjunto. O chamado “objeto total” de Melanie Klein (aquela mulher sem bunda e com seios enormes) foi substituído pelo objeto perverso, parcial, deliciosamente irresponsável, “da ordem do demônio”, ao contrário dos seios, “objetos de Deus”.
Hoje, com a sonda cósmica pousando em cometa, com robôs capinando em Marte, em meio à crise mundial, nós olhamos a bunda: a porta dos fundos, a entrada de serviço, em que talvez fiquemos para sempre. A bunda é nosso destino histórico.
Arnaldo Jabor
Como as ideologias falharam, só a sexualidade explica os rumos do mundo
Chega de política. Vou falar de sexo. Antes, havia a “sexpol”, bandeira da política sexual dos anos 1960. Hoje, temos no máximo a “polsex”, ou seja, como as ideologias dançaram, só a sexualidade explica muitos rumos do mundo e, claro, do Brasil, nosso grande motel das ilusões perdidas. Na verdade, falarei só sobre uma parte muito importante da sexualidade: a bunda.
Há um tempo, escreveram na internet um artigo com meu nome, onde meu “falso eu” dizia que mulher não precisa ter bunda dura e que as celulites eram bem-vindas. Na rua, veio uma senhora toda contente e me declarou: “Eu tenho bunda mole!” e saiu sorridente pelo artigo que eu “não” escrevi. Por isso, escrevo hoje sobre a “bunda”, a famosa “preferência nacional”, um dos poucos monumentos culturais que ainda nos restam. Por isso, e para esquecer nossa pornopolítica , escrevo, como um apócrifo de mim mesmo.
Vamos a isso. Visto de frente, o Brasil anda para trás, parece um ex-Brasil. Por isso, vou olhar pela porta dos fundos: a bunda. A palavra já soa imprópria, obscena, já traz um adjetivo acoplado. Por isso, desculpem-me os leitores, mas a palavra “bunda” é a única de que dispomos. Temos eufemismos com “nádegas”, doces apelidos como bumbum, mas o termo que usamos na vida diária é bunda mesmo, com a ressonância africana dos “bundos”, de onde vieram as vênus negras que nos miscigenaram. A bunda não começou no descobrimento do Brasil; as índias, apesar de “oferecidas”, não as tinham avolumadas, mas escorridas “em pera” , barrigudinhas e frágeis. A bunda começou nas senzalas com senhores inflamados pelas negras, longe do tédio das sinhás.
Há uma espantosa separação entre a bunda e a dona da bunda. A bunda fica mais importante do que sua dona. Conheci uma moça que ficou meio paranoica por causa do lindo rabinho que portava. Quando conversávamos, não era a ela que servíamos, mas à “outra”. Ela vivia com ciúmes de si mesma, e sua bundinha parecia dizer: “prestem atenção nela; ela também é gente...”.
Reparem que as mulheres de bunda bonita, mesmo quando estão de frente, estão de costas para nossos olhos. As mulheres de frente são mais inquietantes, porque são “sujeitos” com rosto e alma. Já as mulheres de costas aparentam um caráter mais passivo, mais “objetal”, diriam os filósofos. O desejo pelas costas é a defesa contra os perigos da vulva. A bunda é estéril; não inquieta como a vagina e seu mistério profundo. A bunda não procria — muito pelo contrário. Eu já vi belas bundinhas no passado, nas areias de Ipanema, e elas tinham uma florescência espontânea, inocente. Naquele tempo, não havia muito estímulo à punhetinha; raras eram as revistas pornográficas. Hoje, tanta oferta sexual angustia-nos, mostra que nosso desejo é programado por indústrias masturbatórias, provocando tesão para vender satisfação.
Nunca vimos tanta publicidade movida a sexo. A propaganda nos promete uma suruba transcendental. Em nenhum lugar do mundo vemos esse apelo sexual nas ruas, nas roupas das meninas — nosso feminismo resultou nisso. Quase todos os outdoors são de mulher nua — outro dia quase bati o carro por causa de um cartaz com uma lourinha nua da “Playboy”.
Hoje sexo é uma imagem farta e colorida. Na época, punheta era literatura; para nos excitar tínhamos de imaginar complicadas tramas de suspense com estrutura de filme policial e o que acendia o desejo eram justamente os obstáculos a vencer até a satisfação final.
Babávamos sim diante das vedetes do teatro rebolado, de Angelita Martinez, de Carmen Verônica, Luz del Fuego, mas elas eram pessoas verídicas, inteiras, e sua nudez tinha algo de transgressivo, de liberdade e luta. Hoje as mulheres travam uma competição frenética de bundas e seios e eu me pergunto: O que querem elas provar? Querem nos levar para o fundo do mar como sereias, querem destruir os lares, querem mostrar que o sexo sem limites resolverá os problemas do Brasil?
E agora, nesses tempos sinistros, surgiu a bunda industrial. Ela fatura milhões para as revistas de sacanagem. Elas programam nosso desejo e limitam a imaginação criadora dos praticantes do vicio solitário, como chamavam os padres no confessionário.
A bunda virou um instrumento de ascensão social. Mesmo nossas meninas mais românticas, sonhando com casamento e filhos, são obrigadas a rebolados cada vez mais desbragadas. Milhões de menininhas pelos grotões do país se olham no espelho e pensam: “Vou subir na vida”. A bunda é um capital. A pessoa não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. O corpo e a pessoa são duas coisas diferentes; a menina mostra sua bunda como se fosse uma irmã siamesa.
Agora, com o surgimento da bunda digital na internet, a bunda perdeu aquela aura de objeto único, “erguida no altar de nosso desejo” (arggh!). Viraram bundas em streaming, olhadas com tédio por nossos garotos, como um videogame superado. Depois da bunda, o que virá, já que a indústria cultural pede sempre mais? Ânus luminosos, entranhas profundas, o avesso do corpo?
No século XXI, nasce a bunda distópica, a “pós-bunda”, pela fragmentação do desejo. Desejamos as partes, mas tememos o conjunto. O chamado “objeto total” de Melanie Klein (aquela mulher sem bunda e com seios enormes) foi substituído pelo objeto perverso, parcial, deliciosamente irresponsável, “da ordem do demônio”, ao contrário dos seios, “objetos de Deus”.
Hoje, com a sonda cósmica pousando em cometa, com robôs capinando em Marte, em meio à crise mundial, nós olhamos a bunda: a porta dos fundos, a entrada de serviço, em que talvez fiquemos para sempre. A bunda é nosso destino histórico.
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segunda-feira, abril 20, 2015
A forma das coisas invisíveis. Arnaldo Jabor. Prosa
A forma das coisas invisíveis
Picasso me dá vontade de viver! Pintava a vida, comidas, amores
Tirei férias e fui correndo para Paris. Essa vida de comentarista pode envenenar a alma. Além dos processos que tenho enfrentado, minha profissão é prestar atenção nos “malfeitos” políticos, eufemismo do governo para roubalheiras e cinismo. É como trabalhar no Instituto Butantan — um dia a cobra te morde. Por isso, de repente começa a pintar a depressão não apenas pelas coisas que acontecem no país, mas, pior, pelas coisas que “não” acontecem. Vejam nos jornais como as notícias são sobre fracassos: a meta não atingida, a obra inacabada, a lei que não pegou, o assassino que foi solto; em suma, nosso problema principal é a paralisia secular, descrita uma vez por Mário Henrique Simonsen brilhantemente: “O Brasil é um país sob anestesia, mas sem cirurgia”. E a ideologia do partido no Poder é manter essa paralisia em nome do Estado e de seus comedores. É deprimente o que o Brasil “não” faz.
Por isso, saí de ferias, em busca de um pouco de beleza e civilização. E fui direto para o Museu Picasso. Na saída, extasiado, tive a certeza súbita: “Picasso me dá vontade de viver!” É isso mesmo. Ele não tinha uma “mensagem” para passar ao mundo ou besteiras assim. Ele pintava a própria mudança, seu viver, suas comidas e seus amores, até os maravilhosos quadros de velhos apalhaçados e de mosqueteiros loucos nos últimos meses de seus 92 anos. Picasso pintava a forma das coisas desconhecidas, como escreveu Herbert Read: “The form of things unknown”.
Picasso mudou o olho humano. Cézanne já tinha pintado a geometria da natureza, declarando: “Eu sou a consciência da paisagem que se pensa em mim”. Cézanne recortou o espaço, e Van Gogh pintou o tempo. Olhem um Van Gogh e vejam o tempo passando sobre as coisas. Nada para em Van Gogh: a igreja se move, os lilases ventam, a matéria fervilha em cada pincelada, as cadeiras, as camas; parece que vemos os átomos girando, os girassóis rodando, vemos a morte passando no rosto do doutor Gachet.
Depois, Picasso chega e pinta os dois: o espaço-tempo. Uma de suas viúvas disse que Picasso não podia ficar com a mão parada. Mexia em tudo: de um peixe comido ele tirava a espinha e fazia uma cerâmica, de um selim de bicicleta ele esculpia uma cara de boi, o regador em um homem, um automóvel em macaco, um beijo na praia — virava mulher em flor e flor em mulher.
Fez milhares de quadros, além de esculturas, tudo. No museu, vemos que ele se recusava a ser “importante”, a ser “metafísico”, a ser um pintor “acima” da vida. Em sua arte, há uma permanente luz até de caricatura. Picasso é um pintor popular. Por isso, as filas se formam para ver seus quadros. Picasso era um rude espanhol, um torcedor de futebol, um comedor de mulheres, um sacana aficionado por touradas e que não queria humilhar ninguém. Picasso era um espantoso retratista da realidade, só que a “realidade” para ele não era essa série de arestas e volumes verossímeis, pousados no horizonte da perspectiva — a realidade era transiente, mutante, incessante. Por outro lado, Picasso nunca acreditou na babaquice do abstracionismo metafisico, que busca uma “essência” de algo finalmente flagrado, “para longe”, “mais além” da aparência suja do mundo. Os grandes artistas almejam a realidade, pois, como disse Woody Allen, “ninguém sabe o que é a realidade, mas ainda é o único lugar onde se come um bom bife”.
Picasso sempre amou justamente essa face “suja” do mundo; sempre viveu em busca da figura, sim, da figura, mas que, para ele, era muito mais complexa que as chatas realidades que o burguês chama de “naturais”. Para ele, nada existia além do olho que, esse sim, pode ser ampliado como um telescópio ou caleidoscópio, se não estiver domesticado por ideologias ou narcisismo de “gênios”. Picasso nunca precisou do Dada ou do surrealismo para sair “fora” da aparência. Picasso não deformava nada, como costumam dizer — seu olho negro profundo que nos fita sem parar parece dizer: “Eu vejo todos os lados das caras, dos corpos, eu vejo as figuras dentro das outras, eu vejo o espaço entre as pessoas, as linhas invisíveis que as ligam, os vazios dentro delas, eu vejo também o ridículo da beleza como algo ‘sublime’ a se chegar. Não há nada a se atingir, por isso a minha frase ‘Não procuro; acho’ é tão mal interpretada. Ela não quer dizer que eu tenho talento milagreiro ou algo assim. Não. Essa frase quer dizer que eu não sei, antes, para onde estou indo; eu só chego ao quadro ao final”. Raramente sabe o que fazer a priori; por isso, Picasso era um grafiteiro. Não buscava “auras”. Seus quadros são até mal acabados, nas coxas. Não foi por acaso que Jean-Michel Basquiat, o gênio-pichador, comprou um Picasso com o primeiro milhão que ganhou. Basquiat também, do fundo do desespero em que viveu quando era um mendigo desconhecido, nunca desprezou a vida, com seus quadros espantosos e sofridos. Picasso nunca teve a romântica amarelidão do sofrimento em busca do “sentido” ou do “belo”. Pintava a própria experiência, felicíssimo, de bermudas, comendo, trepando e fumando, nunca acreditou que o “artista só é grande se sofrer”.
Nós não vemos Picasso; ele é que nos vê. Por isso, faz tanto sucesso. Ele nos explica. Ele é uma lição de sabedoria para a arte contemporânea, frequentemente caída nas agruras de uma distopia “bodeada”, que faz do futuro um cemitério deprimente. Como Picasso mostrou, a “obra de arte deve ser exaltante”, frase de Stravinsky que ele provou em sua obra. Apesar disso saí do museu, em meu vício, pensando no PMDB e PT, porém com mais vontade de viver.
Picasso me dá vontade de viver! Pintava a vida, comidas, amores
Tirei férias e fui correndo para Paris. Essa vida de comentarista pode envenenar a alma. Além dos processos que tenho enfrentado, minha profissão é prestar atenção nos “malfeitos” políticos, eufemismo do governo para roubalheiras e cinismo. É como trabalhar no Instituto Butantan — um dia a cobra te morde. Por isso, de repente começa a pintar a depressão não apenas pelas coisas que acontecem no país, mas, pior, pelas coisas que “não” acontecem. Vejam nos jornais como as notícias são sobre fracassos: a meta não atingida, a obra inacabada, a lei que não pegou, o assassino que foi solto; em suma, nosso problema principal é a paralisia secular, descrita uma vez por Mário Henrique Simonsen brilhantemente: “O Brasil é um país sob anestesia, mas sem cirurgia”. E a ideologia do partido no Poder é manter essa paralisia em nome do Estado e de seus comedores. É deprimente o que o Brasil “não” faz.
Por isso, saí de ferias, em busca de um pouco de beleza e civilização. E fui direto para o Museu Picasso. Na saída, extasiado, tive a certeza súbita: “Picasso me dá vontade de viver!” É isso mesmo. Ele não tinha uma “mensagem” para passar ao mundo ou besteiras assim. Ele pintava a própria mudança, seu viver, suas comidas e seus amores, até os maravilhosos quadros de velhos apalhaçados e de mosqueteiros loucos nos últimos meses de seus 92 anos. Picasso pintava a forma das coisas desconhecidas, como escreveu Herbert Read: “The form of things unknown”.
Picasso mudou o olho humano. Cézanne já tinha pintado a geometria da natureza, declarando: “Eu sou a consciência da paisagem que se pensa em mim”. Cézanne recortou o espaço, e Van Gogh pintou o tempo. Olhem um Van Gogh e vejam o tempo passando sobre as coisas. Nada para em Van Gogh: a igreja se move, os lilases ventam, a matéria fervilha em cada pincelada, as cadeiras, as camas; parece que vemos os átomos girando, os girassóis rodando, vemos a morte passando no rosto do doutor Gachet.
Depois, Picasso chega e pinta os dois: o espaço-tempo. Uma de suas viúvas disse que Picasso não podia ficar com a mão parada. Mexia em tudo: de um peixe comido ele tirava a espinha e fazia uma cerâmica, de um selim de bicicleta ele esculpia uma cara de boi, o regador em um homem, um automóvel em macaco, um beijo na praia — virava mulher em flor e flor em mulher.
Fez milhares de quadros, além de esculturas, tudo. No museu, vemos que ele se recusava a ser “importante”, a ser “metafísico”, a ser um pintor “acima” da vida. Em sua arte, há uma permanente luz até de caricatura. Picasso é um pintor popular. Por isso, as filas se formam para ver seus quadros. Picasso era um rude espanhol, um torcedor de futebol, um comedor de mulheres, um sacana aficionado por touradas e que não queria humilhar ninguém. Picasso era um espantoso retratista da realidade, só que a “realidade” para ele não era essa série de arestas e volumes verossímeis, pousados no horizonte da perspectiva — a realidade era transiente, mutante, incessante. Por outro lado, Picasso nunca acreditou na babaquice do abstracionismo metafisico, que busca uma “essência” de algo finalmente flagrado, “para longe”, “mais além” da aparência suja do mundo. Os grandes artistas almejam a realidade, pois, como disse Woody Allen, “ninguém sabe o que é a realidade, mas ainda é o único lugar onde se come um bom bife”.
Picasso sempre amou justamente essa face “suja” do mundo; sempre viveu em busca da figura, sim, da figura, mas que, para ele, era muito mais complexa que as chatas realidades que o burguês chama de “naturais”. Para ele, nada existia além do olho que, esse sim, pode ser ampliado como um telescópio ou caleidoscópio, se não estiver domesticado por ideologias ou narcisismo de “gênios”. Picasso nunca precisou do Dada ou do surrealismo para sair “fora” da aparência. Picasso não deformava nada, como costumam dizer — seu olho negro profundo que nos fita sem parar parece dizer: “Eu vejo todos os lados das caras, dos corpos, eu vejo as figuras dentro das outras, eu vejo o espaço entre as pessoas, as linhas invisíveis que as ligam, os vazios dentro delas, eu vejo também o ridículo da beleza como algo ‘sublime’ a se chegar. Não há nada a se atingir, por isso a minha frase ‘Não procuro; acho’ é tão mal interpretada. Ela não quer dizer que eu tenho talento milagreiro ou algo assim. Não. Essa frase quer dizer que eu não sei, antes, para onde estou indo; eu só chego ao quadro ao final”. Raramente sabe o que fazer a priori; por isso, Picasso era um grafiteiro. Não buscava “auras”. Seus quadros são até mal acabados, nas coxas. Não foi por acaso que Jean-Michel Basquiat, o gênio-pichador, comprou um Picasso com o primeiro milhão que ganhou. Basquiat também, do fundo do desespero em que viveu quando era um mendigo desconhecido, nunca desprezou a vida, com seus quadros espantosos e sofridos. Picasso nunca teve a romântica amarelidão do sofrimento em busca do “sentido” ou do “belo”. Pintava a própria experiência, felicíssimo, de bermudas, comendo, trepando e fumando, nunca acreditou que o “artista só é grande se sofrer”.
Nós não vemos Picasso; ele é que nos vê. Por isso, faz tanto sucesso. Ele nos explica. Ele é uma lição de sabedoria para a arte contemporânea, frequentemente caída nas agruras de uma distopia “bodeada”, que faz do futuro um cemitério deprimente. Como Picasso mostrou, a “obra de arte deve ser exaltante”, frase de Stravinsky que ele provou em sua obra. Apesar disso saí do museu, em meu vício, pensando no PMDB e PT, porém com mais vontade de viver.
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Arnaldo Jabor,
Prosa.
Escreva para o meu e-mail: silvafonseca@gmail.com
segunda-feira, março 23, 2015
A arte de maldizer. Arnaldo Jabor. Prosa
A arte de maldizer (*)
Arnaldo Jabor
Malditos sejais, ó mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros!
Malditos sejais, ó mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas pútridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente, que vossas mentiras, patranhas, fraudes, lérias e marandubas se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, que entrem por vossos rabos, cus, rabiotes e fundilhos e lá depositem venenosos ovos que vos depauperem em diarreias torrenciais e devastadoras. Que vossas línguas se atrofiem em asquerosos sapos e bichos pustulentos que vos impedirão de beijar vossas amantes, barregãs e micheteiras que vos recebem nos lupanares de Brasília, nos prostíbulos mentais onde viveis, refocilando-se nas delícias da roubalheira.
Malditos sejais, ladrões, gatunos, ratoneiros, trabuqueiros dos dinheiros públicos, dos quais agadanhais, expropriais mais da metade de todos os orçamentos, deixando viadutos no ar, pontes no nada, esgotos a céu aberto e crianças mortas de fome, mortas de tudo.
Que a maldição de todas as pragas do Egito e do Deuteronômio vos impeça de comer os frutos de vossas fazendas escravistas, que não possais degustar o pão de vossos fornos, nem o milho de vossos campos, e que vossas amantes vos traiam e vos contaminem com escabrosas doenças e repugnantes furúnculos!
Malditos sejais, homúnculos dedicados a se infiltrar nas brechas, nas breubas do Estado para malversar, rapinar, larapiar desde pequenas gorjetas embolsadas até essa doença nacional chamada petróleo, onde vos repastais no revezamento sinistro de negociarrões com empresas fantasmas em terrenos baldios, até a rapinagem dos mínimos picuás dos miseráveis.
Malditas sejam as caras de pau dos ladravazes, com seus ascorosos sorrisos, imunda honradez ostentada, gélido cinismo, baseado na crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos, por compradiços juízes, repulsivos desembargadores, fariseus que vendilham sentenças por interesses políticos, ocultados por intrincados circunlóquios jurídicos, solenes lero-leros para compadrios e favores aos poderosos! Que vossas togas se virem em abutres famintos que vos devorem o fígado, acelerando vossas mortes que virão pela ridícula sisudez esclerosada com que justificais liminares e chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca do boi de nossas prisões!
Malditos sejais, burocratas, sicofantas, enfiados na máquina publica, emperrando-a e sugando migalhas do Estado com voracidade e gula! Tomara que sejais devorados pelos carunchos que rastejam nos processos empoeirados da burocracia que impede o país de andar! Que a poeira dos arquivos mortos vos sufoque e envenene como o trigo roxo dos ratos!
Malditas sejam também as “consciências virginais”, as mentes “puras”; malditos os alienados e covardes, malditos os limpos, os não culpados, os indiferentes, que se acham superiores aos que sofrem e pecam; malditos intelectuais silenciosos que ficam agarrados em seus dogmas, que se “escandalizam” com os horrores, mas nada fazem diante dos erros óbvios que clamam por condenações. Maldito aquele que culpou os “brancos de olhos azuis” pela crise econômica mundial. Malditos os que só pensam em dividir os brasileiros entre “nós” e “eles”. Maldita seja a técnica de vitimização que funciona bem para ditadores que se dizem sempre “defensores do povo” — suas vítimas. Malditos os que condenam o passado, se eles são o passado.
Malditos os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os loucos e os burros. Uns bebem e falam em revolução; outros alucinam, e os terceiros zurram.
Maldita seja também a indiferença narcisista do déspota sindicalista que renegou a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises para voltar um dia como pai da pátria. Que gordos carrapatos infectem sua barba de estadista deslumbrado.
Malditos também os que desejam trazer de volta a irresponsabilidade fiscal, malditos anjos da cara suja, malditos os que inventaram as gorjetas de milhões, malditos espertos fugitivos da cassação, anatematizados e desgraçados sejam os que levam dólares na cueca e, mais que eles, os que levam dólares às Bahamas, malditos os que usam o “amor ao povo” para justificar suas ambições fracassadas, malditos bolchevistas que agora são arroz de festa de intelectuais mal-informados; malditos sejam, pois neles há o desejo de fazer regredir o Brasil para o velho Atraso pustulento, em nome de suas ideologias infantis!
Se eles prevalecerem, voltará o dragão da Inflação, com sete cabeças e dez chifres e sete coroas em cada cabeça, e a prostituta do Atraso virá montada nele, berrando todas as blasfêmias, vestida de vermelho, segurando uma taça cheia de abominações. E ela, a besta do Atraso, estará bêbada com o sangue dos pobres, e em sua testa estará escrito: “Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país”.
Só nos resta isso: maldizer.
Portanto: que a peste negra vos devore a alma, políticos canalhas, que vossos cabelos com brilhantina vos cubram de uma gosma repulsiva, que vossas gravatas bregas vos enforquem, que os arcanjos vingadores vos exterminem para sempre!
______
* Não pude escrever o artigo da semana por doença (nada grave, inimigos meus), mas me lembrei de outro texto da época do mensalão e achei por bem republicá-lo, pois cabe perfeitamente nesses tempos de petrolão.
Arnaldo Jabor
Malditos sejais, ó mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros!
Malditos sejais, ó mentirosos, negadores, defraudadores, vigaristas, intrujões, chupistas, tartufos e embusteiros! Que a peste negra vos cubra de feridas pútridas, que vossas línguas mentirosas sequem e que água alguma vos dessedente, que vossas mentiras, patranhas, fraudes, lérias e marandubas se transformem em cobras peçonhentas que se enrosquem em vossos pescoços, que entrem por vossos rabos, cus, rabiotes e fundilhos e lá depositem venenosos ovos que vos depauperem em diarreias torrenciais e devastadoras. Que vossas línguas se atrofiem em asquerosos sapos e bichos pustulentos que vos impedirão de beijar vossas amantes, barregãs e micheteiras que vos recebem nos lupanares de Brasília, nos prostíbulos mentais onde viveis, refocilando-se nas delícias da roubalheira.
Malditos sejais, ladrões, gatunos, ratoneiros, trabuqueiros dos dinheiros públicos, dos quais agadanhais, expropriais mais da metade de todos os orçamentos, deixando viadutos no ar, pontes no nada, esgotos a céu aberto e crianças mortas de fome, mortas de tudo.
Que a maldição de todas as pragas do Egito e do Deuteronômio vos impeça de comer os frutos de vossas fazendas escravistas, que não possais degustar o pão de vossos fornos, nem o milho de vossos campos, e que vossas amantes vos traiam e vos contaminem com escabrosas doenças e repugnantes furúnculos!
Malditos sejais, homúnculos dedicados a se infiltrar nas brechas, nas breubas do Estado para malversar, rapinar, larapiar desde pequenas gorjetas embolsadas até essa doença nacional chamada petróleo, onde vos repastais no revezamento sinistro de negociarrões com empresas fantasmas em terrenos baldios, até a rapinagem dos mínimos picuás dos miseráveis.
Malditas sejam as caras de pau dos ladravazes, com seus ascorosos sorrisos, imunda honradez ostentada, gélido cinismo, baseado na crapulosa legislação que vos protege há quatro séculos, por compradiços juízes, repulsivos desembargadores, fariseus que vendilham sentenças por interesses políticos, ocultados por intrincados circunlóquios jurídicos, solenes lero-leros para compadrios e favores aos poderosos! Que vossas togas se virem em abutres famintos que vos devorem o fígado, acelerando vossas mortes que virão pela ridícula sisudez esclerosada com que justificais liminares e chicanas que liberam criminosos ricos e apodrecem pobres pretos na boca do boi de nossas prisões!
Malditos sejais, burocratas, sicofantas, enfiados na máquina publica, emperrando-a e sugando migalhas do Estado com voracidade e gula! Tomara que sejais devorados pelos carunchos que rastejam nos processos empoeirados da burocracia que impede o país de andar! Que a poeira dos arquivos mortos vos sufoque e envenene como o trigo roxo dos ratos!
Malditas sejam também as “consciências virginais”, as mentes “puras”; malditos os alienados e covardes, malditos os limpos, os não culpados, os indiferentes, que se acham superiores aos que sofrem e pecam; malditos intelectuais silenciosos que ficam agarrados em seus dogmas, que se “escandalizam” com os horrores, mas nada fazem diante dos erros óbvios que clamam por condenações. Maldito aquele que culpou os “brancos de olhos azuis” pela crise econômica mundial. Malditos os que só pensam em dividir os brasileiros entre “nós” e “eles”. Maldita seja a técnica de vitimização que funciona bem para ditadores que se dizem sempre “defensores do povo” — suas vítimas. Malditos os que condenam o passado, se eles são o passado.
Malditos os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os loucos e os burros. Uns bebem e falam em revolução; outros alucinam, e os terceiros zurram.
Maldita seja também a indiferença narcisista do déspota sindicalista que renegou a herança bendita que recebeu e que se esconde nas crises para voltar um dia como pai da pátria. Que gordos carrapatos infectem sua barba de estadista deslumbrado.
Malditos também os que desejam trazer de volta a irresponsabilidade fiscal, malditos anjos da cara suja, malditos os que inventaram as gorjetas de milhões, malditos espertos fugitivos da cassação, anatematizados e desgraçados sejam os que levam dólares na cueca e, mais que eles, os que levam dólares às Bahamas, malditos os que usam o “amor ao povo” para justificar suas ambições fracassadas, malditos bolchevistas que agora são arroz de festa de intelectuais mal-informados; malditos sejam, pois neles há o desejo de fazer regredir o Brasil para o velho Atraso pustulento, em nome de suas ideologias infantis!
Se eles prevalecerem, voltará o dragão da Inflação, com sete cabeças e dez chifres e sete coroas em cada cabeça, e a prostituta do Atraso virá montada nele, berrando todas as blasfêmias, vestida de vermelho, segurando uma taça cheia de abominações. E ela, a besta do Atraso, estará bêbada com o sangue dos pobres, e em sua testa estará escrito: “Mãe de todas as meretrizes e Mãe de todos os ladrões que paralisam nosso país”.
Só nos resta isso: maldizer.
Portanto: que a peste negra vos devore a alma, políticos canalhas, que vossos cabelos com brilhantina vos cubram de uma gosma repulsiva, que vossas gravatas bregas vos enforquem, que os arcanjos vingadores vos exterminem para sempre!
______
* Não pude escrever o artigo da semana por doença (nada grave, inimigos meus), mas me lembrei de outro texto da época do mensalão e achei por bem republicá-lo, pois cabe perfeitamente nesses tempos de petrolão.
Marcadores:Charles Fonseca,....Charles Fonseca,
Arnaldo Jabor,
Política,
Prosa.
Escreva para o meu e-mail: silvafonseca@gmail.com
segunda-feira, fevereiro 16, 2015
Cabeças cortadas. Arnaldo Jabor. Política
Cabeças cortadas
Arnaldo Jabor
Como disse Stálin, que matou mais de 15 milhões: 'A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística'
A grande descoberta dos terroristas do Estado Islâmico foi a mídia. Diferentemente da Al-Qaeda e de outros grupos menores, eles não querem nos atacar, como fez Osama no 11 de setembro; eles querem nos corroer por dentro. Eles são pós-Osama. Estão testando nossos sentimentos — nós que nos pensamos civilizados. Sentimentos como compaixão, perdão, moral, respeito ao outro... Entre um holocausto e uma Hiroshima, entre Coreia e Vietnã, somos bons, somos sensatos amantes da liberdade, da fraternidade (igualdade, nem pensar).
Os pavorosos assassinos do EI jogam com isso, criando a internet de fogo, nos acostumando à novas formas de crueldade. Um dia, ficaremos entediados com o horror: “Porra, meu... outro incendiado? Esses caras têm de inventar novas torturas!”.
Porém, mais do que nos assustar com sua violência, eles tiveram uma ideia sinistramente genial: em vez de matar 5.000 desconhecidos como em Nova York, eles escolheram o indivíduo, o morto antes de morrer, o solitário no vídeo para a degola ou o fogo. Eles atacam nosso individualismo. Como disse Stálin, que matou mais de 15 milhões: “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística”. Essa foi a grande sacada desses ratos, pois todo mundo se identifica com o pobre diabo diante da morte. Hiroshima nos leva a dizer: “Que horror!” Essas cenas do EI nos fazem pensar: “Já imaginou eu nessa situação?. Só choramos por nós mesmos.
Há alguns anos eu vi um homem sendo decapitado. Chegou um vídeo completo na TV e vi. Um bando de demônios de preto, gritando “Só Deus é grande!” agarram o pobre sujeito e lhe cortam o pescoço como o de um porco. Ele grita enquanto a cabeça lhe é arrancada, com grande profusão de sangue que suja as mãos dos carrascos que gargalham de felicidade porque sentem-se mais perto do céu, pois a cada cão infiel morto à faca, eles sobem de ranking para a salvação.
Essas cenas nos levam a um anti-islamismo inevitável, mas isso é o que eles querem: nos chamar a atacá-los com bombardeios ferozes e, assim, inibir os muçulmanos moderados e fazê-los mais rancorosos contra nós. Só os islâmicos podem limitar os terroristas, mas nunca o farão. Aqueles que se declaram contra o EI não se decidiram por uma reação concreta aos assassinos — não os apoiam, mas, no fundo, celebram uma vingança secreta. Cada vez mais nos governa a Lei de Murphy: “Tudo que pode piorar, piora”.
Além disso, eles testam a si mesmos, querendo atingir níveis inimagináveis de crueldade, crucificando crianças, enterrando-as vivas, como fazem também outros horrendos zumbis como o Boko Haram e o Talibã. Querem despertar em nós a violência recíproca, pois em nossa mente surge o vingador implacável, o desejo de arrancar da face da Terra esses espelhos de nossa própria animalidade. Não queremos contemplar nossa bruta agressividade — eles são como nós. “Ahh... se eu pudesse metralhar esses filhos da puta!” Desejamos exterminar esses assassinos do pobre jordaniano e do japa. Mas, eles escapam de nossas balas e de nosso ódio, porque não são “napoleônicos” no combate, mas dispersos demônios no deserto. O modo napoleônico de fazer a guerra não funciona contra forças irregulares. Napoleão procurava a destruição do exército adversário e queda do governo desse Estado. Contudo, num combate irregular — subversão — não há uma batalha decisiva.
Agora, a guerra virou loucura pura. Se um dos inimigos não tem medo de morrer, muda tudo, não há vitória.
De uma forma repugnante, a verdade do mundo atual apareceu. Estão irrompendo todas as misérias do planeta para além do circuito Helena Rubinstein: uma religião da vingança e da morte, formada pela ignorância milenar de desgraçados no deserto, com inveja das conquistas do Ocidente e o cultivo do martírio.
Os fanáticos do Oriente são a pulsão de morte recalcada, a morte que mandamos para debaixo do tapete. Agora a sujeira está voltando em nossa cara. Não temos a sólida estupidez dos islamistas; nossa violência tem sempre uma racionalização, mentiras sob o pretexto da busca de um “bem”. Mas estão ficando claras a fragilidade e a impotência do Ocidente, sob a capa de antiga competência invulnerável. E esta nova forma de horror se dá em pleno século XXI, quando foguetes americanos já viajam entre os anéis de Saturno e aterrissam em cometas. Alguns dirão: “Bem feito, pois o Ocidente gerou isso tudo com sua exploração colonial e imperialista”.
Não, agora os terroristas não são mais reativos; são inventivos, bem armados pela Rússia e pela China, além do armamento pilhado da “primavera árabe”. Não são mais “consequência” de nada; são a vanguarda de uma nova forma de morte, são a invenção de uma perversidade que nasceu deles mesmos, da estupidez fanática da “sharia”, de séculos de ignorância e atraso. Claro que o Ocidente já aprontou muito, mas nada disso é mais a causa de coisa alguma, agora que tiveram a ideia genial de usar as máquinas do Ocidente — aviões e mísseis contra os infiéis. E convocam malucos ingleses e americanos (mais de mil) para o EI, que voltam para infernizar seus países de origem. Eles estão pautando nossa agenda. Agora, só resta aos países ameaçados a defesa.
Subitamente, fomos arrojados de volta a uma era pré-política. Os nazistas queriam um milênio ariano, os comunas queriam construir um paraíso social, os fanáticos do Islã querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o demônio — que somos nós.
Tudo o que fazemos tem o alvo da finalidade, do progresso. O Islã não quer isso. Quer o imóvel, a verdade incontestável. O Islã transcendeu o político há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria, conformadas, perfazendo o ritual obsessivo cotidiano do Corão que os libertou da dúvida e do medo.
A morte ocidental é diferente da morte oriental. Como uma vez disse o líder dos talibãs Muhammed Omar, com desdém: “Nós amamos a morte; vocês sempre gostaram de viver!”.
Arnaldo Jabor
Como disse Stálin, que matou mais de 15 milhões: 'A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística'
A grande descoberta dos terroristas do Estado Islâmico foi a mídia. Diferentemente da Al-Qaeda e de outros grupos menores, eles não querem nos atacar, como fez Osama no 11 de setembro; eles querem nos corroer por dentro. Eles são pós-Osama. Estão testando nossos sentimentos — nós que nos pensamos civilizados. Sentimentos como compaixão, perdão, moral, respeito ao outro... Entre um holocausto e uma Hiroshima, entre Coreia e Vietnã, somos bons, somos sensatos amantes da liberdade, da fraternidade (igualdade, nem pensar).
Os pavorosos assassinos do EI jogam com isso, criando a internet de fogo, nos acostumando à novas formas de crueldade. Um dia, ficaremos entediados com o horror: “Porra, meu... outro incendiado? Esses caras têm de inventar novas torturas!”.
Porém, mais do que nos assustar com sua violência, eles tiveram uma ideia sinistramente genial: em vez de matar 5.000 desconhecidos como em Nova York, eles escolheram o indivíduo, o morto antes de morrer, o solitário no vídeo para a degola ou o fogo. Eles atacam nosso individualismo. Como disse Stálin, que matou mais de 15 milhões: “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística”. Essa foi a grande sacada desses ratos, pois todo mundo se identifica com o pobre diabo diante da morte. Hiroshima nos leva a dizer: “Que horror!” Essas cenas do EI nos fazem pensar: “Já imaginou eu nessa situação?. Só choramos por nós mesmos.
Há alguns anos eu vi um homem sendo decapitado. Chegou um vídeo completo na TV e vi. Um bando de demônios de preto, gritando “Só Deus é grande!” agarram o pobre sujeito e lhe cortam o pescoço como o de um porco. Ele grita enquanto a cabeça lhe é arrancada, com grande profusão de sangue que suja as mãos dos carrascos que gargalham de felicidade porque sentem-se mais perto do céu, pois a cada cão infiel morto à faca, eles sobem de ranking para a salvação.
Essas cenas nos levam a um anti-islamismo inevitável, mas isso é o que eles querem: nos chamar a atacá-los com bombardeios ferozes e, assim, inibir os muçulmanos moderados e fazê-los mais rancorosos contra nós. Só os islâmicos podem limitar os terroristas, mas nunca o farão. Aqueles que se declaram contra o EI não se decidiram por uma reação concreta aos assassinos — não os apoiam, mas, no fundo, celebram uma vingança secreta. Cada vez mais nos governa a Lei de Murphy: “Tudo que pode piorar, piora”.
Além disso, eles testam a si mesmos, querendo atingir níveis inimagináveis de crueldade, crucificando crianças, enterrando-as vivas, como fazem também outros horrendos zumbis como o Boko Haram e o Talibã. Querem despertar em nós a violência recíproca, pois em nossa mente surge o vingador implacável, o desejo de arrancar da face da Terra esses espelhos de nossa própria animalidade. Não queremos contemplar nossa bruta agressividade — eles são como nós. “Ahh... se eu pudesse metralhar esses filhos da puta!” Desejamos exterminar esses assassinos do pobre jordaniano e do japa. Mas, eles escapam de nossas balas e de nosso ódio, porque não são “napoleônicos” no combate, mas dispersos demônios no deserto. O modo napoleônico de fazer a guerra não funciona contra forças irregulares. Napoleão procurava a destruição do exército adversário e queda do governo desse Estado. Contudo, num combate irregular — subversão — não há uma batalha decisiva.
Agora, a guerra virou loucura pura. Se um dos inimigos não tem medo de morrer, muda tudo, não há vitória.
De uma forma repugnante, a verdade do mundo atual apareceu. Estão irrompendo todas as misérias do planeta para além do circuito Helena Rubinstein: uma religião da vingança e da morte, formada pela ignorância milenar de desgraçados no deserto, com inveja das conquistas do Ocidente e o cultivo do martírio.
Os fanáticos do Oriente são a pulsão de morte recalcada, a morte que mandamos para debaixo do tapete. Agora a sujeira está voltando em nossa cara. Não temos a sólida estupidez dos islamistas; nossa violência tem sempre uma racionalização, mentiras sob o pretexto da busca de um “bem”. Mas estão ficando claras a fragilidade e a impotência do Ocidente, sob a capa de antiga competência invulnerável. E esta nova forma de horror se dá em pleno século XXI, quando foguetes americanos já viajam entre os anéis de Saturno e aterrissam em cometas. Alguns dirão: “Bem feito, pois o Ocidente gerou isso tudo com sua exploração colonial e imperialista”.
Não, agora os terroristas não são mais reativos; são inventivos, bem armados pela Rússia e pela China, além do armamento pilhado da “primavera árabe”. Não são mais “consequência” de nada; são a vanguarda de uma nova forma de morte, são a invenção de uma perversidade que nasceu deles mesmos, da estupidez fanática da “sharia”, de séculos de ignorância e atraso. Claro que o Ocidente já aprontou muito, mas nada disso é mais a causa de coisa alguma, agora que tiveram a ideia genial de usar as máquinas do Ocidente — aviões e mísseis contra os infiéis. E convocam malucos ingleses e americanos (mais de mil) para o EI, que voltam para infernizar seus países de origem. Eles estão pautando nossa agenda. Agora, só resta aos países ameaçados a defesa.
Subitamente, fomos arrojados de volta a uma era pré-política. Os nazistas queriam um milênio ariano, os comunas queriam construir um paraíso social, os fanáticos do Islã querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o demônio — que somos nós.
Tudo o que fazemos tem o alvo da finalidade, do progresso. O Islã não quer isso. Quer o imóvel, a verdade incontestável. O Islã transcendeu o político há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria, conformadas, perfazendo o ritual obsessivo cotidiano do Corão que os libertou da dúvida e do medo.
A morte ocidental é diferente da morte oriental. Como uma vez disse o líder dos talibãs Muhammed Omar, com desdém: “Nós amamos a morte; vocês sempre gostaram de viver!”.
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segunda-feira, agosto 18, 2014
A boca que mudou o mundo. Arnaldo Jabor. Política
A boca que mudou o mundo
Arnaldo Jabor
Na minha opinião, quem deflagrou este tempo de tráfi Bush, nossa besta do apocalipse
Estamos vivendo um suspense histórico, numa situação de trágicos conflitos descentralizados no mundo todo, principalmente no Oriente Médio. Como isso começou? Alguma coisa ou alguém deflagrou este tempo. Na minha opinião foi o George W. Bush, nossa besta do apocalipse.
É impressionante como ninguém fala mais do Bush. Ele é culpado por tudo que acontece no mundo atual e ninguém fala nele. Devia estar preso, como o Mubarak. Bush está pintando quadros em sua fazenda do Texas enquanto o mundo que ele armou se destroça. Bush iniciou uma linha de erros em linha reta para um futuro apavorante.
Tudo começou com a derrota de Al Gore, seu adversário em 2000. Bill Clinton tinha sido humilhado como poucos em 1997, quando teve um caso com Monica Lewinsky, aquela estagiária gorda que morava no edifício Watergate em Washington (agourento lugar, ainda com cheiro de Nixon). Monica fez-lhe um “blow job” na cozinha da Casa Branca, entre pizzas, enquanto a Hillary dormia. O procurador da república Ken Starr quase levou o Clinton as galés, obrigando-o a mentir na TV, declarando que nunca tinha tido relações sexuais com Monica, pois não considerava aquilo ato sexual. Mas Monica guardara um vestido marcado por esperma do presidente, cujo DNA provava sua atuação. Muito bem. Vexame total para Clinton e quase um impeachment, pois ele tinha mentido, crime inafiançável para americanos hipócritas.
Muito bem, de novo.
Aí, o Al Gore, democrata candidato contra o Bush, ficou com medo de defender o Clinton na campanha, porque podia ser considerado cúmplice de adultério diante até de sua esposa. Gore medrou. Aí, Bush deitou e rolou, além de ter tramado uma roubalheira na votação, principalmente na Flórida por seu irmão Jeb, apoiada pelo Tribunal Supremo, que ignorou a roubalheira. E Bush foi eleito.
Foi o pior presidente americano de todos os tempos, uma espécie de Forrest Gump no poder, ignorante, alcoólatra e mau estudante, coisa de que se orgulhava. Até que um dia, para seu azar e sorte, o Osama Bin Laden derrubou as torres gêmeas no evento mais espantoso do século 21 (até agora...) e deflorou os Estados Unidos, nunca atacados dentro de casa. Não me esqueço da cara do Bush quando lhe contaram no ouvido a tragédia, enquanto ele dava uma palestrinha para meninos de um colégio. A cara do Bush foi de gesso, paralisada, sem uma rala emoção, sob o olhar das criancinhas em volta. A partir daí, ele ganhou a sorte grande de ser chamado de Presidente de Guerra, o que é um título que justifica tudo, como foi o caso do Truman quando derreteu Hiroshima e Nagasaki às gargalhadas, no show de som e luz para espantar a União Soviética na Guerra Fria. A América queria vingança. E Bush invadiu o Afeganistão atrás do Osama. Em seguida, aconselhado por seu vice-papai Dick Cheney, resolveu mentir que o Iraque tinha que ser conquistado porque teria “armas de destruição em massa”. Qualquer ser pensante sabia que a invasão do Iraque seria um erro tão grave quanto atacar o México como retaliação ao Japão pelo bombardeio a Pearl Harbour. Assim como usou os aviões para derrubar o WTC, Osama usou o presidente dos USA contra os USA e o mundo. Bush cumpriu todos os desejos de Osama, como um lugar-tenente. Osama morreu, mas sua obra foi bem-sucedida. Ele semeou o terrorismo e Bush legitimou-o para sempre. Bush veio para acabar com todas as conquistas liberais dos anos 60. Só faltava um pretexto; Osama deu-o.
Aí derrubaram o Saddam Hussein, um ditador sunita filho da p*#a, que servia ao menos para segurar o Oriente Médio com sua intrincada geopolítica fanática, sectária e religiosa. Aí, todo o ódio ancestral contra os USA cresceu como nunca. Isso fortaleceu não só a al-Qaeda como seus filhotes, e os homens-bomba floresceram como papoulas, iniciando a série de atentados na Espanha, Inglaterra, Índia, Bali, Boston e outros que vieram e virão.
A América jogou no Iraque dois trilhões de dólares para uma guerra sem vitórias, porque os inimigos eram e são invisíveis e moram fora da História. Mataram milhares de americanos jovens e fortes e arrasaram um país que hoje já é dominado pelo tal do Califado Islâmico, o Isis, perto do qual a al-Qaeda é uma ONG beneficente. Somou-se a essa (perdão...) cagada a crise econômica de 2008, provocada pela desregulação total das finanças de Wall Street por Bush, precedido aliás burramente por Clinton.
Depois começou a era que chamávamos de Primavera Árabe, ridícula ilusão do Ocidente que achou que o mundo árabe estava obcecado pela democracia dos Estados Unidos. Rs rs rs...
Obama conseguiu então matar o Osama, o que o ajudou na reeleição, pela qual devemos agradecer a Deus, pois se fosse o “bushiano” Mitt Romney estaríamos “fucked up”. Mas a morte de Osama no Paquistão indispôs mais ainda o Oriente Médio contra nós e fragilizou muito a liderança dos Estados Unidos como potência. Daí, Irã e bombas atômicas, Egito, Líbia, guerra da Síria contra seu povo, apoiada claro, pela China e, oba!, pela Rússia da KGB. E hoje estamos nessa inana, nessa briga de foice em quarto escuro, estamos no massacre de Gaza por Israel, estamos na alvorada de novos horrores além do Hamas e suas criancinhas-escudo. Ambos querem mostrar ao mundo que são vítimas um do outro; um quer jogar Israel no mar e o outro manter Gaza como um gueto faminto de palestinos.
Se não tivessem invadido o Iraque, o mundo seria outro. A História encontrou em Bush o instrumento ideal para seu desejo de autodestruição (a História quer sossego). Mas o “se” não existe na História. Foi o que foi. A História é intempestiva e ilógica e as tentativas de dominá-la em geral dão em totalitarismo e ditaduras. Talvez eu esteja procurando uma “razão” para o caos atual. Pode ser. Mas creio, assim mesmo, que George W. Bush foi o principal responsável por tudo que nos acontece hoje.
E antes dele, mais atrás, na era Clinton, tivemos o mais devastador “boquete” da história humana. Um boquete que mudou o mundo. E que pode destruí-lo, um dia.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/a-boca-que-mudou-mundo-13568413#ixzz3Am6jyIYZ
© 1996 - 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.
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Na minha opinião, quem deflagrou este tempo de tráfi Bush, nossa besta do apocalipse
Estamos vivendo um suspense histórico, numa situação de trágicos conflitos descentralizados no mundo todo, principalmente no Oriente Médio. Como isso começou? Alguma coisa ou alguém deflagrou este tempo. Na minha opinião foi o George W. Bush, nossa besta do apocalipse.
É impressionante como ninguém fala mais do Bush. Ele é culpado por tudo que acontece no mundo atual e ninguém fala nele. Devia estar preso, como o Mubarak. Bush está pintando quadros em sua fazenda do Texas enquanto o mundo que ele armou se destroça. Bush iniciou uma linha de erros em linha reta para um futuro apavorante.
Tudo começou com a derrota de Al Gore, seu adversário em 2000. Bill Clinton tinha sido humilhado como poucos em 1997, quando teve um caso com Monica Lewinsky, aquela estagiária gorda que morava no edifício Watergate em Washington (agourento lugar, ainda com cheiro de Nixon). Monica fez-lhe um “blow job” na cozinha da Casa Branca, entre pizzas, enquanto a Hillary dormia. O procurador da república Ken Starr quase levou o Clinton as galés, obrigando-o a mentir na TV, declarando que nunca tinha tido relações sexuais com Monica, pois não considerava aquilo ato sexual. Mas Monica guardara um vestido marcado por esperma do presidente, cujo DNA provava sua atuação. Muito bem. Vexame total para Clinton e quase um impeachment, pois ele tinha mentido, crime inafiançável para americanos hipócritas.
Muito bem, de novo.
Aí, o Al Gore, democrata candidato contra o Bush, ficou com medo de defender o Clinton na campanha, porque podia ser considerado cúmplice de adultério diante até de sua esposa. Gore medrou. Aí, Bush deitou e rolou, além de ter tramado uma roubalheira na votação, principalmente na Flórida por seu irmão Jeb, apoiada pelo Tribunal Supremo, que ignorou a roubalheira. E Bush foi eleito.
Foi o pior presidente americano de todos os tempos, uma espécie de Forrest Gump no poder, ignorante, alcoólatra e mau estudante, coisa de que se orgulhava. Até que um dia, para seu azar e sorte, o Osama Bin Laden derrubou as torres gêmeas no evento mais espantoso do século 21 (até agora...) e deflorou os Estados Unidos, nunca atacados dentro de casa. Não me esqueço da cara do Bush quando lhe contaram no ouvido a tragédia, enquanto ele dava uma palestrinha para meninos de um colégio. A cara do Bush foi de gesso, paralisada, sem uma rala emoção, sob o olhar das criancinhas em volta. A partir daí, ele ganhou a sorte grande de ser chamado de Presidente de Guerra, o que é um título que justifica tudo, como foi o caso do Truman quando derreteu Hiroshima e Nagasaki às gargalhadas, no show de som e luz para espantar a União Soviética na Guerra Fria. A América queria vingança. E Bush invadiu o Afeganistão atrás do Osama. Em seguida, aconselhado por seu vice-papai Dick Cheney, resolveu mentir que o Iraque tinha que ser conquistado porque teria “armas de destruição em massa”. Qualquer ser pensante sabia que a invasão do Iraque seria um erro tão grave quanto atacar o México como retaliação ao Japão pelo bombardeio a Pearl Harbour. Assim como usou os aviões para derrubar o WTC, Osama usou o presidente dos USA contra os USA e o mundo. Bush cumpriu todos os desejos de Osama, como um lugar-tenente. Osama morreu, mas sua obra foi bem-sucedida. Ele semeou o terrorismo e Bush legitimou-o para sempre. Bush veio para acabar com todas as conquistas liberais dos anos 60. Só faltava um pretexto; Osama deu-o.
Aí derrubaram o Saddam Hussein, um ditador sunita filho da p*#a, que servia ao menos para segurar o Oriente Médio com sua intrincada geopolítica fanática, sectária e religiosa. Aí, todo o ódio ancestral contra os USA cresceu como nunca. Isso fortaleceu não só a al-Qaeda como seus filhotes, e os homens-bomba floresceram como papoulas, iniciando a série de atentados na Espanha, Inglaterra, Índia, Bali, Boston e outros que vieram e virão.
A América jogou no Iraque dois trilhões de dólares para uma guerra sem vitórias, porque os inimigos eram e são invisíveis e moram fora da História. Mataram milhares de americanos jovens e fortes e arrasaram um país que hoje já é dominado pelo tal do Califado Islâmico, o Isis, perto do qual a al-Qaeda é uma ONG beneficente. Somou-se a essa (perdão...) cagada a crise econômica de 2008, provocada pela desregulação total das finanças de Wall Street por Bush, precedido aliás burramente por Clinton.
Depois começou a era que chamávamos de Primavera Árabe, ridícula ilusão do Ocidente que achou que o mundo árabe estava obcecado pela democracia dos Estados Unidos. Rs rs rs...
Obama conseguiu então matar o Osama, o que o ajudou na reeleição, pela qual devemos agradecer a Deus, pois se fosse o “bushiano” Mitt Romney estaríamos “fucked up”. Mas a morte de Osama no Paquistão indispôs mais ainda o Oriente Médio contra nós e fragilizou muito a liderança dos Estados Unidos como potência. Daí, Irã e bombas atômicas, Egito, Líbia, guerra da Síria contra seu povo, apoiada claro, pela China e, oba!, pela Rússia da KGB. E hoje estamos nessa inana, nessa briga de foice em quarto escuro, estamos no massacre de Gaza por Israel, estamos na alvorada de novos horrores além do Hamas e suas criancinhas-escudo. Ambos querem mostrar ao mundo que são vítimas um do outro; um quer jogar Israel no mar e o outro manter Gaza como um gueto faminto de palestinos.
Se não tivessem invadido o Iraque, o mundo seria outro. A História encontrou em Bush o instrumento ideal para seu desejo de autodestruição (a História quer sossego). Mas o “se” não existe na História. Foi o que foi. A História é intempestiva e ilógica e as tentativas de dominá-la em geral dão em totalitarismo e ditaduras. Talvez eu esteja procurando uma “razão” para o caos atual. Pode ser. Mas creio, assim mesmo, que George W. Bush foi o principal responsável por tudo que nos acontece hoje.
E antes dele, mais atrás, na era Clinton, tivemos o mais devastador “boquete” da história humana. Um boquete que mudou o mundo. E que pode destruí-lo, um dia.
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quinta-feira, junho 14, 2012
De que lado você está? Sem muro disponível.
PESSOAS INTELIGENTES
Conta-se que numa cidade do interior um grupo de pessoas se divertia com o idiota da aldeia. Um pobre coitado, de pouca inteligência, vivia de pequenos biscates e esmolas. Diariamente eles chamavam o idiota ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas: uma grande de 400 REIS e outra menor, de 2.000 REIS. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos.
Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e lhe perguntou se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos.‘Eu sei’ – respondeu o tolo assim: ‘Ela vale cinco vezes menos, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minha moeda.’
Pode-se tirar várias conclusões dessa pequena narrativa.
A primeira: Quem parece idiota, nem sempre é.
A segunda: Quais eram os verdadeiros idiotas da história?
A terceira: Se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda.
Mas a conclusão mais interessante é:
A percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito. Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas sim, quem realmente somos.
O maior prazer de uma pessoa inteligente é bancar o idiota, diante de um idiota que banca o inteligente.
Arnaldo Jabor
Conta-se que numa cidade do interior um grupo de pessoas se divertia com o idiota da aldeia. Um pobre coitado, de pouca inteligência, vivia de pequenos biscates e esmolas. Diariamente eles chamavam o idiota ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas: uma grande de 400 REIS e outra menor, de 2.000 REIS. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos.
Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e lhe perguntou se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos.‘Eu sei’ – respondeu o tolo assim: ‘Ela vale cinco vezes menos, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minha moeda.’
Pode-se tirar várias conclusões dessa pequena narrativa.
A primeira: Quem parece idiota, nem sempre é.
A segunda: Quais eram os verdadeiros idiotas da história?
A terceira: Se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda.
Mas a conclusão mais interessante é:
A percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito. Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas sim, quem realmente somos.
O maior prazer de uma pessoa inteligente é bancar o idiota, diante de um idiota que banca o inteligente.
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terça-feira, fevereiro 21, 2012
O alto preço pela Razão triste.
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