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segunda-feira, outubro 14, 2019
«A chuva chora no rosto dos muros.»
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quarta-feira, julho 24, 2019
DE SÚBITO, DO NADA, UMA CARTA. Ruy Espinheira Filho. Poesia.
DE SÚBITO, DO NADA, UMA CARTA
1
Sá-Carneiro disse, em carta, não incomodá-lo muito a
[ possibilidade
de suicídio,
mas a consciência de
ter de morrer forçosamente um dia.
Seu correspondente deve ter pensado em tais palavras
[ muitas vezes
ao escrever certos versos,
como, por exemplo
(16 anos mais tarde, com a alma já por si conturbada
de Álvaro de Campos)
alguns de Tabacaria,
nos quais observou que o dono da loja morreria,
como ele próprio,
um deixando a tabuleta, o outro versos,
que a certa altura também morreriam,
como morreria depois a rua onde estivera a tabuleta
e a língua em que foram escritos os versos,
e, por fim, o planeta girante em que tudo isto se deu.
Sim, tais reflexões já tumultuavam Sá-Carneiro,
mas com menos longo sofrimento,
porque logo soube livrar-se delas com
cinco frascos de arseniato de estricnina
em 26 de abril de 1916,
aos 26 anos de idade.
às 8 da noite, no Hotel Nice,
Paris. E assim
terminou o tormento do Esfinge Gorda,
como certa vez se definiu.
E que ainda mais gorda e com mais mistérios de esfinge ficou,
após a morte,
avolumando-se a ponto de mal caber no caixão,
tornando definitivamente impossível que seu enterro fosse levado sobre um burro,
como pedira num poema,
embora tivesse lembrado
(como se antevendo sua última vontade
não sendo respeitada)
que a um morto nada se recusa,
e insistindo mesmo, peremptório:
E eu quero por força ir de burro.
(Não, ninguém se moveu para encontrar um burro capaz
de tal façanha,
ainda que não — como pedido —
ajaezado à andaluza.
Sim, a um morto tudo pode ser
recusado.)
1
Sá-Carneiro disse, em carta, não incomodá-lo muito a
[ possibilidade
de suicídio,
mas a consciência de
ter de morrer forçosamente um dia.
Seu correspondente deve ter pensado em tais palavras
[ muitas vezes
ao escrever certos versos,
como, por exemplo
(16 anos mais tarde, com a alma já por si conturbada
de Álvaro de Campos)
alguns de Tabacaria,
nos quais observou que o dono da loja morreria,
como ele próprio,
um deixando a tabuleta, o outro versos,
que a certa altura também morreriam,
como morreria depois a rua onde estivera a tabuleta
e a língua em que foram escritos os versos,
e, por fim, o planeta girante em que tudo isto se deu.
Sim, tais reflexões já tumultuavam Sá-Carneiro,
mas com menos longo sofrimento,
porque logo soube livrar-se delas com
cinco frascos de arseniato de estricnina
em 26 de abril de 1916,
aos 26 anos de idade.
às 8 da noite, no Hotel Nice,
Paris. E assim
terminou o tormento do Esfinge Gorda,
como certa vez se definiu.
E que ainda mais gorda e com mais mistérios de esfinge ficou,
após a morte,
avolumando-se a ponto de mal caber no caixão,
tornando definitivamente impossível que seu enterro fosse levado sobre um burro,
como pedira num poema,
embora tivesse lembrado
(como se antevendo sua última vontade
não sendo respeitada)
que a um morto nada se recusa,
e insistindo mesmo, peremptório:
E eu quero por força ir de burro.
(Não, ninguém se moveu para encontrar um burro capaz
de tal façanha,
ainda que não — como pedido —
ajaezado à andaluza.
Sim, a um morto tudo pode ser
recusado.)
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quarta-feira, maio 23, 2018
BLIND BORGES. Ruy Espinheira Filho. Poesia.
BLIND BORGES
Ruy Espinheira Filho
La vasta y vaga y necesaria muerte.
Jorge Luis Borges: Blind Pew
A vasta e vaga morte, esse outro sonho,
não é só outro sonho: é a mais remota
ilha de ouro a que nossa derrota
nos leva, inexorável, sonho a sonho.
Latidos pelos cães, sonho após sonho,
sonhamos. Esta é a vida, a vela, a rota
do homem: sonhar. E em áurea praia ignota
sonha o que sonha o sonhador, que é sonho.
Isto é o que pulsa em nós: o ansiado ouro
— distante e aqui, no coração —, tesouro
cuja procura tece a nossa sorte;
rumo que a alma singra e sagra em ouro
até chegar enfim a esse tesouro
incorruptível que nos sonha a morte.
Ruy Espinheira Filho
La vasta y vaga y necesaria muerte.
Jorge Luis Borges: Blind Pew
A vasta e vaga morte, esse outro sonho,
não é só outro sonho: é a mais remota
ilha de ouro a que nossa derrota
nos leva, inexorável, sonho a sonho.
Latidos pelos cães, sonho após sonho,
sonhamos. Esta é a vida, a vela, a rota
do homem: sonhar. E em áurea praia ignota
sonha o que sonha o sonhador, que é sonho.
Isto é o que pulsa em nós: o ansiado ouro
— distante e aqui, no coração —, tesouro
cuja procura tece a nossa sorte;
rumo que a alma singra e sagra em ouro
até chegar enfim a esse tesouro
incorruptível que nos sonha a morte.
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domingo, junho 04, 2017
Será o pecado um pombo negro? Ruy Espinheira Filho
“Como terminará este sábado que ainda vai pelo meio?”
Quase no topo da ladeira acentuada, ergueu os olhos para o céu, perguntando-se, com uma ponta de preocupação, como terminará este sábado que ainda vai pelo meio. Num dia cabem coisas incontáveis, que subitamente se sucedem sem nenhuma interferência da pessoa, tanto é verdade que o Senhor fez o mundo em uma semana apenas – Frei Cirilo não conseguia deter o fluxo dos pensamentos sucessivos, provavelmente acelerados pelos tragos de aguardente que tomara na banca de comida de uma escrava de ganho, na volta do convento das Mercês, depois de fazer o aborto da moça que vai ser freira, como castigo imposto pela família. Só um milagre o salvaria da viagem incômoda ao interior para ser escrivão do Auto de Devassa, com a tarefa enfadonha de notificar testemunhas, fazê-las jurarem dizer a verdade com a mão direita sobre os Santos Evangelhos, para denunciarem umas às outras por pecados que todos cometem. Já recolhido à cela do convento, escancarou a janela, livrou-se da batina suada, lavou-se, e, agora com o corpo da Rita no pensamento, estirou-se no catre de braços abertos para receber contra o peito as rajadas fortes do vento da tarde.
* ISBN 978-85-7275-005-9, de "Será o pecado um pombo negro?", in "Cinderela de Berlim e outras histórias"
* Acesse site literário:www.estreladesa.com.br
Quase no topo da ladeira acentuada, ergueu os olhos para o céu, perguntando-se, com uma ponta de preocupação, como terminará este sábado que ainda vai pelo meio. Num dia cabem coisas incontáveis, que subitamente se sucedem sem nenhuma interferência da pessoa, tanto é verdade que o Senhor fez o mundo em uma semana apenas – Frei Cirilo não conseguia deter o fluxo dos pensamentos sucessivos, provavelmente acelerados pelos tragos de aguardente que tomara na banca de comida de uma escrava de ganho, na volta do convento das Mercês, depois de fazer o aborto da moça que vai ser freira, como castigo imposto pela família. Só um milagre o salvaria da viagem incômoda ao interior para ser escrivão do Auto de Devassa, com a tarefa enfadonha de notificar testemunhas, fazê-las jurarem dizer a verdade com a mão direita sobre os Santos Evangelhos, para denunciarem umas às outras por pecados que todos cometem. Já recolhido à cela do convento, escancarou a janela, livrou-se da batina suada, lavou-se, e, agora com o corpo da Rita no pensamento, estirou-se no catre de braços abertos para receber contra o peito as rajadas fortes do vento da tarde.
* ISBN 978-85-7275-005-9, de "Será o pecado um pombo negro?", in "Cinderela de Berlim e outras histórias"
* Acesse site literário:www.estreladesa.com.br
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