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quinta-feira, janeiro 12, 2012
Crônica. Consuelo Pondé de Sena.
Quitandinha do Capim
Consuelo Pondé de Sena
Pela quarta vez o conhecido advogado e professor universitário reconstrói fases da sua vida. Homem de notável reconhecimento profissional, de grande atividade advocatícia, emprega seu lazer na tarefa de recuperar, dos escaninhos da memória, fatos, lugares e pessoas de alguns logradouros desta velha capital baiana.
Tendo atuado na imprensa nos dias da juventude, possui a tarimba do jornalista. Escreve com objetividade e clareza, trazendo à tona episódios desconhecidos de muita gente, embora ainda presentes na lembrança de muitos dos seus contemporâneos. Sem pretensões, senão a de reviver parte da sua mocidade, renova um tempo escoado e esquecido. Não escreve para vender seus livros, mas para distribuí-los entre seus amigos e apreciadores dos casos ocorridos numa Bahia há algumas dezenas de anos.
Aos oitenta anos bem vividos, continua trabalhando, partilhando consigo a vida dos familiares, sem esquecer que construiu uma trajetória digna dos seus descendentes. Até agora, tem sido um homem feliz e bem sucedido. Não teve que enfrentar adversidades intransponíveis, muito menos perder afetos essenciais. Não que não tivesse “ralado”, como se costuma dizer atualmente, para vencer e triunfar na vida. Lecionou durante quatro décadas, conviveu com os mais diversos tipos de estudante, advogou com a dedicação dos afeitos a essa profissão.
Viaja muito, já tendo percorrido mais de sessenta países, repetindo a visita aos que mais o agradaram. Apesar de tantas andanças pelo mundo, sempre volta para casa, para aconchego da família, para o encontro com os amigos do Clube Inglês, para as sessões da Academia de Letras Jurídicas da Bahia, onde tem assento, para estar presente em outras associações a que pertence.
De sua lavra são: Rua dos Marchantes, Cruz do Pascoal e Beco da Gasosa, antes nunca tratados com tanta versatilidade e simpatia. Sem a magia da sua pena graciosa e fluente, esses pontos esquecidos de Salvador ficariam no ostracismo, como outros, outrora emblemáticos desta cidade em contínuo processo de desfiguração.
Edson O''Dwyer, morador do histórico e tradicional bairro da Graça, passou parte da sua vida como residente ou freqüentador de bairros simples e modestas artérias da cidade. Lugares que jamais alcançaram notoriedade, porque redutos da classe média, dos funcionários públicos, dos professores e alunos do ICEIA, da Escola Getulio Vargas, de comerciantes e comerciários, enfim, bem longe daqueles ocupados pelos representantes da elite, nos quais viviam os “endinheirados”, os burgueses da Bahia, os representantes consulares ou os profissionais triunfantes. Todos aqueles que não cabiam nessas “tabas” eram os denominados “índios”, moradores de aldeias menos valorizadas.
No atual exercício de memorialista, Edson O ´Dwyer, com tempo livre para escrever, passa a recordar o passado, com o deleite e o gosto daqueles que se deslumbram diante da própria história de vida, construída, é bom que se firme, com extremos dedicação e esforço. Escreve, assim, como o fazem os que não sendo “escritores profissionais”, têm o gosto da escrita, ao correr da pena, de acordo com as lembranças que o acodem nesse ou naquele momento.
Livre de amarras que lhe tolham a prodigiosa memória, vai narrando casos e mais casos, com graça e sabedoria, conhecimento, liberdade e humor. Seguindo, enfim, as lembranças e os caprichos, reconquistando um mundo sepultado na lousa do esquecimento.
Quitandinha do Capim, essa deliciosa denominação, não se propõe a tratar a antiga artéria do Barbalho, hoje denominada Rua Siqueira Campos. Antes reúne assuntos curiosos, tais como apelidos, recepções, sorteios, professores e alunos, casos diversos, pessoas de vários tipos, políticos, polícia, nome feio e xingamentos, medos, prenomes, Itapajipe, onde o autor veraneava, camelôs, viagens de navio, caiu de moda, palavras, Nininha, Tabaris, desnecessários, luto, ficar velho, reflexões variadas, pecados, lembranças da Rua Chile, engraçados, fiscalização, poesias em músicas, frases e ditos, Bogochô, Carnaval.
Esse caleidoscópio de lembranças não ficará sepultado no esquecimento, porque todos remetem a fatos e acontecimentos sucedidos, esquecidos, amortalhados, revividos, em boa hora, graças às saudades e à memória do brilhante profissional do Direito.
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sexta-feira, janeiro 06, 2012
Somos Todos Mestiços. Consuelo Pondé de Sena. Antropologia. Prosa
Somos Todos Mestiços
Consuelo Pondé de Sena
O negro tem estado presente na América Portuguesa , desde os inícios da colonização brasileira , aqui tendo chegado no século XVI , com as primeiras levas de portugueses incumbidos de povoar território recém descoberto .
Trabalhou arduamente a partir do século XVI , como mão de obra escrava , em substituição ao indígena , inadaptável às tarefas forçadas e sistemáticas , tendo representado a maior força de trabalho nos períodos : colonial e imperial até 1888 .
Até o presente momento, segundo creio, dada à insuficiência de dados, parece impossível estimar o número de escravos negros que, no decorrer de 3 séculos , aportaram nos pontos de desembarque do Brasil. As estimativas calculam que os números vão de 3 a 18 milhões de pessoas.
Em função do tamanho do Brasil e do caráter cíclico da economia brasileira , esses milhões de escravos distribuíram-se por vários pontos do país . Noção básica e conhecida de todos é, a que a maior concentração deles observou-se na área nordestina ,
sendo menos significativa no sudeste do país , nos territórios em que atualmente se situam os estados de Minas Gerais , Paraná , Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Ao longo dos anos de intensa convivência entre as populações formadoras da nossa gente , observou-se o continuado processo de miscigenação , formando-se expressivo segmento mestiço , que sobrepujou quantitativamente o negro e o branco , como pode ser observado nos vários recenseamentos oficiais. Os resultados do censo de 1950 há mais de meio século, portanto, indicavam, num total de 51.994 .357 indivíduos da população do país , a existência de 32.027.661 brancos ( 61%) , 13.786.742 pardos ( 26% ) e 5.692.657negros ( 11%) . Já àquela altura a soma a soma dos mestiços atingia o percentual de 37% de uma população não branca na população brasileira. Trinta anos depois , em 1980 , a população brasileira atinge 119milhões, sendo 65 milhões de brancos; 45 milhões de pardos e 7 milhões de negros . Assim, o segmento não branco alcança cerca de 52 milhões de indivíduos, ou seja, um percentual de aproximadamente 43% da população nacional. Observa-se, portanto, à vista desses dados o aumento dos pardos e o decréscimo de brancos e negros. Esses dados, contudo, apontam para o crescente aumento dos pardos que tanto pode ser mestiço de branco com negro ( mulato) , branco com índio ( mameluco) , negro com índio ( cafuzo ) ou mesmo o próprio indígena integrado à civilização brasileira do Assim, os estudiosos da tradição bantu disputam seu lugar com os montante da população não branca do país “ , conforme escreve o sociólogo da USP , Prof João Baptista Borges Pereira . Por outro lado , consoante o mesmo estudioso: “ No discurso de ideólogos e militantes políticos negros , essa onipresença cultural é ressaltada com muita ênfase .
Dado que merece esclarecimento diz respeito à procedência dos escravos, oriundos de diversas partes do continente africano , portadores de diferentes culturas , que não devem ser considerados num” lote único”, como supõem pessoas desavisadas . Em estudo da década de 1940, Artur Ramos distingue : culturas sudanesas , culturas bantus e as culturas guineano-sudanesas ou negro-maometanos . Os cruzamentos entre esses grupos diversos dos negros e deste com o branco se observaram, igualmente , no plano cultural. Esse emaranhado cultural não comporta a idéia do resultado de uma matriz exclusiva , compondo o que hoje se denomina cultura afro-brasileira. O afastamento de cada um desses grupos da sua matriz original africana , queiram ou não , atualmente integra a cultura nacional, que é formada desse intenso caldeamento étnico, sendo pluri-racial a população do nosso país. Todavia, alguns ideólogos negros procuram manter suas tradições próprias como reafirmação do seu grupo.que se inclinam para a tradição sudanesa , ou seja , a tradição sincrética
gege-nagô.Como não sou do ramo , apenas , faço essa referência , haurida das constantes leituras sobre o assunto.
Quero crer, e esse é um direito que defendo, que a cultura brasileira revela grande receptividade no que se refere á assimilação das irrefutáveis contribuições africanas , tanto assim que adotam , por inteiro ou em parte , os elementos culturais dessas diversos mananciais formadores da nossa gente.
Parece que os último censos os de 1980 e 2010 , não anotaram o quesito cor ,em nome ou não de teses de “democracia racial” , “tirando a ideólogos e ativistas negros um recurso que se constitui na exploração ideológica do significado desempenha outra função , que consiste em fornecer elementos concretos para que teses a respeito da supremacia do negro sejam reforçadas “. O trabalho do Prof. Borges Pereira foi publicado em 1983, na Revista de Antropologia e reflete o que se passava naquela quadra da vida brasileira.
Todavia, vale como uma reflexão séria e responsável, além de alertar, como ele o fizera desde aquela data, para a folclorização da cultura negra , cada vez mais presente em nosso meio , a transformar suas manifestações culturais em “algo irrelevante ou em recheios ideais para se montarem esquemas de entretenimento para vastas camadas da população , em especial para aquelas que, independentemente da cor , podem usufruir de forma mais plena , certo tipo de lazer produzido pela sociedade brasileira . Como tal , esta cultura não é levada a sério ; é , ao mesmo tempo , uma cultura da puerilidade e do pitoresco.”
Por fim, a política a ser adotada e cumprida nos domínios da cultura deve dar importância a todas as manifestações culturais que se tenham radicado no Brasil , após a chegada dos adventícios , com destaque para as culturas negras nas regiões em que tiveram maior presença , do mesmo modo que se deve exaltar a contribuição indígena onde ainda têm predomínio , e o marcante subsídio estrangeiro no Sul do Brasil.
O assunto é instigante e exige muita habilidade e perspicácia dos que se ocupam do assunto, tal o visceral significado para o povo brasileiro , inquestionavelmente , uma terra de mestiços .
Consuelo Pondé de Sena
O negro tem estado presente na América Portuguesa , desde os inícios da colonização brasileira , aqui tendo chegado no século XVI , com as primeiras levas de portugueses incumbidos de povoar território recém descoberto .
Trabalhou arduamente a partir do século XVI , como mão de obra escrava , em substituição ao indígena , inadaptável às tarefas forçadas e sistemáticas , tendo representado a maior força de trabalho nos períodos : colonial e imperial até 1888 .
Até o presente momento, segundo creio, dada à insuficiência de dados, parece impossível estimar o número de escravos negros que, no decorrer de 3 séculos , aportaram nos pontos de desembarque do Brasil. As estimativas calculam que os números vão de 3 a 18 milhões de pessoas.
Em função do tamanho do Brasil e do caráter cíclico da economia brasileira , esses milhões de escravos distribuíram-se por vários pontos do país . Noção básica e conhecida de todos é, a que a maior concentração deles observou-se na área nordestina ,
sendo menos significativa no sudeste do país , nos territórios em que atualmente se situam os estados de Minas Gerais , Paraná , Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Ao longo dos anos de intensa convivência entre as populações formadoras da nossa gente , observou-se o continuado processo de miscigenação , formando-se expressivo segmento mestiço , que sobrepujou quantitativamente o negro e o branco , como pode ser observado nos vários recenseamentos oficiais. Os resultados do censo de 1950 há mais de meio século, portanto, indicavam, num total de 51.994 .357 indivíduos da população do país , a existência de 32.027.661 brancos ( 61%) , 13.786.742 pardos ( 26% ) e 5.692.657negros ( 11%) . Já àquela altura a soma a soma dos mestiços atingia o percentual de 37% de uma população não branca na população brasileira. Trinta anos depois , em 1980 , a população brasileira atinge 119milhões, sendo 65 milhões de brancos; 45 milhões de pardos e 7 milhões de negros . Assim, o segmento não branco alcança cerca de 52 milhões de indivíduos, ou seja, um percentual de aproximadamente 43% da população nacional. Observa-se, portanto, à vista desses dados o aumento dos pardos e o decréscimo de brancos e negros. Esses dados, contudo, apontam para o crescente aumento dos pardos que tanto pode ser mestiço de branco com negro ( mulato) , branco com índio ( mameluco) , negro com índio ( cafuzo ) ou mesmo o próprio indígena integrado à civilização brasileira do Assim, os estudiosos da tradição bantu disputam seu lugar com os montante da população não branca do país “ , conforme escreve o sociólogo da USP , Prof João Baptista Borges Pereira . Por outro lado , consoante o mesmo estudioso: “ No discurso de ideólogos e militantes políticos negros , essa onipresença cultural é ressaltada com muita ênfase .
Dado que merece esclarecimento diz respeito à procedência dos escravos, oriundos de diversas partes do continente africano , portadores de diferentes culturas , que não devem ser considerados num” lote único”, como supõem pessoas desavisadas . Em estudo da década de 1940, Artur Ramos distingue : culturas sudanesas , culturas bantus e as culturas guineano-sudanesas ou negro-maometanos . Os cruzamentos entre esses grupos diversos dos negros e deste com o branco se observaram, igualmente , no plano cultural. Esse emaranhado cultural não comporta a idéia do resultado de uma matriz exclusiva , compondo o que hoje se denomina cultura afro-brasileira. O afastamento de cada um desses grupos da sua matriz original africana , queiram ou não , atualmente integra a cultura nacional, que é formada desse intenso caldeamento étnico, sendo pluri-racial a população do nosso país. Todavia, alguns ideólogos negros procuram manter suas tradições próprias como reafirmação do seu grupo.que se inclinam para a tradição sudanesa , ou seja , a tradição sincrética
gege-nagô.Como não sou do ramo , apenas , faço essa referência , haurida das constantes leituras sobre o assunto.
Quero crer, e esse é um direito que defendo, que a cultura brasileira revela grande receptividade no que se refere á assimilação das irrefutáveis contribuições africanas , tanto assim que adotam , por inteiro ou em parte , os elementos culturais dessas diversos mananciais formadores da nossa gente.
Parece que os último censos os de 1980 e 2010 , não anotaram o quesito cor ,em nome ou não de teses de “democracia racial” , “tirando a ideólogos e ativistas negros um recurso que se constitui na exploração ideológica do significado desempenha outra função , que consiste em fornecer elementos concretos para que teses a respeito da supremacia do negro sejam reforçadas “. O trabalho do Prof. Borges Pereira foi publicado em 1983, na Revista de Antropologia e reflete o que se passava naquela quadra da vida brasileira.
Todavia, vale como uma reflexão séria e responsável, além de alertar, como ele o fizera desde aquela data, para a folclorização da cultura negra , cada vez mais presente em nosso meio , a transformar suas manifestações culturais em “algo irrelevante ou em recheios ideais para se montarem esquemas de entretenimento para vastas camadas da população , em especial para aquelas que, independentemente da cor , podem usufruir de forma mais plena , certo tipo de lazer produzido pela sociedade brasileira . Como tal , esta cultura não é levada a sério ; é , ao mesmo tempo , uma cultura da puerilidade e do pitoresco.”
Por fim, a política a ser adotada e cumprida nos domínios da cultura deve dar importância a todas as manifestações culturais que se tenham radicado no Brasil , após a chegada dos adventícios , com destaque para as culturas negras nas regiões em que tiveram maior presença , do mesmo modo que se deve exaltar a contribuição indígena onde ainda têm predomínio , e o marcante subsídio estrangeiro no Sul do Brasil.
O assunto é instigante e exige muita habilidade e perspicácia dos que se ocupam do assunto, tal o visceral significado para o povo brasileiro , inquestionavelmente , uma terra de mestiços .
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