CANÇÃO
Antonio Brasileiro
Pus minha vida num barco
e pus o barco no mar —
cometi erro e façanha
e estou ficando velho.
À mesa deste Café,
vejo as pessoas que passam:
algumas parecem tristes,
outras carregam embrulhos.
Nunca sabemos quem somos
e aonde vamos chegar.
A vida num barco pomos
— e o barco no mar.
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segunda-feira, março 23, 2020
CANÇÃO. Antonio Brasileiro. Poesia
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sexta-feira, outubro 25, 2019
LISBOA 1935. Antonio Brasileiro
LISBOA 1935
Antonio Brasileiro
Eu queria ter vivido
ali.
Quem sabe, avistasse
o Fernando:
Olá, Fernando!
Eu, setenta anos. Ele,
meu filho.
Antonio Brasileiro
Eu queria ter vivido
ali.
Quem sabe, avistasse
o Fernando:
Olá, Fernando!
Eu, setenta anos. Ele,
meu filho.
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sábado, setembro 07, 2019
«Sabe-se da dor, mas toda dor / dribla a alma — e a alma / só tardiamente aprende.»
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sábado, agosto 03, 2019
RELATO. Antonio Brasileiro. Poesia.
RELATO
Antonio Brasileiro
Enfileirados ao longo da avenida,
porcos para o abatedouro.
A avenida é a principal.
Carros engarrafam.
Ao volante, de soslaio,
freia-se um pouco, observa-se.
O grunhir dos suínos e os freios dos carros
compõem uma musiquinha muito chata.
Anúncio de supermercado? perguntam-nos.
Não, só mil porcos grunhindo.
Vão morrer.
A polícia (ou os bombeiros?) é avisada,
mas não chega. Um jornalista
sorri e fotografa. Turistas
julgam ser festa (da padroeira?),
crianças assustadas, homens sérios.
E soam subitamente quatro horas.
Hípica é a tarde.
É quando de um furgão descem soldados
a metralhar os bichos
e os homens e as crianças e os turistas
e os jornalistas e os motoristas e as vidraças.
Desta janela o mundo é confortável;
não ponho a cara de fora,
só relato.
Antonio Brasileiro
Enfileirados ao longo da avenida,
porcos para o abatedouro.
A avenida é a principal.
Carros engarrafam.
Ao volante, de soslaio,
freia-se um pouco, observa-se.
O grunhir dos suínos e os freios dos carros
compõem uma musiquinha muito chata.
Anúncio de supermercado? perguntam-nos.
Não, só mil porcos grunhindo.
Vão morrer.
A polícia (ou os bombeiros?) é avisada,
mas não chega. Um jornalista
sorri e fotografa. Turistas
julgam ser festa (da padroeira?),
crianças assustadas, homens sérios.
E soam subitamente quatro horas.
Hípica é a tarde.
É quando de um furgão descem soldados
a metralhar os bichos
e os homens e as crianças e os turistas
e os jornalistas e os motoristas e as vidraças.
Desta janela o mundo é confortável;
não ponho a cara de fora,
só relato.
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segunda-feira, junho 11, 2018
CONTEMPLAÇÃO DA NUVEM. Antonio Brasileiro. Poesia.
CONTEMPLAÇÃO DA NUVEM
Antonio Brasileiro
Para Luís Alberto
A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem
passando.
E uma nuvem passando
ensina-nos mais coisas que cem pássaros
mil livros um milhão de homens.
A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem.
Passando.
Antonio Brasileiro
Para Luís Alberto
A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem
passando.
E uma nuvem passando
ensina-nos mais coisas que cem pássaros
mil livros um milhão de homens.
A vida é a contemplação daquela nuvem.
E o mundo
uma forma de passar, que inventamos
para não ver que o mundo não é o mundo,
mas uma nuvem.
Passando.
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quarta-feira, dezembro 14, 2016
Estudo 208. Antonio Brasileiro. Poesia
ESTUDO 208
Antonio Brasileiro
1.
A perfeição reside nos tumultos, nos
escombros, nas sinopses
de um homem —
perdoai,
amigos, estas diatribes:
a voz não diz o que desejo, é escasso
o raciocínio, não há livros
com os ensinamentos e os conselhos —
perdoai,
amigos, meu linguajar de símbolos
tão velados
2.
:bailarinos inábeis
executando seus primeiros passos
num palco gigantesco (sem
bordas)
sem aplausos —
sós nós e uma valsa
sem memória
a ecoar (a ecoar a ecoar) por toda parte
e não há tempo para temer
e não há tempo para chorar:
a Valsa
não tem perdões, obriga-nos a valseá-la
a Valsa
não sabe nomes, envolve-nos nos braços
a Valsa
ela mesma não se chama Valsa —
perdoai, amigos, falar-vos nesta linguagem
há algo em mim que quer brotar com força:
talvez um simples poema
talvez (perdoai) apenas
esta vontade, imensa, de falar.
Antonio Brasileiro
1.
A perfeição reside nos tumultos, nos
escombros, nas sinopses
de um homem —
perdoai,
amigos, estas diatribes:
a voz não diz o que desejo, é escasso
o raciocínio, não há livros
com os ensinamentos e os conselhos —
perdoai,
amigos, meu linguajar de símbolos
tão velados
2.
:bailarinos inábeis
executando seus primeiros passos
num palco gigantesco (sem
bordas)
sem aplausos —
sós nós e uma valsa
sem memória
a ecoar (a ecoar a ecoar) por toda parte
e não há tempo para temer
e não há tempo para chorar:
a Valsa
não tem perdões, obriga-nos a valseá-la
a Valsa
não sabe nomes, envolve-nos nos braços
a Valsa
ela mesma não se chama Valsa —
perdoai, amigos, falar-vos nesta linguagem
há algo em mim que quer brotar com força:
talvez um simples poema
talvez (perdoai) apenas
esta vontade, imensa, de falar.
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