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terça-feira, março 22, 2022

PARTA. Charles Fonseca

 

PARTA 
Charles Fonseca 

ai da morada tensa 
mesmo a que o corpo goza 
ainda que seja choça 
ou luxuosa conveniência 

é pouso ninho no chão 
é o conforto nefelibata 
nas nuvens, muita emoção sem paz, 
não vale a pena, parta.

quinta-feira, julho 23, 2020

O AMOLADOR DE TESOURAS. Fred Souza Castro. Poesia

O AMOLADOR DE TESOURAS
Fred Souza Castro

O amolador de tesouras
atravessa a rua
atrás do assobio
do realejo.

Eu o vejo
passar
e escuto o comentário
de moças vitalinas
debruçadas em janelas.
Elas
falam de donzelices,
esquerdos costumes alheios,
deslizes
e outras notícias.

O amolador segue,
dobra no fim da rua
e some.
A noite engole o dia;

a fome, agora, é outra fome.

segunda-feira, julho 15, 2019

CONFISSÕES A BACO

CONFISSÕES A BACO
Henrique Augusto Chaudon

I

Não queiras prolongar
teus momentos de alegria.
Não marques encontros a que não irás.
Bebe este vinho enquanto existe:
o copo tem fundo,
embora não tenhas.
Não te lamentes, se a noite acaba:
ela acaba sempre,
sempre recomeça.
Que o sol da manhã surgindo
apague toda a ilusão desta noite.


Henrique Augusto Chaudon (1955-)



terça-feira, julho 31, 2018

TRÊS EPIFANIAS TRIVIAIS. Paulo Henriques Britto. Poesia.

TRÊS EPIFANIAS TRIVIAIS
Paulo Henriques Britto

II

As coisas que te cercam, até onde
alcança tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem

nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa —
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.

O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.

As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)

sábado, agosto 11, 2007

ELE É POETA. Poesia. Autor desconhecido.

ELE É POETA
(autor desconhecido)

É noite. A chuva chora na calçada
como se fosse a mágoa recalcada
que subisse do peito dos humanos
e retumbasse em lágrimas na terra.

Minha mãe chora,
chora os desenganos de um filho
que é poeta e desgraçado.
“Meu Deus! Onde andará ele agora?
Erra pela cidade úmida e deserta,
como um boêmio despreocupado”.

E, recostada à janela aberta,
minha mãe espia a rua e espera:
“Hoje por certo virá mais cedo.
Faz tanto frio, sinto tanto medo...”
E, fatigada com uma dor no coração,
pensa em Deus e faz uma triste oração:
“Oh, Jesus, pastor divino,
tem misericórdia de mim, Senhor!
Traze o meu filho, o meu pobre filho
que erra pela cidade sem fim".

Um vulto! Talvez seja ele... mas... não, não é.
E já desponta cálido o sol.
Meus olhos fatigados de vigília não descansarão jamais.
Mas tenho fé. Amanhã eu lhe direi raivosa, assim:
“Você é a ovelha má desta família.
Não é mais meu!”
Mas... ai que vida de abrolhos!
Não posso dizer assim. Ele é tão bom, tão delicado,
que se eu disser em tom zangado,
encontrarei nele o mesmo sorriso de menino
e uma lágrima boiando-lhe nos olhos.
Coitado de meu filho, arte abjeta,
pobre do meu filho, ele é poeta!