Penélope
Dalton Trevisan
Naquela rua mora um casal de velhos. A mulher espera o marido na varanda, tricoteia em sua cadeira de balanço. Quando ele chega ao portão, ela está de pé, agulhas cruzadas na cestinha. Ele atravessa o pequeno jardim e, no limiar da porta, beija-a de olho fechado.
Sempre juntos, a lidar no quintal, ele entre as couves, ela no canteiro de malvas. Pela janela da cozinha, os vizinhos podem ver que o marido enxuga a louça. No sábado, saem a passeio, ela, gorda, de olhos azuis e ele, magro, de preto. No verão, a mulher usa um vestido branco, fora de moda; ele ainda de preto. Mistério a sua vida; sabe-se vagamente, anos atrás, um desastre, os filhos mortos. Desertando casa, túmulo, bicho, os velhos mudam-se para Curitiba.
Só os dois, sem cachorro, gato, passarinhos. Por vezes, na ausência do marido, ela traz um osso ao cão vagabundo que cheira o portão. Engorda uma galinha, logo se enternece, incapaz de mata-la. O homem desmancha o galinheiro e, no lugar, ergue-se caco feroz. Arranca a única roseira no canto do jardim. Nem a uma rosa concede o seu resto de amor.
Além do sábado, não saem de casa, o velho fumando cachimbo, a velha trançando agulhas. Até o dia em que, abrindo a porta, de volta do passeio, acham a seus pés uma carta. Ninguém lhes escreve, parente ou amigo no mundo. O envelope azul, sem endereço. A mulher propõe queimá-lo, já sofridos demais. Pessoa alguma lhes pode fazer mal, ele responde.
Não queima a carta, esquecida na mesa. Sentam-se sob o abajur da sala, ela com o tricô, ele com o jornal. A dona baixa a cabeça, morde uma agulha, com a outra conta os pontos e, olhar perdido, reconta a linha. O homem, jornal dobrado no joelho, lê duas vezes cada frase. O cachimbo apaga, não o acende, ouvindo o seco bater das agulhas. Abre enfim a carta. Duas palavras, em letra recortada de jornal. Nada mais, data ou assinatura. Estende o papel à mulher que, depois de ler, olha-o. Ela se põe de pé, a carta na ponta dos dedos.
— Que vai fazer?
— Queimar.
Não, ele acode. Enfia o bilhete no envelope, guarda no bolso. Ergue a toalhinha caída no chão e prossegue a leitura do jornal.
A dona recolhe a cestinha, o fio e as agulhas.
— Não ligue, minha velha. Uma carta jogada em todas as portas.
O canto das sereias chega ao coração dos velhos? Esquece o papel no bolso, outra semana passa. No sábado, antes de abrir a porta, sabe da carta à espera. A mulher pisa-a, fingindo que não vê. Ele a apanha e mete no bolso.
Ombros curvados, contando a mesma linha, ela pergunta:
— Não vai ler?
Por cima do jornal admira a cabeça querida, sem cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, azuis como no primeiro dia.
— Já sei o que diz.
— Por que não queima?
É um jogo, e exibe a carta: nenhum endereço. Abre-a, duas palavras recortadas. Sopra o envelope, sacode-o sobre o tapete, mais nada. Coleciona-a com a outra e, ao dobrar o jornal, a amiga desmancha um ponto errado na toalhinha.
Acorda no meio da noite, salta da cama, vai olhar à janela. Afasta a cortina, ali na sombra um vulto de homem. Mão crispada, até o outro ir-se embora.
Sábado seguinte, durante o passeio, lhe ocorre: só ele recebe a carta? Pode ser engano, não tem direção. Ao menos citasse nome, data, um lugar. Range a porta, lá está: azul. No bolso com as outras, abre o jornal. Voltando as folhas, surpreende o rosto debruçado sobre as agulhas. Toalhinha difícil, trabalhada havia meses. Recorda a legenda de Penélope, que desfaz a noite, à luz do archote, as linhas acabadas no dia e assim ganha tempo de seus pretendentes. Cala-se no meio da história: ao marido ausente enganou Penélope? Para quem trançava a mortalha? Continuou a lida nas agulhas após o regresso de Ulisses?
No banheiro fecha a porta, rompe o envelope. Duas palavras... Imagina um plano? Guarda a carta e dentro dela um fio de cabelo. Pendura o paletó no cabide, o papel visível no bolso. A mulher deixa na soleira a garrafa de leite, ele vai-se deitar. Pela manhã examina o envelope: parece intacto, no mesmo lugar. Esquadrinha-o em busca do cabelo branco — não achou.
Desde a rua vigia os passos da mulher dentro de casa. Ela vai encontra-lo no portão — no olho o reflexo da gravata do outro. Ah, erguer-lhe o cabelo da nuca, se não tem sinais de dente... Na ausência dela, abre o guarda-roupa enterra a cabeça nos vestidos. Atrás da cortina espiona os tipos que cruzam a calçada. Conhece o leiteiro e o padeiro, moços, de sorrisos falsos.
Reconstitui os gestos da amiga: pós nos móveis, a terra nos vasos de violetas úmida ou seca... Pela toalhinha marca o tempo. Sabe quantas linhas a mulher tricoteia e quando, errando o ponto, deve desmanchá-lo, antes mesmo de contar na ponta da agulha.
Sem prova contra ela, nunca revelou o fim de Penélope. Enquanto lê, observa o rosto na sombra do abajur. Ao ouvir passos, esgueirando-se na ponta dos pés, espreita à janela: a cortina machucada pela mão raivosa.
Afinal compra um revólver.
— Oh, meu Deus... Para quê? — espanta-se a companheira.
Ele refere o número de ladrões na cidade. Exige conta de antigos presentes. Não fará toalhinhas para o amante vender? No serão, o jornal aberto no joelho, vigia a mulher — o rosto, o vestido — atrás da marca do outro: ela erra o ponto, tem de desmanchar a linha.
Aguarda-o na varanda. Se não a conhecesse, ele passa diante da casa. Na volta, sente os cheiros no ar, corre o dedo sobre os móveis, apalpa a terra das violetas — sabe onde está a mulher.
De madrugada acorda, o travesseiro ainda quente da outra cabeça. Sob a porta, uma luz na sala. Faz o seu tricô, sempre a toalhinha. É Penélope a desfazer na noite o trabalho de mais um dia?
Erguendo os olhos, a mulher dá com o revólver. Batem as agulhas, sem fio. Jamais soube por que a poupou. Assim que se deitam, ele cai em sono profundo.
Havia um primo no passado... Jura em vão, a amiga: o primo aos onze anos morto de tifo. No serão ele retira as cartas do bolso — são muitas, uma de cada sábado — e lê, entre dentes, uma por uma.
Por que não em casa no sábado, atrás da cortina, dar de cara com o maldito? Não, sente falta do bilhete. A correspondência entre o primo e ele, o corno manso; um jogo, onde no fim o vencedor. Um dia tudo o outro revelará, forçoso não interrompê-la.
No portão dá o braço à companheira, não se falam durante o passeio, sem parar diante das vitrinas. De regresso, apanha o envelope e, antes de abri-lo, anda com ele pela casa. Em seguida esconde um cabelo na dobra, deixa-o na mesa.
Acha sempre o cabelo, nunca mais a mulher decifrou as duas palavras. Ou — ele se pergunta, com nova ruga na testa — descobriu a arte de ler sem desmanchar a teia?
Uma tarde abre a porta e aspira o ar. Desliza o dedo sobre os móveis: pó. Tateia a terra dos vasos: seca.
Direto ao quarto de janelas fechadas e acende a luz. A velha ali na cama, revólver na mão, vestido brando ensangüentado. Deixa-a de olho aberto.
Piedade não sente, foi justo. A polícia o manda em paz, longe de casa à hora do suicídio. Quando sai o enterro, comentam os vizinhos a sua dor profunda, não chora. Segurando a alça do caixão, ajuda a baixá-lo na sepultura; antes de o coveiro acabar de cobri-lo, vai-se embora.
Entra na sala, vê a toalhinha na mesa — a toalhinha de tricô. Penélope havia concluído a obra, era a própria mortalha que tecia — o marido em casa.
Acende o abajur de franja verde. Sobre a poltrona, as agulhas cruzadas na cestinha. É sábado, sim. Pessoa alguma lhe pode fazer mal. A mulher pagou pelo crime. Ou — de repente o alarido no peito — acaso inocente? A carta jogada sob outras portas... Por engano na sua.
Um meio de saber, envelhecerá tranqüilo. A ele destinadas, não virão, com a mulher morta, nunca mais. Aquela foi a última — o outro havia tremido ao encontrar porta e janela abertas. Teria visto o carro funerário no portão. Acompanhado, ninguém sabe, o enterro. Um dos que o acotovelaram ao ser descido o caixão — uma pocinha d’água no fundo da cova.
Sai de casa, como todo sábado. O braço dobrado, hábito de dá-lo à amiga em tantos anos. Diante da vitrina com vestidos, alguns brancos, o peso da mão dela. Sorri desdenhoso da sua vaidade, ainda morta...
Os dois degraus da varanda — “Fui justo”, repete, “fui justo” —, com mão firme gira a chave. Abre a porta, pisa na carta e, sentando-se na poltrona, lê o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio.
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domingo, julho 08, 2012
Penélope. Dalton Trevisan
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domingo, junho 17, 2012
Grávida porém virgem. Dalton Trevisan
Grávida porém Virgem
Dalton Trevisan
Na volta da lua-de-mel, Maria em lágrimas confessou à mãe que ainda era virgem.
Lembrava dona Sinhara como o noivo se apresentou pálido na igreja, por demais nervoso? Justificou que, filho amoroso, muito se afligia com a mãe doente. No ônibus, a mão suada, e esquecido da noiva, olhava a paisagem.
Primeira noite o varão fracassou vergonhosamente. Foi alegada inexperiência. A estranha palidez na igreja de violenta crise nervosa — a mãe tinha saúde perfeita. Maria iludiu-se que era desastre passageiro. Ai dela, assim não foi: noite após noite João repetiu o fiasco. Arrenegava-se de trapo humano, não tomava banho nem fazia a barba. A pobre moça buscou recuperá-lo para os deveres de estado. Uma noite, envergando a capa pijama, saiu de óculo escuro, a noite inteira entregue às práticas do baixo espiritismo.
— O que me conta, minha filha! Me nego a acreditar. João, um rapaz tão simples, tão dado... Dona Sinhara evocava o noivo delicado e de fina educação.
— É para a senhora ver, mãe!
Dia seguinte ao casamento um tipo esquisito, que vivia aflito. Uma feita e outra feita, submeteu a moça a provas de intimidade, as quais não foram além do ensaio.
Mais que se enfeitasse para agradá-lo, indiferente aos encantos de Maria. De vez em longe, sem resultado, perseguia o impossível ato. Depois a acusava de única culpada. Suspeitando-a de traição com o primeiro noivo, agredida a bofetão e pontapé:
— Tem de apanhar bastante, Maria. Você é uma histérica!
Proibida de pintar a olho, tingir o cabelo, usar saia curta e calça comprida, sem que ele chegasse a conhecer a noivinha.
Pretendia arrastá-la ao suicídio a fim de esconder o seu desastre. Em provocação soprava-lhe no rosto a fumaça do cigarro.
Com a brasa queria marcar-lhe a bochecha para que deixasse de ser vaidosa.
— Por que judia de mim, querido?
— Bem sabe por que, sua cadela!
E, quarenta dias de casada, vinte em viagem e vinte em casa, ali estava Maria, a mais inteira das donzelas.
— Ter uma conversa com esse sujeitinho — bradou furiosa dona Sinhara.
Não era tudo: comprou coleção de fotos pornográficas, obrigada a admirá-las uma por uma. Nem assim prestou-se aos caprichos do noivo — eram quadros imundos e pecaminosos. Suspendendo pelo cabelo ou afogando a garganta, ele a constrangia às suas loucas fantasias. Saciado, era jogada ao chão, dali erguida aos bofetões.
— Ah, o teu pai que saiba... – persignou-se dona Sinhara.
Na volta da lua-de-mel, João em lágrimas confessou à mãe que a noiva não era pura. Desde a primeira noite, mais carinhoso que fosse, acusava-o de trair o seu ideal. Sá havia casado para se livrar dos pais e merecer o título de esposa.
— Por que judia de mim, querida?
— Você não soube ganhar o meu amor.
Ao exigir satisfações, ouviu dela que tinha caspa na sobrancelha. Censurava-o por deixá-la fria e manifestava repulsa física. Se insistia em tomá-la nos braços, atacada dos nervos, atirava-se ao chão em convulsões. Para reanimá-la, sacudia-a gentilmente, batia de leve no rosto.
Não era a ele que amava e sim ao primeiro noivo, de quem se separou por exigência dos pais. Três dias antes do casamento, estivera com a mãe na casa de Joaquim, propusera com ele fugir, mas o outro respondeu que era tarde. Além do mais, segunda dona Sinhara, todos os convites já distribuídos.
Não queria confessar, abrigada revelava toda a verdade — somente nojo sentia por ele, os seus dentes eram amarelos:
— Depois que me beija tenho de cuspir três vezes!
Não saía do espelho, olho pintado, de saía curta ou calça comprida, o cabelo retinto de loiro:
— Nasci para artista. Não mulher de você, una pobretão!
Reclamando de sua presença no leito conjugal, implicava com o assobio do nariz torto de João:
— Vai você ou vou eu para a sala?
Por ter comido salada de cebola — lembrava-se a mãezinha de como gosta de bife sangrento? — forçado a dormir no sofá.
— O que me conta, meu filho! Me nego a acreditar. Maria, moça tão querida, tão dada... Educada no colégio de freiras, toda cuidados com a futura sogra: um beijinho aqui, um abracinho ali.
— É para ver, mãe! Usa roupa de baixo que a senhora não imagina...
Se não a deixasse em paz, Maria acabava seus dias: engolindo vidro moído, escrevia com batom no espelho que era o culpado. Tal intriga fizera para os sogros que, ao visitá-la, conversavam apenas com a filha, nem cumprimentavam o pobre rapaz, como se ausente estivesse. Uma tarde surgiu-lhe o sogro porta adentro, bradando que recolhera a moça descabelada. Queria saber o que lhe fizera para que ficasse tão chorosa. Se era verdade que lhe marcava a coxa, com brasa de cigarro, se lhe surrupiava o dinheiro da bolsa, se ao sair de casa apagava todas as luzes. Sem esperar a resposta, berrou que tinha mais duas filhas para casar e bateu a porta.
— Ter uma conversa com essa sujeitinha — acudiu furiosa dona Mirazinha, com a mão no peito, sofria de palpitação.
Qual a sua surpresa: a náusea da noiva era... de estar...
— Grávida?! — espantou-se dona Sinhara. — Grávida, apesar de virgem?
O incrível resultado de um ato falho do noivo, segundo Maria, tanto bastou para a concepção.
— Grávida?! — surpreendeu-se dona Mirazinha. — E ainda pretende que é virgem?
— Para a senhora ver, mãe, quem ela é. Após a confissão do filho, Maria foi visitada pela sogra:
— Eu vivo para Cristo. Não para o imundo de seu filho!
Após a confissão da filha, João recebeu a visita de dona Sinhara, que se instalou na companhia dos noivos. A moça não deu a menor atenção a João assim não fosse o rei da família. Ele passava o dia no trabalho e, de volta, queria certa liberdade: lá estava a maldita sogra. Negando-se a moça a ir para o quarto, ficavam bocejando na sala diante da televisão, até que dona Sinhara os mandava dormir. Ele não exercia poder sobre a noiva: nem bife sangrento nem cebola na mesa.
Bem desconfiou que ela era amante da própria tia Zezé. Revoltou-se contra a atitude da noiva que, instigada pela mãe, se negava a cumprir o dever conjugal, arrependida de ter casado tão novinha quando podia aproveitar a vida.
Sempre na casa do pai, Maria confidenciava que João dormia a manhã inteira. À tarde, em vez de ir para o emprego, escondido na esquina, espiava se a pobre moça não recolhia o ex-noivo Joaquim. Mostrava uma folha em branco, exigia lhe revelasse o que estava escrito, eram palavras em tinta invisível — bom pretexto para tentar esganá-la a toda custo.
Existe um motivo para o noivo sentir ciúme, pensou dona Sinhara, é não ser o rei da casa. Bradou para Deus e o mundo que João não era homem bastante para sua filha.
O moço confidenciou para a mãe que, na tarde anterior, entrara a noiva batendo a porta (ó família que tanto bate a porta) e gritando bem alto:
— Fomos a uma parteira. Ela provou que sou virgem!
O pobre rapaz discutiu com o sogro que era detalhe para ser esclarecido.
— Quantos anos você tem, João?
— Vinte e três, sim senhor.
— Com essa idade, João, não sente vergonha de uma esposa virgem?
— Virgem, porém grávida.
O velho indignado exigiu a filha de volta. Respondeu João que Maria estava muito bem com ele. O sogro berrou que se retirasse imediatamente, e a partir daquele dia, proibido de pisar nos seus domínios.
Dona Mirazinha perguntou a uma amiga:
— Como vai a grande cadela?
Porque a chamava de cadela, Maria nunca mais foi visitá-la.
Cada um se queixa do outro para a respectiva família. Ora, a família de Maria está ao lado dela. E a família de João ao lado dele. Casados de três para quatro meses e Maria, segundo ela, sempre virgem. Como pode ser, contesta João, se está grávida?
Um mistério que até hoje não foi decifrado.
Dalton Trevisan
Na volta da lua-de-mel, Maria em lágrimas confessou à mãe que ainda era virgem.
Lembrava dona Sinhara como o noivo se apresentou pálido na igreja, por demais nervoso? Justificou que, filho amoroso, muito se afligia com a mãe doente. No ônibus, a mão suada, e esquecido da noiva, olhava a paisagem.
Primeira noite o varão fracassou vergonhosamente. Foi alegada inexperiência. A estranha palidez na igreja de violenta crise nervosa — a mãe tinha saúde perfeita. Maria iludiu-se que era desastre passageiro. Ai dela, assim não foi: noite após noite João repetiu o fiasco. Arrenegava-se de trapo humano, não tomava banho nem fazia a barba. A pobre moça buscou recuperá-lo para os deveres de estado. Uma noite, envergando a capa pijama, saiu de óculo escuro, a noite inteira entregue às práticas do baixo espiritismo.
— O que me conta, minha filha! Me nego a acreditar. João, um rapaz tão simples, tão dado... Dona Sinhara evocava o noivo delicado e de fina educação.
— É para a senhora ver, mãe!
Dia seguinte ao casamento um tipo esquisito, que vivia aflito. Uma feita e outra feita, submeteu a moça a provas de intimidade, as quais não foram além do ensaio.
Mais que se enfeitasse para agradá-lo, indiferente aos encantos de Maria. De vez em longe, sem resultado, perseguia o impossível ato. Depois a acusava de única culpada. Suspeitando-a de traição com o primeiro noivo, agredida a bofetão e pontapé:
— Tem de apanhar bastante, Maria. Você é uma histérica!
Proibida de pintar a olho, tingir o cabelo, usar saia curta e calça comprida, sem que ele chegasse a conhecer a noivinha.
Pretendia arrastá-la ao suicídio a fim de esconder o seu desastre. Em provocação soprava-lhe no rosto a fumaça do cigarro.
Com a brasa queria marcar-lhe a bochecha para que deixasse de ser vaidosa.
— Por que judia de mim, querido?
— Bem sabe por que, sua cadela!
E, quarenta dias de casada, vinte em viagem e vinte em casa, ali estava Maria, a mais inteira das donzelas.
— Ter uma conversa com esse sujeitinho — bradou furiosa dona Sinhara.
Não era tudo: comprou coleção de fotos pornográficas, obrigada a admirá-las uma por uma. Nem assim prestou-se aos caprichos do noivo — eram quadros imundos e pecaminosos. Suspendendo pelo cabelo ou afogando a garganta, ele a constrangia às suas loucas fantasias. Saciado, era jogada ao chão, dali erguida aos bofetões.
— Ah, o teu pai que saiba... – persignou-se dona Sinhara.
Na volta da lua-de-mel, João em lágrimas confessou à mãe que a noiva não era pura. Desde a primeira noite, mais carinhoso que fosse, acusava-o de trair o seu ideal. Sá havia casado para se livrar dos pais e merecer o título de esposa.
— Por que judia de mim, querida?
— Você não soube ganhar o meu amor.
Ao exigir satisfações, ouviu dela que tinha caspa na sobrancelha. Censurava-o por deixá-la fria e manifestava repulsa física. Se insistia em tomá-la nos braços, atacada dos nervos, atirava-se ao chão em convulsões. Para reanimá-la, sacudia-a gentilmente, batia de leve no rosto.
Não era a ele que amava e sim ao primeiro noivo, de quem se separou por exigência dos pais. Três dias antes do casamento, estivera com a mãe na casa de Joaquim, propusera com ele fugir, mas o outro respondeu que era tarde. Além do mais, segunda dona Sinhara, todos os convites já distribuídos.
Não queria confessar, abrigada revelava toda a verdade — somente nojo sentia por ele, os seus dentes eram amarelos:
— Depois que me beija tenho de cuspir três vezes!
Não saía do espelho, olho pintado, de saía curta ou calça comprida, o cabelo retinto de loiro:
— Nasci para artista. Não mulher de você, una pobretão!
Reclamando de sua presença no leito conjugal, implicava com o assobio do nariz torto de João:
— Vai você ou vou eu para a sala?
Por ter comido salada de cebola — lembrava-se a mãezinha de como gosta de bife sangrento? — forçado a dormir no sofá.
— O que me conta, meu filho! Me nego a acreditar. Maria, moça tão querida, tão dada... Educada no colégio de freiras, toda cuidados com a futura sogra: um beijinho aqui, um abracinho ali.
— É para ver, mãe! Usa roupa de baixo que a senhora não imagina...
Se não a deixasse em paz, Maria acabava seus dias: engolindo vidro moído, escrevia com batom no espelho que era o culpado. Tal intriga fizera para os sogros que, ao visitá-la, conversavam apenas com a filha, nem cumprimentavam o pobre rapaz, como se ausente estivesse. Uma tarde surgiu-lhe o sogro porta adentro, bradando que recolhera a moça descabelada. Queria saber o que lhe fizera para que ficasse tão chorosa. Se era verdade que lhe marcava a coxa, com brasa de cigarro, se lhe surrupiava o dinheiro da bolsa, se ao sair de casa apagava todas as luzes. Sem esperar a resposta, berrou que tinha mais duas filhas para casar e bateu a porta.
— Ter uma conversa com essa sujeitinha — acudiu furiosa dona Mirazinha, com a mão no peito, sofria de palpitação.
Qual a sua surpresa: a náusea da noiva era... de estar...
— Grávida?! — espantou-se dona Sinhara. — Grávida, apesar de virgem?
O incrível resultado de um ato falho do noivo, segundo Maria, tanto bastou para a concepção.
— Grávida?! — surpreendeu-se dona Mirazinha. — E ainda pretende que é virgem?
— Para a senhora ver, mãe, quem ela é. Após a confissão do filho, Maria foi visitada pela sogra:
— Eu vivo para Cristo. Não para o imundo de seu filho!
Após a confissão da filha, João recebeu a visita de dona Sinhara, que se instalou na companhia dos noivos. A moça não deu a menor atenção a João assim não fosse o rei da família. Ele passava o dia no trabalho e, de volta, queria certa liberdade: lá estava a maldita sogra. Negando-se a moça a ir para o quarto, ficavam bocejando na sala diante da televisão, até que dona Sinhara os mandava dormir. Ele não exercia poder sobre a noiva: nem bife sangrento nem cebola na mesa.
Bem desconfiou que ela era amante da própria tia Zezé. Revoltou-se contra a atitude da noiva que, instigada pela mãe, se negava a cumprir o dever conjugal, arrependida de ter casado tão novinha quando podia aproveitar a vida.
Sempre na casa do pai, Maria confidenciava que João dormia a manhã inteira. À tarde, em vez de ir para o emprego, escondido na esquina, espiava se a pobre moça não recolhia o ex-noivo Joaquim. Mostrava uma folha em branco, exigia lhe revelasse o que estava escrito, eram palavras em tinta invisível — bom pretexto para tentar esganá-la a toda custo.
Existe um motivo para o noivo sentir ciúme, pensou dona Sinhara, é não ser o rei da casa. Bradou para Deus e o mundo que João não era homem bastante para sua filha.
O moço confidenciou para a mãe que, na tarde anterior, entrara a noiva batendo a porta (ó família que tanto bate a porta) e gritando bem alto:
— Fomos a uma parteira. Ela provou que sou virgem!
O pobre rapaz discutiu com o sogro que era detalhe para ser esclarecido.
— Quantos anos você tem, João?
— Vinte e três, sim senhor.
— Com essa idade, João, não sente vergonha de uma esposa virgem?
— Virgem, porém grávida.
O velho indignado exigiu a filha de volta. Respondeu João que Maria estava muito bem com ele. O sogro berrou que se retirasse imediatamente, e a partir daquele dia, proibido de pisar nos seus domínios.
Dona Mirazinha perguntou a uma amiga:
— Como vai a grande cadela?
Porque a chamava de cadela, Maria nunca mais foi visitá-la.
Cada um se queixa do outro para a respectiva família. Ora, a família de Maria está ao lado dela. E a família de João ao lado dele. Casados de três para quatro meses e Maria, segundo ela, sempre virgem. Como pode ser, contesta João, se está grávida?
Um mistério que até hoje não foi decifrado.
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domingo, junho 10, 2012
As Loucuras do Minotauro. Dalton Trevisan
As Loucuras do Minotauro
Dalton Trevisan
— Sabe que toda família curitibana tem um louquinho fechado no porão?
— ...
— Não. Sente no sofá. Aqui é melhor.
— Estou com pressa doutor.
— É loiro natural teu cabelo?
— Clareio com xampu.
— Pensou na minha proposta?
— Não vim aqui para isso.
— De fato. É que a assinatura na procuração não confere.
— Uns rabinhos que inventei. Para enfeitar. Só de nervosa.
Pego na mãozinha — ela deixa.
— O que eu quero é isso. Por mim ficava a manhã inteira. Namorando você. Mãozinha dada. É o que me basta.
Longe o olhinho azul, quem está enjoada de ouvir elogio.
Me achego e beijo a face — sem pintura, que maravilha. Fagueira penugem de nêspera madurinha.
— Na boquinha? Bem de leve.
— Não.
— Hoje está cheirosa.
Perfumou-se para vir aqui. Mais indiferente que pareça.
— É francês.
— Nem precisa. Já viu macieira iluminada em flor toda suspirosa de abelha?
É você.
— ...
— Me conte a tua vida. Disse que trabalha desde os onze anos. O que aconteceu nos últimos dez?
— Primeiro a mãe veio morar aqui. Viúva, uma tropa de filhos. De oito sou a terceira. Ela não se acostumou. Daí eu fiquei. Como um traste esquecido.
— Morava com quem?
— Na casa de outra menina.
— Pagava com meu trabalhinho. Na vida nada é de graça. Daí fui mudando de emprego. E hoje aqui estou. Sofrida e triste.
— Esses anos terão sido difíceis. Não quer ou não gosta de falar? A palma de tua mão está úmida. Será de aflita?
Os dedos entrelaçados, vez em quando os aperto — uma em cinco ela responde.
— Acho que sim.
— De mim não tenha medo.
— E hei de ter?
— Já que não fala de tua vida. Me conte como você é. Que mãozinha linda. Quanto você tem de quadril?
— Não sei.
Afagando e medindo coxa acima.
— Calculo uns noventa.
— Emagreci bastante.
— E o teu peitinho? Posso pegar?
Alcanço o primeiro botão da blusinha branca, já se defende.
— Assim não.
— Como será que é? Muita vontade de ver o biquinho.
— Igual ao das outras.
— Aí que se engana. Cada peitinho é diferente. Um tem o bico mais escuro. Outro durinho e rosado. O teu deve ser assim.
— Nunca reparei.
— Sabe que um é mais pequeno que outro? Será o teu esquerdo?
— ...
— De uma, o seio raso da taça de champanha. De outra, bojudo copo de conhaque para aquecer na palma da mão.
— ...
— Pensou na minha proposta? Umas poucas de concessões.
— Como assim?
— Primeiro pego na tua mão. O que já deixou. Isso é bom. Me faz tanto bem.
Não me contenho e agarro uma e outra.
— Depois te apalpo. Aqui.
Em delírio apalpo a coxa trêmula.
— Daí te beijo. Não esse beijinho na face. Um turbilhão louco de beijos.
E dou um, dois, três. De leve, para não assustar.
— Enfim um beijo de língua. Que você retribui.
Dardejo a lingüinha de lagartixa sequiosa debaixo da pedra.
— Sabe o que é acabar?
— ...
— Sabe ou não?
— Para mim é terminar alguma coisa.
— Não é bem isso. Os livros dizem orgasmo. A parte mais gostosa do ato sexual. Já experimentou?
— Não sei o que é.
— Será que é fria? Ou não achou quem te entendesse. Te iniciasse com doçura e paciência. Sabe o que eu faria?
— ...
— Te ajudava a baixar essa calça azul. Abria as tuas pernas. E com este dedinho acordava o teu vulcão.
— Credo, doutor.
Interessada, quem sabe. Um tantinho incrédula.
— Nunca mais seria a mesma. Chamaria você de nuvem, anjo, estrela. O que alguém jamais disse a ninguém. Sabe, Maria?
— ...
— Você é a redonda lua verde do olho amarelo...
— Nossa, doutor.
— ...que, aos cinco anos, desenhei na capa do meu caderno escolar.
— ...
— Mimosa flor com duas tetas. Dália sensitiva com bundinha.
— ...
— Uma empadinha recheada de camarão e premiada com azeitona preta.
— ...
— Já viu canarinha branca se banhando de penas arrepiadas na sua tigela florida?
— ...
— Você faz de mim uma criança com bichas que come terra.
— Assim eu encabulo, doutor.
— No meio das pernas um botão chamado cli-tó-ris. Ali é que meu dedinho ia bulir.
Cada vez mais afrontada e afogueada.
— Depois te beijava da ponta do cabelo até a unha encarnada do pé. Cada pedacinho escondido de teu corpo. Afastava essa coxa branquinha de arroz lavado em sete águas. E me perdia no teu abismo de grandes lábios de rosa.
Agora a mãozinha quente e molhada.
— Sou homem de certa idade. Com a minha vivência faria você sentir prazer até no terceiro dedinho do pé esquerdo. De tanto gozo sairia flutuando pela janela sobre os telhados da praça Tiradentes.
— ...
— E virgem, se quiser, você continua.
—...
— Juro que te respeito. Como está me vendo assim eu fico: todinho vestido. De colete abotoado e gravata.
— ...
— Até de óculo. Só tiro o paletó. Nenhum perigo para você.
— ...
— Em troca dessa alegria lhe ofereço um prêmio. Duas notas novas.
—...
— Quer experimentar hoje?
— Próxima vez eu resolvo.
— Por que não agora? Já está aqui. Tão fácil. Até chovendo. Mais aconchegante.
— Hoje, não.
— Você que sabe. Só não creio na tua frieza. Tudo me diz que é moça fogosa. Essa boca vermelha e carnuda. É de quem gosta. Mais uma coisa, anjo. Enquanto eu falava, o teu narizinho abria e fechava.
— ...
— Veja. Como está fremente.
— ...
— Ninguém te diz nada? O noivinho não te canta?
— Cantar, todos cantam. Eu sei me defender.
— Por que a cisma da virgindade? Se gosta dele, algum mal em deitar no sofá?
— Prefiro assim. Ele é ciumento. Sempre está brigando.
— Monstro moral. Só quer para ele. Já provou beijo de noventa segundos?
— Não contei.
— Ao teu noivo falta imaginação. Fico um dia inteiro olhando você. De joelho e mão posta. Louvado essas graças que Deus te deu. Agora um beijinho. Na boca.
Seguro o rosto, forcejo, ela resiste.
— Ah, ingrata. Que tamanho o teu pé. Isso você sabe.
— Trinta e cinco.
— Bonitinho deve ser. Aposto que sem joanete. Sabe que as moças se masturbam? Você não tem experiência? Todas têm. De noite pensa num rapaz bonito e brinca com o dedinho. Nunca fez isso?
Sem resposta.
— Teu noivo é bonito?
— Nem tanto.
— Então algum artista famoso. Deixa ler a palma da mão.
De repente muito curiosa.
— Este xis é uma boa notícia. Que não esperava.
— O quê?
— Rolar comigo no tapete.
Nem sorri.
— Você não sonha, amor?
— Todos sonham. Eu, ter o meu cantinho.
— Não é isso. De olho aberto. Visões eróticas. Em toda família...
— É tarde. Preciso ir, doutor.
-- Então me dá um abraço. Assim.
Envolvo-a nos braços. Ela não corresponde.
— Ai, me deixa. Beijar essa carinha mais santa.
E osculo as duas faces rosadinhas.
— Agora a tua vez.
Um furtivo beijo. Seco, unzinho só.
— Aqui o teu presente.
— Não posso, doutor.
-— Sabe que toda família curitibana...
— Sou moça de princípios.
— ...tem um louquinho fechado no porão?
— Cruzes, doutor.
Ó maldito Minotauro uivando e babando perdido no próprio labirinto.
— Me trate de você. Doutor já não sou. Apenas um doidinho manso. De paixão cativo.
Indecisa, morde o beicinho.
— De mim o que vai pensar?
Guarda na bolsa as duas notas. E concede o primeiro sorriso.
Dalton Trevisan
— Sabe que toda família curitibana tem um louquinho fechado no porão?
— ...
— Não. Sente no sofá. Aqui é melhor.
— Estou com pressa doutor.
— É loiro natural teu cabelo?
— Clareio com xampu.
— Pensou na minha proposta?
— Não vim aqui para isso.
— De fato. É que a assinatura na procuração não confere.
— Uns rabinhos que inventei. Para enfeitar. Só de nervosa.
Pego na mãozinha — ela deixa.
— O que eu quero é isso. Por mim ficava a manhã inteira. Namorando você. Mãozinha dada. É o que me basta.
Longe o olhinho azul, quem está enjoada de ouvir elogio.
Me achego e beijo a face — sem pintura, que maravilha. Fagueira penugem de nêspera madurinha.
— Na boquinha? Bem de leve.
— Não.
— Hoje está cheirosa.
Perfumou-se para vir aqui. Mais indiferente que pareça.
— É francês.
— Nem precisa. Já viu macieira iluminada em flor toda suspirosa de abelha?
É você.
— ...
— Me conte a tua vida. Disse que trabalha desde os onze anos. O que aconteceu nos últimos dez?
— Primeiro a mãe veio morar aqui. Viúva, uma tropa de filhos. De oito sou a terceira. Ela não se acostumou. Daí eu fiquei. Como um traste esquecido.
— Morava com quem?
— Na casa de outra menina.
— Pagava com meu trabalhinho. Na vida nada é de graça. Daí fui mudando de emprego. E hoje aqui estou. Sofrida e triste.
— Esses anos terão sido difíceis. Não quer ou não gosta de falar? A palma de tua mão está úmida. Será de aflita?
Os dedos entrelaçados, vez em quando os aperto — uma em cinco ela responde.
— Acho que sim.
— De mim não tenha medo.
— E hei de ter?
— Já que não fala de tua vida. Me conte como você é. Que mãozinha linda. Quanto você tem de quadril?
— Não sei.
Afagando e medindo coxa acima.
— Calculo uns noventa.
— Emagreci bastante.
— E o teu peitinho? Posso pegar?
Alcanço o primeiro botão da blusinha branca, já se defende.
— Assim não.
— Como será que é? Muita vontade de ver o biquinho.
— Igual ao das outras.
— Aí que se engana. Cada peitinho é diferente. Um tem o bico mais escuro. Outro durinho e rosado. O teu deve ser assim.
— Nunca reparei.
— Sabe que um é mais pequeno que outro? Será o teu esquerdo?
— ...
— De uma, o seio raso da taça de champanha. De outra, bojudo copo de conhaque para aquecer na palma da mão.
— ...
— Pensou na minha proposta? Umas poucas de concessões.
— Como assim?
— Primeiro pego na tua mão. O que já deixou. Isso é bom. Me faz tanto bem.
Não me contenho e agarro uma e outra.
— Depois te apalpo. Aqui.
Em delírio apalpo a coxa trêmula.
— Daí te beijo. Não esse beijinho na face. Um turbilhão louco de beijos.
E dou um, dois, três. De leve, para não assustar.
— Enfim um beijo de língua. Que você retribui.
Dardejo a lingüinha de lagartixa sequiosa debaixo da pedra.
— Sabe o que é acabar?
— ...
— Sabe ou não?
— Para mim é terminar alguma coisa.
— Não é bem isso. Os livros dizem orgasmo. A parte mais gostosa do ato sexual. Já experimentou?
— Não sei o que é.
— Será que é fria? Ou não achou quem te entendesse. Te iniciasse com doçura e paciência. Sabe o que eu faria?
— ...
— Te ajudava a baixar essa calça azul. Abria as tuas pernas. E com este dedinho acordava o teu vulcão.
— Credo, doutor.
Interessada, quem sabe. Um tantinho incrédula.
— Nunca mais seria a mesma. Chamaria você de nuvem, anjo, estrela. O que alguém jamais disse a ninguém. Sabe, Maria?
— ...
— Você é a redonda lua verde do olho amarelo...
— Nossa, doutor.
— ...que, aos cinco anos, desenhei na capa do meu caderno escolar.
— ...
— Mimosa flor com duas tetas. Dália sensitiva com bundinha.
— ...
— Uma empadinha recheada de camarão e premiada com azeitona preta.
— ...
— Já viu canarinha branca se banhando de penas arrepiadas na sua tigela florida?
— ...
— Você faz de mim uma criança com bichas que come terra.
— Assim eu encabulo, doutor.
— No meio das pernas um botão chamado cli-tó-ris. Ali é que meu dedinho ia bulir.
Cada vez mais afrontada e afogueada.
— Depois te beijava da ponta do cabelo até a unha encarnada do pé. Cada pedacinho escondido de teu corpo. Afastava essa coxa branquinha de arroz lavado em sete águas. E me perdia no teu abismo de grandes lábios de rosa.
Agora a mãozinha quente e molhada.
— Sou homem de certa idade. Com a minha vivência faria você sentir prazer até no terceiro dedinho do pé esquerdo. De tanto gozo sairia flutuando pela janela sobre os telhados da praça Tiradentes.
— ...
— E virgem, se quiser, você continua.
—...
— Juro que te respeito. Como está me vendo assim eu fico: todinho vestido. De colete abotoado e gravata.
— ...
— Até de óculo. Só tiro o paletó. Nenhum perigo para você.
— ...
— Em troca dessa alegria lhe ofereço um prêmio. Duas notas novas.
—...
— Quer experimentar hoje?
— Próxima vez eu resolvo.
— Por que não agora? Já está aqui. Tão fácil. Até chovendo. Mais aconchegante.
— Hoje, não.
— Você que sabe. Só não creio na tua frieza. Tudo me diz que é moça fogosa. Essa boca vermelha e carnuda. É de quem gosta. Mais uma coisa, anjo. Enquanto eu falava, o teu narizinho abria e fechava.
— ...
— Veja. Como está fremente.
— ...
— Ninguém te diz nada? O noivinho não te canta?
— Cantar, todos cantam. Eu sei me defender.
— Por que a cisma da virgindade? Se gosta dele, algum mal em deitar no sofá?
— Prefiro assim. Ele é ciumento. Sempre está brigando.
— Monstro moral. Só quer para ele. Já provou beijo de noventa segundos?
— Não contei.
— Ao teu noivo falta imaginação. Fico um dia inteiro olhando você. De joelho e mão posta. Louvado essas graças que Deus te deu. Agora um beijinho. Na boca.
Seguro o rosto, forcejo, ela resiste.
— Ah, ingrata. Que tamanho o teu pé. Isso você sabe.
— Trinta e cinco.
— Bonitinho deve ser. Aposto que sem joanete. Sabe que as moças se masturbam? Você não tem experiência? Todas têm. De noite pensa num rapaz bonito e brinca com o dedinho. Nunca fez isso?
Sem resposta.
— Teu noivo é bonito?
— Nem tanto.
— Então algum artista famoso. Deixa ler a palma da mão.
De repente muito curiosa.
— Este xis é uma boa notícia. Que não esperava.
— O quê?
— Rolar comigo no tapete.
Nem sorri.
— Você não sonha, amor?
— Todos sonham. Eu, ter o meu cantinho.
— Não é isso. De olho aberto. Visões eróticas. Em toda família...
— É tarde. Preciso ir, doutor.
-- Então me dá um abraço. Assim.
Envolvo-a nos braços. Ela não corresponde.
— Ai, me deixa. Beijar essa carinha mais santa.
E osculo as duas faces rosadinhas.
— Agora a tua vez.
Um furtivo beijo. Seco, unzinho só.
— Aqui o teu presente.
— Não posso, doutor.
-— Sabe que toda família curitibana...
— Sou moça de princípios.
— ...tem um louquinho fechado no porão?
— Cruzes, doutor.
Ó maldito Minotauro uivando e babando perdido no próprio labirinto.
— Me trate de você. Doutor já não sou. Apenas um doidinho manso. De paixão cativo.
Indecisa, morde o beicinho.
— De mim o que vai pensar?
Guarda na bolsa as duas notas. E concede o primeiro sorriso.
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