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domingo, outubro 13, 2019

Se Deus pertence a algum gênero. São Tomás de Aquino. Suma Teológica.

Art. 5 — Se Deus pertence a algum gênero.
(I Sent., dist. 8, q. 4, a. 2; dist. 19, q. 4, a. 2; Cont. Gent. I, 25; De Pot., q. 7, a. 3; Compend. Theol., c. 12;
De Ent. Et Ess., c. 6)
O quinto discute-se assim. — Parece que Deus pertence a algum gênero.
1. — Pois, substância é o ser por si subsistente, o que é por excelência próprio de Deus. Logo, Deus
pertence ao gênero da substância.
2. Demais. — Uma coisa mede-se pela sua congênere, como as longitudes, pela longitude e os números,
pelo número. Ora, Deus é a medida de todas as substâncias, como o diz o Comentador. Logo, Deus
pertence ao gênero da substância.
Mas, em contrário, o gênero é, racionalmente, anterior ao seu conteúdo. Ora, nada é anterior a Deus,
nem material nem racionalmente. Logo, não pertence a nenhum gênero.
SOLUÇÃO. — De dois modos uma coisa pode pertencer a um gênero: absoluta e propriamente, como as
espécies, que ele abrange; ou por via de redução, como os princípios e as privações. Assim, o ponto e a
unidade se reduzem ao gênero da quantidade, como princípios; a cegueira, como toda privação, ao
gênero do seu hábito. — Ora, de nenhum desses modos Deus pertence a um gênero. E, por outro lado,
que não pode ser espécie de nenhum, de três modos pode ser demonstrado. Primeiro, porque uma
espécie é constituída pelo seu gênero e pela sua diferença; e sempre a origem da diferença constitutiva
da espécie está para a origem do gênero, como o ato, para a potência. Assim, animal deriva da natureza
sensitiva, por concreção; pois, chama-se animal o ser dessa natureza sensitiva. Racional, por seu lado,
deriva da natureza intelectiva, pois racional é o ser que tem essa natureza. Ora, intelectivo está para
sensitivo como o ato, para a potência, o mesmo se dando em casos semelhantes. Ora, como em Deus
nenhuma potência vem acrescentar-se ao ato, impossível é que seja espécie de qualquer gênero.
Segundo, porque sendo a existência a essência de Deus, como já demonstramos, se Deus pertencesse a
algum gênero, este seria necessariamente o do ser, pois o gênero exprime a essência de uma coisa e
predica o que a coisa é. Ora, como o Filósofo o demonstra, o ser não pode constituir gênero de nada;
pois, todo gênero implica diferenças estranhas à sua essência. E não é possível descobrir nenhuma
diferença exterior ao ser, visto que não pode o não-ser diferenciar nada. Donde resulta que Deus não
pertence a nenhum gênero. Terceiro, porque todas as coisas pertencentes a um mesmo gênero devem
ter também a mesma quididade ou essência genérica, que lhes é atribuída por atribuição essencial. Mas
diferem pela existência; assim, não é a mesma a existência do homem e a do cavalo, nem a de tal
homem e a de tal outro. Por onde é necessário que, em todas as coisas de um mesmo gênero, difira a
existência da quididade ouessência. Ora, em Deus não há tal diferença, como já demonstramos.
Portanto, é manifesto que Deus não pertence especificamente a nenhum gênero. Donde resulta que
não tem gênero, nem diferenças, nem definição, nem demonstração — salvo pelo efeito; porque a
definição consta de gênero e diferença e é o meio para chegar à demonstração. — E também é claro
que Deus não se inclui em nenhum gênero, como princípio, por via de redução. Pois, o principio
redutível a um gênero não pode estender-se além desse gênero. Assim, o ponto só é princípio da
quantidade contínua, e a unidade, da discreta. Ora, Deus é o princípio de todos os seres, como a seguir
se demonstrará. Logo, não está contido em nenhum gênero, como em princípio.
DONDE A RESPOSTA A PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O nome de substância não significa somente o que
subsiste por si, porque o ser em si mesmo não é gênero, como demonstramos. Mas, significa a essência,
à qual convém existir desse modo, i. é, por si mesma; sem que isso, porém, lhe constitua a essência
própria. Por onde, é claro que Deus não está incluído no gênero da substância.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A objeção colhe quanto à medida proporcionada, pois esta há de,
necessariamente, ser homogênea com o que mede. Ora, Deus não é medida proporcionada a nenhum
ser; mas é considerado como medida de todos, porque cada um existe enquanto dele se aproxima.


São Tomás de Aquino

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domingo, setembro 22, 2019

Se em Deus se identificam a essência e a existência. São Tomás de Aquino

Art. 4 — Se em Deus se identificam a essência e a existência.
(I Sent., dist. 8, q. 4, a. 1, 2; q. 5, a. 2; dist. 34, q. 1, a. 1; II dist. 1, q. 1, a. 1; Cont. gent. I, 22, 52; Qq. Disp.,
de Pot., q. 7, a. 2; de Spirit. Creat., a. 1; Compend. Theol., c. 11; Opusc. XXXVII, de Quattuor Oppos., c. 4;
De Ent. Et Ess., c. 5)
O quarto discute-se assim. — Parece que em Deus não se identificam a essência e a existência.
1. — Pois, se assim não fosse, nada se poderia acrescentar ao ser divino. Ora, o ser que não é susceptível
de nenhuma adição é o ser em geral, que se predica de todos; e, portanto, Deus seria tal ser de todos
predicado. Ora; isto é falso, segundo aquilo da Escritura (Sb 14,21): Deram às pedras e ao pau um nome
incomunicável.Logo, a existência de Deus não é idêntica à sua essência.
2. Demais. — Como já se disse, podemos saber se Deus existe, mas não, o que é. Logo, não se
identificam a existência de Deus e a sua essência, quididade ou natureza.
Mas, em contrário, diz Hilário: A existência não é um acidente, em Deus, mas verdade subsistente. Logo,
o que subsiste em Deus é a sua existência.
SOLUÇÃO. — Deus é, não somente, a sua essência, como já demonstramos, mas também a sua
existência, o que se pode provar de muitos modos. Primeiro, porque tudo o que existe num ente, sem
lhe constituir a essência, deve ser causado pelos princípios desta, como acidentes próprios resultantes
da espécie. Assim, a faculdade de rir resulta do ser humano e é causada pelos princípios essenciais da
espécie. Ou, então, deve ser causado por algum ser exterior: assim, o calor da água é causado pelo fogo.
Por onde, sendo a existência mesma do ente diferente da sua essência, é necessário seja essa existência
causada por algum ser exterior, ou pelos princípios essenciais do referido ente. Ora, é impossível seja ela
causada somente pelos princípios essenciais deste, pois, nenhum ente de existência causada é suficiente
para ser causa da sua própria existência. Portanto e necessariamente, o ente cuja existência difere da
essência, há de ter aquela causada por outro ser. Mas, isto não se pode dizer de Deus, pois, já provamos
ser ele a causa eficiente primeira. Logo, é impossível que, em Deus, a existência seja diferente da
essência. Segundo, porque a existência é a atualidade de toda forma ou natureza; assim, a bondade ou a
humanidade não são atuais senão quando as supomos existentes. Necessariamente, pois, a existência
está para a essência, da qual difere, como o ato para a potência. Ora, Deus nada tendo de potencial,
como demonstramos, resulta que a sua essência não difere da sua existência e, portanto, são idênticas.
Terceiro, porque, assim como o que tem fogo, sem ser fogo, é ígneo por participação, assim também o
que existe, sem ser a existência, existe por participação. Ora, como já estabelecemos, Deus é a sua
essência. Se, portanto, não for a sua existência, será ser por participação e não, por essência. Logo, não
será o ser primeiro, o que é absurdo. Por conseqüência, Deus é a sua existência e não somente, a sua
essência.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A expressão — ser que não é susceptível de nenhuma
adição — pode ser entendida em duplo sentido. Ou porque é tal que, por natureza, não se lhe pode
adicionar nada, como se dá com o animal irracional, que, por natureza, não pode ter razão; ou porque a
sua essência não comporta nenhuma adição, como é o caso do animal em geral, que, por essência,
sendo desprovido de razão, não a comporta, sem que, por outro lado essa essência exija que seja
privado dela.
Ora, no primeiro sentido é o ser divino que não é susceptível de adição; e no segundo, o ser em geral.
RESPOSTA À SEGUNDA. — O vocábulo ser é susceptível de duplo sentido. Ora significa o ato de existir;
ora a composição proposicional, que o espírito descobre quando une o predicado ao sujeito. Na
primeira acepção, não podemos conhecer a existência de Deus nem a sua essência, mas só na segunda.
Pois, sabemos que a proposição que formamos sobre Deus, quando dizemos —Deus existe — é
verdadeira; e isto sabemos pelos efeitos de Deus, como já dissemos.