Já morei no Mosteiro. Assim era chamado o quarto em que morei na Residência dos Universitários em Salvador. Quatro beliches. Um colega que não estudava medicina me disse brincando que comunista comia gente. Seu guarda roupa entulhado de livros de autores comunistas. Um outro me disse que o médico de sua cidade era comunista de carteirinha e era seu amigo. Um terceiro era sargento do exército e morava ali não sei por que e estudava medicina; era tido como gente boa e intermediário para libertar colegas presos nas passeatas contra a ditadura. Um outro fez um pequeno estágio como prisioneiro quando o exército levou a estudantada um dia antes de eu ir morar naquele ambiente. Um era politicamente acéfalo e seu apelido era rastro forte. O meu colega de beliche depois de uma cachaçada disse que sabia por onde invadir o quartel do 19° Batalhão de Caçadores do Exército onde ficaram hospedados os estudantes respondendo perguntas idiotas. E havia um homônimo de perigosíssimo estudante da esquerda. Por isso respondeu inquérito e durante seis meses; toda segunda feira ia ao quartel responder ao seu interrogador, digamos assim. Até que em Concílio decidimos que ele não fosse mais responder nada a ninguém. Era um tempo que me assustava. Algumas vezes ia dormir fora quando um outro colega em tom grave e confidencial me alertava do perigo daquela noite ante a iminência de nova invasão na Residência e irmos presos. Tempos difíceis aqueles.
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terça-feira, junho 13, 2023
TEMPOS DIFÍCEIS. Charles Fonseca
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