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quinta-feira, março 05, 2020

quarta-feira, dezembro 25, 2019

sábado, novembro 17, 2018

quarta-feira, setembro 12, 2018

LUZIA ABRINDO CABEÇAS. Fernando Gabeira

LUZIA ABRINDO CABEÇAS
10.09.2018 EM BLOG

Luzia já não está mais entre nós. Depois de 11.500 anos, sucumbiu à crise brasileira no último dia de Pompeia, o incêndio que levou os afrescos que sobreviveram ao vulcão Vesúvio.

A noite do incêndio foi uma das mais difíceis para mim. Pesadelo, tristeza, raiva e uma dose de culpa. No Congresso, destinei verba parlamentar para o Museu Nacional. O desastre mostrou como era pobre nossa visão de tapar buracos no orçamento de organismo que precisa de uma proteção sistêmica.

Infelizmente, compreendi tudo isso muito tarde, daí minha tristeza e raiva com as chamas. Na verdade, não foi apenas a passagem de Luzia que abriu minha cabeça.

À volta ao jornalismo, tratando de pequenos museus locais, sobretudo em lugares que precisam deles para encontrar sua identidade e agregar valor às suas riquezas naturais, compreendi que eles não são um fardo que deva ser tratado com migalhas. Na viagem à Rússia, onde escritores, sobretudo do século XIX, são cultuados, e há museus de todo tipo, ficou claro para mim que não se trata apenas de preservar a memória, mas transformá-la também numa fonte de renda através do turismo.

Em viagens pelo Brasil, vejo quase toda semana algum tipo de museu. Mantido por um empresário, o Instituto Ricardo Brennand, em Recife, é uma boa surpresa. Nele existem, entre outros, os quadros do holandês Frans Post, que nos deixou belas imagens sobre o Brasil Colonial. É uma coleção que só perde para a da própria Holanda.

Tive boa impressão do Museu Mazzaropi, em Taubaté, construído numa área em que também foram reproduzidos os cenários dos seus filmes: é um hotel fazenda.

Aqui no Brasil, temos um pouco o complexo do novo mundo, da permanente construção e destruição. Nosso lema parece ter surgido da frase de Marx, que também é o título do livro de Marshall Berman: “Tudo que é sólido desmancha no ar”.

Na semana do incêndio, trabalhava , precisamente, em algo ligado a essa frase. É o projeto do trem Minas-Rio, comprado em Três Rios sem ajuda do governo. Ele vai ligar nove cidades, inclusive Cataguases, Minas.

Passei por algumas delas e, em Cataguases, procurei estimular a criação de um museu que fale um pouco do papel da cidade no modernismo. Ali houve uma revista antenada com o movimento, a “Revista Verde”, e um escritor e poeta de destaque: Rosário Fusco.

Não é o primeiro lugar em que trato do tema. Na verdade, na semana anterior estive na Bahia precisamente mostrando o projeto de museu hippie em Arembepe.

No momento em que as cidades precisam se reinventar para enfrentar a crise, é mergulhando na sua tradição e cultura que podemos achar uma saída, através da economia criativa. O que me dói no incêndio é ter percorrido tantas experiências locais e não ter percebido com clareza como o Museu Nacional poderia ter sido importante para o Rio de Janeiro, uma espécie de porta de entrada do Brasil mas que, na verdade, escondia um dos seus principais tesouros culturais.

Ao invés de uma campanha para transformá-lo num momento em que se construíam tantos estádios e um Museu do Amanhã, por que esquecemos o ontem, o anteontem, os dias primordiais de Luzia?

Havia um ar de decadência no museu. Fios de ligações improvisadas, infiltrações, telhas quebradas; enfim, todos esses incômodos de um corpo velho e mal tratado. Diante de museus internacionais bem cuidados e interativos, talvez não nos orgulhássemos dele como deveríamos.

Agora é tarde. Mas não significa que vamos continuar apenas chorando pela perda. Se o crânio de Luzia, perdido nas cinzas, conseguir, pelo menos, abrir nossa cabeça, será uma pequena vitória.

No passado, recusou-se uma ajuda do Banco Mundial porque não se aceitava o Museu como fundação privada. Conseguimos criar um bloqueio duplo: arrogância do novo mundo diante do passado e a ilusão de que tudo deve ser feito pelo Estado.

Não sou inocente nessa história. Quase não há nada nos programas presidenciais sobre a proteção do patrimônio. Se iniciasse uma discussão no tempo em que apenas tapávamos goteiras, talvez hoje já houvesse uma política disponível aos candidatos.

Mas o pássaro da consciência canta apenas ao entardecer. Precisamos sempre de grandes traumas para vislumbrar o caminho. Algo em nós parece hibernar: suspeito que seja o raciocínio.

Artigo publicado no Jornal O Globo

segunda-feira, abril 30, 2018

Retorno de capital investido.

"Se, para manter o Lula na PF custa 300 mil por mês e se tanta gente quer entrar lá para vê-lo, só o capitalismo tem a solução:

vamos cobrar ingresso!

Se permitirmos a entrada de 100 pessoas por dia, cada uma pagando 100 reais, o problema estará resolvido; e com uma vantagem adicional: os petistas vão desaparecer (todo mundo sabe que não existe petista grátis, muito menos petista pagante).

Os ingressos serão vendidos pela internet e certamente haverá filas de espera. As visitas deverão ser rápidas, com direito a uma selfie com o dito-cujo; mas podem ser criados planos especiais, como os de sócio-torcedor dos clubes de futebol:

quem comprar antecipadamente ingressos para pelo menos uma visita mensal até o final da pena, receberá bônus e prêmios, como fotos do condenado autografadas pelo Sérgio Moro, direito de tomar uma dose de cachaça na companhia dele no dia de seu aniversário ou ouvi-lo contando mentiras em um show exclusivo para clientes vip.

Claro que idosos (como o Leonardo Boff, a Eleonora Menicucci e o Eduardo Suplicy) terão direito a meia-entrada; mas teremos que encontrar algum motivo para manter gente como o Lindbergh, a Dilma e a Gleici afastados: talvez possamos alegar que as presenças de pessoas portadoras de distúrbios severos podem causar danos psicológicos aos apenados.

O Lula Live in Curitiba poderá ser, pelos próximos 12 anos, um enorme estímulo ao turismo na capital paranaense.

Logicamente iria haver uma lojinha de souvenirs na saída, vendendo bonecos do Pixuleco, mensagem psicografadas da Marisa Letícia, extratos de discursos da Dilma defendendo o Lula, lingerie de Rosemary e do Jean Willis, lanchonete com sanduíche de mortadela, e garrafinha de 51 benta pelo Frei Beto, foto pin up da Craizy Hoffman, enxada do MST com autógrafo do Stedile, pó de chifre do Paulo Bernardo, que dizem ser afrodisíaco, HC redigido pelo Gilmar Mendes e cartão de visita do Zanin.
Vai faturar muuuuito!
De nada."

sábado, abril 07, 2018

O jovem Charles

Autor: Mentor Neto

O jovem Charles, que não me recordo o sobrenome, professor em Campinas, fez um comentário num dos meus posts sobre o Lula e infelizmente apagou.

Ele disse algo como:
"Agora todo os problemas do Brasil estão resolvidos, né?"

Pena que apagou.
Porque acho que esse comentário merece uma resposta mais elaborada.
Então aí vai.
Para quem tiver paciência de ler, é um texto enorme, para ele e para mim mesmo.
Uma remissão pessoal.
===

Charles, não está tudo resolvido, não.
Dá trabalho resolver tudo que está errado há 500 anos.
Mais trabalho ainda deu colocar o Brasil no trilho depois do Golpe Militar, provavelmente antes de você nascer.
Minha adolescência foi cheia de medo.
Não dos militares, mas da insegurança econômica.
Do futuro que eu poderia ter.
Aí veio o Tancredo, deu esperança e morreu.
Piorou com o Collor.
Aliviou no FHC com o fim da inflação.
E quando a gente achava que estava indo bem, no início do mandato do maior líder popular da História do país, sabe o que aconteceu?
Ele se vendeu.
Fez vista grossa para os companheiros que compravam apoio no Congresso.
Aí, Charles, foi ladeira abaixo.
Longos 13 anos de ladeira abaixo.
Gente como você, jovem e idealista, acreditou, porque o discurso de esquerda é mesmo sedutor.
Eu mesmo acreditei, na década de 70, 80 e 90.
Usei estrelinha no peito, votei várias vezes no Lula.
Para mim é fácil entender que você tenha sido seduzido.
E seria lindo se tivesse mesmo sido verdade.
Melhor distribuição de renda.
Educação para os que deram azar de nascer pobres.
Tudo isso e muito mais.
Você acreditou que alguma coisa estava mudando.
Eu parei de acreditar quando ele se vendeu.
Foi ali que parei de votar nele.
Abandonei o barco.
Ficou claro que nada estava mudando de verdade.
Era só uma bolha de mentiras, financiada pela corrupção.
Aí aconteceu a cisão.
Do partido e do país.
Boa parte dos que ainda acreditam em Lula e no PT, acham que tudo é um golpe das elites para tira-lo do poder.
Outros até admitem a corrupção e acham que os fins justificam os meios.
Você está em um desses dois grupos, aposto.
E realmente acredito que - na cabeça doentia de um sujeito que não soube lidar com o poder - lá no fundo existia (e talvez ainda exista) um plano de se perpetuar no poder e quem sabe um dia, cumprir o que prometeu.
Acredito mesmo nisso.
Diferente dessa direitada toda que quer ele morto, tenho uma visão diferente do Lula.
Ele é um símbolo. Uma lenda.
Ele decidiu ser essa lenda na década de 70.
E de lá pra cá, nunca se importou em pagar suas contas.
Lendas não pagam contas.
Assim, seus companheiros sempre cuidaram de prover o que ele precisava.
O Sitiozinho meia boca, o Triplex medíocre são isso.
Para Lula, isso era só a vida de uma Lenda.
E aos poucos, no poder, ele foi perdendo os limites do que podia ter, o que podia esperar de seu poder.
Embriagado, permitiu que a imoralidade superasse a Lenda.
E o Governo PT desandou.
O seu e o meu sonho da esquerda foram para o ralo.
Lá atrás, no final do primeiro mandato.
E no segundo inteiro.
Corrupção, Charles, vicia.
Com o tempo e com Dilma, o PT e o Lula esqueceram de Governar.
Ou nunca souberam.
Afundaram o país.
Não só pela corrupção.
Corrupção sempre existiu em todos os governos.
Falo da incompetência em gerir o país.
Das mentiras das estatísticas.
Você sabia, por exemplo, que o responsável na ONU pelos estudos de fome no mundo era o mesmo que criou o projeto para acabar com a Fome no Governo Dilma?
Aí ele, na ONU, decidiu que não tinha mais fome no Brasil.
Ou seja, validou mundialmente na ONU o que ele mesmo fez no Brasil.
E sabe o que ele fez?
Incluiu a coxinha de bar como uma refeição.
Olha que lindo.
Acabou com a fome, ironicamente com coxinhas.
Percebe, Charles?
Esse é só um dos milhares de exemplos da farsa que você comprou.
E você continuou acreditando em mentiras que afundaram o país numa enorme recessão.
Com 12 milhões de desempregados.
Você, aí na sua Faculdade, dando aulas e transmitindo essas asneiras e desinformação para seus alunos, talvez não se de conta de como tudo isso é grave.
Eu, aqui na iniciativa privada, emprego 200 profissionais há 30 anos.
Passei por todos esses governos. Inflação de 4 dígitos e o cacete.
Nada se compara ao que foi o desastre do segundo governo Dilma.
E tremo cada vez que escuto idealistas como você sugerirem que está acontecendo uma injustiça com o Lula.
Não está.
Isso que você chama de injustiça é só o país tentando resolver alguns de nossos milhões de problemas.
E se você, não é parte dessa solução, é parte do problema.
Então anota aí: é por causa de gente como você é que não está tudo resolvido no Brasil.

domingo, março 11, 2018

sábado, fevereiro 10, 2018

O médico brasileiro. Caixeta

As políticas públicas “contaminam” toda a Medicina : o médico brasileiro, de modo geral é completamente contaminado pelo “jeito Governo de gerir a Saúde”. Por exemplo, todo médico brasileiro é “treinado” para atender dezenas de pacientes em consultórios numa manhã. É “treinado” para atender dezenas de pacientes graves hospitalizados. Isso distorce sua mente, o faz dele um “profissional atendente de balcão de farmácia” : “ta com dor ? – analgésico”. “Tá com cólica ? –antiespasmódico”. “Tá com depressão ?- antidepressivo”. “Tá com psicose ? – antipsicótico”.
4/ Tais profissionais de “balcão de farmácia”, não entendem a doença como uma fisiopatologia, a entendem como “diagnóstico e tratamento”. Isso distorce completamente a prática médica. Eu vejo isso toda hora, pois lido com estudantes de Graduação, Residência, Pós-Graduação, toda hora, isso desde 1981. É muito difícil fazer um médico/estudante “parar e pensar”, “parar e raciocinar sobre a fisiopatologia, a farmacodinâmica, a farmacocinética, a psicopatologia”. O médico brasileiro é formado no “vapt-vupt”, tudo bem ao contrário do que vivi na minha formação neuropsiquiátrica na França, onde um médico atendia 2-3 pacientes numa manhã, tinha 2 ou 3 pacientes hospitalizados sob seus cuidados. Isso “aprofundava” o raciocínio, “aprofundava a discussão”. O médico brasileiro tem dificuldade para “aprofundar” o que quer que seja. Muitos dão “diagnósticos às cegas”, e o que é pior, não aceitam discutir ou modificar suas opiniões e condutas. Raramente lêem relatórios longos, compulsam exames numerosos, debruçam-se muito tempo sobre cada caso.

domingo, janeiro 21, 2018

Algemas. Jorge Barbosa Pontes

Algemas, "London cabs" & súmula vinculante no. 11

Autor: Jorge Barbosa Pontes
Folha de S. Paulo - 22/08/2008

NELSON RODRIGUES disse, depois de ganharmos nosso primeiro título mundial de futebol, em 1958 (Suécia), que, naquele momento, o brasileiro chutava para longe, definitivamente, o vira-lata que sempre foi. Infelizmente, o genial dramaturgo não acertou o prognóstico. Vemos ainda hoje, exatos 50 anos após Bellini levantar a Jules Rimet em Estocolmo, que o nosso "vira-latismo" anda mais forte do que nunca.

Foi em uma viagem a Londres, em 2006, observando pequenos detalhes da vida cotidiana na Inglaterra, que pude constatar o complexo de inferioridade, a culpa, a vergonha e até o ridículo que a grande maioria de nós brasileiros ainda cultivamos. Em uma visita a uma unidade da Scotland Yard, uma das mais conceituadas Polícias do planeta e que goza de prestígio pelo respeito que tem aos direitos humanos daqueles que persegue em seu dia-a-dia, observei um cartaz que dizia que seus policiais deviam algemar, indistintamente, todos os que se encontrassem em condição de preso ou detido, pois os riscos se classificariam em apenas dois tipos: os conhecidos e os desconhecidos.

Nada mais democrático, profissional e técnico. Um homem rico, um senhor de idade, uma mulher, um político, um banqueiro, um homem culto, todos têm potencial para, ao se exasperar no momento estressante da prisão, colocar a vida do policial que o conduz, a de transeuntes ou a sua própria integridade em risco. Não há como o policial perscrutar o que se passa na cabeça de uma pessoa que acaba de ser presa. Reação violenta não é exclusividade de homens de poucos recursos e pouca cultura. Um preso por crime financeiro ou por corrupção pode reagir de forma violenta ao perceber que caiu em desgraça e que terá sua fortuna, que foi amealhada ilegalmente, congelada pelas autoridades. Não há por que condicionar, de forma absoluta, a colocação da algema ao crime cometido, relativizando o tratamento a ser dado aos infratores de colarinho-branco.

Prevalecendo o que decidiu o Supremo Tribunal Federal, as equipes da Polícia Federal deverão contar, daqui em diante, com um paranormal para ler as mentes dos conduzidos e, conforme o caso, sugerir a colocação de algemas, de forma preventiva.

Preso na Inglaterra significa algemado. E não há humilhação nisso. Não há nenhum prazer especial por parte do policial em algemar nem há humilhação extra do preso por ser algemado. Uma coisa pressupõe a outra. O sujeito preso fica numa cela, e a algema é a forma daquela condição de cerceamento de liberdade continuar quando houver necessidade de translado do preso. Não algemar seria a mesma coisa que deixar a porta da cela aberta.

As cabeças colonizadas, evocando princípios humanistas, resistem ao desenvolvimento de um aparelho repressivo que alveja ricos e pobres indistintamente. Esse traço cultural forte contrasta com o mundo em que vivemos e começa a ser desafiado por uma geração de delegados, promotores e juízes que, aprovados em concursos públicos muito concorridos, conquistaram uma posição de independência crítica em defesa dos interesses da sociedade e das instituições em que atuam.

Procuram tachar de tratamento indigno a colocação de algemas quando estar algemado não é indigno. A prisão, ou melhor, os motivos da prisão talvez sejam a indignidade. Daí intentarem maquiar a vergonha, a indignidade da prisão, suprimindo um dos seus mais fortes "trade marks", as algemas, e, dessa forma, impedindo que a sociedade perceba que sua própria máscara caiu.

Mas faltaria ainda uma explicação em relação ao preso sem posses. Não se levantam os tribunais em defesa da humilhação do algemado desvalido "não perigoso" porque sua humilhação já precede a prisão.

Ele já é humilhado por ser pobre, por ser destituído de camisas, gravatas e abotoaduras. A algema não grita, não cria contraste quando colocada num joão-ninguém.

JORGE BARBOSA PONTES, 48, delegado federal, é chefe da Interpol no Brasil. Atua na área de cooperação internacional em matéria criminal desde 1992."

sábado, janeiro 13, 2018

ANITTA E A REPÚBLICA DOS RASTAQUERAS

ANITTA E A REPÚBLICA DOS RASTAQUERAS
Marco Antônio Villa

A decadência cultural do país é inquestionável. A ignorância se transformou em política oficial. Quanto mais medíocre, melhor. O Brasil vive uma crise de identidade cultural. Ao longo do século XX, foi recorrente a busca incessante de interpretações do nosso país. A grande migração do Nordeste para o Sudeste e os deslocamentos do campo para a cidade transformaram radicalmente o país. O nascimento das primeiras metrópoles e suas profundas contradições sociais e políticas fomentaram a necessidade de compreender o momento histórico. Tudo era novo, e as antigas leituras não davam conta das transformações que estavam ocorrendo em ritmo acelerado. O velho ufanismo do Conde de Afonso Celso era ridicularizado. O Brasil moderno necessitava da crítica, e não da apologia despolitizada do passado e do presente. Na literatura, no cinema, nas artes plásticas, na música foi sendo construída a nossa identidade cultural, produto complexo, contraditório, mas que possibilitou estabelecer diálogo entre as diferentes regiões do país, as classes sociais, os desafios políticos e a elite dirigente. A cultura brasileira tinha uma presença no mundo ocidental. Dialogava com o que havia de mais moderno. Em algumas áreas, acabou se transformando em referência para outras culturas. Atualmente, o panorama é muito distinto. A crise de identidade cultural pela qual passamos é a mais profunda da nossa história. Hoje, nada ou quase nada nos une.
Somos um país fragmentado, dividido. Não há diálogo na música, na literatura, no cinema, nas artes plásticas. A cultura brasileira nada conta para o mundo. Nesta conjuntura, é possível compreender como algumas figuras caricatas tomaram conta do cenário cultural. A cantora Anitta é o melhor exemplo. É elogiada como um verdadeiro símbolo do Brasil contemporâneo. Uma representante do país para o mundo. A música “Vai ,malandra” já foi chamada de novo hino nacional. O reacionarismo da letra (falar em versos, aí já é demais), a desqualificação da mulher, a idealização da favela (é favela mesmo; comunidade não passa de uma tentativa de transmudar pela palavra uma vergonha nacional, aceitar a precarização da moradia e das condições de vida de milhões de brasileiros) é dado de barato, como se fosse algo absolutamente irrelevante.
Foi até chamada para cantar o Hino Nacional no último Grande Prêmio de Fórmula 1, em Interlagos — seguindo este caminho, logo teremos como intérpretes Ludmilla ou Pablo Vittar. No réveillon, na Praia de Copacabana, foi considerada a grande estrela. Brindou o público com frase de rara profundidade filosófica, como uma Hanna Arendt dos trópicos: “Vocês acharam que eu não ia rebolar a minha bunda hoje?” A decadência cultural do país é inquestionável.
A ignorância se transformou em política oficial. Quanto mais medíocre, melhor. Tem de ser rasteiro para ser aceito, fazer sucesso. O Brasil virou a República dos Rastaqueras. No país da Anitta, é indispensável dizer sim, sempre dizer sim. Há o medo manifesto de ser hostilizado por defender uma outra visão de mundo. Os radicais dos anos 1960, hoje em idade provecta, preferiram aceitar passivamente o papel de coadjuvantes. Não perceberam o ridículo. Pior, chancelaram com entusiasmo a cultura da ignorância. Tudo para não perder o proscênio. Em busca da eterna juventude, agem como Peter Pans tupiniquins. Como chegamos a este ponto de degradação? O desaparecimento de um pensamento crítico pode explicar este terrível cenário. A reflexão, fruto da exaustiva pesquisa, desapareceu. Culturalmente — mas não só — o país perdeu o rumo. Paradoxalmente, nunca existiram no Brasil tantas secretarias — estaduais e municipais — dedicadas formalmente à cultura. São centenas.
Mas na República dos Rastaqueras, elas servem somente como moeda de troca para garantir a “governabilidade” das prefeituras e governos estaduais. O Brasil acabou se transformando em recebedor passivo do que há de pior da cultura ocidental, especialmente a americana. Reproduz de forma caricata as manifestações culturais (além do racismo negro) dos setores ditos marginais dos Estados Unidos — que foram mercantilizados a peso de ouro pela indústria cultural. Ao invés da antropofagia cultural, temos o mimetismo caricato. Não é possível atribuir ao conjunto da cultura ocidental a mediocridade brasileira. Poderíamos importar muita coisa melhor. Mas por que não o fazemos? Em parte, deve-se à elite econômica e política. Nunca tivemos uma elite tão rastaquera como a atual. Despreza a cultura. Não se identifica com os clássicos ocidentais. Acha o máximo matricular seus filhos em escola bilíngue — somente duplicam a ignorância em duas línguas. Quando viaja, evita os museus. Livrarias? Foge delas como o diabo da cruz. Olha mas não vê o produto de uma civilização. Quer é fazer compras. O Brasil não tem nenhum museu que possa se aproximar de um congênere europeu. Os nossos são pequenos, pobres. Evidentemente que não seria o caso de termos um Hermitage, mas o país que está entre as maiores economias do mundo não pode se contentar com o que temos. E as bibliotecas? Pífias. Os acervos são restritos e estão desatualizados. E os grandes teatros? Este triste panorama é produto da crise que vivemos, uma crise estrutural. A República está sem rumo. Em uma linguagem mais direta: o país está uma bagunça. Para os doutores Pangloss de plantão, tudo vai bem. Resta, então, cantar: “Vai, malandra, an an/ Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum/An an, tutudum, an an/Vai, malandra, an an/Ê, tá louca, tu brincando com o bumbum/An an, tutudum, an an.”

Ah, bons tempos quando Anita era a Garibaldi.

sexta-feira, maio 20, 2016

quarta-feira, maio 18, 2016

Joaquim Barbosa

Sábias palavras, de Joaquim Barbosa

Nunca votei em nenhum candidato do PT. Muito menos em Lula. Mas confesso que durante a sua presidência, fiquei surpreso e como vários momentos até admirá-lo. O que fez pelos menos favorecidos foi elogiável, reconheço. Cheguei a pensar até que o Brasil se tornaria uma grande nação mundial, sólida e educada politica e socialmente. A maioria dos brasileiros parecia feliz e ele deixou o poder com 80% de aprovação. O que ninguém sabia, no entanto, era que por trás desta aparente tranquilidade e sucesso, havia um quadrilha organizada e apoiada por ele, agindo nas sombras para surrupiar o País e empresas públicas. O tumor malígno já estava instalado e lentamente se infiltrava nos órgãos tranformando-se em metástase. Dilma, um cacto, foi plantada para levar o plano em frente e seria sua marionete perfeita, quase humana. Mas o que ele não podia prever é que a marionete não articulava bem e o pinóquio acabou fugindo da casa do Gepetto e passou a viver por conta própria. A história todos conhecem. Tola, temperamental e sem nenhuma sensibilidade política e no afã de manter-se no poder, exagerou na dose ao financiar programas que sabia que não seriam suportados pelo tesouro, acabando por levar o país a bancarrota e ao caos financeiro, político e social. O discurso sustentado sempre foi o de separação de classes, regiões, cores e gêneros. Velha política de "Dividir para governar", afastando-se da unidade nacional que deveria manter os brasileiros unidos para um progresso comum. Além disso, foi o grande arquiteto do foro de São Paulo que pretendia implementar a ditadura do proletariado na America do Sul. Utopia. O Brasil nunca se renderia ao comunismo e nunca se renderá. Aqui, as pessoas gostam de trabalhar e ser regiamente pagas por seu trabalho. Que o governo criou programas interessantes, criou sim. Muitos aproveitados dos governos passados. O que não previu, ou a ansiedade de poder não deixou ver, é que quem financiaria esses projetos seria a classe produtiva com seus impostos e empregos. Mas resolveram dividir os ganhos com empresários corruptos, levando essas empresas a bancar suas contas. Resultado: Apanhados em flagrante, a casa caiu, o financiador faliu e tudo o que haviam, em tese, feito em prol da sociedade foi se perdendo no caminho. Perderam a mão, o respeito e tudo o que restou foi o Nós, e o Eles. E agora José? O dinheiro acabou, a fonte secou e o Brasil parou. Agora agonizam e chafurdam na lama de suas próprias torpezas e irresponsabilidades com a república. Esqueceram da ética, da moral e do principal, da vergonha. Mentem compulsivamente. Dissimulam, fantasiam um poder que já não tem. Entregam com pompas, obras feitas de ar, e que sabem, não poderão pagar. Ao fim perguntamos: Quem está dando golpe em quem? Instalado o caos pelo crime e por tudo o que fizeram e o que deixaram de fazer, só nos resta confiar na última trincheira antes que o pior aconteça. A JUSTIÇA. Que Deus nos proteja e que todos os brasileiros vivam em paz.

Joaquim Barbosa.

domingo, março 27, 2016

Incitatus. Mauro Barzotto.

E houve quem achasse que Roma chegou ao ápice quando Calígula nomeou Cônsul seu cavalo Incitatus.
No quesito insanidade o Brasil é absolutamente imbatível.