Agnosticismo e fé
Para Marion e Ivanise, amigas da mais remota infância!
Como tantas ocorrências da existência humana, a morte súbita do filho do meu melhor amigo, ora enfermo, precisamente no instante em que cheguei à sua casa para visitá-lo, na última sexta-feira, figura como mais um episódio do campo do insondável. Está para sempre gravado em minha mente nosso esforço comum para manter vivo o administrador e advogado Carlos Benedito Santana Carvalhal, eu, aplicando-lhe massagem no coração e o pai, cambaleante, fazendo um esforço hercúleo para extrair dos seus débeis pulmões o ar necessário para a respiração boca a boca que aplicava no agonizante e amado herdeiro.
O mistério residiria no fato de se tratar de um filho único, tão aguardado, quando chegou, amado e mimado até o último suspiro, aos 46 anos e oito meses, e de ser eu a pessoa em quem o casal Helena e George Nogueira Carvalhal mais confia, em razão de um relacionamento afetivo que nunca esmaeceu, ao longo de setenta e cinco anos já completados, coisa cada vez mais rara no espaço e no tempo. Somos amigos inseparáveis desde a mais tenra infância. Com George partilhei da festa generalizada, no dia 08/05/1945, dia da rendição dos alemães e italianos, pondo fim à parte substancial da Segunda Guerra Mundial, embora nossa alegria tenha decorrido do imprevisto, ainda que bem vindo, encerramento das aulas. Só uma vez divergimos, quando, a partir dos quinze anos, minha interpretação do mundo me conduziu para o agnosticismo e ele, para sua sorte, manteve-se fiel à crença no Deus de sua fé, único recurso que o conforta neste momento de dor indizível. Os crentes, para explicar minha chegada em momento tão crucial, poderiam invocar o provérbio italiano segundo o qual “coincidência é o meio utilizado por Deus para permanecer anônimo”, enquanto os agnósticos atribuiriam o episódio ao “caráter lotérico e imponderável da própria vida”.
A melhor distinção entre guerra e paz consiste no reconhecimento de que “a paz é um tempo em que os filhos enterram os pais”, e a “guerra é um tempo em que os pais enterram os filhos”. Toda vez que se inverte essa lógica, como ocorreu nesse episódio triste e desnecessário, a crença num Deus onisciente entra em crise no ânimo de muitos. É compreensível que assim o seja, em face da necessidade de termos em quem tudo de bom e de ruim atribuir a responsabilidade. Essa crença constitui, sem dúvida, um dos maiores confortos do espírito.
Do casal Helena e George Carvalhal pode-se afirmar não haver outro mais honrado, generoso e temente a Deus, como é da avaliação unânime de quantos o conhecem. Figura nos anais da decência a devolução que George fez aos cofres da Prefeitura de Salvador, na gestão de Antônio Carlos Magalhães, o avô, dos salários de um ano, simplesmente, porque lhe mal informaram não poder acumular dois proventos, simultâneos do poder público. Fê-lo, mesmo contrariando o conselho do oficial do Exército, no 19 BC, a cujo comando, como médico, obedecia. A paz de sua imprescindível consciência cívica falou mais alto do que as maciezas decorrentes de recursos de cuja lisura desconfiava. As múltiplas manifestações de conforto que recebeu vieram impregnadas do reconhecimento dessa honradez olímpica.
Tomemos, ao acaso, uma pequena parte da longa mensagem que, por nosso intermédio, a ele encaminhou seu exemplar colega de profissão, o médico Aramis Ribeiro Costa, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, além de sobrinho querido do legendário Adroaldo Ribeiro Costa, pai da Hora da Criança e autor do incomparável Hino do Esporte Clube Bahia:
“Conheci Carvalhal quando eu terminava o meu curso médico, e me preparava para enfrentar essa difícil estrada que já dura quarenta e cinco anos, uma estrada que Carvalhal conhece tão bem, e que é a de tentar afastar doenças e mortes na vida das pessoas, ainda que por um tempo, porque um dia cada um de nós tem o seu inevitável ponto final... ... No sexto ano médico, mesmo ainda sem o diploma, fui trabalhar com funções de pediatra na Clínica SEMPRE... ...De Carvalhal, guardo a lembrança de um profissional competente, íntegro, mas, sobretudo, de um homem bom e educado, simpático e afável, que tinha o respeito e a estima de todos que o conheciam. Imagino a tristeza imensa que, neste momento, deve inundar o bondoso coração dele e de sua companheira da vida inteira, a mãe de Carlinhos que eu conheci menino, muito orgulhoso do pai”.
Este episódio consolida em meu espírito o mistério insondável sobre o que somos, de onde viemos e para onde vamos.
Joaci Góes
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segunda-feira, outubro 21, 2019
Agnosticismo e fé.
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sexta-feira, junho 14, 2019
Davi contra Golias. Joaci Góes. Prosa.
Davi contra Golias
Aos queridos sobrinhos Ana Paula e Jai!
Antes mesmo de ouvir o que tinham a dizer o promotor Deltan Dallagnol e o Ministro Sérgio Moro a respeito do vazamento ilegal da conversa que tiveram, ao tempo em que o atual Ministro era o juiz da Vara Federal em Curitiba, responsável pelos julgamentos dos crimes da Operação Lava Jato, subiu muito significativamente o bom julgamento que se fazia sobre o excelente trabalho de ambos. De cara, de pronto e de logo, demonstraram, particularmente o destemido e admirado juiz Sérgio Moro, que neles não cabe o anátema de Dante, na Divina Comédia, segundo o qual ”Os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que em momentos de grande crise moral, preferem assumir uma posição de neutralidade”.
Dedicados a denunciar, combater e punir, do modo corajoso como o fizeram, os que organizaram a maior quadrilha para assaltar um país, que se conhece na história do Mundo, Moro e Dallagnol se alçaram muito alto no conceito da sociedade contemporânea, dentro e fora do Brasil, tendo em vista, sobretudo, o gigantismo da estrutura criminosa que defrontam, caracterizando uma versão moderna da desigualdade bíblica de forças entre o colosso filisteu Golias, de três metros de altura, e o jovem e pacífico pastor de ovelhas, o judeu Davi. Golias confiava em seu tamanho, sua força descomunal e experiência guerreira, apoiado, ainda, por um formidável exército; Davi depositava suas esperanças no valor moral de sua causa e em sua fé em Deus. Os Davis da boa causa da decência brasileira, da qual tanto dependemos para continuar aspirando ideais de paz e prosperidade, têm como única aliada a majoritária opinião pública nacional, permanentemente acossada por ponderáveis parcelas de uma mídia viciada, por membros de tribunais superiores comprometidos com o crime e por um Congresso sensivelmente prostituído. Os que se escandalizam com conversas de conteúdo rotineiro entre juízes e as partes são da mesma natureza dos que se insurgiram contra a instalação do Tribunal de Nuremberg, após a Segunda Guerra, amparados no argumento de que a impunidade dos criminosos de guerra estava assegurada pela inexistência de lei que tipificasse e cominasse pena ao genocídio. Esses mesmos padecentes do distúrbio conhecido como dissonância cognitiva, que os impede de ver que Lula chefiou a mais criminosa quadrilha de que se tem conhecimento na História, comparecem às ruas para vociferar o “Lula livre”, como mecanismo para pôr fim à Operação Lava Jato.
Mais uma vez, o tiro saiu pela culatra! Aturdida, num primeiro instante, pelo que seria a denúncia do fim do mundo, a opinião pública, aí incluída a patuléia ignara, em relativamente pouco tempo, depois de ouvir à saciedade a repetição dos diálogos “condenáveis”, recobrou sua higidez intelectiva e concluiu, tempestivamente, que só um juiz calhorda ou patologicamente burocrático pode manter-se equidistante quando o crime campeia, ostensivamente, contra a honra, a justiça, a miséria e a caridade, lassidão moral que Anatole France vergastou ao denunciar os que obedecem a uma isonomia “que pune o pobre por dormir num banco da praça pública, pedir esmolas ou furtar um pão”. Para as pessoas inteligentes, o Ministro Luís Roberto Barroso defendeu a legitimidade dos diálogos entre o Procurador e o Juiz, ao sustentar, entre outros motivos, que ninguém pode desconhecer a pilhagem de dimensões inéditas e sesquipedais que desembocou na Lava Jato.
No fundo, o que quer a hipocrisia militante, a serviço da impunidade de crimes que têm o mesmo potencial lesivo do genocídio, é equiparar o juiz a uma máquina destituída de sensibilidade, obrigado a tratar igualmente a desiguais, em conflito com o necessário caráter dialético da desigualdade, como preconizado por Aristóteles e Rui Barbosa. Nessa visão grotesca, esposada por conveniências ilegítimas, o juiz deveria agir como o padre do clássico filme A tortura do silêncio, de Alfred Hitchcock, que, acusado de um homicídio que não praticara, sente-se impedido de apontar o verdadeiro culpado que lhe confessara o crime.
De um modo geral, as entidades se manifestaram adequadamente sobre como tratar a questão, de momentosidade construída de má-fé, com a exceção da OAB nacional, cuja direção milita, despudoradamente, para abortar a Operação Lava Jato, descomprometida com o seu dever de agir com isenção, liberta dos compromissos de advogada dos que assaltaram o País. Como estamos mal representados, nós os advogados!
A marcha batida contra o crime organizado para sangrar o Erário não tem volta. Os que lutam para acabar com a Lava Jato flertam com o risco de uma ruptura institucional. Depois não venham chorar sobre o leite derramado.
Joaci Góes
13.06.19
Aos queridos sobrinhos Ana Paula e Jai!
Antes mesmo de ouvir o que tinham a dizer o promotor Deltan Dallagnol e o Ministro Sérgio Moro a respeito do vazamento ilegal da conversa que tiveram, ao tempo em que o atual Ministro era o juiz da Vara Federal em Curitiba, responsável pelos julgamentos dos crimes da Operação Lava Jato, subiu muito significativamente o bom julgamento que se fazia sobre o excelente trabalho de ambos. De cara, de pronto e de logo, demonstraram, particularmente o destemido e admirado juiz Sérgio Moro, que neles não cabe o anátema de Dante, na Divina Comédia, segundo o qual ”Os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que em momentos de grande crise moral, preferem assumir uma posição de neutralidade”.
Dedicados a denunciar, combater e punir, do modo corajoso como o fizeram, os que organizaram a maior quadrilha para assaltar um país, que se conhece na história do Mundo, Moro e Dallagnol se alçaram muito alto no conceito da sociedade contemporânea, dentro e fora do Brasil, tendo em vista, sobretudo, o gigantismo da estrutura criminosa que defrontam, caracterizando uma versão moderna da desigualdade bíblica de forças entre o colosso filisteu Golias, de três metros de altura, e o jovem e pacífico pastor de ovelhas, o judeu Davi. Golias confiava em seu tamanho, sua força descomunal e experiência guerreira, apoiado, ainda, por um formidável exército; Davi depositava suas esperanças no valor moral de sua causa e em sua fé em Deus. Os Davis da boa causa da decência brasileira, da qual tanto dependemos para continuar aspirando ideais de paz e prosperidade, têm como única aliada a majoritária opinião pública nacional, permanentemente acossada por ponderáveis parcelas de uma mídia viciada, por membros de tribunais superiores comprometidos com o crime e por um Congresso sensivelmente prostituído. Os que se escandalizam com conversas de conteúdo rotineiro entre juízes e as partes são da mesma natureza dos que se insurgiram contra a instalação do Tribunal de Nuremberg, após a Segunda Guerra, amparados no argumento de que a impunidade dos criminosos de guerra estava assegurada pela inexistência de lei que tipificasse e cominasse pena ao genocídio. Esses mesmos padecentes do distúrbio conhecido como dissonância cognitiva, que os impede de ver que Lula chefiou a mais criminosa quadrilha de que se tem conhecimento na História, comparecem às ruas para vociferar o “Lula livre”, como mecanismo para pôr fim à Operação Lava Jato.
Mais uma vez, o tiro saiu pela culatra! Aturdida, num primeiro instante, pelo que seria a denúncia do fim do mundo, a opinião pública, aí incluída a patuléia ignara, em relativamente pouco tempo, depois de ouvir à saciedade a repetição dos diálogos “condenáveis”, recobrou sua higidez intelectiva e concluiu, tempestivamente, que só um juiz calhorda ou patologicamente burocrático pode manter-se equidistante quando o crime campeia, ostensivamente, contra a honra, a justiça, a miséria e a caridade, lassidão moral que Anatole France vergastou ao denunciar os que obedecem a uma isonomia “que pune o pobre por dormir num banco da praça pública, pedir esmolas ou furtar um pão”. Para as pessoas inteligentes, o Ministro Luís Roberto Barroso defendeu a legitimidade dos diálogos entre o Procurador e o Juiz, ao sustentar, entre outros motivos, que ninguém pode desconhecer a pilhagem de dimensões inéditas e sesquipedais que desembocou na Lava Jato.
No fundo, o que quer a hipocrisia militante, a serviço da impunidade de crimes que têm o mesmo potencial lesivo do genocídio, é equiparar o juiz a uma máquina destituída de sensibilidade, obrigado a tratar igualmente a desiguais, em conflito com o necessário caráter dialético da desigualdade, como preconizado por Aristóteles e Rui Barbosa. Nessa visão grotesca, esposada por conveniências ilegítimas, o juiz deveria agir como o padre do clássico filme A tortura do silêncio, de Alfred Hitchcock, que, acusado de um homicídio que não praticara, sente-se impedido de apontar o verdadeiro culpado que lhe confessara o crime.
De um modo geral, as entidades se manifestaram adequadamente sobre como tratar a questão, de momentosidade construída de má-fé, com a exceção da OAB nacional, cuja direção milita, despudoradamente, para abortar a Operação Lava Jato, descomprometida com o seu dever de agir com isenção, liberta dos compromissos de advogada dos que assaltaram o País. Como estamos mal representados, nós os advogados!
A marcha batida contra o crime organizado para sangrar o Erário não tem volta. Os que lutam para acabar com a Lava Jato flertam com o risco de uma ruptura institucional. Depois não venham chorar sobre o leite derramado.
Joaci Góes
13.06.19
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sexta-feira, março 30, 2018
Tragédia institucional. Joaci Góes
"Artigo publicado na Tribuna da Bahia em 29/03/18
Tragédia institucional
Ao honrado e culto Desembargador Paulo Furtado que hoje aniversaria.
Na sociedade brasileira, como em qualquer das unidades em que se decompõe, o Juiz Sérgio Moro é considerado, majoritariamente, a maior figura do nosso Judiciário, em todos os tempos. Na última segunda-feira o prestígio do seu nome se consolidou, ainda mais, quando foi entrevistado, ao longo de hora e meia, por alguns dos mais respeitados jornalistas brasileiros, em programa televisivo que bateu recorde de repercussão. Revelando conhecimento, destemor e equilíbrio, Sérgio Moro respondeu, sem titubeios, a todas as perguntas que lhe foram dirigidas, muitas delas, como esperado, destinadas a lhe criar embaraços. Imagino que na opinião da maioria o Grande Juiz foi aprovado com louvor no difícil teste a que se submeteu.
O episódio projetou no espírito dos brasileiros o gigantesco descompasso que pode haver entre um exemplar juiz federal de primeira instância, cioso de suas prerrogativas republicanas e constitucionais, e o pântano moral em que chafurda o Supremo Tribunal Federal, alvo do maior número de chacotas de que se tem notícia na memória dos povos. As iradas diatribes gravadas e disponibilizadas nas redes internéticas por cidadãos de todos os naipes sociais contra o que se considera o exercício de um papel bandido desempenhado pela Suprema Corte, distante, como nunca, dos elevados fins que estão na base de sua criação, elevam às nuvens o padrão de desapreço a que ela chegou na percepção popular. Amplamente identificados os indignados autores das ofensas, a direção do STF tem o dever mínimo de processá-los por injúria, difamação e calúnia, com a vantagem da posse de provas inquestionáveis das autorias. Se não o fizer, o Excelso Pretório estará demonstrando que reconhece merecer os insultos que rebaixam o seu prestígio aos olhos do mundo.
O vexatório papelão que o STF vem protagonizando, em vertiginosa sequência, para estupefação e desencanto gerais, é uma prova adicional de que o mais importante atributo de um servidor público, sobretudo quando membro do Judiciário, é a honradez, acima da inteligência e da erudição. A pessoa honrada, reconhecendo suas limitações, vai em busca do aconselhamento dos sábios. Ao que parece, porém, Suas Excelências comprazem-se em exibir um notório saber que, na maioria das vezes, lhes é soprado por uma assessoria jurídica de alta qualidade, integrada por doutores vocacionados para as lides jurídicas.
O mais grave do episódio recente em que, por maioria, os ministros decidiram não decidir sobre o que já haviam decidido, adiando o julgamento do feito, é que nada impedirá o avanço do oprobrioso conceito que desfruta a Suprema Corte junto à opinião pública, concedendo ou negando o Habeas Corpus. Uma prova a mais de como alguns ministros se encontram muito abaixo da posição que ocupam reside nas razões apresentadas como motivo suficiente para adiar a sessão, deixando o povo brasileiro na estupefaciente dúvida sobre o seu sistema legal: viagem, jantar, jogo de cartas, batizado de boneca.
A melhor opção a tomar, no próximo dia 4, a única cabível, se se quer agir com a mínima decência, é a manutenção da prisão de Lula, provando que todos são iguais perante a Lei. A impensável concessão do HC, legitimando a crença dominante de que no Brasil o crime compensa, fará o País mergulhar na maior crise institucional de sua história, paralelamente ao reconhecimento de que o Supremo Tribunal Federal é o valhacouto dos crimes mais hediondos.
Aconteça o que acontecer, não é possível a continuidade do sistema vigente de escolha em que os Ministros ficam reféns dos seus padrinhos, a serviço de quem se imola a dignidade da toga, no altar da mais ignominiosa (in)justiça. Por colocar a verdade acima dos interesses dos que o apoiaram para chegar à Suprema Corte, O Ministro Edson Fachin e sua família vêm recebendo ameaças de morte.
Joaci Góes"
Tragédia institucional
Ao honrado e culto Desembargador Paulo Furtado que hoje aniversaria.
Na sociedade brasileira, como em qualquer das unidades em que se decompõe, o Juiz Sérgio Moro é considerado, majoritariamente, a maior figura do nosso Judiciário, em todos os tempos. Na última segunda-feira o prestígio do seu nome se consolidou, ainda mais, quando foi entrevistado, ao longo de hora e meia, por alguns dos mais respeitados jornalistas brasileiros, em programa televisivo que bateu recorde de repercussão. Revelando conhecimento, destemor e equilíbrio, Sérgio Moro respondeu, sem titubeios, a todas as perguntas que lhe foram dirigidas, muitas delas, como esperado, destinadas a lhe criar embaraços. Imagino que na opinião da maioria o Grande Juiz foi aprovado com louvor no difícil teste a que se submeteu.
O episódio projetou no espírito dos brasileiros o gigantesco descompasso que pode haver entre um exemplar juiz federal de primeira instância, cioso de suas prerrogativas republicanas e constitucionais, e o pântano moral em que chafurda o Supremo Tribunal Federal, alvo do maior número de chacotas de que se tem notícia na memória dos povos. As iradas diatribes gravadas e disponibilizadas nas redes internéticas por cidadãos de todos os naipes sociais contra o que se considera o exercício de um papel bandido desempenhado pela Suprema Corte, distante, como nunca, dos elevados fins que estão na base de sua criação, elevam às nuvens o padrão de desapreço a que ela chegou na percepção popular. Amplamente identificados os indignados autores das ofensas, a direção do STF tem o dever mínimo de processá-los por injúria, difamação e calúnia, com a vantagem da posse de provas inquestionáveis das autorias. Se não o fizer, o Excelso Pretório estará demonstrando que reconhece merecer os insultos que rebaixam o seu prestígio aos olhos do mundo.
O vexatório papelão que o STF vem protagonizando, em vertiginosa sequência, para estupefação e desencanto gerais, é uma prova adicional de que o mais importante atributo de um servidor público, sobretudo quando membro do Judiciário, é a honradez, acima da inteligência e da erudição. A pessoa honrada, reconhecendo suas limitações, vai em busca do aconselhamento dos sábios. Ao que parece, porém, Suas Excelências comprazem-se em exibir um notório saber que, na maioria das vezes, lhes é soprado por uma assessoria jurídica de alta qualidade, integrada por doutores vocacionados para as lides jurídicas.
O mais grave do episódio recente em que, por maioria, os ministros decidiram não decidir sobre o que já haviam decidido, adiando o julgamento do feito, é que nada impedirá o avanço do oprobrioso conceito que desfruta a Suprema Corte junto à opinião pública, concedendo ou negando o Habeas Corpus. Uma prova a mais de como alguns ministros se encontram muito abaixo da posição que ocupam reside nas razões apresentadas como motivo suficiente para adiar a sessão, deixando o povo brasileiro na estupefaciente dúvida sobre o seu sistema legal: viagem, jantar, jogo de cartas, batizado de boneca.
A melhor opção a tomar, no próximo dia 4, a única cabível, se se quer agir com a mínima decência, é a manutenção da prisão de Lula, provando que todos são iguais perante a Lei. A impensável concessão do HC, legitimando a crença dominante de que no Brasil o crime compensa, fará o País mergulhar na maior crise institucional de sua história, paralelamente ao reconhecimento de que o Supremo Tribunal Federal é o valhacouto dos crimes mais hediondos.
Aconteça o que acontecer, não é possível a continuidade do sistema vigente de escolha em que os Ministros ficam reféns dos seus padrinhos, a serviço de quem se imola a dignidade da toga, no altar da mais ignominiosa (in)justiça. Por colocar a verdade acima dos interesses dos que o apoiaram para chegar à Suprema Corte, O Ministro Edson Fachin e sua família vêm recebendo ameaças de morte.
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