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terça-feira, novembro 21, 2017

Uma cultura hostil ao homem. André Marroig

UMA CULTURA HOSTIL AO HOMEM
André Marroig

Já recebi alguns vídeos de feministas dizendo que homens deveriam ser exterminados, pois para nada possuem serventia. Sei que está em andamento pesquisas com o intuito de modificar células somáticas em gametas masculinos. A pesquisa busca transformar, inclusive, células femininas em gametas masculinos, eliminando assim a necessidade de um homem na procriação. A despeito de um questionamento que faço quanto aos verdadeiros financiadores de tão absurdo projeto e quais seus reais intentos, ater-me-ei neste post a mencionar o difícil ambiente hoje para o vivenciar de uma saudável masculinidade. Optei por escrever sobre este assunto já que em qualquer lugar onde o mesmo seja iniciado, é prontamente rechaçado. Aliás, inicio a contagem dos minutos desde já, até que apareça os praticantes de dissonância cognitiva sedentos em me calar. Pronto! Cronômetro em andamento. Sigamos.
Nos EUA, uma das grandes preocupações contemporâneas é com os homens que não irão construir nenhuma união estável em toda a sua vida. Cerca de 35% dos homens não irão namorar firme, casar e, muito menos, procriar nos EUA, de acordo com recente estudo, tornando tal fenômeno, grave evento de saúde pública. Com inúmeros estatutos que defendem a tudo e a todos, menos ao homem, com leis como a nossa de presunção de culpabilidade diante de uma denúncia de estupro (mesmo que cerca de 50% das denúncias não sejam verdadeiras), e com uma cultura rapidamente construída que execra tudo que se relaciona com a masculinidade, e que rechaça prontamente qualquer um que teime em manter vivo seu eu, casar e ter um filho nos EUA (e aqui também), é se aventurar em terreno de alta periculosidade, sob possível pena de prisão, falência ou ter sua vida transformada em um inferno. Sempre digo que o mundo sempre teve perversos e, acredito, estes ainda aí estão “dando de cara” com leis que dia a dia mais os cerceiam. O problema é que, ao contrário do que as feminazis dizem, a imensa maioria dos homens não fazem parte deste grupo. Os americanos os chamam de “keepers”, para nós, os “bons partidos”. Tais homens sempre respeitaram as mulheres e nutrem um sentimento de proteção da fêmea e de sua prole. São aqueles que lutam pelo pão de cada dia, são afetivos com esposa e filhos, e dariam suas vidas pelas deles. Esse indivíduo e a expressão de sua masculinidade são cerceados ao extremo ao serem colocados no mesmo balaio que os perversos. A cultura contemporânea os odeia, como se todos houvessem lido “Totem e Tabu” de Freud. Nas escolas, tudo que é ensinado, é voltado ao universo feminino, sendo qualquer forma de competição, valor sabidamente masculino, suprimida. É-lhes vedado o acesso a qualquer valor masculino, e é-lhes imposto uma série de valores femininos. Paradoxalmente, às meninas é vedado o acesso a valores femininos, como nos mostrara a atriz Taís Araújo (sempre ela) quando expressou a indignação que sentia diante da escolha de sua filha em brincar de bonecas e se auto intitular, uma princesa. Por outro lado, meninos em algumas escolas foram obrigados (se aderissem, receberiam notas maiores) a vestirem-se com saias, contra um suposto “preconceito”. Com tal ambiente tão hostil ao que agrada homens, é mais do que esperado o declínio gradativo do rendimento dos mesmos, como mostrado no vídeo. Em quarenta anos criamos uma cultura massivamente feminina, e execramos totalmente o masculino (salvo para as mulheres que, como já disse, paradoxalmente, é imperativo o acesso ao masculino). Parece confuso, e o é. Porém somente expressa a forma de pensar esquerdista que, como já disse muitas vezes aqui, troca de opiniões e definições massivamente, gerando bizarrices onde opostos em um momento, se tornam sinônimos em outros. Assim, hegemonicamente esta trupe “ganha”. A arquitetura? Há muito deixou para trás qualquer desenho masculino. Prédios quadrados, com pilares grossos e escadarias para acesso cederam lugar a ambientes curvos e sinuosos. Automóveis? Não há mais como encontrares um veículo de linhas mais quadradas, salvo se, como eu, recuperares um carro antigo. Todos hoje são sinuosos e bojudos. Tome o exemplo do Chevrolet Cruze. O penúltimo modelo era algo quadrado e transmitia identidade própria. O novo Cruze mais parece, a meu ver, um novo modelo de Ford Focus, com linhas mais afiladas e mais em “gota”. Os exemplos poderiam encher páginas, indo do design de cafeteiras, até espaços onde homens são proibidos de entrar. Não adorar qualquer ícone imposto é assumir rótulo de misógino, machista, opressor e fascista. Muitos refugiaram-se na casa dos pais e não mais querem reconstruir qualquer vínculo afetivo. Outros buscam ilhas onde expressam e vivenciam, mesmo que de forma estereotipada manifestações masculinas. Alguns compram uma moto grande, tiram o miolo do escapamento para que fiquem barulhentas como o rugir de um leão, vestem casacos de couro com símbolos de abutres, caveiras e capetas, e acreditam ser, mesmo que por um momento, “easy riders”. Outros deixam suas barbas crescer, cuidam da mesma como se fossem sedosas madeixas, e frequentam no que é hoje um dos mais lucrativos points; barbearias vintage. Ali ouvem rock, falam palavrões, tomam cerveja, conversam sobre futebol, comentam sobre mulheres bonitas e acreditam, também por um momento, terem vivenciado as conversas ao redor do fogo após uma caçada bem-sucedida. Refugiam-se em tribos isoladas, não mais assumindo nenhum compromisso. Parece-lhes mais segura a solidão e a vida tribal do que qualquer contato com uma cultura que execra a sua simples existência. Se se arriscam a dizer que odeiam a música de Pabllo Vittar, são prontamente rechaçados, mesmo que insistentemente tentem completar a frase, afirmando veementemente adorar as músicas de Fred Mercury, Cazuza e Renato Russo. Sobre o sexo, optam pela “segurança” do insípido e triste mercado do sexo. Artigo barato, porém degradado, muitos encharcam suas fuças com destilados para que esqueçam a aridez do ato e a ausência real de afeto. Outros colocaram a bebida completamente neste lugar, como um cristalino anestésico contra a estiagem nas relações da contemporaneidade e na ausência de alguém que queira ser protegida. Muitos, para não dizer a maioria, lançam mão do que talvez tenha sido a única conquista masculina da era pós-moderna: o Viagra e similares. Pondé costuma dizer que o Viagra fez mais pelo homem do que toda a filosofia. Concordo, se imaginarmos ser esta a única vitamina que estimula a moribunda autoestima do keeper. Lembre-se que o perverso, continua perverso, e este nada tem de baixa-estima, não sendo, portanto, o consumidor do milagre. Hoje, 75% do lucro da Pfizer vem da pérola azul. Por outro lado, tal avanço da medicina não se presta a outro efeito do desmantelamento da masculinidade: a queda do número de espermatozoides. Um estudo americano mostrou recentemente uma queda vertiginosa na produção de espermatozoides, pondo em cheque, inclusive, a manutenção da população, devido a níveis próximos a infertilidade. A outros, ainda, lhes resta o convívio em comunidades religiosas, onde ocasionalmente encontra-se algumas com bases patriarcais. Um outro grupo, por último, adere a máxima de que “se não podemos estar contra eles, nos juntemos a eles”, e fomentam seu epitáfio como uma presa que corteja o predador, na esperança de não ser comido. Meninos que militam de saia e há muito perderam a coragem de expressar sua mirrada masculinidade, hoje, povoam as escolas e universidades.
Se me perguntas se acredito ser este desmembramento masculino algo aleatório e impensado, respondo-te prontamente que não. Detentor de maior força física, um senso de territorialidade típico e um furor pela proteção da fêmea e da prole, é aquele que, naturalmente, simbolizaria e teria força para uma resistência. A destruição do mesmo, acaba com qualquer possibilidade reativa, bem como cria, como mostrei em meu “Em defesa dos mortos” perversos ou histéricos em massa, ou seja, ótimos recrutáveis ao projeto frankfurtiano. Quando coloquei posts sobre feminazis, sempre afirmei que tais grupos destruidores e implantadores deste novo legado sabem o que querem e para onde querem ir. Mas sempre indaguei se eram capazes de imaginar o que realmente lá encontrariam.
Pondé disse uma vez que aos homens era necessário um retorno a sua função protetiva sobre a mulher, mas como crer isso ser possível quando vemos uma mulher processar um homem pelo fato de, ao salvar-lhe a vida em um afogamento, este teve de lhe praticar respiração “boca-a-boca”? Vejo o homem como um arremedo do que outrora fora, carregando com isso, todos os danosos efeitos de sua ausência funcional.
Como vejo o futuro? Estão conseguindo fazer o que era o anseio da trupe da Escola de Frankfurt, ou seja, a destruição ocidental. O grande efeito colateral disso, a meu ver, será uma terrível e mórbida contrapartida oriental, como já vem prevendo o cético escritor e biólogo ateu, Richard Dawkin. Sombrios dias, se não nos extinguirmos antes.

terça-feira, novembro 03, 2015

Homossexualidade. Bipolaridade. Marcelo Caixeta

Sou um doente psiquiátrico, sou um "doente sexual". Não me sinto diminuido por isto. Por que tantos se sentem?
Marcelo Caixeta,médico psiquiatra.


Nos últimos artigos, sobre aspectos biológicos, psicológicos e sociológicos da transexualidade, a inteligente e esclarecedora transgênero B.C. nos mostrou que sofreu e sofre muito preconceito, e julga que “ser diagnosticada por psiquiatras” é um deles. De fato, a sociedade tem de dar a mão à palmatória e confessar que tem preconceitos não só contra transexuais, mas contra o fenômeno “homossexualidade” de um modo geral. Isto tem raízes psicopatológicas profundas : uma delas advêm do fato dos homens terem verdadeiro horror ao sentirem-se penetrados passivamente, analmente, por outro. Para eles é um misto de “nojo anal”, sentimento de humilhação, de fraqueza, de “sujeira”, de submissão a outro mais forte, a outro dominador. O “dominar”, o “ser o forte”, o “ativo”, o “altivo”, faz parte da psicologia masculina profunda, e a penetração anal anula escandalosamente este fantasma. Submeter-se “femininamente” a outro, causa horror, um horror tanto mais terrorífico quanto se aproxima da bissexualidade que muitos homens viveram na infância, puberdade, adolescência. É muito comum que, nesta fase etária, ainda sem “disponibilidade sexual ” de mulheres, ou premidos por uma “hipersexualidade hormonal” favorecida por certas “oportunidades” ( “dormir na casa de amigos, acampar, embriaguez, etc), homens se entreguem à atividades francas ou fantasias homossexuais. Isto depois os horrorizará o resto da vida, transformando-se em uma espécie de “nojo homossexual”. Este “nojo” será ainda amplificado quando são “cantados”, ou mesmo imaginam-se sendo cantados por outros homens. Em muitos casos, as agressões homofóbicas advêm deste evento : serem “cantados”. A psicologia humana, cuja consciência nasce da interação social e não de fenômenos biológicos, não interpreta fenômenos comportamentais como algo que tem causa biológica e sim como algo “social”, “moral”, ou seja, que depende da vontade do indivíduo : “ele é assim por que quer”, “é falta de vergonha”, “é falta de uma taca”. Homossexuais/transexuais, por sua vez, vítimas de discriminação real, tendem a projetar este esmagamento para toda figura “máscula”, para toda “figura de autoridade” ( inclusive psiquiatras ), como vimos , nos outros artigos, no caso de B.C. Em muitos casos, homossexuais inteligentes, cheios de orgulho, energia e força, como o filósofo Michel Foucault, tendem a tornarem-se “ativistas” contra a opressão, justamente porque sentem-se oprimidos pelo próprio “masoquismo sexual” ( querer sofrer a penetração anal brutal ). Não há, nestes casos, sintonia dentro da mesma pessoa entre um “ego fálico masculino” e um “corpo feminino passivo-masoquista”. Esta “revolta interior inconsciente” projeta-se sobre o mundo exterior, daí o motivo de sempre sentirem-se “discriminados” por todos. Eu, por exemplo, não vejo vergonha nenhuma em dizer que sou um doente, inclusive doente psiquiátrico, inclusive portador de uma doença – bipolar - que, em algumas ( muitas ) ocasiões poderia levar-me a sérios descarrilamentos sexuais ( satirismo - “taradismo”, ninfomania, inversões sexuais, pedofilias, gerontofilias, sadismo sexual, masoquismo sexual, etc) . No entanto, quando se diz, entre outras coisas, que há associação entre homossexualidade e doença bipolar – alto sobejamente descrito na literatura médica – muitos se arvoram, como a transexual B.C., a dizer que “estão sendo discriminados”, “estão sendo tratados como doentes”, “estão-lhe sendo retirados direitos individuais, sociais, humanísticos”. Na verdade, não há nada disto. Eu mesmo, como bipolar, não me sinto discriminado em momento algum; é claro que, se algum dia, eu quiser atuar uma eventual pedofilia, aí sim serei discriminado, mas não pela minha condição psicopatológica, mas sim pela minha “falha de caráter” ao não impedi-la. Todos nós, humanos, somos mais ou menos “psicopatológicos”; por exemplo, um homem bem-casado, que tenha esposa boa, sexy, filhos amorosos, etc, se tiver fortes inclinações poligâmicas, que o levem a destruir sua célula psicossocial ( a família ), pode ser julgado como um “doente biológico”. Seu corpo pede coisas que irão destruí-lo psicossocialmente, justamente porque a sociedade pede um padrão de comportamento ( monogamia ) que é tolerável e realizável para a maior parte dos homens “normais” ( não “tarados”, não “obsessivamente poligâmicos” ). Se o seu corpo não consegue utilizar-se do amor dos filhos, do sexo da esposa, para manter o núcleo familiar, é provável que este corpo tenha uma condição ( “satirismo”,
“hipersexualidade”) que possa ser chamada de “biologicamente doentia”. A “doença”, portanto, não é a “vergonha”; a vergonha, socialmente denominada, advêm da “falha de caráter” em não conseguir deter a biologia. Como não conhece a “força enorme da biologia”, a sociedade tende a interpretar tudo como falta de caráter, falha de caráter, inclusive a condição homossexual. Um “homem hipersexual” não se importaria de ser chamado de “doente”, ao passo que um homossexual , sim. Talvez pelo fato de que, como dissemos acima, este último já tenha sido muito esmagado pela sociedade e , principalmente, pelos seus próprios fantasmas internos, que, de um modo geral, não aceitam e não convivem harmonicamente com sua condição de “passivo-e-agressivo”, “sádico-e-masoquista”, “orgulhoso-e-submisso”.
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Marcelo Caixeta é médico psiquiatra. Artigos às terças, sextas, domingos . ( hospitalasmigo@gmail.com

sábado, junho 27, 2015

Foto multicor, em faixas? Nem todos são gays... nem todos são apologistas... Mas há quem seja. Há quem tenha parentes que o são...Charles Fonseca

Sexólogos mirins (II). Olavo de Carvalho. Sexualidade.

Sexólogos mirins (II)
Olavo de Carvalho

Um exemplo especialmente deprimente de sexologia infantilizada nos é fornecido pelos “formadores de opinião” que definem a pedofilia como “uma forma de amor”
Todo animal cresce e se desenvolve no sentido de alcançar a realização das potencialidades máximas da sua espécie, não de qualquer outra. Esse auge é o que se chama "maturidade".
Uma vaca leiteira alcança a maturidade quando se torna capaz de produzir quarenta litros de leite por dia. Um urso, quando se torna grande, pesado, forte e feroz o bastante para matar outros ursos -- fêmeas e filhotes inclusive. Um bloodhound, quando se torna capaz de seguir uma pista por cem quilômetros.
A escala do desenvolvimento sexual que expus na primeira parte deste artigo (leia aqui) é própria e exclusiva do ser humano. Ela é a medida de aferição da maturidade humana. Quem não chegou à última etapa está abaixo da medida humana.
Pode estar evoluindo para alcançá-la ou pode estar fazendo o possível para estacionar nas primeiras etapas, tomadas fetichisticamente como se fossem a essência última do fenômeno sexual. Pode estar até se esforçando para que outros também estacionem. A característica fundamental do sociólogo mirim é o ódio à maturidade.

O que há de mais belo, nobre e elevado no ser humano é justamente o processo no qual, por transmutações sucessivas, o mais egoísta dos instintos se transfigura em bondade, generosidade, perdão e auto-sacrifício. Abdicar disso é renunciar à vocação humana e tentar competir com outras espécies animais naquilo que lhes é próprio.
Esse processo não deve ser confundido com algum pretenso “conflito entre matéria e espírito” – um chavão gnóstico que, nesta época de confusão mental estupenda, muitos tomam como cristão. O impulso evolutivo está dentro do próprio instinto sexual, que se compõe ao mesmo tempo de uma ânsia de auto-satisfação e de uma tendência incoercível à busca de um objeto.
O conflito permanente entre o centrípeto e o centrífugo, entre imanência e autotranscendência é inerente à própria força sexual, e é isso que faz dela, de maneira inteiramente natural, o motor do processo evolutivo que descrevi.
É patente que os sexólogos mirins não observaram suficientemente o fenômeno sobre o qual pontificam, já que nem mesmo chegam a notar a sua natureza contraditória e dialética, mas o tomam simploriamente como uma força unívoca voltada à busca de uma generalidade chamada “prazer”.
O Brasil não será um país adulto enquanto os sexólogos mirins não forem expulsos da vida pública.
O impulso sexual primário é uma pura agitação interna do organismo, uma mera urgência fisiológica que aparece sem a necessidade de nenhum excitante externo e pode ser satisfeita por mera fricção mecânica da genitália – masculina ou feminina.
Esse impulso – a libido -- é uma energia sem alvo: não vem com nenhum objeto definido, mas tem de encontrá-lo e fixar-se nele com a ajuda da emoção imaginativa, seja estética (níveis III e IV), seja moral (níveis V e VI).
O impulso sexual permanece mais ou menos o mesmo ao longo de toda a vida de um indivíduo. É como um motor que, por si, não determina o rumo do veículo, mas depende, para isso, de um piloto capaz de enxergar o terreno e escolher os trajetos.
A progressiva fixação do impulso nos sucessivos objetos não o modifica em nada, apenas o integra em funções diferentes conforme o objeto que a emoção imaginativa lhe oferece vai se tornando mais sutil, mais rico e mais complexo.
A escalada de seis níveis está, em princípio, ao alcance de todos os seres humanos, mas qualquer um está sujeito a voltar a uma fase anterior, sobretudo se não logra encontrar ou possuir o novo objeto que o atrai para um “salto evolutivo” da consciência e para um novo e mais elevado patamar da experiência erótica.
É evidente que só quem percorreu o trajeto inteiro está habilitado a formar uma visão abrangente e objetiva da experiência sexual, que os outros só enxergam de maneira parcial e subjetivista – não raro solipsista – determinada pela sua fixação numa etapa que se recusa a passar.
Infelizmente, este último é o caso da maioria dos “formadores de opinião”, universitários ou midiáticos, que se oferecem gentilmente para modelar a vida sexual alheia segundo a medida do seu próprio subdesenvolvimento existencial.

***
Um exemplo característico é a tendência ou vício de denominar “amor”, indiscriminadamente, toda e qualquer expressão do desejo sexual. Nessa perspectiva, é fácil condenar qualquer restrição às práticas sexuais mais grosseiras como um atentado contra o “amor”. Mas é evidente que o termo “amor” só é cabível quando se fala do terceiro nível para cima.
No primeiro estamos no reino da pura fisiologia, no segundo tudo não passa de reflexo condicionado. Num deles o objeto está ausente; no outro, é apenas o gatilho ocasional que dispara uma reação do organismo. Amor sem objeto é contradição de termos.
A característica mais fundamental do desejo sexual é a tensão permanente entre o impulso interno de auto-satisfação orgânica e a busca do objeto externo, o foco que o limita e ao mesmo tempo o intensifica.
No primeiro nível, a safisfação deve ser obtida da maneira mais rápida, material e direta possível. Mas o sexo é um impulso imanente que busca transcender-se. Do segundo nível em diante, a satisfação é adiada cada vez mais, em vista de um acréscimo de qualidade.
Nos dois primeiros níveis, é tudo fisiologia, nada mais. Nos niveis III e IV, o objeto é definido pela imaginação estética. Nos níveis V e VI o estético é transcendido pelo impulso moral: generosidade, proteção, compreensão, amparo, carinho etc.
Essa diferenciação de níveis é característica do ser humano, estando ausente em todas as demais espécies animais. Ela é a sexualidade propriamente humana. Nesse sentido, a escalada que vai desde a necessidade orgânica até as expressões mais elevadas do amor altruísta é a via normal e portanto normativa da vida sexual humana. Mesmo aqueles que não são capazes de diferenciar claramente os seis níveis têm uma vaga antevisão disso, como o prova o fato de que condenam as condutas sexuais egoístas – ao mesmo tempo que, paradoxalmente, chamam tudo de “amor”.
Um exemplo especialmente deprimente de sexologia infantilizada nos é fornecido pelos “formadores de opinião” que definem a pedofilia como “uma forma de amor”. Um professor de filosofia que diz que a pedofilia é "amor", como fazem os srs. Clovis de Barros e Paulo Ghiraldelli, está obviamente desqualificado para o exercício de tão séria atividade intelectual.
Não por ter dito uma imoralidade. Há imoralidades que são filosoficamente valiosas (as obras de Nietzsche estão repletas delas). Nem por ter feito apologia do crime. Ele pode ter dito o que disse com puro intuito teorizante, em tese, sem desejo de incentivar. Está desqualificado por manifesta incapacidade de fazer uma distinção fenomenológica elementar.
A pedofilia, pela sua estrutura mesma, nunca pode ser amor a uma pessoa, porque é fixação simbólica na sua imaturidade, isto é, numa situação cronológica passageira. As crianças crescem, tornam-se adultas e perdem interesse para o pedófilo, que tem de buscar novos objetos de prazer na mesma faixa etária dos anteriores.
Por definição, a fixação erótica numa circunstância externa não é amor a uma pessoa. Na nossa escala, a pedofilia, como o fetichismo ou o sadomasoquismo, está no nível II e não tem absolutamente nada a ver com o amor – embora a convivência entre o pedófilo e sua vítima possa despertar secundariamente algum tipo de emoção amorosa, pelo menos unilaterial, como o ativista homossexual Rudi van Dantzig documentou muito claramente no seu pungente depoimento For a Lost Soldier (The Gay Men's Press, 1996).
Qualquer primeiranista de filosofia, ou melhor, qualquer cidadão inteligente sem treino filosófico, tem de ser capaz de fazer essa distinção quase instintivamente. Outro exemplo de puerilismo é o clamor gayzista pela legalização do “casamento gay” sob a alegação de “igualdade de direitos”.
As leis do matrimônio civil ou religioso não foram feitas para proteger, exaltar e fomentar o sexo heterossexual, mas, bem ao contrário, para moderar e controlar a sua prática, às vezes drasticamente.
A proposta do “casamento gay”, ao contrário, visa a legitimar, a tornar respeitável e inatacável a homossexualidade em todas as suas formas e versões, inclusive grupais, obscenas, ofensivas e públicas como aquelas da Parada Gay.
O casamento tal como a sociedade o conhece há milênios é uma autolimitação voluntária do impulso heterossexual, em vista de valores mais altos.
O casamento gay, ao contrário, é um salvo conduto para que uma classe de pessoas tenha um direito ilimitado aos prazeres sexuais que bem deseje, da maneira e no local que bem entenda, livre das limitações legais e morais que pesam sobre o restante da espécie humana.
(Não deixa de ser deprimentemente irônico que, numa época em que tanto se discute “maioridade penal”, esta mesma noção tenha se reduzido a uma formalidade cronológica totalmente esvaziada de qualquer referência aos traços substantivos que constituem a maioridade psicológica e moral, sem os quais ela não faz o menor sentido.)
Se existe algo como a noção de “maioridade legal”, é porque obviamente o exercício de determinadas funções na sociedade – a começar pela mais geral e disseminada, a “cidadania” -- requer a maioridade substantiva, a maturidade da alma e do espírito, da qual a maioridade legal não é senão um sinal convencional de reconhecimento.
Não obstante, desaparecida do cenário mental a noção da maioridade substantiva, o exercício de altas funções sociais se tornou compatível com a mais rasteira imaturidade psicológica. Pessoas como os srs. Clovis de Barros, Paulo Ghiraldelli, Jean Willys, Gregório Duvivier e similares são aqueles que denomino “sexólogos mirins”: crianças crescidas que dão lições de moral aos adultos.
Um critério elementar e patente de maturidade é a atitude do cidadão para com seus próprios impulsos sexuais.

Um ser humano maduro, equilibrado e saudável não hesitará em pensar, falar e agir contra os seus mais óbvios interesses sexuais, em nome de valores que lhe pareçam mais altos. Um homossexual pode fazer isso? Pode. Karol Eller e meu aluno Alexandre Seltz, homossexuais assumidos, deram exemplo disso, ao posicionar-se contra os excessos blasfematórios do movimento gayzista.
Mas a essência da ideologia gayzista consiste precisamente em colocar o desejo homoerótico acima de todos os valores reais, possíveis e imagináveis. Por isso é que digo: um homossexual pode ser uma pessoa madura, equilibrada e saudável. Um gayzista, nunca. E é por isso que os gayzistas não respeitam nada nem ninguém. Eles simplesmente não podem fazê-lo sem ter de abdicar do princípio mais básico da sua ideologia.

É quase impossível um gayzista entender isso, pois para tanto precisaria reconhecer que sua pretensão de mando é incomparavelmente maior que a dos mais empedernidos machistas conservadores e que o que ele deseja não é a “igualdade de direitos” e sim a mais cínica e prepotente desigualdade, que um adulto normalmente desenvolvido jamais exigiria.
Numa sociedade saudável, os adultos mal desenvolvidos e imaturos permanecem nas camadas mais baixas da hierarquia social, onde podem fazer relativamente pouco dano às demais pessoas. A principal característica de uma sociedade doente é a ascensão de almas imaturas e atrofiadas aos postos mais altos, de onde podem impor o seu subdesenvolvimento moral e emocional como padrão normativo para uma sociedade inteira.
Não é possível corrigir os males sociais mais graves sem devolver essas pessoas ao anonimato do qual jamais deveriam ter saído.

segunda-feira, maio 04, 2015

A libido. Freud

"Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor – que denominamos libido – que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para os objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos, ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto." Freud.

segunda-feira, abril 27, 2015

A porta dos fundos. Arnaldo Jabor. Sexualidade

A porta dos fundos
Arnaldo Jabor

Como as ideologias falharam, só a sexualidade explica os rumos do mundo

Chega de política. Vou falar de sexo. Antes, havia a “sexpol”, bandeira da política sexual dos anos 1960. Hoje, temos no máximo a “polsex”, ou seja, como as ideologias dançaram, só a sexualidade explica muitos rumos do mundo e, claro, do Brasil, nosso grande motel das ilusões perdidas. Na verdade, falarei só sobre uma parte muito importante da sexualidade: a bunda.

Há um tempo, escreveram na internet um artigo com meu nome, onde meu “falso eu” dizia que mulher não precisa ter bunda dura e que as celulites eram bem-vindas. Na rua, veio uma senhora toda contente e me declarou: “Eu tenho bunda mole!” e saiu sorridente pelo artigo que eu “não” escrevi. Por isso, escrevo hoje sobre a “bunda”, a famosa “preferência nacional”, um dos poucos monumentos culturais que ainda nos restam. Por isso, e para esquecer nossa pornopolítica , escrevo, como um apócrifo de mim mesmo.

Vamos a isso. Visto de frente, o Brasil anda para trás, parece um ex-Brasil. Por isso, vou olhar pela porta dos fundos: a bunda. A palavra já soa imprópria, obscena, já traz um adjetivo acoplado. Por isso, desculpem-me os leitores, mas a palavra “bunda” é a única de que dispomos. Temos eufemismos com “nádegas”, doces apelidos como bumbum, mas o termo que usamos na vida diária é bunda mesmo, com a ressonância africana dos “bundos”, de onde vieram as vênus negras que nos miscigenaram. A bunda não começou no descobrimento do Brasil; as índias, apesar de “oferecidas”, não as tinham avolumadas, mas escorridas “em pera” , barrigudinhas e frágeis. A bunda começou nas senzalas com senhores inflamados pelas negras, longe do tédio das sinhás.

Há uma espantosa separação entre a bunda e a dona da bunda. A bunda fica mais importante do que sua dona. Conheci uma moça que ficou meio paranoica por causa do lindo rabinho que portava. Quando conversávamos, não era a ela que servíamos, mas à “outra”. Ela vivia com ciúmes de si mesma, e sua bundinha parecia dizer: “prestem atenção nela; ela também é gente...”.

Reparem que as mulheres de bunda bonita, mesmo quando estão de frente, estão de costas para nossos olhos. As mulheres de frente são mais inquietantes, porque são “sujeitos” com rosto e alma. Já as mulheres de costas aparentam um caráter mais passivo, mais “objetal”, diriam os filósofos. O desejo pelas costas é a defesa contra os perigos da vulva. A bunda é estéril; não inquieta como a vagina e seu mistério profundo. A bunda não procria — muito pelo contrário. Eu já vi belas bundinhas no passado, nas areias de Ipanema, e elas tinham uma florescência espontânea, inocente. Naquele tempo, não havia muito estímulo à punhetinha; raras eram as revistas pornográficas. Hoje, tanta oferta sexual angustia-nos, mostra que nosso desejo é programado por indústrias masturbatórias, provocando tesão para vender satisfação.

Nunca vimos tanta publicidade movida a sexo. A propaganda nos promete uma suruba transcendental. Em nenhum lugar do mundo vemos esse apelo sexual nas ruas, nas roupas das meninas — nosso feminismo resultou nisso. Quase todos os outdoors são de mulher nua — outro dia quase bati o carro por causa de um cartaz com uma lourinha nua da “Playboy”.

Hoje sexo é uma imagem farta e colorida. Na época, punheta era literatura; para nos excitar tínhamos de imaginar complicadas tramas de suspense com estrutura de filme policial e o que acendia o desejo eram justamente os obstáculos a vencer até a satisfação final.

Babávamos sim diante das vedetes do teatro rebolado, de Angelita Martinez, de Carmen Verônica, Luz del Fuego, mas elas eram pessoas verídicas, inteiras, e sua nudez tinha algo de transgressivo, de liberdade e luta. Hoje as mulheres travam uma competição frenética de bundas e seios e eu me pergunto: O que querem elas provar? Querem nos levar para o fundo do mar como sereias, querem destruir os lares, querem mostrar que o sexo sem limites resolverá os problemas do Brasil?

E agora, nesses tempos sinistros, surgiu a bunda industrial. Ela fatura milhões para as revistas de sacanagem. Elas programam nosso desejo e limitam a imaginação criadora dos praticantes do vicio solitário, como chamavam os padres no confessionário.

A bunda virou um instrumento de ascensão social. Mesmo nossas meninas mais românticas, sonhando com casamento e filhos, são obrigadas a rebolados cada vez mais desbragadas. Milhões de menininhas pelos grotões do país se olham no espelho e pensam: “Vou subir na vida”. A bunda é um capital. A pessoa não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. O corpo e a pessoa são duas coisas diferentes; a menina mostra sua bunda como se fosse uma irmã siamesa.

Agora, com o surgimento da bunda digital na internet, a bunda perdeu aquela aura de objeto único, “erguida no altar de nosso desejo” (arggh!). Viraram bundas em streaming, olhadas com tédio por nossos garotos, como um videogame superado. Depois da bunda, o que virá, já que a indústria cultural pede sempre mais? Ânus luminosos, entranhas profundas, o avesso do corpo?

No século XXI, nasce a bunda distópica, a “pós-bunda”, pela fragmentação do desejo. Desejamos as partes, mas tememos o conjunto. O chamado “objeto total” de Melanie Klein (aquela mulher sem bunda e com seios enormes) foi substituído pelo objeto perverso, parcial, deliciosamente irresponsável, “da ordem do demônio”, ao contrário dos seios, “objetos de Deus”.

Hoje, com a sonda cósmica pousando em cometa, com robôs capinando em Marte, em meio à crise mundial, nós olhamos a bunda: a porta dos fundos, a entrada de serviço, em que talvez fiquemos para sempre. A bunda é nosso destino histórico.

domingo, março 08, 2015

Amor e sexo. Olavo de Carvalho. Prosa

OLAVO DE CARVALHO

Em praticamente tudo o que leio e ouço a respeito de sexo, desejo e amor, reina a mais tosca e pueril indistinção entre as experiências mais diversas associadas a esses termos, quase sempre tomados como sinônimos.
No seu nível mais imediato e fisiológico, o desejo é um fenômeno puramente interno, produto da química hormonal sem objeto definido e que, por isso mesmo, pode ser em seguida projetado sobre qualquer objeto real ou imaginário.
Bem diferente é o desejo despertado pela visão direta ou indireta de um objeto, de um corpo desejável. Invariavelmente o fator excitante é aí algum traço sexual secundário ao qual o sujeito seja particularmente sensível: peitos, traseiros, pernas, olhos, etc. Este é o nível que corresponde tecnicamente à noção escolástica da concupiscentia. Comentários de garotões de praia ante as transeuntes que lhes parecem gostosas são uma enciclopédia das expressões verbais que manifestam esse tipo de desejo.
Num terceiro nível o desejo não é despertado por nenhuma característica física mais saliente, mas por uma impressão geral, indefinida e não-localizada de beleza ou charme, quase uma aura mágica em torno do objeto desejado.
Logo acima disso vem a paixão, o enamoramento, o coup de foudre que torna o objeto uma presença obsessiva na mente do apaixonado. Esta emoção é repleta de ambigüidades. Traz inevitavelmente consigo a ansiedade, o medo da rejeição e aciona um conjunto de mecanismos psicológicos de defesa contra a frustração possível.
Vencidas essas ambigüidades, o enamoramento pode se consolidar num sonho conjugal, o anseio de ter a pessoa amada ao nosso lado para sempre. Neste nível o desejo assume tons de um valor moral, destinado a manifestar-se na aceitação comum de sacrifícios para o benefício mútuo, para a criação de uma família, para a aceitação de responsabilidades sociais, etc. A resistência maior ou menor às dificuldades pode levar a resultados que vão desde a criação de uma família estável até uma variedade de desastres conjugais.
Só no topo da experiência conjugal com todas as suas ambigüidades é que pode, no entanto, surgir o verdadeiro e genuíno amor, no sentido pleno da palavra, que é o impulso firme, constante e irrevogável de tudo sacrificar pelo bem da pessoa amada, de perdoar sempre e incondicionalmente os seus defeitos e pecados, de protegê-la de todo mal e de toda tristeza, ainda que com o risco da nossa própria vida, e de conservá-la ao nosso lado como o nosso bem mais precioso não só nesta existência terrestre, mas por toda a eternidade.
Neste último nível, o “sexo” propriamente dito perdeu toda energia autônoma e ou é esquecido ou passa a desempenhar um papel ocasional e bem modesto entre mil e um modos diversos de expressar o amor.
Cada um desses níveis engloba e transcende o anterior, e só quem chegou ao último e mais elevado compreende o que estava em jogo nas fases superadas.

terça-feira, agosto 12, 2014

Revolução das periguetes. Arnaldo Jabor. Sexualidade. Política

Revolução das periguetes
Arnaldo Jabor

No Brasil das celebridades, o feminismo foi um mal-entendido, muitas vezes rima com galinhagem ou até com uma forma velada de prostituição

Chega de política. Vou falar de sexo. Antes, havia a “sexpol”, bandeira da política sexual dos anos 60. Hoje, temos no máximo a “polsex”, ou seja, como as ideologias dançaram, só a sexualidade explica os rumos do mundo e, claro, do Brasil, nosso grande motel das ilusões perdidas. Sexo: nossos sentimentos estão canalizados para um mesmo buraco. Ando pela rua e todos os outdoors são de mulher nua — outro dia, quase bati o carro na Avenida Paulista, por causa da lourinha nua da “Playboy”. Todas as capas de revista são uma grande feira de mulheres gostosas e homens raspadinhos. Tudo parece liberdade, mas a coisa é outra. Nos anos 60 (oh... os recentes anos remotos) o sexo era uma novidade política, depois dos caretíssimos anos 50, quando o sexo tinha algo de crime, algo de secreto que perfumava nossas vidas com o estímulo da culpa. Não havia motéis, nem as pílulas que, depois, fizeram mais pela liberdade sexual que mil livros feministas. Nunca vi tanta publicidade movida a sexo. A propaganda nos promete uma suruba transcendental. Em nenhum lugar do mundo vemos o apelo sexual nas ruas, nas roupas de meninas — nosso feminismo resultou na revolução das “periguetes”. No Brasil das celebridades, o feminismo foi um mal-entendido. Muitas vezes rima com galinhagem ou até com uma forma velada de prostituição. É uma mistura de liberdade com submissão a uma salada de frutas: mulher melancia, mulher melão, mulher jaca.

Hoje em dia, as mulheres foram expulsas de seus ninhos de procriação, de sua sexualidade expectante, e são obrigadas ao sexo ativo e masculino. A “supergostosa” é homem; ou melhor, é produto do desejo masculino. O homem é pornográfico; a mulher é amorosa. A pornografia é só para homens.

Já expuseram o corpo todo, seios, vagina, mucosas, ânus. O que falta? Os órgãos internos? Seu ideal é serem desejadas como bons produtos. Felicidade é serem consumidas. Felizes como coisas: Uma salsicha é feliz? Uma bela lata de caviar? Mas como amar um eletrodoméstico? A grande moda do momento são mulheres penduradas em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pelos pubianos nos salões de beleza. Ficam balançando em paus de arara e, depois, saem felizes com um jardinzinho estreito e não mais a floresta peluda onde mora a temível “vagina dentata”. Parecem uns bigodinhos verticais que me fazem pensar em Hitler.

Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares? Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém mais quer ser “real” hoje em dia.

Nos anos 60, sexo era revolução política. Tudo era político. O sexo utópico dos anos 60 era o prelúdio para outras conquistas sociais. O orgasmo para Reich era uma vitória contra a burguesia. Eu me lembro de ter dito para uma mulher amada: “Querida, nosso amor é uma forma de luta contra o imperialismo norte-americano”. O sexo dos 60 era um comício; queria acabar com a culpa, com o limite, com o proibido. Todas as sacanagens foram testadas, mas chegou-se ao outro lado com uma vaga insatisfação. O que faltava? Faltava o pecado. Sem o pecado ficávamos insuportavelmente livres. Em meio a tanta liberdade, nunca fomos tão solitários. Tudo era referido ao sexo, para substituir frustrações políticas e sociais.

Com a recaretização do mundo, a liberdade aparente conquistada andou para trás. A liberdade deu lugar à “dessublimação repressiva,” como nomeou Marcuse, uma “liberdade” tão ostensiva e grossa que é um louvor à proibição. Os sonhos viraram produto. Todas as conquistas viraram fetiches de consumo: revolta, igualdade, utopias, até o desespero e a angústia passaram a vender roupas e costumes.

O prazer é obrigatório no mercado. A partir dessa época, sob a aparência de grandes euforias narcisistas de gestos e risos de prazer, há um regressismo oculto no mundo de bundas e coxas lipoaspiradas, seios siliconados, bofes comedores. A anatomia virou uma das poucas portas de fuga da classe baixa, como uma saída para a miséria. Nuas, todas as mulheres são iguais: a democracia da bunda. A bunda é a esperança de milhares de Cinderelas. A mídia e a propaganda compraram a liberdade, que não é mais “uma calça velha e desbotada,” mas é a superação do pudor, da intimidade. Se alguma mulher ficar famosa, tem de tirar a roupa. O striptease é a “antiburka” — igual pelo avesso. A pessoa não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. O corpo e a pessoa são duas coisas diferentes; a menina mostra sua bunda como se fosse uma irmã siamesa. Tanta oferta sexual angustia-nos, dá-nos a certeza de que nosso desejo é programado por indústrias masturbatórias, provocando tesão para vender satisfação.

A verdade é que o prazer anda de cabeça baixa, deprimido, apesar do eufórico exibicionismo em revistas de celebridades. Todos podem confessar tudo: “Sim, eu gosto de atacar nos mictórios das rodoviárias e me orgulho de minha tara!” — diz o perverso sorrindo na TV. A permissividade total esvai a tesão. O prazer precisa da proibição. Aliás, o vício solitário é bem seguro. A punheta é metafísica. A masturbação a dois existe até no grande amor romântico, onde dois narcisismos se tocam, se beijam, se arranham, mas não se comunicam.

Ninguém mais quer ser “sujeito”, apesar de afirmar o contrário. Todos querem ser “inconformistas como todo mundo”. O corpo tem de dar lucro. Todo mundo quer ser coisa.

Vi um anúncio de uma boneca inflável que sintetizava o desejo secreto do homem de mercado: ter mulheres digitais que não vivam. O anúncio tinha o slogan embaixo: “She needs no food nor stupid conversation” (“Não precisa de comida nem de conversa fiada”). A liberdade de mercado produziu um estranho “mercado da liberdade”.



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sexta-feira, junho 15, 2012