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segunda-feira, julho 27, 2020

A megera domada. William Shakespeare

Não foi a música inve

ntada para recrear a alma do homem depois dos estudos ou dos trabalhos habituais? Deixai-me, então, dar minha lição de filosofia e, quando fizer uma pausa, entrai com vossa harmonia. Cultivai a música e a poesia para estimular-vos; julgai a lógica com o conhecimento que tenhais dela e praticai a retórica em vossa conversação ordinária. Feliz em que prossigais assim em vossa resolução de aspirar as doçuras da doce filosofia. Somente, enquanto admiramos esta virtude e esta disciplina moral, não nos convertamos, por favor, em insensíveis.

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segunda-feira, fevereiro 11, 2019

O amor no papel. William Shakespeare. Poesia.

O amor no papel
William Shakespeare

12

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.



quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Soneto CV. William Shakespeare

SONETO CV
William Shakespeare

Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.

É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.

'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo;
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento;
E em tal mudança está tudo o que primo,

Em um, três temas, de amplo movimento.
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

As Sete Idades Do Homem. William Shakespeare

As sete idades do homem
William Shakespeare

O mundo inteiro é um palco,

E todos os homens e mulheres são meros atores:

Eles têm suas saídas e suas entradas;

E um homem cumpre em seu tempo muitos papéis.

Seus atos se distribuem por sete idades.

1ª No início a criança

Choraminga e regurgita nos braços da mãe.

2ª E mais tarde o garoto se queixa com sua mochila,

E seu rosto iluminado pela manhã, arrastando-se como uma lesma

Sem vontade de ir à escola.

3ªE então o apaixonado,

Suspirando como um forno, com uma balada aflita,

Feita para os olhos da sua amada.

4ªDepois o soldado,

Cheio de juramentos estranhos, com a barba de um leopardo,

Zeloso de sua honra, rápido e súbito na briga,

Buscando a bolha ilusória da reputação

Até mesmo na boca de um canhão.

5ª E então vem a justiça,

Com uma grande barriga arredondada pelo consumo de frangos gordos,

Com olhos severos e barba bem cortada,

Cheio de aforismos sábios e argumentos modernos.

E assim ele cumpre seu papel.

6ª A sexta idade o introduz

Na pobre situação de velho bobo de chinelos,

Com óculos no nariz e a bolsa do lado,

Suas calças estreitas guardadas, o mundo demasiado largo para elas,

Suas canelas encolhidas, e sua grande voz masculina

Quebrando-se e voltando-se outra vez para os sons agudos,

Os sopros e assobios da infância.

7ª A última cena de todas,

Que termina sua estranha e acidentada história,

É a segunda infância e o mero esquecimento,

Sem dentes, sem mais visão, sem gosto, sem coisa alguma.

segunda-feira, junho 15, 2015

Ato III, Cena I da peça Hamlet de William Shakespeare

Ato III, Cena I da peça Hamlet de William Shakespeare.

"Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem. Mas, silêncio! Aí vem vindo a bela Ofélia. Em tuas orações, ninfa, recorda-te de meus pecados."

quinta-feira, junho 14, 2012

Romeu e Julieta Cena V. William Shakespeare

ROMEU E JULIETA

Cena V

Uma sacada que dá para os aposentos de Julieta, sobre o jardim.
JULIETA: — Já vai embora? Mas se não está nem perto de amanhecer! Foi o rouxinol, não a cotovia, que penetrou o canal receoso de teu ouvido. Toda a noite ele canta lá na romãzeira. Acredita-me, amor, foi o rouxinol.
ROMEU: — Foi a cotovia, arauto da manhã, e não o rouxinol. Olha, amor, as riscas invejosas que tecem um rendado nas nuvens que vão partindo lá para os lados do nascente. As velas noturnas consumiram-se, e o dia, bem-disposto, põe-se nas pontas dos pés sobre os cimos nevoentos dos morros. Devo partir e viver, ou fico para morrer.
JULIETA: — Essa luz não é a luz do dia, eu sei que não é, eu sei. É só algum meteoro que se desprendeu do sol, enviado para esta noite portador de tocha a teu dispor, e iluminar-te em teu caminho para Mântua. Portanto, fica ainda, não... precisas partir.
ROMEU: — Que me prendam! Que me matem! Se assim o queres, estou de acordo. Digo que aquele acinzentado não é o raiar do dia; antes, é o pálido reflexo da lua. Digo que não é a cotovia que lança notas melodiosas para a abóbada do céu, tão acima de nossas cabeças. Tenho mais ânsia de ficar que vontade de partir. — Vem, morte, e seja bem-vinda! Julieta assim o quer. — Está bem assim, meu coração? Vamos conversar... posto que ainda não é dia!
JULIETA: — É dia sim, é dia sim. Corre daqui, vai-te embora de uma vez! É a cotovia que canta assim tão desafinada, forçando irritantes dissonâncias e agudos desagradáveis. Alguns dizem que a cotovia separa as frases melódicas com doçura; não posso acreditar, pois que ela vem agora nos separar. Alguns dizem que a cotovia é o odiável sapo permutam seus olhos; como eu gostaria, agora, que eles também tivessem permutado suas vozes! Essa voz alarma-nos, afastando-nos um dos braços do outro, já que vem te caçar aqui, com o grito que dá início à caçada deste dia. Ah, vai-te agora; ilumina-se mais e mais a manhã.
ROMEU: — Ilumina-se mais e mais... enquanto anoitece em nossos corações!