Um jovem chamado Diploma
Marco Valério Gomes Batista Gonçalves
CRM-PB: 5900
No passeio vespertino dominical, em que antecedia a ida dos irmãos Experiência da Vida e o jovem Diploma até a igreja, onde ocorreria mais uma celebração da santa missa, ocorreu algo meramente reflexivo, pois o Diploma começou a reclamar do vestido de chita da irmã sexagenária.
Ele achava que a irmã não deveria estar com aquelas vestes coloridas, pois havia um contraste evidente entre os dois, já que o mesmo mantinha no corpo um jaleco de linho branco, enfeitado com um estetoscópio dourado; no dedo anular esquerdo, o brilho da esmeralda reluzia. A irmã humilde como era, respondeu que aquelas vestes brancas de requinte do irmão só foram possíveis graças ao trabalho árduo do reumatismo das articulações dela, lavando as roupas de outras famílias, para ajudar no custeio durante a vida acadêmica do irmão até a sua formatura.
O jovem, aborrecido com as provocações da senhora Experiência da Vida, chamou-a de mulher desvairada, e disse que enquanto ele tinha um futuro promissor pelo casamento com a Medicina, ela tinha a sua vida perdida, pois se entregara ao Mundo.
Aquela senhora o fitou os olhos e lhe falou que ele não passava mais do que um papel, uma criação do povo árabe, que também inventou a bússola e a pólvora: a primeira lhe ausentava no seu íntimo, pela falta de orientação; a segunda abundava no seu semblante, pela cólera de explosão evidente.
O clima estava tenso, quando iniciou a celebração cristã. Ao passar das horas de mãos dadas em orações, os irmãos ali presentes, individualmente, meditavam.
Então, entre o silêncio das orações e a harmonia dos cânticos, o Diploma percebeu que de nada vale o seu nome, se não existir em sua pessoa as qualidades da moral, da ética profissional, da ajuda aos humildes, do reconhecimento dos esforços familiares, da gratidão aos mestres, da memória da sua universidade, das bênçãos de Deus e da felicidade de verdadeiras amizades.
Depois do ocorrido, o Diploma passou a olhar a irmã com valorização, ternura, sentimento, carinho, estando pronto para acompanhar a doença da mana, e reconheceu que apesar de sua existência material abrir muitas oportunidades na vida, ele só era respeitável e válido, porque junto consigo levava as lições da senhora Experiência da Vida, que lhe orientou com o espírito da solidariedade.
Terminada a celebração, ambos se dirigiram para suas respectivas casas. O jovem Diploma dobrou à direita para repousar na rua das gavetas, a senhora idosa de nome tão expressivo seguiu em frente e continua acordada na avenida de nossas mentes.
Tanta briga, para demonstrar um desfecho com tantas emoções. E não se esquecendo que desse laço todo de família, existe uma grande amizade entre os concunhados Medicina e Mundo de mais de vinte e cinco séculos: o Mundo ensinando à Medicina a nunca desistir nos problemas da vida e a Medicina ajudando o Mundo, para um mundo melhor.
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quinta-feira, abril 19, 2012
Um jovem chamado diploma
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quinta-feira, abril 12, 2012
Um plano genial. Barão de Itararé.
Um plano genial
Barão de Itararé
Joaquim Rebolão estava desempregado e lutava com grandes dificuldades para se manter. A sua situação ainda mais se agravava pelo fato de ter que dar assistência a um filho, rapaz inexperiente que também estava no desvio.
Joaquim Rebolão, porém, defendia-se como um autêntico leão da Núbia, neste deserto de homens e idéias.
O seu cérebro, torturado pela miséria, era fértil e brilhante, engendrando planos verdadeiramente geniais, graça; aos quais sempre se saía galhardamente das aperturas diárias com que o destino cruel o torturava.
Naquele dia, o seu grude já estava garantido. Recebera convite para um banquete de cerimônia, em homenagem a um alto figurão que estava necessitando de claque. Mas o nosso herói não estava satisfeito, porque não conseguira um convite para o filho.
À hora marcada, porém, Rebolão, acompanhado do rapaz, dirige-se para o salão, onde se celebraria a cerimônia. Antes de penetrar no recinto, diz a seu filho faminto:
— Fica firme aqui na porta um momento, porque preciso dar um jeito a fim de que tu também tomes parte no festim. Já estavam todos os convidados sentados nos respectivos lugares, na grande mesa em forma de ferradura, quando, ao começar o bródio, Rebolão se levanta .e exclama:
— Senhores, em vista da ausência do Sr. Vigário nesta festa, tomo a liberdade de benzer a mesa. Em nome do Padre e do Espírito Santo!
— E o filho? — perguntou-lhe um dos convivas.
— Está na porta — responde prontamente. E, voltando-se para o rapaz, ordena, autoritário e enérgico:
— Entra de uma vez, menino! Não vês que estes senhores te estão chamando?
Barão de Itararé
Joaquim Rebolão estava desempregado e lutava com grandes dificuldades para se manter. A sua situação ainda mais se agravava pelo fato de ter que dar assistência a um filho, rapaz inexperiente que também estava no desvio.
Joaquim Rebolão, porém, defendia-se como um autêntico leão da Núbia, neste deserto de homens e idéias.
O seu cérebro, torturado pela miséria, era fértil e brilhante, engendrando planos verdadeiramente geniais, graça; aos quais sempre se saía galhardamente das aperturas diárias com que o destino cruel o torturava.
Naquele dia, o seu grude já estava garantido. Recebera convite para um banquete de cerimônia, em homenagem a um alto figurão que estava necessitando de claque. Mas o nosso herói não estava satisfeito, porque não conseguira um convite para o filho.
À hora marcada, porém, Rebolão, acompanhado do rapaz, dirige-se para o salão, onde se celebraria a cerimônia. Antes de penetrar no recinto, diz a seu filho faminto:
— Fica firme aqui na porta um momento, porque preciso dar um jeito a fim de que tu também tomes parte no festim. Já estavam todos os convidados sentados nos respectivos lugares, na grande mesa em forma de ferradura, quando, ao começar o bródio, Rebolão se levanta .e exclama:
— Senhores, em vista da ausência do Sr. Vigário nesta festa, tomo a liberdade de benzer a mesa. Em nome do Padre e do Espírito Santo!
— E o filho? — perguntou-lhe um dos convivas.
— Está na porta — responde prontamente. E, voltando-se para o rapaz, ordena, autoritário e enérgico:
— Entra de uma vez, menino! Não vês que estes senhores te estão chamando?
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quarta-feira, abril 11, 2012
O homem que só tinha certezas. Adriana Falcão.
O homem que só tinha certezas
Adriana Falcão
Nem o homem feliz de Maiakovsky nem o homem liberto de Paulo Mendes Campos, resolvi imaginar outra improbabilidade. Digamos que aparecesse agora, justo aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, mais exatamente, bem aí na sua frente, um homem que só tivesse certezas.
O homem que só tinha certezas quase nunca usava ponto de interrogação, e em seu vocabulário não constavam as expressões: talvez, quiçá, quem sabe, porventura.
Parece que foi de nascença. Ele já teria vindo ao mundo assim, com todas as certezas junto, pulou a fase dos por quês e nunca soube o que era curiosidade na vida. Na escola, era uma sensação. Mas não ligava muito pra isso não. E cresceu achando muito natural viver derramando afirmações pela boca. Tinha resposta pra tudo, o homem que só tinha certezas, mas o maior orgulho do homem eram as certezas mais duvidosas que ele tinha. A certeza de que o mais fraco ia vencer, de que as coisas iam melhorar, de que o desenganado ainda teria muitos anos pela frente.
A notícia espalhou-se rapidamente. Como ele vivia no meio de pessoas, e pessoas vivem cheias de dúvidas, logo começaram a pedir sua opinião para os mais diversos assuntos, os triviais e os de grande importância, e ele, certo de que podia viver muito bem de suas certezas, virou um consultor. Pendurou em sua porta uma placa onde estava escrito "Consultor de tudo" e o negócio foi crescendo aos pouquinhos. Devido ao boca-a-boca favorável de clientes e a um único anúncio no rádio, passou a atender, sem nenhum exagero, milhares de pessoas por dia, até que limitou o número de consultas diárias para quatrocentos e oitenta, um minuto e meio por pessoa, o que era mais do que suficiente para uma resposta certa desde que a pergunta não fosse muito longa.
Chegava gente do país inteiro e depois de outros continentes, pessoas comuns, pessoas ilustres, todas elas indecisas, mas cada pessoa só tinha direito a uma pergunta por consulta, o que as deixava mais indecisas ainda. Certa vez uma moça chegou na dúvida se devia perguntar primeiro sobre o amor ou o trabalho, no que o homem respondeu, sobre o amor, é claro, senão você não vai conseguir trabalhar direito, e deu por encerrada a consulta. O homem que só tinha certezas aconselhou um garoto tímido a tomar quatro cervejas, encorajou um político receoso a aprovar um projeto esquisitíssimo que se destinava a melhorar a vida dos homens, avisou a uma senhora preocupada com os anos que no caso dela nada melhor do que beijos na boca, desentorpeceu um rapaz doente de amor por uma mulher que gostava de outro, convenceu o ministro da fazenda de que ou o dinheiro era pouco, ou eram muitos os homens, ou ele estava louco, ou alguém tinha se enganado nas contas.
Não demorou muito para se tornar capa de todas as revistas e personagem assíduo dos programas de TV. Para cada pergunta havia uma só resposta certa e era essa que ele dava, invariavelmente, exterminando aos pouquinhos todas as dúvidas que existiam, até que só restou uma dúvida no mundo: será que ele não vai errar nunca? Mas ele nunca errava, e já nem havia mais o que errar, uma vez que não havia mais dúvidas.
Num mundo que só tinha certezas, o homem que só tinha certezas virou apenas mais um homem no mundo. Melhor assim, ele pensava, ou melhor, tinha certeza.
Um dia aconteceu um imprevisto, e o homem que só tinha certezas, quem diria, acordou apaixonado. Para se assegurar de que aquela era a mulher certa para ele, formulou cento e vinte perguntas, que ela respondeu sem vacilar, mandou fazer mapas do céu, exames de sangue, contagem de triglicerídeos, planilhas complicadíssimas e finalmente apresentou a moça à sua mãe e ao seu cachorro. Os dois se amaram noites adentro, foram a Barcelona, tiraram fotos juntos, compraram álbuns, porta-retratos, garfos, facas, um escorredor de pratos, tiveram filhos e tal, e, desde então, por alguma razão desconhecida, o homem que só tinha certezas foi perdendo todas elas, uma por uma. No início ainda tentou disfarçar, por via das dúvidas, quem sabe era um mal passageiro? Mas as dúvidas multiplicavam-se como praga (dúvidas se multiplicam?), espalharam-se pelo mundo, e agora, meu Deus? Deus existe? Existe sim. Ou será que não? Ele não estava bem certo.
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Fone do blog: (48) 3206 1298
Adriana Falcão
Nem o homem feliz de Maiakovsky nem o homem liberto de Paulo Mendes Campos, resolvi imaginar outra improbabilidade. Digamos que aparecesse agora, justo aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, mais exatamente, bem aí na sua frente, um homem que só tivesse certezas.
O homem que só tinha certezas quase nunca usava ponto de interrogação, e em seu vocabulário não constavam as expressões: talvez, quiçá, quem sabe, porventura.
Parece que foi de nascença. Ele já teria vindo ao mundo assim, com todas as certezas junto, pulou a fase dos por quês e nunca soube o que era curiosidade na vida. Na escola, era uma sensação. Mas não ligava muito pra isso não. E cresceu achando muito natural viver derramando afirmações pela boca. Tinha resposta pra tudo, o homem que só tinha certezas, mas o maior orgulho do homem eram as certezas mais duvidosas que ele tinha. A certeza de que o mais fraco ia vencer, de que as coisas iam melhorar, de que o desenganado ainda teria muitos anos pela frente.
A notícia espalhou-se rapidamente. Como ele vivia no meio de pessoas, e pessoas vivem cheias de dúvidas, logo começaram a pedir sua opinião para os mais diversos assuntos, os triviais e os de grande importância, e ele, certo de que podia viver muito bem de suas certezas, virou um consultor. Pendurou em sua porta uma placa onde estava escrito "Consultor de tudo" e o negócio foi crescendo aos pouquinhos. Devido ao boca-a-boca favorável de clientes e a um único anúncio no rádio, passou a atender, sem nenhum exagero, milhares de pessoas por dia, até que limitou o número de consultas diárias para quatrocentos e oitenta, um minuto e meio por pessoa, o que era mais do que suficiente para uma resposta certa desde que a pergunta não fosse muito longa.
Chegava gente do país inteiro e depois de outros continentes, pessoas comuns, pessoas ilustres, todas elas indecisas, mas cada pessoa só tinha direito a uma pergunta por consulta, o que as deixava mais indecisas ainda. Certa vez uma moça chegou na dúvida se devia perguntar primeiro sobre o amor ou o trabalho, no que o homem respondeu, sobre o amor, é claro, senão você não vai conseguir trabalhar direito, e deu por encerrada a consulta. O homem que só tinha certezas aconselhou um garoto tímido a tomar quatro cervejas, encorajou um político receoso a aprovar um projeto esquisitíssimo que se destinava a melhorar a vida dos homens, avisou a uma senhora preocupada com os anos que no caso dela nada melhor do que beijos na boca, desentorpeceu um rapaz doente de amor por uma mulher que gostava de outro, convenceu o ministro da fazenda de que ou o dinheiro era pouco, ou eram muitos os homens, ou ele estava louco, ou alguém tinha se enganado nas contas.
Não demorou muito para se tornar capa de todas as revistas e personagem assíduo dos programas de TV. Para cada pergunta havia uma só resposta certa e era essa que ele dava, invariavelmente, exterminando aos pouquinhos todas as dúvidas que existiam, até que só restou uma dúvida no mundo: será que ele não vai errar nunca? Mas ele nunca errava, e já nem havia mais o que errar, uma vez que não havia mais dúvidas.
Num mundo que só tinha certezas, o homem que só tinha certezas virou apenas mais um homem no mundo. Melhor assim, ele pensava, ou melhor, tinha certeza.
Um dia aconteceu um imprevisto, e o homem que só tinha certezas, quem diria, acordou apaixonado. Para se assegurar de que aquela era a mulher certa para ele, formulou cento e vinte perguntas, que ela respondeu sem vacilar, mandou fazer mapas do céu, exames de sangue, contagem de triglicerídeos, planilhas complicadíssimas e finalmente apresentou a moça à sua mãe e ao seu cachorro. Os dois se amaram noites adentro, foram a Barcelona, tiraram fotos juntos, compraram álbuns, porta-retratos, garfos, facas, um escorredor de pratos, tiveram filhos e tal, e, desde então, por alguma razão desconhecida, o homem que só tinha certezas foi perdendo todas elas, uma por uma. No início ainda tentou disfarçar, por via das dúvidas, quem sabe era um mal passageiro? Mas as dúvidas multiplicavam-se como praga (dúvidas se multiplicam?), espalharam-se pelo mundo, e agora, meu Deus? Deus existe? Existe sim. Ou será que não? Ele não estava bem certo.
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terça-feira, abril 10, 2012
Pai contra mãe. Machado de Assis. Resumo.
Pai Contra Mãe
(Machado de Assis)
Resumo
O conto Pai contra Mãe é uma narrativa em terceira pessoa, que ocorre no Rio de Janeiro nos tempos do Império. Becos estreitos, sujeira, miséria fazem contraponto com a riqueza e a ostentação dos donos de escravos. Cândido Neves é um caçador de escravos fugitivos, profissão que lhe rende o sustento. Cândido casa-se com Clara e ambos sonham em ter um filho. Clara engravida, porém os escravos fugidios começam a escassear e Cândido fica séria dificuldade financeira; desesperado e sem saber o que fazer para sustentar o filho, o pai chega ao extremo de ter que optar por colocar o bebê na Roda dos Enjeitados, para a criança não morrer de fome. Cândido cogita mil saídas para ficar com o filho, não encontrando nenhuma, sai de casa com o filho nos braços para depositá-lo na Roda. No caminho vê uma escrava fugitiva, e entregando o menino para um senhor, sai em perseguição da negra. Pegando-a, ela lhe suplica liberdade e diz que está grávida e não quer ter um filho escravo. Nesse momento miséria e escravidão entram em luta. Cândido vence, e entrega a escrava ao seu dono. Vítima da violência implacável de seu senhor a escrava negra aborta a criança que esperava. Cândido recebe pela caça o dinheiro de que precisa para poder ficar com o filho e sustentá-lo. O conto termina com a frase de Cândido que tenta justificar sua tirania: Nem todas as crianças vingam... O autor mostra a miséria humana, através dos dramas paralelos de um pai contra mãe, lutando por duas vidas, onde o indivíduo é capaz de aplacar sua consciência, mesmo tendo cometido o maior dos crimes, justificando a troca de uma vida pela outra.
http://resumos.netsaber.com.br/ver_resumo_c_2601.html
(Machado de Assis)
Resumo
O conto Pai contra Mãe é uma narrativa em terceira pessoa, que ocorre no Rio de Janeiro nos tempos do Império. Becos estreitos, sujeira, miséria fazem contraponto com a riqueza e a ostentação dos donos de escravos. Cândido Neves é um caçador de escravos fugitivos, profissão que lhe rende o sustento. Cândido casa-se com Clara e ambos sonham em ter um filho. Clara engravida, porém os escravos fugidios começam a escassear e Cândido fica séria dificuldade financeira; desesperado e sem saber o que fazer para sustentar o filho, o pai chega ao extremo de ter que optar por colocar o bebê na Roda dos Enjeitados, para a criança não morrer de fome. Cândido cogita mil saídas para ficar com o filho, não encontrando nenhuma, sai de casa com o filho nos braços para depositá-lo na Roda. No caminho vê uma escrava fugitiva, e entregando o menino para um senhor, sai em perseguição da negra. Pegando-a, ela lhe suplica liberdade e diz que está grávida e não quer ter um filho escravo. Nesse momento miséria e escravidão entram em luta. Cândido vence, e entrega a escrava ao seu dono. Vítima da violência implacável de seu senhor a escrava negra aborta a criança que esperava. Cândido recebe pela caça o dinheiro de que precisa para poder ficar com o filho e sustentá-lo. O conto termina com a frase de Cândido que tenta justificar sua tirania: Nem todas as crianças vingam... O autor mostra a miséria humana, através dos dramas paralelos de um pai contra mãe, lutando por duas vidas, onde o indivíduo é capaz de aplacar sua consciência, mesmo tendo cometido o maior dos crimes, justificando a troca de uma vida pela outra.
http://resumos.netsaber.com.br/ver_resumo_c_2601.html
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quinta-feira, março 29, 2012
A Chave do Enigma. Fernando Sabino.
A Chave do Enigma
(trechos)
Fernando Sabino
Minas
O TURISTA perguntou ao mineiro por que o Estado de Minas Gerais é conhecido como "As Alterosas".
— Sei não — foi a resposta. — Vai ver que é por causa das mulheres mineiras, que são muito alterosas. Basta uma para dar logo alteração.
CAMINHANDO pelas ruas de São João del Rei. Uma dor de cabeça renitente pede com urgência um comprimido. Se fosse dor de dente, pediria Cera Dr. Lustosa. Ainda há em São João quem se lembre do próprio Dr. Lustosa, criador da milagrosa cera, cujo cheiro característico me vem da infância. Não encontro nenhuma farmácia aberta. Abordo um passante, que me informa polidamente haver uma de plantão perto da Estação Rodoviária.
— E é muito longe a Rodoviária? — pergunto.
— É — responde ele apenas, e prossegue o seu caminho.
SABARÁ é a terra da jabuticaba. De repente, em certa época do ano, Belo Horizonte se esvaziava: todo mundo vinha a Sabará chupar jabuticabas, que eram vendidas no pé. O freguês chupava quantas quisesse, até cair do galho. Só não podia levar nenhuma.
Há algum tempo um velho coronel mineiro, intrigado, perguntava:
- Todo mundo agora está indo para a Europa: o Juca já foi, o seu Chiquinho também, o Zé da Sá Rita está de mala pronta... É tempo de jabuticaba lá?
NO QUE eu depender de informações desses meus conterrâneos, acabo indo parar na casa da mãe Joana. Pergunto a este outro, no posto de gasolina, a distância dali até Diamantina.
— Não é muito perto não. Mas também não é longe — informa ele, sério.
— Quanto tempo vou levar daqui até lá?
— É conforme, uai. Se correr muito, leva pouco, se correr pouco, leva muito.
OS BECOS em Diamantina conservam os nomes da época do ouro e dos diamantes: Beco das Caveiras, das Gaivotas, da Tasca, do Rapacuia, da Paciência, do Pinta-Ratos. Cada um com sua motivação histórica: o do Pinta-Ratos, por exemplo, é homenagem a um pintor que, para se vingar da Irmandade que lhe devia um dinheiro, trancou-se na sacristia da igreja e pintou dezenas de ratos em suas paredes; o da Paciência era usado para despejo do lixo e pelos tropeiros, que ali satisfaziam suas necessidades — paciência houvesse para passar por ali.
— SE sou mineiro? Bem, é conforme.
Tudo é conforme: sabe-se lá por que estão perguntando? ? O que é ser mineiro, afinal? Basta ter nascido em Minas? Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado — tudo isso junto. Experimente perguntar-lhe com delicadeza:
— Como é mesmo o seu nome todo?
Ele responderá, também delicado:
— Fale a parte que você sabe.
Se por sua vez não perguntar:
— Por que você quer saber?
TUDO que me ocorre dizer sobre o mineiro já foi dito, contado e recontado. Só mesmo me valendo mineiramente do que já escrevi sobre o enigma de Minas:
"Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações fluindo desde as minhas origens, como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais... Prefiro estancá-la no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim - o mistério de minha terra, desafiando-me como a esfinge com seu enigma: decifra-me ou devoro-te.
Prefiro ser devorado."
(trechos)
Fernando Sabino
Minas
O TURISTA perguntou ao mineiro por que o Estado de Minas Gerais é conhecido como "As Alterosas".
— Sei não — foi a resposta. — Vai ver que é por causa das mulheres mineiras, que são muito alterosas. Basta uma para dar logo alteração.
CAMINHANDO pelas ruas de São João del Rei. Uma dor de cabeça renitente pede com urgência um comprimido. Se fosse dor de dente, pediria Cera Dr. Lustosa. Ainda há em São João quem se lembre do próprio Dr. Lustosa, criador da milagrosa cera, cujo cheiro característico me vem da infância. Não encontro nenhuma farmácia aberta. Abordo um passante, que me informa polidamente haver uma de plantão perto da Estação Rodoviária.
— E é muito longe a Rodoviária? — pergunto.
— É — responde ele apenas, e prossegue o seu caminho.
SABARÁ é a terra da jabuticaba. De repente, em certa época do ano, Belo Horizonte se esvaziava: todo mundo vinha a Sabará chupar jabuticabas, que eram vendidas no pé. O freguês chupava quantas quisesse, até cair do galho. Só não podia levar nenhuma.
Há algum tempo um velho coronel mineiro, intrigado, perguntava:
- Todo mundo agora está indo para a Europa: o Juca já foi, o seu Chiquinho também, o Zé da Sá Rita está de mala pronta... É tempo de jabuticaba lá?
NO QUE eu depender de informações desses meus conterrâneos, acabo indo parar na casa da mãe Joana. Pergunto a este outro, no posto de gasolina, a distância dali até Diamantina.
— Não é muito perto não. Mas também não é longe — informa ele, sério.
— Quanto tempo vou levar daqui até lá?
— É conforme, uai. Se correr muito, leva pouco, se correr pouco, leva muito.
OS BECOS em Diamantina conservam os nomes da época do ouro e dos diamantes: Beco das Caveiras, das Gaivotas, da Tasca, do Rapacuia, da Paciência, do Pinta-Ratos. Cada um com sua motivação histórica: o do Pinta-Ratos, por exemplo, é homenagem a um pintor que, para se vingar da Irmandade que lhe devia um dinheiro, trancou-se na sacristia da igreja e pintou dezenas de ratos em suas paredes; o da Paciência era usado para despejo do lixo e pelos tropeiros, que ali satisfaziam suas necessidades — paciência houvesse para passar por ali.
— SE sou mineiro? Bem, é conforme.
Tudo é conforme: sabe-se lá por que estão perguntando? ? O que é ser mineiro, afinal? Basta ter nascido em Minas? Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado — tudo isso junto. Experimente perguntar-lhe com delicadeza:
— Como é mesmo o seu nome todo?
Ele responderá, também delicado:
— Fale a parte que você sabe.
Se por sua vez não perguntar:
— Por que você quer saber?
TUDO que me ocorre dizer sobre o mineiro já foi dito, contado e recontado. Só mesmo me valendo mineiramente do que já escrevi sobre o enigma de Minas:
"Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações fluindo desde as minhas origens, como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais... Prefiro estancá-la no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim - o mistério de minha terra, desafiando-me como a esfinge com seu enigma: decifra-me ou devoro-te.
Prefiro ser devorado."
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terça-feira, março 06, 2012
O vale das mulheres. Boccaccio
O sol ainda estava bem alto, porque a conversação tinha sido breve. Por isso, logo que Dioneu e os outros rapazes se puseram a jogar gamão, Elisa chamou de parte as donzelas e lhes disse:
"Desde que chegamos aqui eu tenho desejado levá-las a um lugar muito perto de onde estamos e aonde até agora não creio que nenhuma de nós tenha ido: chama-se Vale das mulheres. Até hoje, quando o sol ainda vai alto, nunca tinha achado tempo de levá-las até lá. Assim, se quiserem vir comigo, não tenho a menor dúvida de que, ao chegar lá, todas ficarão contentíssimas de ter ido". Responderam as donzelas que estavam prontas e, chamando uma das criadas, sem nada dizer aos rapazes, puseram-se a caminho.
Não andaram mais de milha e chegaram ao Vale das Mulheres. Nele entraram por uma passagem muito estreita, onde corria um límpido regato, nascido em um dos extremos. Viram que o vale era o mais lindo e aprazível que se pudesse conceber, especialmente naquele tempo de calor forte. E, segundo uma delas me contou depois, a planície formada pelo vale era redonda como se traçada com compasso, embora não parecesse obra de mãos humanas, e sim da natureza. Tinha um raio de pouco mais de meia milha e era rodeada de seis outeiros, não muito elevados, e no alto de cada qual se enxergava um palácio feito quase em forma de castelinho gracioso. As encostas das colinas desciam para a planície como degraus de anfiteatro, que vemos descer de alto a baixo em sucessão ordenada, sempre estreitando o circuito.
Dessas encostas, as voltadas para o meio-dia estavam cobertas de vinhedos, olivais, amendoeiras, cerejeiras, figueiras e muitas outras espécies de árvores frutíferas carregadas, sem um palmo de chão vazio. As encostas voltadas para a tramontana tinham matas de carvalhais, de freixos e de outras árvores muito verdejantes aprumadíssimas. A planície vizinha, que não tinha entradas além daquela por onde passaram as donzelas, estava cheia de abetos, de ciprestes, de louros e de alguns pinheiros tão bem distribuídos e arrumados quanto poderia dispor o melhor artífice. Ali, pouco ou nada de sol, mesmo a pino, podia chegar ao chão, que era uma relva miudinha, cheia de flores vermelhas e outras mais.
Outra coisa, além disso, não causava menor deleite: era um riacho que, de um dos vales separados pelas montanhas, despencava por boqueirões de pedra viva e ao cair fazia rumor muito agradável. Seus borrifos de longe pareciam azougue miúdo que se desprendesse de coisa apertada. Ao cair na pequena planície, por ela corria rápida até o meio, onde formava uma pequenina lagoa, como nos jardins fazem para viveiro os que têm habilidade. Não era essa lagoa mais profunda que a altura de um homem, medida até o peito. Nele nada havia de impureza e seu fundo límpido mostrava ser de cascalho miúdo que alguém que se dispusesse poderia contar. Nem se enxergava somente o fundo das águas, mas também tantos peixes a percorrê-las cá e lá que, além de dar prazer, causavam admiração. Nenhuma outra margem cercava a lagoa além do relvado, que ali em volta era ainda mais belo por desfrutar da umidade. As águas que transbordavam do lago alimentavam um pequeno canal e por ele saíam, vale abaixo.
Entretanto chegaram as donzelas, contemplaram tudo e enalteceram o lugar. Depois, por ser grande o calor, olharam para a lagoa límpida e amena, e, sem receio de serem vistas, resolveram banhar-se. Mandaram à criada que ficasse no caminho de entrada, espiasse e as avisasse, se viesse alguém. Depois, as sete donzelas se despiram e entraram no lago, que tanto podia esconder seus corpos quanto um cristal esconderia uma rosa. Nem por estarem no lago se turvavam as águas e elas se puseram a ir cá e lá atrás dos peixes, que mal sabiam onde esconder-se, e a tentar apanhá-los nas mãos. Depois de assim brincarem por algum tempo e de apanhar alguns peixes, saíram dali e se vestiram, sem encontrar mais palavras para enaltecer aquelas paragens. Por lhes parecer hora de terem de voltar à casa, enquanto iam conversando sobre a beleza do lugar, puseram-se a caminho com passo sossegado.
Chegaram cedo ao palácio e lá encontraram os rapazes ainda jogando, como haviam ficado. Pampinéia, rindo, lhes disse: "Hoje afinal nós logramos vocês".
"Ora, como?", disse Dioneu. "Então vocês primeiro fazem e depois dizem?"
"Sim, senhor", respondeu Pampinéia e lhe contou por miúdo donde vinham, como era o lugar, quanto distava dali e o que haviam feito.
O rei, ouvindo descrever a beleza do lugar e desejoso de vê-lo, logo mandou servir a ceia. Logo que esta terminou, estando todos satisfeitos, os três jovens e seus criados, afastando-se das donzelas, foram até o vale e, depois de tudo contemplar, pois nenhum antes havia lá estado, louvaram o lugar como uma das belezas do mundo.
Banharam-se e tornaram a vestir-se e, por se fazer muito tarde, voltaram à casa, onde encontraram as donzelas a dançar uma ciranda cantada por Fiammetta. Acabaram de dançar com elas e entraram a falar do Vale das Mulheres, com palavras de muito agrado e louvor. Por isso o rei, fazendo chamar o mordomo, mandou-lhe que lá, na manhã seguinte, preparasse tudo quanto fosse preciso, levando alguns leitos para quem quisesse dormir ou fazer a sesta. Depois, fez trazer archotes, vinho e confeitos e, depois de restaurarem um tanto as forças, mandou que todos se dessem a bailar. Logo que Panfilo, por vontade própria, iniciou uma dança, o rei voltou-se para Elisa e disse-lhe amavelmente: "Linda donzela, tu hoje me honraste, dando-me a coroa, e eu quero honrar-te esta noite, convidando-te a cantar uma canção. Canta, pois, a que mais te agradar". Elisa respondeu-lhe sorrindo que com gosto o faria e assim se pôs a cantar:
Amor, se eu escapar às tuas garras
Não creio que jamais
voltarei a cair noutras amarras.
Criança ainda entrei em tua guerra,
tomando-a por suprema e doce paz;
as armas, ao te ver, depus em terra
pois armas, quem confia já não traz.
Mas tu, duro tirano, cruel, falaz,
com garrotes fatais
outrora me prendeste e inda me agarras.
Tu me entregaste atada em tuas correntes
a quem nasceu para me dar a morte;
verti debalde lágrimas dolentes:
dele depende agora minha sorte
sem que nada lhe importe
o clamor de meus ais,
lançou-me em cárcere de fortes barras.
Todos os rogos meus, leva-os o vento;
minhas queixas, ninguém quer acolher
e vai assim crescendo meu tormento
detesto a vida, mas não sei morrer.
Ai, prende, Amor, quem só me faz sofrer!
Tem compaixão, que já não posso mais:
Prende-o a mim, já que não me desamarras.
Se sem isso quiseres, oh!, desprende
deste meu peito os laços da esperança
Esta súplica ao menos, pois, atende:
Voltem a mim beleza e confiança;
Cessem meus sofrimentos sem tardança
E ornamentos florais
Brancos, rubros, de gala me dêem arras.
Elisa terminou a canção com um suspiro cheio de dó e embora todos se admirassem de tais palavras, ninguém conseguiu atinar quem lhe daria motivo de cantar assim. Mas o rei, que estava de bom gênio, fez chamar Tíndaro e mandou-o trazer a gaita de foles, a cujo som conduziu muitas danças. E tendo-se passado já boa parte da noite, disse a todos que fossem dormir.
"Desde que chegamos aqui eu tenho desejado levá-las a um lugar muito perto de onde estamos e aonde até agora não creio que nenhuma de nós tenha ido: chama-se Vale das mulheres. Até hoje, quando o sol ainda vai alto, nunca tinha achado tempo de levá-las até lá. Assim, se quiserem vir comigo, não tenho a menor dúvida de que, ao chegar lá, todas ficarão contentíssimas de ter ido". Responderam as donzelas que estavam prontas e, chamando uma das criadas, sem nada dizer aos rapazes, puseram-se a caminho.
Não andaram mais de milha e chegaram ao Vale das Mulheres. Nele entraram por uma passagem muito estreita, onde corria um límpido regato, nascido em um dos extremos. Viram que o vale era o mais lindo e aprazível que se pudesse conceber, especialmente naquele tempo de calor forte. E, segundo uma delas me contou depois, a planície formada pelo vale era redonda como se traçada com compasso, embora não parecesse obra de mãos humanas, e sim da natureza. Tinha um raio de pouco mais de meia milha e era rodeada de seis outeiros, não muito elevados, e no alto de cada qual se enxergava um palácio feito quase em forma de castelinho gracioso. As encostas das colinas desciam para a planície como degraus de anfiteatro, que vemos descer de alto a baixo em sucessão ordenada, sempre estreitando o circuito.
Dessas encostas, as voltadas para o meio-dia estavam cobertas de vinhedos, olivais, amendoeiras, cerejeiras, figueiras e muitas outras espécies de árvores frutíferas carregadas, sem um palmo de chão vazio. As encostas voltadas para a tramontana tinham matas de carvalhais, de freixos e de outras árvores muito verdejantes aprumadíssimas. A planície vizinha, que não tinha entradas além daquela por onde passaram as donzelas, estava cheia de abetos, de ciprestes, de louros e de alguns pinheiros tão bem distribuídos e arrumados quanto poderia dispor o melhor artífice. Ali, pouco ou nada de sol, mesmo a pino, podia chegar ao chão, que era uma relva miudinha, cheia de flores vermelhas e outras mais.
Outra coisa, além disso, não causava menor deleite: era um riacho que, de um dos vales separados pelas montanhas, despencava por boqueirões de pedra viva e ao cair fazia rumor muito agradável. Seus borrifos de longe pareciam azougue miúdo que se desprendesse de coisa apertada. Ao cair na pequena planície, por ela corria rápida até o meio, onde formava uma pequenina lagoa, como nos jardins fazem para viveiro os que têm habilidade. Não era essa lagoa mais profunda que a altura de um homem, medida até o peito. Nele nada havia de impureza e seu fundo límpido mostrava ser de cascalho miúdo que alguém que se dispusesse poderia contar. Nem se enxergava somente o fundo das águas, mas também tantos peixes a percorrê-las cá e lá que, além de dar prazer, causavam admiração. Nenhuma outra margem cercava a lagoa além do relvado, que ali em volta era ainda mais belo por desfrutar da umidade. As águas que transbordavam do lago alimentavam um pequeno canal e por ele saíam, vale abaixo.
Entretanto chegaram as donzelas, contemplaram tudo e enalteceram o lugar. Depois, por ser grande o calor, olharam para a lagoa límpida e amena, e, sem receio de serem vistas, resolveram banhar-se. Mandaram à criada que ficasse no caminho de entrada, espiasse e as avisasse, se viesse alguém. Depois, as sete donzelas se despiram e entraram no lago, que tanto podia esconder seus corpos quanto um cristal esconderia uma rosa. Nem por estarem no lago se turvavam as águas e elas se puseram a ir cá e lá atrás dos peixes, que mal sabiam onde esconder-se, e a tentar apanhá-los nas mãos. Depois de assim brincarem por algum tempo e de apanhar alguns peixes, saíram dali e se vestiram, sem encontrar mais palavras para enaltecer aquelas paragens. Por lhes parecer hora de terem de voltar à casa, enquanto iam conversando sobre a beleza do lugar, puseram-se a caminho com passo sossegado.
Chegaram cedo ao palácio e lá encontraram os rapazes ainda jogando, como haviam ficado. Pampinéia, rindo, lhes disse: "Hoje afinal nós logramos vocês".
"Ora, como?", disse Dioneu. "Então vocês primeiro fazem e depois dizem?"
"Sim, senhor", respondeu Pampinéia e lhe contou por miúdo donde vinham, como era o lugar, quanto distava dali e o que haviam feito.
O rei, ouvindo descrever a beleza do lugar e desejoso de vê-lo, logo mandou servir a ceia. Logo que esta terminou, estando todos satisfeitos, os três jovens e seus criados, afastando-se das donzelas, foram até o vale e, depois de tudo contemplar, pois nenhum antes havia lá estado, louvaram o lugar como uma das belezas do mundo.
Banharam-se e tornaram a vestir-se e, por se fazer muito tarde, voltaram à casa, onde encontraram as donzelas a dançar uma ciranda cantada por Fiammetta. Acabaram de dançar com elas e entraram a falar do Vale das Mulheres, com palavras de muito agrado e louvor. Por isso o rei, fazendo chamar o mordomo, mandou-lhe que lá, na manhã seguinte, preparasse tudo quanto fosse preciso, levando alguns leitos para quem quisesse dormir ou fazer a sesta. Depois, fez trazer archotes, vinho e confeitos e, depois de restaurarem um tanto as forças, mandou que todos se dessem a bailar. Logo que Panfilo, por vontade própria, iniciou uma dança, o rei voltou-se para Elisa e disse-lhe amavelmente: "Linda donzela, tu hoje me honraste, dando-me a coroa, e eu quero honrar-te esta noite, convidando-te a cantar uma canção. Canta, pois, a que mais te agradar". Elisa respondeu-lhe sorrindo que com gosto o faria e assim se pôs a cantar:
Amor, se eu escapar às tuas garras
Não creio que jamais
voltarei a cair noutras amarras.
Criança ainda entrei em tua guerra,
tomando-a por suprema e doce paz;
as armas, ao te ver, depus em terra
pois armas, quem confia já não traz.
Mas tu, duro tirano, cruel, falaz,
com garrotes fatais
outrora me prendeste e inda me agarras.
Tu me entregaste atada em tuas correntes
a quem nasceu para me dar a morte;
verti debalde lágrimas dolentes:
dele depende agora minha sorte
sem que nada lhe importe
o clamor de meus ais,
lançou-me em cárcere de fortes barras.
Todos os rogos meus, leva-os o vento;
minhas queixas, ninguém quer acolher
e vai assim crescendo meu tormento
detesto a vida, mas não sei morrer.
Ai, prende, Amor, quem só me faz sofrer!
Tem compaixão, que já não posso mais:
Prende-o a mim, já que não me desamarras.
Se sem isso quiseres, oh!, desprende
deste meu peito os laços da esperança
Esta súplica ao menos, pois, atende:
Voltem a mim beleza e confiança;
Cessem meus sofrimentos sem tardança
E ornamentos florais
Brancos, rubros, de gala me dêem arras.
Elisa terminou a canção com um suspiro cheio de dó e embora todos se admirassem de tais palavras, ninguém conseguiu atinar quem lhe daria motivo de cantar assim. Mas o rei, que estava de bom gênio, fez chamar Tíndaro e mandou-o trazer a gaita de foles, a cujo som conduziu muitas danças. E tendo-se passado já boa parte da noite, disse a todos que fossem dormir.
Escreva para o meu e-mail: silvafonseca@gmail.com
quinta-feira, março 01, 2012
O peru de Natal
O peru de Natal
Alberto Moravia
No dia de Natal, quando o comerciante Policarpi-Curcio ouviu no telefone a mulher pedindo-lhe que chegasse em casa pontualmente porque tinha peru, alegrou-se muito, visto que, com o passar dos anos, não lhe restara outra paixão a não ser a gula. Imensa porém foi sua surpresa quando, ao chegar em casa por volta de meio-dia, encontrou o peru não na cozinha, enfiado no espeto e girando lentamente sobre um fogo de carvão, mas na sala de visita. O peru, vestido com elegância antiquada, com um paletó preto com debruns de seda, calças em tecido xadrez preto e branco e colete cinza com botões de osso, conversava com a filha de Curcio. A surpresa de Curcio ao encontrar o peru numa atitude e num lugar tão insólitos foi tão grande que, após as apresentações, aproveitando um momento de silêncio, ele não pôde deixar de inclinar-se para frente e dizer com cortesia mas também com firmeza: "Com licença, senhor... não sei se estou enganado... mas... mas me parece que o seu lugar não deveria ser aqui... repito, não sei se estou enganado... mas... o seu lugar deveria ser..." ia dizer "na panela", quando a mulher que, como ela mesma dizia, conhecia o seu rebanho, pisou-lhe no pé; e Curcio, que sabia por longa experiência o que significava aquele gesto, calou-se. A mulher, então, fez-lhe um sinal e, arrastando-o para fora da sala, disse-lhe em voz baixa e excitada que, pelo amor de Deus, não estragasse tudo. O peru era nobre, rico e influente; enfim, um excelente partido; e já demonstrava um interesse particular e evidentíssimo por Roseta; por acaso, com seus estúpidos comentários, ele queria acabar com o casamento que estava quase para se concretizar? Curcio desculpou-se com a mulher e jurou que não abriria mais a boca. Quanto ao peru, a pergunta do anfitrião desavisado teve apenas o efeito de fazê-lo pegar o monóculo e examinar o infeliz de cima a baixo. Logo depois voltou a conversar com a filha de Curcio.
"Não adianta falar", pensava Curcio daí a pouco, sentado à mesa, enquanto a mulher se desdobrava em cortesias com o peru, "com um tipo como este, mais que dar-lhe a filha em casamento, a gente gostaria de torcer-lhe o pescoço". Curcio estava irritado sobretudo com o ar de superioridade e displicência que o peru assumia toda vez que lhe dirigia a palavra. Curcio sabia muito bem que vinha, como se costuma dizer, do nada, e que suas maneiras não eram tão elegantes como a mulher e a filha desejariam que fossem. Mas ele trabalhara a vida toda e ganhara muito dinheiro, era essa a razão pela qual não tinha tido tempo de cuidar da sua educação. O peru, ao contrário, com toda aquela empáfia, não poderia dizer o mesmo. Belas maneiras, sem dúvida, ares de grão-senhor, mas no final das contas, Curcio poderia jurar, pouca substância. Outra coisa que irritava Curcio era a maneira com a qual o peru, após ter dito alguma coisa espirituosa ou profunda, atirava a cabeça para trás, enfiando o bico e os barbilhões na gravata preta de plastrão e estufando o peito debaixo do colete. E finalmente o peru falava com a mulher de Curcio com a mesma escolha cuidadosa de palavras e a mesma modulada preciosidade de acento com que se dirigiria a uma duquesa. Mas Curcio enfurecia-se porque lhe parecia perceber certa dose de ironia neste respeito excessivo. "Para a panela", pensava, "para a panela...”
Contudo, essa antipatia de Curcio era mais do que compensada pela enfatuação das duas mulheres, mãe e filha, pelo peru. A mulher de Curcio e Roseta ficavam simplesmente suspensas aos lábios, ou melhor, aos barbilhões do peru, que as fascinava com seus relatos incríveis de festas, divertimentos, viagens, sucessos mundanos. A familiaridade respeitosa de um peru como aquele, que tinha intimidade com a alta sociedade, envaidecia a mãe. Quanto a Roseta, ela enrubescia, empalidecia, tremia e dirigia ao peru olhares ora suplicantes, ora inflamados, ora lânguidos, ora assustados. Acontece que desde o início do almoço o pé do peru, calçado numa antiquada mas elegante bota de camurça cinza com botões de madrepérola, não parava um instante sequer de molestar a sapatilha da moça.
Depois que o peru foi embora, houve uma discussão violentíssima entre Curcio e a mulher. Curcio dizia que estava na hora de parar com esses elegantões sofisticados e esnobes que, como todo mundo sabe, escondem sob a arrogância um monte de trapaças. Ele tinha trabalhado a vida toda e não se sentia inferior a nenhum peru deste mundo. A mulher respondia que este furor era inútil; o peru nunca afirmou que era superior a ele; que bicho o tinha mordido? Quanto a Roseta, tendo-se deitado como costumava fazer todo dia depois do almoço, já estava sonhando com o peru. Via-o inclinado sobre ela que estava deitada de costas, as asas em volta de seus ombros, o bico sobre seus lábios entreabertos. 0 peru olha para ela carrancudo, e começa a estufar-se, a estufar-se, enchendo o quarto com suas penas cinzentas; mas, embora seja imenso ele parece leve ao colo de Roseta que suspira no sono e murmura: "Querido peru".
Nos dias seguintes apesar da crescente e visível antipatia de Curcio, o peru acabou se instalando na casa. Almoçava com eles; em seguida, ia para a sala de visita com a filha e lá ficava até a hora do jantar. Os dois, disse a mulher a Curcio, estavam praticamente noivos, embora o peru por motivos de família não quisesse que fosse feito, por enquanto, o anúncio oficial. "Belo genro", resmungava Curcio, “aceito um homem trabalhador, simples, de bom coração, mas um peru..." Curcio, entrando em casa, podia ver, através dos vidros da porta da sala, a graciosa cabeça da filha ao lado da cabeça oca, feroz e estúpida do peru. Ele pensava que aquelas mãozinhas tão brancas e miúdas podiam estar acariciando aqueles barbilhões vermelhos e enrugados e sua antipatia aumentava.
Acontece que, mesmo continuando a cortejar Roseta, o peru não se decidia a pedi-la em casamento. Até a mãe começava a ficar preocupada. Se era um peru sério, disse ela um dia para a filha, devia apresentar-se aos pais e pedi-la em casamento. Roseta, ao ouvir essas palavras, olhou assustada para a mãe e não disse nada. Na realidade, o peru tinha conseguido desde os primeiros dias obter da moça os extremos favores. E agora ela, não menos que a mãe, estava ansiosa para que o peru regularizasse , por assim dizer, sua situação.
Um dia Roseta recebeu o peru na sala com um rio de lágrimas. Ela não podia viver daquela maneira, balbuciava entredentes, mentindo para si mesma e para os pais O peru percorria a sala com largas passadas, as penas desalinhadas fora do colete, o bico entreaberto e enfurecido, os olhos injetados de sangue. Finalmente disse-lhe que ela podia tirar da cabeça a idéia de casamento. Em vez de casar, se ela quisesse, podia fugir com ele para o exterior. Naquela noite ou nunca mais. Após muitas hesitações, Roseta acabou concordando.
Naquela noite, Curcio, que sofria de insônia, levantou-se para ir tomar um pouco de ar na janela. Era uma noite de verão com a lua no auge de seu esplendor. Os Curcio moravam num palacete. Olhando pela janela, sem fazer barulho nem acender as luzes para não acordar a mulher, a primeira coisa que viu foi a sombra gigantesca do peru, com a cabeça erguida e o pescoço estufado, o bico verruguento virado para cima, refletida nitidamente na parede da casa inundada pela branca luz do luar. Ele baixou os olhos .e ainda teve tempo de ver a filha pular de uma janela do primeiro andar entre os braços do peru. Este, carregando-a nos braços como se fosse uma trouxa, com uma força de que ninguém suspeitaria, rapidamente levava a moça em direção ao portão. Curcio acordou a mulher, correu a buscar uma velha espingarda. Mas quando desceu não encontrou nenhum sinal dos fugitivos.
No dia seguinte, Curcio deu parte à policia do rapto. Mas nas delegacias ninguém acreditou. Um peru, diziam, como é possível que um peru tenha raptado sua filha. Os perus ficam nas gaiolas. Aliás a filha era maior de idade e não havia nada a fazer.
Mas as trapaças do peru foram descobertas assim mesmo. Descobriu-se que era casado, com filhos. Descobriu-se ainda que não era nem nobre nem rico, mas apenas um simples garçom expulso de vários lugares por furto. Curcio exultava, embora cheio de bílis. A mulher só chorava e chamava a filha.
Tudo acabou com o costumeiro pedido de resgate; e Curcio teve que desembolsar muitos daqueles "belos tostões" ganhos com tanto sacrifício para ter de volta em casa a filha desonrada. Isso aconteceu em dezembro. No dia de Natal, a mulher telefonou para Curcio pedindo que não demorasse a voltar para casa já que havia peru; para eliminar qualquer equívoco, acrescentou que se tratava de uma pessoa muito séria que demonstrava uma visível inclinação por Roseta. Não era, enfim, um peru como aquele do ano passado, quanto a isso podia confiar. "Eis como são as mulheres", pensou Curcio. Mas desta vez ele jurou que abriria bem os olhos, e não se deixaria enganar pelas falsas aparências e pelas palavras vazias de nenhum peru, fosse ele aristocrático ou plebeu.
Alberto Moravia
No dia de Natal, quando o comerciante Policarpi-Curcio ouviu no telefone a mulher pedindo-lhe que chegasse em casa pontualmente porque tinha peru, alegrou-se muito, visto que, com o passar dos anos, não lhe restara outra paixão a não ser a gula. Imensa porém foi sua surpresa quando, ao chegar em casa por volta de meio-dia, encontrou o peru não na cozinha, enfiado no espeto e girando lentamente sobre um fogo de carvão, mas na sala de visita. O peru, vestido com elegância antiquada, com um paletó preto com debruns de seda, calças em tecido xadrez preto e branco e colete cinza com botões de osso, conversava com a filha de Curcio. A surpresa de Curcio ao encontrar o peru numa atitude e num lugar tão insólitos foi tão grande que, após as apresentações, aproveitando um momento de silêncio, ele não pôde deixar de inclinar-se para frente e dizer com cortesia mas também com firmeza: "Com licença, senhor... não sei se estou enganado... mas... mas me parece que o seu lugar não deveria ser aqui... repito, não sei se estou enganado... mas... o seu lugar deveria ser..." ia dizer "na panela", quando a mulher que, como ela mesma dizia, conhecia o seu rebanho, pisou-lhe no pé; e Curcio, que sabia por longa experiência o que significava aquele gesto, calou-se. A mulher, então, fez-lhe um sinal e, arrastando-o para fora da sala, disse-lhe em voz baixa e excitada que, pelo amor de Deus, não estragasse tudo. O peru era nobre, rico e influente; enfim, um excelente partido; e já demonstrava um interesse particular e evidentíssimo por Roseta; por acaso, com seus estúpidos comentários, ele queria acabar com o casamento que estava quase para se concretizar? Curcio desculpou-se com a mulher e jurou que não abriria mais a boca. Quanto ao peru, a pergunta do anfitrião desavisado teve apenas o efeito de fazê-lo pegar o monóculo e examinar o infeliz de cima a baixo. Logo depois voltou a conversar com a filha de Curcio.
"Não adianta falar", pensava Curcio daí a pouco, sentado à mesa, enquanto a mulher se desdobrava em cortesias com o peru, "com um tipo como este, mais que dar-lhe a filha em casamento, a gente gostaria de torcer-lhe o pescoço". Curcio estava irritado sobretudo com o ar de superioridade e displicência que o peru assumia toda vez que lhe dirigia a palavra. Curcio sabia muito bem que vinha, como se costuma dizer, do nada, e que suas maneiras não eram tão elegantes como a mulher e a filha desejariam que fossem. Mas ele trabalhara a vida toda e ganhara muito dinheiro, era essa a razão pela qual não tinha tido tempo de cuidar da sua educação. O peru, ao contrário, com toda aquela empáfia, não poderia dizer o mesmo. Belas maneiras, sem dúvida, ares de grão-senhor, mas no final das contas, Curcio poderia jurar, pouca substância. Outra coisa que irritava Curcio era a maneira com a qual o peru, após ter dito alguma coisa espirituosa ou profunda, atirava a cabeça para trás, enfiando o bico e os barbilhões na gravata preta de plastrão e estufando o peito debaixo do colete. E finalmente o peru falava com a mulher de Curcio com a mesma escolha cuidadosa de palavras e a mesma modulada preciosidade de acento com que se dirigiria a uma duquesa. Mas Curcio enfurecia-se porque lhe parecia perceber certa dose de ironia neste respeito excessivo. "Para a panela", pensava, "para a panela...”
Contudo, essa antipatia de Curcio era mais do que compensada pela enfatuação das duas mulheres, mãe e filha, pelo peru. A mulher de Curcio e Roseta ficavam simplesmente suspensas aos lábios, ou melhor, aos barbilhões do peru, que as fascinava com seus relatos incríveis de festas, divertimentos, viagens, sucessos mundanos. A familiaridade respeitosa de um peru como aquele, que tinha intimidade com a alta sociedade, envaidecia a mãe. Quanto a Roseta, ela enrubescia, empalidecia, tremia e dirigia ao peru olhares ora suplicantes, ora inflamados, ora lânguidos, ora assustados. Acontece que desde o início do almoço o pé do peru, calçado numa antiquada mas elegante bota de camurça cinza com botões de madrepérola, não parava um instante sequer de molestar a sapatilha da moça.
Depois que o peru foi embora, houve uma discussão violentíssima entre Curcio e a mulher. Curcio dizia que estava na hora de parar com esses elegantões sofisticados e esnobes que, como todo mundo sabe, escondem sob a arrogância um monte de trapaças. Ele tinha trabalhado a vida toda e não se sentia inferior a nenhum peru deste mundo. A mulher respondia que este furor era inútil; o peru nunca afirmou que era superior a ele; que bicho o tinha mordido? Quanto a Roseta, tendo-se deitado como costumava fazer todo dia depois do almoço, já estava sonhando com o peru. Via-o inclinado sobre ela que estava deitada de costas, as asas em volta de seus ombros, o bico sobre seus lábios entreabertos. 0 peru olha para ela carrancudo, e começa a estufar-se, a estufar-se, enchendo o quarto com suas penas cinzentas; mas, embora seja imenso ele parece leve ao colo de Roseta que suspira no sono e murmura: "Querido peru".
Nos dias seguintes apesar da crescente e visível antipatia de Curcio, o peru acabou se instalando na casa. Almoçava com eles; em seguida, ia para a sala de visita com a filha e lá ficava até a hora do jantar. Os dois, disse a mulher a Curcio, estavam praticamente noivos, embora o peru por motivos de família não quisesse que fosse feito, por enquanto, o anúncio oficial. "Belo genro", resmungava Curcio, “aceito um homem trabalhador, simples, de bom coração, mas um peru..." Curcio, entrando em casa, podia ver, através dos vidros da porta da sala, a graciosa cabeça da filha ao lado da cabeça oca, feroz e estúpida do peru. Ele pensava que aquelas mãozinhas tão brancas e miúdas podiam estar acariciando aqueles barbilhões vermelhos e enrugados e sua antipatia aumentava.
Acontece que, mesmo continuando a cortejar Roseta, o peru não se decidia a pedi-la em casamento. Até a mãe começava a ficar preocupada. Se era um peru sério, disse ela um dia para a filha, devia apresentar-se aos pais e pedi-la em casamento. Roseta, ao ouvir essas palavras, olhou assustada para a mãe e não disse nada. Na realidade, o peru tinha conseguido desde os primeiros dias obter da moça os extremos favores. E agora ela, não menos que a mãe, estava ansiosa para que o peru regularizasse , por assim dizer, sua situação.
Um dia Roseta recebeu o peru na sala com um rio de lágrimas. Ela não podia viver daquela maneira, balbuciava entredentes, mentindo para si mesma e para os pais O peru percorria a sala com largas passadas, as penas desalinhadas fora do colete, o bico entreaberto e enfurecido, os olhos injetados de sangue. Finalmente disse-lhe que ela podia tirar da cabeça a idéia de casamento. Em vez de casar, se ela quisesse, podia fugir com ele para o exterior. Naquela noite ou nunca mais. Após muitas hesitações, Roseta acabou concordando.
Naquela noite, Curcio, que sofria de insônia, levantou-se para ir tomar um pouco de ar na janela. Era uma noite de verão com a lua no auge de seu esplendor. Os Curcio moravam num palacete. Olhando pela janela, sem fazer barulho nem acender as luzes para não acordar a mulher, a primeira coisa que viu foi a sombra gigantesca do peru, com a cabeça erguida e o pescoço estufado, o bico verruguento virado para cima, refletida nitidamente na parede da casa inundada pela branca luz do luar. Ele baixou os olhos .e ainda teve tempo de ver a filha pular de uma janela do primeiro andar entre os braços do peru. Este, carregando-a nos braços como se fosse uma trouxa, com uma força de que ninguém suspeitaria, rapidamente levava a moça em direção ao portão. Curcio acordou a mulher, correu a buscar uma velha espingarda. Mas quando desceu não encontrou nenhum sinal dos fugitivos.
No dia seguinte, Curcio deu parte à policia do rapto. Mas nas delegacias ninguém acreditou. Um peru, diziam, como é possível que um peru tenha raptado sua filha. Os perus ficam nas gaiolas. Aliás a filha era maior de idade e não havia nada a fazer.
Mas as trapaças do peru foram descobertas assim mesmo. Descobriu-se que era casado, com filhos. Descobriu-se ainda que não era nem nobre nem rico, mas apenas um simples garçom expulso de vários lugares por furto. Curcio exultava, embora cheio de bílis. A mulher só chorava e chamava a filha.
Tudo acabou com o costumeiro pedido de resgate; e Curcio teve que desembolsar muitos daqueles "belos tostões" ganhos com tanto sacrifício para ter de volta em casa a filha desonrada. Isso aconteceu em dezembro. No dia de Natal, a mulher telefonou para Curcio pedindo que não demorasse a voltar para casa já que havia peru; para eliminar qualquer equívoco, acrescentou que se tratava de uma pessoa muito séria que demonstrava uma visível inclinação por Roseta. Não era, enfim, um peru como aquele do ano passado, quanto a isso podia confiar. "Eis como são as mulheres", pensou Curcio. Mas desta vez ele jurou que abriria bem os olhos, e não se deixaria enganar pelas falsas aparências e pelas palavras vazias de nenhum peru, fosse ele aristocrático ou plebeu.
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quarta-feira, fevereiro 01, 2012
Na ilha de Itaparica era assim:
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sexta-feira, janeiro 27, 2012
Avara pescaria à vara
O Jovem Pescador
Desde cedo o pai ia ao rio. Um dia, o garoto foi junto. Sol quente na moleira, o fio de nylon embaraçava, o anzol enganchou nas suas meias, mas nada disso o abalou. Ele gostava. Em menos de uma hora aprendeu a lançar longe a isca. Neste dia mesmo, já sabia travar o molinete. Lutava com o peixe. Fisgou boas iscas. Paizão orgulhoso. Nenhuma reclamação, até colocação criativa do apoio – entre as pernas – o menino fez sem ninguém ensinar. Viagem perfeita. Na volta, ao abastecer no posto, uma mulher formosa desfilou a frente de ambos.
- Que peixão, einh, pai?
Silenciosamente ele sorriu. O DNA do pescador estava demonstrado tanto no manejo da vara quanto no apreciar de um belo exemplar.
JB Alencastro
Desde cedo o pai ia ao rio. Um dia, o garoto foi junto. Sol quente na moleira, o fio de nylon embaraçava, o anzol enganchou nas suas meias, mas nada disso o abalou. Ele gostava. Em menos de uma hora aprendeu a lançar longe a isca. Neste dia mesmo, já sabia travar o molinete. Lutava com o peixe. Fisgou boas iscas. Paizão orgulhoso. Nenhuma reclamação, até colocação criativa do apoio – entre as pernas – o menino fez sem ninguém ensinar. Viagem perfeita. Na volta, ao abastecer no posto, uma mulher formosa desfilou a frente de ambos.
- Que peixão, einh, pai?
Silenciosamente ele sorriu. O DNA do pescador estava demonstrado tanto no manejo da vara quanto no apreciar de um belo exemplar.
JB Alencastro
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