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segunda-feira, junho 15, 2020

PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA. Iacyr Anderson Freitas. Poesia

PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA
Iacyr Anderson Freitas


Toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram.

Há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.

Um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
Estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome.

O meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela.

Toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta
com as folhas mortas do terreiro.

Alfabeto crivado de dízimos
onde não se pode tagarelar
sem doer um grão de arroz
por sob a língua.

Palavra carece de pátria
lugar de raiz e eleição.

Onde adensa sua espera, duas borboletas
grifam a giz a paisagem.

terça-feira, março 24, 2020

VALE QUANTO LESA. Iacyr Anderson Freitas. Poesia.

VALE QUANTO LESA
Iacyr Anderson Freitas


do minério
   não se inclui
no peso bruto
glebas & glebas
 de luto

rios que morreram
    no curso
de um minuto

vales vilas vidas
como insumos
      ou meros
acidentes
   de percurso

com zeros
muitos zeros
à direita do lucro

& o que resta
— um cemitério
    devoluto
(mero
       acidente
   de percurso?)

grandes açougues
   de azougue
pelas frestas

rios defuntos
de defuntas
florestas

(uma hecatombe
a cada monte)

& o peso bruto
dessas mortes
em conluio
            com os zeros
              à direita
         sempre à direita
do lucro

   (este
que prospera
       com as mortalhas
    que entrega

& muito medra
com os crimes
que nega)

este
senhores
o lucro

: para o qual
não existe
corpo insepulto   :o lucro

o único
      (embora sujo
de lama & luto

embora mito)

o único o único

        (oh perdoai
   se vos repito)

o único

impoluto

segunda-feira, dezembro 16, 2019

E SOBRE O DESERTO. Iacyr Anderson Freitas. Poesia.

E SOBRE O DESERTO
Iacyr Anderson Freitas

condenação primeira: carregar
os despojos desta tarde, arrastá-la
para fora do tempo,
enterrá-la onde não haja escape.

como os que buscam no alforje,
entre serpes, o alimento de seus mortos,
também ofertarei meu corpo
às figurações da chuva e do trópico,
também poderei ungir
as cartilagens nulas de seu nome.

e sobre o deserto
e sobre os despojos de tudo
o que restou da tarde em seu transporte
permanece a mesma busca,
incessante, de uma terra mais
profunda e gasta, cada dia mais distante

segunda-feira, junho 18, 2018

PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA. Iacyr Anderson Freitas. Poesia.

PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA
Iacyr Anderson Freitas


Toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram.

Há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.

Um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
Estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome.

O meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela.

Toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta
com as folhas mortas do terreiro.

Alfabeto crivado de dízimos
onde não se pode tagarelar
sem doer um grão de arroz
por sob a língua.

Palavra carece de pátria
lugar de raiz e eleição.

Onde adensa sua espera, duas borboletas
grifam a giz a paisagem.

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Pequeno diário da palavra. Iacyr Anderson de Freitas. Poesia


PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA 
Iacyr Anderson Freitas


Toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram.

Há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.

Um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
Estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome.

O meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela.
Toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta
com as folhas mortas do terreiro.

Alfabeto crivado de dízimos
onde não se pode tagarelar
sem doer um grão de arroz
por sob a língua.

Palavra carece de pátria
lugar de raiz e eleição.

Onde adensa sua espera, duas borboletas
grifam a giz a paisagem
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