PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA
Iacyr Anderson Freitas
Toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram.
Há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.
Um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
Estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome.
O meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela.
Toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta
com as folhas mortas do terreiro.
Alfabeto crivado de dízimos
onde não se pode tagarelar
sem doer um grão de arroz
por sob a língua.
Palavra carece de pátria
lugar de raiz e eleição.
Onde adensa sua espera, duas borboletas
grifam a giz a paisagem.
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segunda-feira, junho 15, 2020
PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA. Iacyr Anderson Freitas. Poesia
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terça-feira, março 24, 2020
VALE QUANTO LESA. Iacyr Anderson Freitas. Poesia.
VALE QUANTO LESA
Iacyr Anderson Freitas
do minério
não se inclui
no peso bruto
glebas & glebas
de luto
rios que morreram
no curso
de um minuto
vales vilas vidas
como insumos
ou meros
acidentes
de percurso
com zeros
muitos zeros
à direita do lucro
& o que resta
— um cemitério
devoluto
(mero
acidente
de percurso?)
grandes açougues
de azougue
pelas frestas
rios defuntos
de defuntas
florestas
(uma hecatombe
a cada monte)
& o peso bruto
dessas mortes
em conluio
com os zeros
à direita
sempre à direita
do lucro
(este
que prospera
com as mortalhas
que entrega
& muito medra
com os crimes
que nega)
este
senhores
o lucro
: para o qual
não existe
corpo insepulto :o lucro
o único
(embora sujo
de lama & luto
embora mito)
o único o único
(oh perdoai
se vos repito)
o único
impoluto
Iacyr Anderson Freitas
do minério
não se inclui
no peso bruto
glebas & glebas
de luto
rios que morreram
no curso
de um minuto
vales vilas vidas
como insumos
ou meros
acidentes
de percurso
com zeros
muitos zeros
à direita do lucro
& o que resta
— um cemitério
devoluto
(mero
acidente
de percurso?)
grandes açougues
de azougue
pelas frestas
rios defuntos
de defuntas
florestas
(uma hecatombe
a cada monte)
& o peso bruto
dessas mortes
em conluio
com os zeros
à direita
sempre à direita
do lucro
(este
que prospera
com as mortalhas
que entrega
& muito medra
com os crimes
que nega)
este
senhores
o lucro
: para o qual
não existe
corpo insepulto :o lucro
o único
(embora sujo
de lama & luto
embora mito)
o único o único
(oh perdoai
se vos repito)
o único
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segunda-feira, dezembro 16, 2019
E SOBRE O DESERTO. Iacyr Anderson Freitas. Poesia.
E SOBRE O DESERTO
Iacyr Anderson Freitas
condenação primeira: carregar
os despojos desta tarde, arrastá-la
para fora do tempo,
enterrá-la onde não haja escape.
como os que buscam no alforje,
entre serpes, o alimento de seus mortos,
também ofertarei meu corpo
às figurações da chuva e do trópico,
também poderei ungir
as cartilagens nulas de seu nome.
e sobre o deserto
e sobre os despojos de tudo
o que restou da tarde em seu transporte
permanece a mesma busca,
incessante, de uma terra mais
profunda e gasta, cada dia mais distante
Iacyr Anderson Freitas
condenação primeira: carregar
os despojos desta tarde, arrastá-la
para fora do tempo,
enterrá-la onde não haja escape.
como os que buscam no alforje,
entre serpes, o alimento de seus mortos,
também ofertarei meu corpo
às figurações da chuva e do trópico,
também poderei ungir
as cartilagens nulas de seu nome.
e sobre o deserto
e sobre os despojos de tudo
o que restou da tarde em seu transporte
permanece a mesma busca,
incessante, de uma terra mais
profunda e gasta, cada dia mais distante
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segunda-feira, junho 18, 2018
PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA. Iacyr Anderson Freitas. Poesia.
PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA
Iacyr Anderson Freitas
Toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram.
Há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.
Um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
Estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome.
O meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela.
Toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta
com as folhas mortas do terreiro.
Alfabeto crivado de dízimos
onde não se pode tagarelar
sem doer um grão de arroz
por sob a língua.
Palavra carece de pátria
lugar de raiz e eleição.
Onde adensa sua espera, duas borboletas
grifam a giz a paisagem.
Iacyr Anderson Freitas
Toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram.
Há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.
Um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
Estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome.
O meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela.
Toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta
com as folhas mortas do terreiro.
Alfabeto crivado de dízimos
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sem doer um grão de arroz
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Palavra carece de pátria
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quarta-feira, dezembro 21, 2016
Pequeno diário da palavra. Iacyr Anderson de Freitas. Poesia
PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA
|
Iacyr Anderson Freitas
Toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram.
Há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves.
Um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
Estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome.
O meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela.Toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta
com as folhas mortas do terreiro.
Alfabeto crivado de dízimos
onde não se pode tagarelar
sem doer um grão de arroz
por sob a língua.
Palavra carece de pátria
lugar de raiz e eleição.
Onde adensa sua espera, duas borboletas
grifam a giz a paisagem.
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