quinta-feira, abril 03, 2025

O único mundo da mulher é o coração do homem. Rabindranath Tagore

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A PEDRA BRANCA

 III Pérgamo


12.Ao Anjo da Igreja em Pérgamo, escreve: Assim diz aquele que tem a espada afiada, de dois gumes.


13.Sei onde moras: é onde está o trono de Satanás. Tu, porém, seguras firmemente o meu nome, pois não renegaste a minha fé, nem mesmo nos dias de Antipas, minha testemunha fiel, que foi morto junto a vós, onde Satanás habita.


14.Tenho, contudo, algumas reprovações a fazer: tens aí pessoas que seguem a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balac a lançar uma pedra de tropeço aos filhos de Israel, para que comessem das carnes sacrificadas aos ídolos e se prostituíssem.


15.Do mesmo modo tens, também tu, pessoas que seguem a doutrina dos nicolaítas.


16.Converte-te, pois! Do contrário, virei logo contra ti, para combatê-los com a espada da minha boca.


17.Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas: ao vencedor darei do maná escondido, e lhe darei também uma pedrinha branca, uma pedrinha na qual está escrito um nome novo, que ninguém conhece, exceto aquele que o recebe.


APOCALIPSE 2

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E O VENTO LEVOU

 O filme "E o Vento Levou" (1939), um dos maiores clássicos do cinema, continua gerando debates devido à sua representação romantizada do Sul dos Estados Unidos e da escravização. Recentemente, um historiador americano revelou que houve conflitos significativos nos bastidores da produção, envolvendo roteiristas e o produtor, sobre como a escravização seria retratada no filme.  


De acordo com essa pesquisa, alguns profissionais envolvidos no roteiro buscavam apresentar uma visão mais crítica sobre a escravização, enquanto outros, incluindo o produtor, optaram por uma abordagem que minimizava as atrocidades desse sistema. Essa disputa interna evidencia que, mesmo na época, havia preocupação com a maneira como a história seria contada, embora a versão final tenha mantido uma perspectiva idealizada do Sul escravagista.  


A descoberta dessas "cenas perdidas" e dos conflitos por trás da produção reforça como decisões artísticas e comerciais podem influenciar a maneira como eventos históricos são retratados no cinema. Esse tipo de revelação permite uma reavaliação do impacto cultural de filmes icônicos e destaca a importância de analisar criticamente como o passado é representado na cultura popular.


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© (Giih De Figueiredo). 

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OS ÚLTIMOS DIAS DE POMPEIA

 A descoberta de estátuas funerárias em tamanho real em Pompeia representa um acontecimento significativo para nossa compreensão da sociedade romana pré-erupção. Estas esculturas de mármore, datadas entre 133 e 31 a.C. (período republicano tardio), oferecem uma janela para as estruturas sociais e religiosas da cidade antes de sua destruição pelo Vesúvio.


O fato de representarem um homem togado e uma mulher sugere que se trata de personagens de elevada posição social. A toga era um símbolo de cidadania e status na Roma Antiga, usado exclusivamente por cidadãos romanos livres. A presença da figura feminina, identificada como uma sacerdotisa, é particularmente reveladora do papel que as mulheres desempenhavam na vida religiosa de Pompeia.


Este achado desafia visões simplificadas sobre o papel das mulheres na sociedade romana. As sacerdotisas, embora operando em uma sociedade patriarcal, exerciam formas significativas de poder e influência através de suas funções religiosas. O culto religioso era inseparável da política e da vida cívica no mundo romano, e estas mulheres ocupavam posições que lhes conferiam autoridade e prestígio social.


A qualidade artística destas estátuas também revela o alto nível de sofisticação cultural presente em Pompeia antes da catástrofe. O período entre 133 e 31 a.C. foi marcado por grandes turbulências políticas em Roma, incluindo as guerras civis que levariam ao fim da República. É fascinante observar como, mesmo em tempos de instabilidade política, a produção artística e as práticas funerárias mantinham seu refinamento.


A preservação excepcional destas obras só foi possível devido à própria catástrofe que destruiu a cidade. A erupção do Vesúvio em 79 d.C., embora tenha causado imenso sofrimento humano, criou uma cápsula do tempo que continua a revelar detalhes impressionantes sobre a vida cotidiana, as práticas religiosas e as estruturas sociais do mundo romano.


Este achado reforça a importância contínua das escavações em Pompeia, que mesmo após séculos de investigação arqueológica, continua a surpreender os pesquisadores com descobertas que refinam nossa compreensão do mundo antigo.


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© (Giih De Figueiredo). 

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quarta-feira, abril 02, 2025

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TAGORE

 Rabindranath Tagore desponta como uma das figuras mais fascinantes e versáteis da história cultural mundial. Poeta, filósofo, músico, pintor e educador, Tagore transcendeu fronteiras culturais para se tornar uma voz universal que ainda hoje ecoa com profunda relevância.


Nascido em 6 de maio de 1861, em Calcutá, no seio de uma rica família Bramânica, Tagore foi o décimo quarto filho – o caçula – de Debendranath Tagore e Sarada Ravat. Uma curiosidade pouco conhecida é que seu nome de nascimento era "Robindronath Thakur", e a versão ocidentalizada "Rabindranath Tagore" foi adotada posteriormente para facilitar seu reconhecimento internacional.


A infância de Tagore foi marcada por uma notável liberdade intelectual proporcionada por seu pai, que era líder do movimento reformista Brahmo Samaj. Esta influência moldou profundamente sua visão filosófica, que combinava elementos do pensamento hindu tradicional com ideais progressistas. Desde cedo, demonstrou extraordinário talento literário, publicando seu primeiro volume de poesia aos 17 anos.


Um aspecto intrigante de sua biografia é seu casamento, aos 22 anos, com Mrinalini Devi, que tinha apenas 10 anos na época – uma prática comum na Índia daquele período. O casal teve cinco filhos, mas a perda prematura de vários deles e da própria esposa em 1902 marcou Tagore com uma profunda experiência do luto, tema que viria a permear sua obra.


Poucos sabem que Tagore foi um crítico ferrenho do sistema educacional britânico implantado na Índia, considerando-o opressivo e desconectado das raízes culturais indianas. Em resposta, fundou em 1901 a escola Santiniketan ("Morada da Paz"), utilizando métodos revolucionários para a época: aulas ao ar livre, valorização das artes e integração entre filosofias orientais e ocidentais. Esta escola posteriormente se transformaria na Universidade Visva-Bharati, que continua ativa até hoje.


Uma curiosidade surpreendente sobre Tagore é que ele começou a pintar seriamente apenas aos 68 anos de idade, após uma crise criativa na escrita. Suas pinturas, caracterizadas por traços expressionistas e cores vibrantes, revelam uma dimensão visual de seu universo poético e hoje são altamente valorizadas no mercado de arte.


A relação de Tagore com o Ocidente foi complexa e fascinante. Enquanto criticava o imperialismo britânico, mantinha profundo apreço pela cultura ocidental. Sua amizade com figuras como Albert Einstein, William Butler Yeats, Ezra Pound e Romain Rolland demonstra seu papel como ponte entre Oriente e Ocidente. Einstein e Tagore tiveram célebres diálogos sobre a natureza da realidade, com o poeta defendendo uma visão mais intuitiva e holística em contraponto ao racionalismo científico.


Em 1913, Tagore tornou-se o primeiro não-europeu a receber o Prêmio Nobel de Literatura, principalmente por sua obra "Gitanjali" (Oferenda Lírica). A curiosidade é que ele usou o dinheiro do prêmio para financiar sua escola Santiniketan, demonstrando seu compromisso com a educação. Contudo, desiludido com o nacionalismo exacerbado que levou à Primeira Guerra Mundial, Tagore devolveu seu título de cavaleiro britânico em 1919, em protesto contra o massacre de Amritsar, onde tropas britânicas mataram centenas de indianos desarmados.


Talvez o fato mais extraordinário sobre Tagore seja sua capacidade de criar em múltiplos meios: compôs mais de 2.000 canções (formando o gênero musical "Rabindra Sangeet"), escreveu aproximadamente 100 livros de poesia, 12 romances, numerosos contos, ensaios filosóficos, peças teatrais e deixou cerca de 2.500 pinturas. Não bastasse isso, é o único autor na história a ter escrito os hinos nacionais de dois países diferentes: "Jana Gana Mana" da Índia e "Amar Shonar Bangla" de Bangladesh.


A filosofia de Tagore, expressa em aforismos como "Se você fechar a porta para todos os erros, a verdade também ficará de fora" e "Se você chorar por ter perdido o sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas", revela uma sabedoria que combina profundidade espiritual com pragmatismo humanista. Sua visão transcendeu divisões religiosas e nacionais, promovendo um universalismo que antevia a globalização cultural do século XXI.


A contribuição de Tagore permanece viva não apenas em seus escritos, mas na contínua relevância de suas ideias sobre harmonia cultural, educação holística e espiritualidade humanista – um farol para nossos tempos fragmentados, cuja luz continua a iluminar caminhos para gerações futuras.


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© (Giih De Figueiredo). 

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Chamado de Mateus 9.Indo adiante, viu Jesus um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me". Este, levantando-se, o seguiu. Mateus 9

segunda-feira, março 31, 2025

Difícil sair de bolha política

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Henriqueta Lisboa. Vem, doce morte

Vem, doce morte. Quando queiras.

Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens

desfilam pálidos casulos

e o suspiro das árvores - secreto -

não é senão prenúncio

de um delicado acontecimento.


Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito

espetáculo deslumbrante e inédito

de rubros panoramas abertos

ao sol, ao mar, aos montes, às planícies

com celeiros refertos e intocados.


Quando queiras. Presentes as estrelas

ou já esquivas, na madrugada

com pássaros despertos, à hora

em que os campos recolhem as sementes

e os cristais endurecem de frio.


Tenho o corpo tão leve (quando queiras)

que a teu primeiro sopro cederei distraída

como um pensamento cortado

pela visão da lua

em que acaso - mais alto - refloresça.

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Na escolinha não tive massinha. Pra desenhar só um gato felpudo. Eis tudo.

domingo, março 30, 2025

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A COROA

 II Esmirna


8.Ao Anjo da Igreja em Esmirna, escreve: Assim diz o Primeiro e o Último, aquele que esteve morto mas voltou à vida.


9.Conheço tua tribulação, tua indigência — és rico, porém! — e as blasfêmias de alguns dos que se afirmam judeus mas não são — pelo contrário, são uma sinagoga de Satanás!


10.Não tenhas medo do que irás sofrer. Eis que o Diabo vai lançar alguns dentre vós na prisão, para serdes postos à prova. Tereis uma tribulação de dez dias. Mostra-te fiel até à morte, e eu te darei a coroa da vida.


11.Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas: o vencedor de modo algum será lesado pela segunda morte.


APOCALIPSE 2

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O CANDEEIRO

 Era uma vez o escuro,


e fez-se a luz,

a tênue luz de um candeeiro,


então questionei:

— Mal se divulga um vulto?


O candeeiro flamejou:

— Para quem está no breu

qualquer lampejo é alumbramento.


Hélio Pólvora

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sábado, março 29, 2025

CARTA A ÉFESO

 I. Éfeso


1.Ao Anjo da Igreja em Éfeso, escreve: Assim diz aquele que segura as sete estrelas em sua mão direita, o que anda em meio aos sete candelabros de ouro.


2.Conheço tua conduta, tua fadiga e tua perseverança: sei que não podes suportar os malvados: puseste à prova os que se diziam apóstolos


2.Conheço tua conduta, tua fadiga e tua perseverança: sei que não podes suportar os malvados: puseste à prova os que se diziam apóstolos — e não são — e os descobriste mentirosos.


3.És perseverante, pois sofreste por causa do meu nome, mas não esmoreceste.


4.Devo reprovar-te, contudo, por teres abandonado teu primeiro amor.


5.Recorda-te, pois, de onde caíste, converte-te e retoma a conduta de outrora. Do contrário, virei a ti e, caso não te convertas, removerei teu candelabro de sua posição.


6.Tens de bom, contudo, o detestares a conduta dos nicolaítas, que também eu detesto.


7.Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas: ao vencedor, conceder-lhe-ei comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus.


APOCALIPSE 2

A


 

Não só de galho em galho também de nuvem em nuvem aqui os astros fulgem e os olho maravilhado.

quinta-feira, março 27, 2025

Dia faustoso quando a ouço a patativa de Cristo que alegre que eu fico ao ouví-la sorrio gostoso.

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H. DOBAL OS CAVALOS DA NOITE

Os cavalos da noite galopando 

de crinas soltas contra a luz da lua  

eram fantasmas breves dominando  

os sonhos de um menino solitário. 


Um menino sem forças contra a noite  

sonhava os seus cavalos assustados  

e se inventava cavaleiro andante  

dono dos seus caminhos pela vida. 


Campeava as distâncias descuidado  

e armado pelo sono ia amansando  

no coração da treva os seus temores. 


E revivia a noite no mistério 

dos árdegos cavalos renovando  

o seu campo de sonho solitário.

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Só para visitantes do blog. Ela me reabilitou.

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OS CANDELABROS

 Visão preparatória


9.Eu, João, vosso irmão e companheiro na tribulação, na realeza e na perseverança em Jesus, encontrava-me na ilha de Pat- mos, por causa da Palavra de Deus e do Testemunho de Jesus.


10.No dia do Senhor fui movido pelo Espírito, e ouvi atrás de mim uma voz forte, como de trombeta, ordenando:


11.Escreve o que vês, num livro, e envia-o às sete Igrejas: a Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia".


12.Voltei-me para ver a voz que me falava; ao voltar-me, vi sete candelabros de ouro


13.e, no meio dos candelabros, alguém semelhante a um filho de Homem, vestido com uma túnica longa e cingido à altura do peito com um cinto de ouro.


14.Os cabelos de sua cabeça eram brancos como lã branca, como neve; e seus olhos pareciam uma chama de fogo.


15.Os pés tinham o aspecto do bronze quando está incandescente no forno, e sua voz era como o estrondo de águas torrenciais.


16.Na mão direita ele tinha sete estrelas, e de sua boca saía uma espada afiada, com dois gumes. Sua face era como o sol, quando brilha com todo seu esplendor.


17.Ao vê-lo, caí como morto a seus pés. Ele, porém, colocou a mão direita sobre mim assegurando: "Não temas! Eu sou o Primeiro e o Último,


18.o Vivente; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da Morte e do Hades.


19.Escreve, pois, o que viste: tanto as coisas presentes como as que deverão acontecer depois destas.


20.Quanto ao mistério das sete estrelas que viste em minha mão direita e aos sete candelabros de ouro: as sete estrelas são os Anjos das sete Igrejas, e os sete candelabros as sete Igrejas.


APOCALIPSE 1

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quarta-feira, março 26, 2025

A magia

Eu venho desse reino generoso,

onde os homens que nascem dos seus verdes

continuam cativos esquecidos

e contudo profundamente irmãos

das coisas poderosas, permanentes

como as águas, os ventos e a esperança.

Vem ver comigo o rio e as suas leis.

Vem aprender a ciência dos rebojos,

vem escutar os cânticos noturnos

no mágico silêncio do igapó

coberto por estrelas de esmeralda.

- Thiago de Mello, no livro "Mormaço na floresta". Civilização Brasileira, 1981.

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Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos? José Saramago

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Cura de um paralítico

1.E entrando em um barco, ele atravessou e foi para a sua cidade.


2.Aí lhe trouxeram um paralítico deitado numa cama. Jesus, vendo tão grande fé, disse ao paralítico: "Tem ânimo, meu filho; os teus pecados te são perdoados. "


3.Ao ver isso alguns dos escribas diziam consigo: "Está blasfemando".


4.Mas Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse: "Por que tendes esses maus pensamentos em vossos corações?


5.Com efeito, que é mais fácil dizer 'Teus pecados são perdoados', ou dizer 'Levanta-te e anda'?


6.Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem poder na terra de perdoar pecados. . . " disse então ao paralítico: "Levanta-te, toma tua cama e vai para casa".


7.Ele se levantou e foi para casa.


8.Vendo o ocorrido, as multidões ficaram com medo e glorificaram a Deus, que deu tal poder aos homens.


Mateus 9

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Riquesa. Guimarães Rosa

Veio ao meu quarto um besouro

de asas verdes e ouro,

e fez do meu quarto uma joalharia...

terça-feira, março 25, 2025

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I. As cartas às Igrejas da Ásia

4.João, às sete Igrejas que estão na Ásia: a vós graça e paz da parte d' "Aquele-que-é, Aquele-que-era e Aquele-que-vem", da parte dos sete Espíritos que estão diante do seu trono,


5.e da parte de Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primogênito dos mortos, o Príncipe dos reis da terra. Àquele que nos ama, e que nos lavou de nossos pecados com seu sangue,


6.e fez de nós uma Realeza e Sacerdotes para Deus, seu Pai, a ele pertencem a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém.


7.Eis que ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão, até mesmo os que o transpassaram, e todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele. Sim! Amém!


8.Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, "Aquele-que-é, Aquele- que-era e Aquele-que-vem", o Todo-poderoso.


APOCALIPSE

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segunda-feira, março 24, 2025

Personagem

Teu nome é quase indiferente

e nem teu rosto já me inquieta.

A arte de amar é exactamente

a de se ser poeta.


Para pensar em ti, me basta

o próprio amor que por ti sinto:

és a ideia, serena e casta,

nutrida do enigma do instinto.


O lugar da tua presença

é um deserto, entre variedades:

mas nesse deserto é que pensa

o olhar de todas as saudades.


Meus sonhos viajam rumos tristes

e, no seu profundo universo,

tu, sem forma e sem nome, existes,

silêncio, obscuro, disperso.


Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,

teu coração, tua existência,

tudo - o espaço evita e consome:

e eu só conheço a tua ausência.


Eu só conheço o que não vejo.

E, nesse abismo do meu sonho,

alheia a todo outro desejo,

me decomponho e recomponho.


Cecília Meireles, in 'Viagem'

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João Cabral de Melo Neto O Relógio

1.


Ao redor da vida do homem

há certas caixas de vidro,

dentro das quais, como em jaula,

se ouve palpitar um bicho.


Se são jaulas não é certo;

mais perto estão das gaiolas

ao menos, pelo tamanho

e quadradiço de forma.


Uma vezes, tais gaiolas

vão penduradas nos muros;

outras vezes, mais privadas,

vão num bolso, num dos pulsos.


Mas onde esteja: a gaiola

será de pássaro ou pássara:

é alada a palpitação,

a saltação que ela guarda;


e de pássaro cantor,

não pássaro de plumagem:

pois delas se emite um canto

de uma tal continuidade


que continua cantando

se deixa de ouvi-lo a gente:

como a gente às vezes canta

para sentir-se existente.


2.


O que eles cantam, se pássaros,

é diferente de todos:

cantam numa linha baixa,

com voz de pássaro rouco;


desconhecem as variantes

e o estilo numeroso

dos pássaros que sabemos,

estejam presos ou soltos;


têm sempre o mesmo compasso

horizontal e monótono,

e nunca, em nenhum momento,

variam de repertório:


dir-se-ia que não importa

a nenhum ser escutado.

Assim, que não são artistas

nem artesãos, mas operários


para quem tudo o que cantam

é simplesmente trabalho,

trabalho rotina, em série,

impessoal, não assinado,


de operário que executa

seu martelo regular

proibido (ou sem querer)

do mínimo variar.


3.


A mão daquele martelo

nunca muda de compasso.

Mas tão igual sem fadiga,

mal deve ser de operário;


ela é por demais precisa

para não ser mão de máquina,

a máquina independente

de operação operária.


De máquina, mas movida

por uma força qualquer

que a move passando nela,

regular, sem decrescer:


quem sabe se algum monjolo

ou antiga roda de água

que vai rodando, passiva,

graçar a um fluido que a passa;


que fluido é ninguém vê:

da água não mostra os senões:

além de igual, é contínuo,

sem marés, sem estações.


E porque tampouco cabe,

por isso, pensar que é o vento,

há de ser um outro fluido

que a move: quem sabe, o tempo.


4.


Quando por algum motivo

a roda de água se rompe,

outra máquina se escuta:

agora, de dentro do homem;


outra máquina de dentro,

imediata, a reveza,

soando nas veias, no fundo

de poça no corpo, imersa.


Então se sente que o som

da máquina, ora interior,

nada possui de passivo,

de roda de água: é motor;


se descobre nele o afogo

de quem, ao fazer, se esforça,

e que êle, dentro, afinal,

revela vontade própria,


incapaz, agora, dentro,

de ainda disfarçar que nasce

daquela bomba motor

(coração, noutra linguagem)


que, sem nenhum coração,

vive a esgotar, gôta a gôta,

o que o homem, de reserva,

possa ter na íntima poça.

P


 

domingo, março 23, 2025

Os endemoninhados gadarenos

28.Ao chegar ao outro lado, ao país dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois endemoninhados, saindo dos túmulos. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho.


29.E eis que se puseram a gritar: "Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?"


30.Ora, a certa distância deles havia uma manada de porcos que estava pastando.


31.Os demônios lhe imploravam, dizendo: "Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos".


32.Jesus lhes disse: "Ide". Eles, saindo, foram para os porcos e logo toda a manada se precipitou no mar, do alto de um precipício, e pereceu nas águas.


33.Os que os apascentavam fugiram e, dirigindo-se à cidade, contaram tudo o que acontecera, inclusive o caso dos endemoninhados.


34.Diante disso, a cidade inteira saiu ao encontro de Jesus. Ao vê-lo, rogaram-lhe que se retirasse do seu território.


Mateus 8

sábado, março 22, 2025

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AS MENINAS

 "Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta feia ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo a alegria está instalada em mim."

.

- Lygia Fagundes Telles, no livro “As meninas”. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

sexta-feira, março 21, 2025

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APOCALIPSE

 Prólogo


1.Revelação de Jesus Cristo: Deus lha concedeu para que mostrasse aos seus servos as coisas que devem acontecer muito em breve. Ele a manifestou com sinais por meio de seu Anjo, enviado ao seu servo João,


2.o qual atesta tudo quanto viu como sendo a Palavra de Deus e o Testemunho de Jesus Cristo.


3.Feliz o leitor e os ouvintes das palavras desta profecia, se observarem o que nela está escrito, pois o Tempo está próximo.

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Beatriz. Humberto de Campos

Bandeirante a sonhar com pedrarias

Com tesouros e minas fabulosas,

Do Amor entrei, por ínvias e sombrias

Estradas, as florestas tenebrosas.


Tive sonhos de louco, à Fernão Dias…

Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas

Selvas, o ouro encontrei, e o ônix, e as frias

Turquesas, e esmeraldas luminosas…


E por eles passei. Vivi sete anos

Na floresta sem fim. Senti ressábios

De amarguras, de dor, de desenganos.


Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,

Com o rubi palpitante dos seus lábios

E os dois grandes topázios dos seus olhos!

P


 

quinta-feira, março 20, 2025

MAR


 

A tempestade acalmada

23.Depois disso, entrou no barco e os seus discípulos o seguiram.


24.E, nisso, houve no mar uma grande agitação, de modo que o barco era varrido pelas ondas. Ele, entretanto, dormia.


25.Os discípulos então chegaram-se a ele e o despertaram, dizendo: "Senhor, salva nos, estamos perecendo!"


26.Disse-lhes ele: "Por que tendes medo, homens fracos na fé?" Depois, pondo-se de pé, conjurou severamente os ventos e o mar. E houve uma grande bonança.


27.Os homens ficaram espantados e diziam: "Quem é este a quem até os ventos e o mar obedecem?"


Mateus 8

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Prazer e Pesar. Gregório de Matos

Um prazer, e um pesar quase irmanados,

Um pesar, e um prazer, mas divididos

Entraram nesse peito tão unidos,

Que Amor os acredita vinculados.


No prazer acha Amor os esperados

Frutos de seus extremos conseguidos,

No pesar acha a dor amortecidos

Os vínculos do sangue separados.


Mas ai fado cruel! que são azares

Toda a sorte, que dás dos teus haveres,

Pois val o mesmo dares, que não dares.


Emenda-te, fortuna, e quando deres,

Não seja esse prazer em dois pesares,

Nem prazer enterrado nos Prazeres.

quarta-feira, março 19, 2025

F


 

Exigências da vocação apostólica

18.Vendo Jesus que estava cercado de grandes multidões, ordenou que partissem para a outra margem do lago.


19.Então chegou-se a ele um escriba e disse: "Mestre, eu te seguirei para onde quer que vás".


20.Ao que Jesus respondeu: "As raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça".


21.Outro dos discípulos lhe disse: "Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai".


22.Mas Jesus lhe respondeu: "Segue-me e deixa que os mortos enterrem seus mortos


Mateus 8

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Canção do Exílio. Gonçalves Dias

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.


Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.


Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.


Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.


Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.”

sábado, março 15, 2025

P


 

Diversas curas

16.Ao entardecer, trouxeram-lhe muitos endemoninhados e ele, com uma palavra, expulsou os espíritos e curou todos os que estavam enfermos,


17.a fim de se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: Levou nossas enfermidades e carregou nossas doenças.


Mateus 8

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sexta-feira, março 14, 2025

Tens no máximo dez anos para me perguntar sobre nossa convivência.

P


 

Canal de comunicação com amigos. Cerca de 500 visualizações/dia. Compartilham.

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DIAGNÓSTICO

Só resumindo em verso. O que deu naquela mulher? Foi o dinheiro ou foi Maria Chiquinha? Mulher liberta poeta ou foi só o dinheirinho? Seria o TDAH ou seria outra afecção seria outra ambição ou só autismo?

Oh Giih. Não lês meus poemas e eu te amo tanto! Oh linda mulher não vês o meu pranto. Oh loira teus cabelos enxuguem o meu pranto! Qual Maria Madalena rendo-me ao teu encanto...

E


 

P


 

quinta-feira, março 13, 2025

Quando me lembro dela balbucio meu amor

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ANTIPOEMA

sol no apogeu é meio dia, construo antipoema à sombra, os pés descalços na alfombra, óculos escuros pra que me alumia

tanto, a pele avermelha, cabelo branco já me amarela, xampu matizante azula negro agora stá qual branca areia

A


 

Ano Novo. Ferreira Gullar

Meia noite. Fim

de um ano, início

de outro. Olho o céu:

nenhum indício.


Olho o céu:

o abismo vence o

olhar. O mesmo

espantoso silêncio

da Via-Láctea feito

um ectoplasma

sobre a minha cabeça:

nada ali indica

que um ano novo começa.


E não começa

nem no céu nem no chão

do planeta:

começa no coração.


Começa como a esperança

de vida melhor

que entre os astros

não se escuta

nem se vê

nem pode haver:

que isso é coisa de homem

esse bicho

estelar

que sonha

(e luta)

terça-feira, março 11, 2025

Teria que ter acordes de violão Saudades de Matão retalhos de luar

E


 

Cura da sogra de Pedro

14.Entrando Jesus na casa de Pedro, viu a sogra deste, que estava de cama e com febre.


15.Logo tocou-lhe a mão e a febre a deixou. Ela se levantou e pôs-se a servi-lo.


Mateus 8

P


 

O PROSCENIO

Ao fim o silêncio. Nem mais um contato. Um sorriso um abraço. Final do ato o proscenio 

O palco vazio não há contra regra não há texto nem paixão. Só a mera solidão. Não há mais epopeia.

A


 

O SÓ

 ASPAS

O que morre primeiro? O homem ou o mundo ao redor?


Gene Hackman morreu antes de seu coração parar de bater.


Teve fome. Teve sede.


E ninguém veio.


E então Gene Hackman, o grande Gene Hackman, morreu. Não de doença, não de fome. Morreu de esquecimento. Qual a verdadeira morte? A do último suspiro ou a do instante em que ninguém percebe a sua falta?


Gene Hackman morreu sozinho. Um dia, todos nós estaremos solitários no momento do encontro com o nosso destino final. É inevitável. Mas para Gene a morte chegou de um jeito mais lento, mais esquecido e doloroso. Ninguém bateu à porta. Nenhum amigo ligou. Nenhum familiar estranhou a ausência.


Betsy, sua esposa, morreu primeiro. Hantavírus. Uma doença rara, transmitida pelo pó das fezes de roedores. Pouco antes ela foi à farmácia e levou o cãozinho ao veterinário. Não sabia que aquelas eram suas horas finais, que seria abatida por algo mortal carregado pela poeira invisível, das coisas que existem e não se veem. Um dia ela estava ali, no outro não. Talvez tenha passado a manhã dobrando roupas. Talvez tenha planejado o jantar. E então veio a febre, o cansaço, o nada. De repente, o fim. Fulminante, sem aviso, sem tempo para despedidas e providências.


Gene ficou sozinho, sem entender. Por sete longos dias, perambulou pela casa sem saber o que fazer, sem lembrar como agir. Aos 95 anos, o Alzheimer já havia apagado parte de sua memória e a capacidade de pedir ajuda. Talvez tenha, no fundo da mente, sentido o vazio. Talvez tenha chamado por Betsy. Mas isso não se soube ou saberá, porque ninguém estava lá.


Ninguém veio.


O que acontece quando um homem se torna invisível?


Gene Hackman foi um dos maiores atores de Hollywood. Um ícone. O rosto duro, a voz grave, o talento bruto. Interpretou presidentes, assassinos, heróis. Foi duas vezes vencedor do Oscar, amado pelo público, respeitado pelos colegas. No auge da carreira, era forte, imbatível, voz que não tremia. Mas o que isso significa quando se tem 95 anos e se está sozinho e desamparado em casa? Quando a memória se apagou, o corpo está fragilizado e os amados ausentes?


A fama é um engano que o tempo desfaz.


O que resta quando o telefone para de tocar? Quando as pessoas presumem que você não quer ser incomodado? Quando a casa grande e confortável se torna um território de esquecimento?


De que vale um nome célebre quando se está idoso, doente e só?


A solidão não chega de repente. Ela começa no dia em que ninguém mais pergunta como você está. No dia em que as pessoas supoem que você já tem tudo, que está bem. O esquecimento vem devagar. Constrói-se aos poucos, como uma casa onde ninguém entra.


Gene – que não se dava ares de celebridade – buscou se distanciar de Hollywood. Escolheu o isolamento, apostou que a esposa, trinta anos mais jovem, o assistiria até o final. Acreditou que não precisava de um cuidador, enfermeiro ou outros empregados. Porém, o que durante muito tempo foi bênção, converteu-se em armadilha. A casa grande ficou menor. O silêncio ficou maior. A porta ficou fechada.


Ninguém bateu.


E o homem um dia visto por milhões, partiu sem que ninguém olhasse.


A solidão dos que vivem muito por vezes me assusta. A velhice é um país estrangeiro e inóspito. Ninguém quer visitá-lo sem garantias e medidas de segurança, mas poucos são os que ousam pensar no que acontecerá quando os dias se tornarem longos demais e as noites silenciosas em excesso. Raros são os que tomam decisões conscientes para que a vida não se dissolva quando não houver mais reuniões de trabalho, estreias, jantares com amigos, idas ao cinema.


Recolho em mim cada lição dessa tragédia: morrer é um caminho sem testemunhas; a fama, uma ilusão que se desmancha na poeira; o sucesso, um eco que não se sustenta; e escolhas para a velhice devem considerar vários cenários, pois a vida é mutável e imprevisível. Ela nos surpreende em uma esquina qualquer, com a sua maleta transbordante de espantos.


No fim, somos casas sem luz se não há quem bata à porta.


ASPAS

P