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quarta-feira, março 18, 2026

No tempo do rola-pau. Edimilson Rocha

A fazenda Esperança, do seu Bernardo e dona Josefina, ficava em uma elevação, de frente para a Lagoa do Choro, formada pelo Rio Esfolado, a poucos quilômetros da Vila de Aparecida. A casa de alvenaria, coberta de telha, era alpendrada pela frente e pelas laterais. Tinha 3 quartos, uma sala, uma cozinha e uma despensa. No quarto do casal, um oratório com imagens de santos, principalmente a de Nossa Senhora de Fátima, santa da devoção e gratidão. Não tinham filhos. Na frente da mansão, a 300 metros, a lagoa, rasa e extensa, mas bastante piscosa, onde frequentavam bandos de pomba verdadeira, patos, marrecas, paturis, garças socós, galinha d’água e frango d’água; os peixes, eram, principalmente, curimatãs, piaus, traíras, mandis, surubins e a terrível piranha. Na lateral esquerda, o pomar, com fruteiras variadas: mangueiras, laranjeiras, goiabeiras, ateiras, pitombeiras e um frondoso tamarindeiro; mais ao fundo, a casa da farinhada e o engenho de madeira puxado a boi, para moer cana para a rapadura e o açúcar mascavo; o curral, para o gado e os apriscos, para ovelhas e bodes; as galinhas eram criadas soltas; nos fundos da casa, a roça para o milho, o feijão, a mandioca, abóboras e melancias; na lateral direita, a estrada para a vila.

Seu Bernardo e dona Josefina eram católicos fervorosos, devotos de Nossa Senhora de Fátima . Não esqueciam as graças alcançadas, quando de suas vindas de Portugal: com o navio lotado, em meio à tempestade, relâmpagos, trovões, ventania, ondas gigantes, escuridão total. Contritos em orações à imagem da santa, que traziam consigo, consideraram um milagre escaparem ilesos de tamanha tormenta. Sempre frequentavam a Vila de Aparecida, para orações na pequena capela. Ficavam encantados com a história de que a Virgem Maria havia aparecido a uma pastora , em procura de uma ovelha perdida, no local em que foi erguida a capela. Sensibilizado e em ato de pura fé cristã, resolveu doar meia légua da suas terras à santa, tendo como limites uma grande pedra , que marcou com o ferro da sua fazenda e ficou conhecida como “ pedra ferrada”, indo até uma vereda em frente à capela, que passou a ser conhecida como “ vereda da Senhora “. 

Seu João era o capataz da fazenda, escravo com cerca de 50 anos, estatura mediana, cabelos grisalhos, rosto redondo, musculoso, atitude austera, comandava uma dúzia de outros escravos, nos trabalhos da roça e cuidados com os animais. Era casado com dona Bastiana, 48 anos, cabelos escuros e cacheados, um tanto obesa, ativa e meiga, também escrava, que cuidava dos afazeres da casa, juntamente com outras serviçais. Tinham um único filho, o Praxedes ( Xexé), criado com muito carinho e zelo, paparicado por todos. Gostava, desde pequeno, de ouvir da sua mãe histórias misteriosas e mitológicas de duendes e assombrações, como: Saci Pererê, Mula sem cabeça, Boitatá, Curupira e Pé de garrafa. Ficava impressionado, com ar de credulidade naquelas fantasias. Teve uma infância livre, gozando de todas as aventuras da vida no campo, tomando leite mugido na porteira do curral, subindo em árvores, comendo frutas maduras no pomar, ajudando a descascar mandioca para a farinhada, tocando o boi no engenho para moer a cana e beber a garapa, pescando na lagoa, cuidando dos cavalos; fazendo armadilhas para pegar pássaros: alçapões, gaiolas e arapucas; caçando passarinhos com sua baladeira. Nunca havia, ainda, experimentado a espingarda bate-bucha do pai. Um dia, quando foi dar água para o cavalo do patrão na lagoa, encontrou, em uma mata fechada, um pé de castanhola com frutos caídos, roídos, e rastros de paca. Ficou empolgado, nunca havia caçado um animal de couro. À tarde, carregou a espingarda do pai com pólvora, uma bucha bem socada com a vaqueta, 5 caroços de chumbo grosso e outra bucha. Guardou na capanga espoletas e a lanterna . As pacas, ariscas, só aparecem no escuro, antes da lua sair. Cedo se posicionou em um galho de árvore com boa visibilidade, e esperou com ansiedade. Com o escurecer, os ruídos da lagoa passaram a ecoar: coaxar de sapos, cantos de marrecas, tetéus, garças e inhumas. Cada vez ficando mais apreensivo e concentrado. Ao sentir uma pisada, espingarda já com a espoleta, focou a lanterna, notou os grandes olhos luminosos da caça, sentiu um ligeiro tremor, acionou o cão, engatilhou, apontou a arma, pressionou o gatilho e disparou. O tiro saiu apartado, ecoando distante, espantando os animais; a paca fugiu; na moita próxima, um bater de asas e um grito estridente de: rola-pau! rola-pau!; um rasga-mortalha passou com seu canto agourento. Um suor frio percorreu seu corpo, pensando em alma penada; lembrou que o rio tinha o nome de Esfolado porque um homem foi assaltado em sua margem e teve seu rosto esfolado, para não ser reconhecido; e a lagoa era do Choro pelo mesmo motivo. Assustado e transido de medo, desceu depressa e rumou com pressa para casa, enfrentando garranchos e cipós. Em casa, com várias escoriações e com cara chorosa, contou para a mãe o acontecido. Após repreensões e recomendações de cuidados, feitos os curativos, sua genitora explicou-lhe o seguinte: o rola-pau é um pássaro que raramente aparece por aqui, de hábitos noturnos, vive à beira dos lagos e tem seu canto estranho que assusta as pessoas. Conta a lenda que , em tempos remotos, havia um casal com um filho. O pai, austero, trabalhava na roça de sol a sol; a mãe cuidava da casa e o temia, pois quase sempre era agredida por ele; o filho, garoto levado, por sua vez, apenhava da mãe, quando aprontava suas traquinagens. Um dia, após uma agressão, a mãe preparou o almoço do seu homem e mandou o garoto levá-lo na roça; este, com raiva da mãe, resolveu se vingar e comeu o almoço, e disse ao pai que, naquele dia, sua mãe não mandara, por pirraça, nenhuma, comida. Ao chegar em casa, o homem, faminto e enfurecido, bateu muito na mulher. O filho, escondido em uma moita, assistia a tudo contente e exclamando: haja pau! haja pau! A mãe, muito magoada, lhe rogou uma praga: ele haveria de se transformar em metade pássaro e metade menino e vagar pelo mundo nas noites escuras, assustando as pessoas. Xexé, então, prometeu à mãe, que, daquele dia em diante, ia se dedicar ao trabalho e nunca mais iria perseguir os animais.

Edmilson, 10/25.




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