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domingo, fevereiro 01, 2026

SUMA TEOLÓGICA. Página 117

 Sobre a doutrina sagrada

Questão 1: Do que é e do que abrange a doutrina sagrada

Para que fique bem delimitado o nosso intento, cumpre investigar, primeiro, qual seja a doutrina

sagrada, em si mesma, e a que objetos se estende. Sobre este assunto discutem-se dez artigos:

Art. 1 — Se, além das ciências filosóficas, é necessária outra doutrina.

(IIa IIae., q. 2, a. 3, 4; I Sent., prol., a. 1; I Cont. Gent., cap. IV, V; De Verit., q. 14, a. 10).

O primeiro discute-se assim — Parece desnecessária outra doutrina além das disciplinas filosóficas.

1. — Pois não se deve esforçar o homem por alcançar objetos que ultrapassem a razão, segundo a

Escritura (Ecle. 3, 22): Não procures saber coisas mais dificultosas do que as que cabem na tua

capacidade. Ora, o que é da alçada racional ensina-se, com suficiência, nas disciplinas filosóficas; logo,

parece escusada outra doutrina além das disciplinas filosóficas.

2. — Ademais, não há doutrina senão do ser, pois nada se sabe, senão o verdadeiro, que no ser se

converte. Ora, de todas as partes do ser trata a filosofia, inclusive de Deus; por onde, um ramo filosófico

se chama teologia ou ciência divina, como está no Filósofo. Logo, não é preciso que haja outra doutrina

além das filosóficas.

Mas, em contrário, a Escritura (2 Tm 3, 16): Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar,

para repreender, para corrigir, para instruir na justiça. Porém, a Escritura, divinamente revelada, não

pertence às disciplinas filosóficas, adquiridas pela razão humana; por onde, é útil haver outra ciência,

divinamente revelada, além das filosóficas.

SOLUÇÃO. — Para a salvação do homem, é necessária uma doutrina conforme à revelação divina, além

das filosóficas, pesquisadas pela razão humana. Porque, primeiramente, o homem é por Deus ordenado

a um fim que lhe excede a compreensão racional, segundo a Escritura (Is 64, 4): O olho não viu, exceto

tu, ó Deus, o que tens preparado para os que te esperam. Ora, o fim deve ser previamente conhecido

pelos homens, que para ele têm de ordenar as intenções e atos. De sorte que, para a salvação do

homem, foi preciso, por divina revelação, tornarem-se-lhe conhecidas certas verdades superiores à

razão.

Mas também naquilo que de Deus pode ser investigado pela razão humana, foi necessário ser o homem

instruído pela revelação divina. Porque a verdade sobre Deus, exarada pela razão, chegaria aos homens

por meio de poucos, depois de longo tempo e de mistura com muitos erros; se bem do conhecer essa

verdade depende toda a salvação humana, que em Deus consiste. Logo, para que mais conveniente e

segura adviesse aos homens a salvação, cumpria fossem, por divina revelação, ensinados nas coisas

divinas. Donde foi necessária uma doutrina sagrada e revelada, além das filosóficas, racionalmente

adquiridas.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Embora se não possa inquirir pela razão o que sobrepuja

a ciência humana, pode-se entretanto recebê-lo por fé divinamente revelada. Por isso, no lugar citado

(Ecle 3, 25), se acrescenta: Muitas coisas te têm sido patenteadas que excedem o entendimento dos RESPOSTA À SEGUNDA. — O meio de conhecer diverso induz a diversidade das ciências. Assim, o

astrônomo e o físico demonstram a mesma conclusão, p. ex., que a terra é redonda; se bem o

astrônomo, por meio matemático, abstrato da matéria; e o físico, considerando a mesma. Portanto,

nada impede que os mesmos assuntos, tratados nas disciplinas filosóficas, enquanto cognoscíveis pela

razão natural, também sejam objeto de outra ciência, enquanto conhecidos pela revelação divina.

Donde a teologia, atinente à sagrada doutrina, difere genericamente daquela teologia que faz parte da

filosofia.

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