ABRAÇO VERDE
Isto também é o Crato: um grande abraço verde. A serra abraça e é em seu colo que nos reunimos em festa. Olho em torno e há quietude. Os lugares cheios de infância seguem em mim, fraternos. Suas árvores, águas e bichos me embalam e comovem. Por aquela fresta, naquele olhar, minha adolescência ainda espia. Das histórias que me contam, parece que a terra, uma vez acolhedora, é agora a que pode trair e decepcionar. A terra, a cidade cada vez mais urbana, o rural que se esfacela. A serra, seus silêncios e sua verdade. As poucas palavras e as palavras de infinita mágoa. Deixei meu coração numa ondulação desta serra. Aqui fui eu mesma de um modo inteiro e por uma vez. Depois fiquei a me procurar, fingindo ter saído para sempre, disfarçada de estrangeira. Mas aqui estou: nos olhos que me olham e em mim, neste imenso afeto à flor da pele, nas palavras ocultas nas horas do dia, nesta agonia, neste sabor de verdade.

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