segunda-feira, março 31, 2025

Henriqueta Lisboa. Vem, doce morte

Vem, doce morte. Quando queiras.

Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens

desfilam pálidos casulos

e o suspiro das árvores - secreto -

não é senão prenúncio

de um delicado acontecimento.


Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito

espetáculo deslumbrante e inédito

de rubros panoramas abertos

ao sol, ao mar, aos montes, às planícies

com celeiros refertos e intocados.


Quando queiras. Presentes as estrelas

ou já esquivas, na madrugada

com pássaros despertos, à hora

em que os campos recolhem as sementes

e os cristais endurecem de frio.


Tenho o corpo tão leve (quando queiras)

que a teu primeiro sopro cederei distraída

como um pensamento cortado

pela visão da lua

em que acaso - mais alto - refloresça.

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