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sábado, janeiro 27, 2024

A VELHICE DO PADRE ETERNO. Guerra Junqueiro

 A VELHICE DO PADRE ETERNO

Guerra Junqueiro


AOS SIMPLES


Ó almas que viveis puras, immaculadas

Na torre do luar da graça e da illusão,

Vós que ainda conservaes, intactas, perfumadas,

As rosas para nós ha tanto desfolhadas

Na aridez sepulchral do nosso coração;

Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,

Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas,

Da luz, olhar de Deus, da luz, benção d'amor,

Que faz rir um nectario ao pé de cada abelha,

E faz cantar um ninho ao pé de cada flor;

Almas, onde resplende, almas, onde se espelha

A candura innocente e a bondade christã,

Como n'um céo d'Abril o arco da alliança,

Como n'um lago azul a estrella da manhã;

Almas, urnas de fé, de caridade, e esp'rança,

Vasos d'oiro contendo aberto um lirio santo,

Um lirio immorredoiro, um lirio alabastrino,

Que os anjos do Senhor vem orvalhar com pranto,

E a piedade florir com seu clarão divino;

Almas que atravessaes o lodo da existencia,

[10]Este lodo perverso, iniquo, envenenado,

Levando sobre a fronte o esplendor da innocencia,

Calcando sob os pés o dragão do peccado;

Bemdictas sejaes, vós, almas que est'alma adora,

Almas cheias de paz, humildade e alegria,

Para quem a consciencia é o sol de toda a hora,

Para quem a virtude é o pão de cada dia!

Sois como a luz que doira as trevas d'um monturo,

Ficando sempre branca a sorrir e a cantar;

E tudo quanto em mim ha de bello ou de puro.

―Desde a esmola que eu dou á prece que eu murmuro―

É vosso: fostes vós o meu primeiro altar.

Lá da minha distante e encantadora infancia,

D'esse ninho d'amor e saudade sem fim,

Chega-me ainda a vossa angelica fragrancia

Como uma harpa éolia a cantar a distancia,

Como um véo branco ao longe inda a acenar por mim!

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Minha mãe, minha mãe! ai que saudade immensa,

Do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.

Cahia mansa a noite; e andorinhas aos pares

Cruzavam-se voando em torno dos seus lares,

Suspensos do beiral da casa onde eu nasci.

Era a hora em que já sobre o feno das eiras

Dormia quieto e manso o impavido lebréu.

Vinham-nos das montanhas as canções das ceifeiras,

Como a alma d'um justo, ia em triumpho ao céo!...

E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,

Vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço,

[11] Eu balbuciava a minha infantil oração,

Pedindo a Deus que está no azul do firmamento

Que mandasse um allivio a cada soffrimento,

Que mandasse uma estrella a cada escuridão.

Por todos eu orava e por todos pedia.

Pelos mortos no horror da terra negra e fria,

Por todas as paixões e por todas as magoas...

Pelos míseros que entre os uivos das procellas

Vão em noite sem lua e n'um barco sem vellas

Errantes atravez do turbilhão das aguas.

O meu coração puro, immaculado e santo

Ia ao throno de Deus pedir, como inda vae,

Para toda a nudez um panno do seu manto,

Para toda a miseria o orvalho do seu pranto

E para todo o crime o seu perdão de Pae!...

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A minha mãe faltou-me era eu pequenino,

Mas da sua piedade o fulgor diamantino

Ficou sempre abençoando a minha vida inteira

Como junto d'um leão um sorriso divino,

Como sobre uma forca um ramo d'oliveira!


Ó crentes, como vós, no intimo do peito

Abrigo a mesma crença e guardo o mesmo ideal.

O horisonte é infinito e o olhar humano é estreito:

Creio que Deus é eterno e que a alma é immortal.


[12] Toda a alma é clarão e todo o corpo é lama.

Quando a lama apodrece inda o clarão scintilla:

Tirae o corpo―e fica uma lingoa de chamma...

Tirae a alma―e resta um fragmento d'argila.


E para onde vae esse clarão? Mysterio...

Não sei... Mas sei que sempre ha-de arder e brilhar,

Quer tivesse incendiado o craneo de Tiberio,

Quer tivesse aureolado a fronte de Joanna Darc.


Sim, creio que depois do derradeiro somno

Ha-de haver uma treva e ha-de haver uma luz

Para o vicio que morre ovante sobre um throno,

Para o santo que expira inerme n'uma cruz.


Tenho uma crença firme, uma crença robusta

N'um Deus que ha-de guardar por sua propria mão

N'uma jaula de ferro a alma de Lucusta,

N'um relicario d'oiro a alma de Platão.


Mas tambem acredito, embora isso vos peze,

E me julgueis talvez o maior dos atheus,

Que no universo inteiro ha uma só diocese

E uma só cathedral com um só bispo―Deus.


E muito embora a vossa egreja se contriste

E a excommunhão papal nos abraze e destrua,

A analyse é feroz como uma lança em riste

E a verdade cruel como uma espada nua.


[13] Cultos, religiões, biblias, dogmas, assombros,

São como a cinza vã que sepultou Pompeia.

Exhumemos a fé d'esse montão de escombros,

Desentulhemos Deus d'essa aluvião de areia.


E um dia a humanidade inteira, oceano em calma,

Ha-de fazer, na mesma aspiração reunida,

Da razão e da fé os dois olhos da alma,

Da verdade e da crença os dois polos da vida.


A crença é como o luar que nas trevas fluctua;

A razão é do céo o explendido pharol:

Para a noite da morte é que Deus nos deu lua...

Para o dia da vida é que Deus fez o sol.


Mas, ai eu comprehendo os martyrios secretos

Do pobre camponez, já quasi secular,

Que vê tombar por terra o seu ninho de affectos,

A casa onde nasceu seu pae, e onde os seus netos

Lhe fechariam, morto, o escurecido olhar.

Comprehendo o pavor e a lividez tremente

De quem em noite má, caliginosa e fria

Atravessa a montanha á luz d'um facho ardente

E uma rajada vem alucinadamente

Apagar-lh'o c'o'a aza athletica e sombria,

Deixando-o fulminado e quazi sem sentidos

A ouvir o ulular das feras e os bramidos

Do ciclone que explue rouco do sorvedoiro

E se enrosca furioso aos platanos partidos

A estrangulal-os, como uma giboia um toiro.


[14] Comprehendo a agonia, o desespero insano

Do naufrago na rocha, entre o abysmo do oceano,

Vendo rolar, rugir os glaucos vagalhões

Como uma cordilheira herculea de montanhas,

Com jaulas collossaes de bronze nas entranhas,

E um domador lá dentro a chicotear trovões.

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O vosso facho, o vosso abrigo, o vosso porto,

É um Deus que para nós ha muito que está morto,

E que inda imaginaes no entretanto immortal.

Vivei e adormecei n'essa crença illusoria,

Já não podeis transpôr os mil annos da historia

Que vão do vosso credo absurdo ao nosso ideal.

Vivei e adormecei n'essa illusão sagrada,

Fitando até morrer os olhos de Jesus,

Como o ephemero vão que dura um quasi nada,

Que nasce de manhã n'um raio d'alvorada,

E expira ao pôr do sol n'outro raio de luz.

Eu bem sei que essa crença ignorante e sincera,

Não é a que illumina as bandas do Porvir.

Mas vós sois o Passado, e a crença é como a hera

Que sustenta e dá inda um tom de primavera

Aos velhos torreões gothicos a cahir.

Sim, essa crença é um erro, uma illusão, é certo;

Mas triste de quem vae pelo areal deserto

Vagabundo, esfaímado e nú como Caim,

Sem nunca ver ao longe os palacios radiantes

D'uma cidade d'oiro e marmore e diamantes

No chimerico azul d'essa amplidão sem fim!

Quem ha-de arrancar pois do seu piedoso engaste

[15] O vosso ingenuo ideal, ó tremulos velhinhos,

Se a chimera é uma rosa e a existencia uma haste,

Rosa cheia d'aroma e haste cheia de espinhos!

Quem vos ha-de cortar a flor da vossa esp'rança,

Quem vos ha-de apagar a angelica visão,

Se essa luz para vós é como uma creança

Que guia n'uma estrada um cégo pela mão!

Quem vos ha-de acordar d'esse sonho encantado?!

Quem vos ha-de mostrar a evidencia cruel?!

Ah! deixemos a ave ao ramo já quebrado,

E deixemos fazer ao enxame doirado

No tronco que está morto o seu favo de mel!

Ó velhos aldeões, exhaustos de fadiga,

Que andaes de sol a sol na terra a mourejar,

Roubar-vos da vos'alma a vossa crença antiga

Seria como quem roubasse a uma mendiga

As tres achas que leva á noite para o lar!

Oh, não! guardae-a bem essa crença d'outrora;

É ella quem vos dá a paz benigna e santa,

Como a paz d'um vergel inundado d'aurora,

Onde o trabalho ri e onde a miseria canta.

Guardae-a sim, guardae! E quando a morte em breve

Vos entre na choupana esqualida e feroz,

A agonia será bem rapida e bem leve,

Porque um anjo de Deus mais alvo do que a neve

Ha-de estender sorrindo as azas sobre vós.

E vós conhecereis em seu olhar materno

Que é o anjo que emballou vosso somno infantil,

E que hoje vem do céo mandado pelo Eterno,

Para sorrir na morte ao vosso branco inverno,

Como sorriu no berço ao vosso claro Abril.


[16] E ao pender-vos gelada a vossa fronte alabastrina

Irá levar a Deus o vosso coração,

Tão manso e virginal, tão novo e tão perfeito,

Que Deus ha-de beijal-o e aquecel-o no peito,

Como se acaso fosse uma pomba divina,

Que viesse cahir-lhe exanime na mão!

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