domingo, agosto 28, 2022
9. Ética a Nicômaco
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Por este motivo, também se pergunta se a felicidade deve ser adquirida pela
aprendizagem, pelo hábito ou por alguma outra espécie de adestramento, ou se
ela nos é conferida por alguma providência divina, ou ainda pelo acaso. Ora, se
alguma dádiva os homens recebem dos deuses, é razoável supor que a felicidade
seja uma delas, e, dentre todas as coisas humanas, a que mais seguramente é
uma dádiva divina, por ser a melhor. Esta questão talvez caiba melhor em outro
estudo; no entanto, mesmo que a felicidade não seja dada pelos deuses, mas, ao
contrário, venha como um resultado da virtude e de alguma espécie de
aprendizagem ou adestramento, ela parece contar-se entre as coisas mais
divinas; pois aquilo que constitui o prêmio e a finalidade da virtude se nos afigura
o que de melhor existe no mundo, algo de divino e abençoado.
Dentro desta concepção, também deve ela ser partilhada por grande número de
pessoas, pois quem quer que não esteja mutilado em sua capacidade para a
virtude pode conquistá-la mediante certa espécie de estudo e diligência. Mas, se é
preferível ser feliz dessa maneira a sê-lo por acaso, é razoável que os fatos
sejam assim, uma vez que tudo aquilo que depende da ação natural é, por
natureza, tão bom quanto poderia ser, e do mesmo modo o que depende da arte
ou de qualquer causa racional, especialmente se depende da melhor de todas as
causas. Confiar ao acaso o que há de melhor e de mais nobre seria um arranjo
muito imperfeito.
A resposta à pergunta que estamos fazendo é também evidente pela definição da
felicidade, por quando dissemos que ela é uma atividade virtuosa da alma, de
certa espécie. Do demais bens, alguns devem necessariamente estar presentes
como condições prévias da felicidade, e outros são naturalmente cooperantes e
úteis como instrumentos. E isto, como é de ver concorda com o que dissemos no
princípio, isto é, que o objetivo da vida política é o melhor dos fins, e essa ciência
dedica o melhor de seus esforços a fazer com que os cidadãos sejam bons e
capazes de nobres ações.
É natural, portanto, que não chamemos feliz nem ao boi, nem ao cavalo nem a
qualquer outro animal, visto que nenhum deles pode participar de tal atividade.
Pelo mesmo motivo, um menino tampouco é feliz, pois que, devido à sua idade,
ainda não é capaz de tais atos; e os meninos a quem chamamos felizes estão
simplesmente sendo congratulados por causa das esperanças que neles
depositamos. Porque, como dissemos, há importante não só de uma virtude
completa mas também de uma vida completa, já que muitas mudanças ocorrem
na vida, e eventualidades de toda sorte: o mais próspero pode ser vítima de
grandes infortúnios na velhice, como se conta de Príamo no Ciclo Troiano; e a
quem experimentou tais vicissitudes e terminou miseravelmente ninguém chama fe
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