quinta-feira, maio 26, 2022
Art. 11 — Se a denominação — aquele que é — é por excelência o nome próprio de Deus. SUMA TEOLÓGICA
Art. 11 — Se a denominação — aquele que é — é por excelência o nome
próprio de Deus.
(I Sent., dist. 8, q. 1, a. 1, 3; De Pot., q. 2, a.1; q. 7, a. 5; q. 10, a. 1 ad 9; De Div. Nom., cap. V, lect. I).
O undécimo discute-se assim. — Parece que a denominação — Aquele que é — não é, por excelência,
o nome próprio de Deus.
1. — Pois, o nome de Deus é incomunicável, como já dissemos. Ora, isto não se dá com a denominação
—Aquele que é. Logo, esta denominação não é própria de Deus.
2. Demais. — Dionísio diz, que o nome de bem é manifestativo de todas as processões de Deus. Ora,
convém a Deus, por excelência, ser o princípio universal das coisas. Logo, a denominação própria de
Deus, por excelência, é a de bem e não Aquele que é.
3. Demais. — Todo nome divino parece que deve implicar uma relação com as criaturas, pois não
conhecemos a Deus senão por meio destas. Ora, a denominação — Aquele que é — não implica
nenhuma relação com as criaturas. Logo, essa denominação — Aquele que é — não é, por excelência,
própria de Deus.
Mas, em contrário, a Escritura (Ex 3, 13): a Moisés que perguntava: Se eles me disserem: que nome é
o seu? Que lhes hei-de eu responder — respondeu-lhe o Senhor: Eis-aqui o que tu hás-de dizer aos
filhos de Israel: Aquele que é me enviou a vós. Logo, é a denominação — Aquele que é — por
excelência, própria de Deus.
SOLUÇÃO. — A denominação — Aquele que é — por excelência é própria de Deus, por três razões.
Primeira, pela sua significação, pois não significa nenhuma forma, mas, o próprio ser. Ora, sendo em
Deus a existência idêntica à essência, o que não se dá com nenhum outro ser, como já demonstramos, é
manifesto que, entre outras, a denominação de que se trata é a que convém a Deus, por excelência;
pois, um ser é denominado pela sua forma.
Segunda, por causa da sua universalidade. Pois, todos os outros nomes são menos gerais, ou, se são
equivalentes à denominação vertente, contudo, acrescentam-lhe algo, racionalmente, e de certo modo
informam-na e a determinam. Ora, o nosso intelecto não pode, nesta vida, conhecer a essência mesma
de Deus, tal como ela em si é; por onde, seja qual for o modo por que determinamos o que inteligimos
de Deus, não poderemos nunca compreender o que Deus em si mesmo é. E, portanto, quanto menos
determinados e quanto mais gerais e absolutos forem certos nomes, tanto mais propriamente nós os
atribuiremos a Deus. E por isso, diz Damasceno, que de todos os nomes atribuídos a Deus, é
o principal — Aquele que é; pois, compreendendo tudo em si, exprime o ser mesmo, como uma espécie
de pélago infinito e indeterminado da substância. Ao passo que qualquer outro nome determina apenas
um aspecto da substância da coisa designada, a denominação — Aquele que é — não determina
nenhum modo de ser, porque se comporta indeterminadamente em relação a todos e, portanto,
designa o pélago mesmo infinito da substância.
Terceira, pelo que está incluído na sua significação mesma, que é o ser presente, que se atribui a Deus
por excelência, cujo ser não conhece pretérito nem futuro, como diz Agostinho.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A denominação — Aquele que é — quanto à sua origem,
é mais própria de Deus, que este último nome mesmo; pois, ela se origina do ser, tanto quanto à sua
significação, como quanto ao conteúdo desta, conforme já dissemos. Mas, quanto ao ser designado, o
nome de Deus é mais próprio, porque é usado para significar a natureza divina; se bem que mais próprio
ainda é o nome do tetragrama, imposto para significar a própria essência incomunicável, e, por assim
dizer, singular, de Deus.
RESPOSTA À SEGUNDA. — O nome de bem é o principal nome de Deus, como causa; mas, não de Deus,
considerado em absoluto, pois absolutamente falando, nós inteligimos o ser antes de inteligirmos a
causa.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Não é necessário que todos os nomes divinos impliquem relação de Deus
com as criaturas; mas, basta que sejam impostos, fundados em certas perfeições, que procedem de
Deus para elas; e entre essas perfeições a primeira é o ser mesmo, donde derivou a denominação —
Aquele que é.
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