24 de agosto de 1954.
Charles Fonseca
Pedi à professora na escola primária para ir ao sanitário. Tinha nove anos de idade. E o citado só existia a 100 metros da escola na casa do dono do cinema. Um dos poucos que no povoado possuía radio. Um Phillips holandês mais ou menos do tamanho de um fogão de quatro bocas. E em voz grave o locutor da Radio Nacional falava: - O Brasil está de luto. Getúlio morreu! Mais que depressa, voltando, corri para a escola e cochichei a notícia no ouvido da professora. –O que menino? - Isso mesmo ‘fessora’ ta dano no rádio. Pálida, ela se levantou, pediu a todos que se levantassem e disse: - Vamos rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Getulio morreu. Depois, silenciosos e em fila fomos encaminhados a, em silêncio, irmos à igreja católica para rezar. E eu não podia entrar numa igreja católica, segundo o fundamentalismo protestante de minha casa. No meio do caminho, caí fora e corri para avisar aos meus pais o ocorrido. E lá estava meu pai com os olhos rasos d’agua e me disse: - Eu já sei, meu filho. O pai dos pobres morreu. À noite, o povoado sem luz elétrica, saiu em procissão à luz de velas, silenciosos, a rezar pela alma do ditador amado. Ibicui chorou.
domingo, fevereiro 03, 2013
Vinte e quatro de agosto de 1954. Charles Fonseca.
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Uma crônica muito interessante!!! Gostei...
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