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domingo, maio 20, 2012

Lembranças: "Após 26 anos, trabalhadores são anistiados." A Tarde.


7) Após 26 anos, trabalhadores são anistiados

REPARAÇÃO Do total de 120 demitidos do Polo de Camaçari na greve de 1985, 99 receberam anistia e serão indenizados
RITA CONRADO

Vinte e seis anos depois, trabalhadores demitidos, por justa causa, do Polo de Camaçari, na greve geral de 1985, resgataram o respeito do Estado brasileiro e tiveram garantidos direitos trabalhistas subtraídos no período pós-ditadura militar. Dos 120 processos julgados pela Comissão na 54ª Caravana da Anistia, 99 foram deferidos, nove indeferidos e 12 adiados. Os trabalhadores que tiveram os processos deferidos foram anistiados, serão indenizados retroativamente e receberão uma pensão vitalícia.

Em Camaçari, na última quarta-feira, o presidente da Comissão de Anistia do Ministério de Justiça, Paulo Abrão, que veio à Bahia para julgamento desses processos na 54ª Caravana do Ministério, fez um pedido formal de desculpas aos operários que, na época, perderam o emprego e tiveramos nomes incluídos num cadastro informal que os impediu de trabalhar em empresas do ramo petroquímico e petroleiro. Desde que foi criada, em 2001, a Comissão de Anistia já julgou 60 mil processos de perseguidos políticos e promoveu reparações financeiras que tem como teto o valor de R$ 100 mil. Há, ainda, cerca de 10 mil pedidos de anistia sob análise. Quarta-feira, em Camaçari, trabalhadores e familiares de operários lotaram o teatro da Cidade do Saber, onde participaram de cerimônia que contou com relatos emocionados, como o do próprio secretário da Casa Civil do estado, Rui Costa (PT), que representou o governador Jaques Wagner (PT), ambos ex-dirigentes do Sindiquímica que participaram da greve geral de 1985.

Reivindicações

Os operários do Polo de Camaçari, o maior da América Latina, decidiram suspender as atividades por não terem atendidas reivindicações trabalhistas, mas o movimento tinha forte conotação política. “Os militares dominavam os conselhos administrativos e diretorias das empresas e o polo era considerado área de segurança nacional, assim como a região de Santo Antônio de Jesus, que abriga a Refinaria Landulfo Alves”, lembrou Rui Costa, que, depois de ser demitido por justa causa, foi também desligado de outras quatro empresas em que encontrou trabalho. “Passávamos apenas na primeira fase da avaliação, em que se mensurava as qualificações técnicas. Mas éramos afastados quando se consultava a lista negra criada adotada pelas empresas. O ex-presidente Geisel era presidente do conselho administrativo da Copene, onde trabalhei”, disse.

Como o secretário da Casa Civil, operários especializados do Polo de Camaçari foram obrigados a ingressar no mercado informal para garantir o sustento das suas famílias. “Há casos emblemáticos, como o da esposa de um trabalhador que, sem suportar perseguição ao marido e as dificuldades financeiras, chegou a atear fogo ao próprio corpo”, lembrou José Pinheiro, diretor do Sindiquímica e um dos demitidos. Para José Cristóvão do Sacramento, os vídeos apresentados no teatro na quarta-feira, que relembravam momentos da ditadura militar e a entrada da polícia no Polo de Camaçari, traz recordações dolorosas. “Muitos (operários) foram humilhados pela própria família, que não compreendiam a dificuldade que tinham para encontrar um emprego”, ressaltou, lembrando que ele e oito companheiros chegaram a ir para Alagoas. “Dois meses depois, pediram a nossa cabeça”, recorda.

A única ajuda aos operários vinha de um fundo criado para ajuda-los e às famílias. O dinheiro era recolhido entre os que conseguiram ficar no emprego e era recolhido pelo sindicato na porta das fábricas”, diz José Cristóvão. Recursos do sindicato também era aplicado na ajuda a exilados políticos que retornavam ao País.

COLABOROU CAROL AQUINO


Jornal A Tarde - Bahia
8) ‘Perseguição começounos anos 80’

Parceiro do evento, o Grupo Tortura Nunca Mais, presente na figura do seu presidente na Bahia, Joviniano Neto, reconhece a anistia política dos trabalhadores demitidos do Polo de Camaçari como a reparação a uma perseguição militar que teve o apoio de empresários e políticos. “Mesmo quando a ditadura formalmente havia acabado, continuaram a manter o conflito entre capital e trabalho, demonstrando traços da mentalidade escravocrata, dentro dos costumes da ditadura”, disse Joviniano. “Perseguições que começaram na década de 1980, tiveram maior impacto na repressão à pioneira greve do Polo em 1985 e prosseguiram após esse ano”, acrescentou. O julgamento dos processos ocorreu, na última quarta-feira, no teatro da Cidade do Saber (Camaçari), diante de trabalhadores e familiares. “Poderíamos fazer isso em Brasília, mas as sessões itinerantes promovem o debate público junto às comunidades, onde as violações foram produzidas”, disse o presidente da Comissão da Anistia, Paulo Abrão.

“É dever do Estado promover a reparação moral e econômica a esses trabalhadores que resistiram à ditadura, num período de restrição de
20 anos às liberdades individuais. Um gesto exemplar ”, afirmou Abrão.

Movimento histórico

Participaram da abertura dos trabalhos a prefeita de Lauro de Freitas, Moema Gramacho (PT), ex-dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Química, Petroquímica, Plástica e Farmacêutica (Sindiquímica), o prefeito de Camaçari, Luiz Caetano (PT), o presidente do memorial Pró-Mariguela, Carlos Augusto Mariguela, e representantes do Ministério Público Federal, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Ouvidoria Geral do Estado, além do secretário estadual do Planejamento, Zezéu Ribeiro (PT). “A greve dos trabalhadores do Polo em 1985 foi o movimento de massas mais significativo da história da Bahia”, assinalou Zezéu.

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