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sábado, fevereiro 11, 2012

O laguinho. Nilsa Augusta. Prosa

O laguinho
( Nilsa Augusta)

Temos um laguinho no quintal.
É interessante observar o movimento dos peixes e seu comportamento. Atualmente, são muitos peixes e de tamanhos variados. Já tivemos até um tambaqui que foi presenteado ao meu marido por um amigo. Este peixe tinha hábitos peculiares: de dia mantinha-se imóvel num canto do lago. À noite ele reinava e da minha cozinha sentíamos o barulho de seus mergulhos. Temos carpas e limpa- fundos que hoje, atingem uns três quilos. Muitos momentos mágicos este lago tem me proporcionado.
Lembro-me de um japonês, macho, com uma cauda maravilhosa que subia para que eu lhe acariciasse a cabeça...e eu me perdia de amores por ele...Já tive, até, o prazer de ver duas molinésias darem cria. Esse peixe não põe ovos, é parto mesmo.Os peixinhos já saem nadando e os demais lutam para comê-los.Cercando a mãe, esperando por mais. Certa vez conseguimos salvar dois e os mantivemos em berçário, isolados.
O que me levou a falar do lago, segue agora. Havia um casal de peixes grandes, prateados com uma listra comprida azul e pintas azuladas, medindo quase dez cm de comprimento. Esse casal vivia nadando , sempre, lado a lado, um protegia o outro e tinham um movimento bastante sincronizado.
De vez em quando, o casalzinho entrava em crise conjugal, pasmem!... O lago inteiro entrava em reboliço; cada qual se escondia como podia. Até o shark, maior que eles e de temperamento mais agressivo, se enfiava no fundo do lago aguardando a paz reinar novamente.
Os discos, mais lentos, tornavam-se rápidos para se alojarem... A briga era fenomenal. O lago se tornava barulhento, a água chacoalhava inteira e as plantas eram quase totalmente arrancadas. Algumas iam para o lixo, tal o estrago. Cada um se punha numa ponta do lago e de repente, um avançava contra o outro. Às vezes, conseguiam se pegar. Davam rabadas um no outro e mordidas e infeliz de quem estivesse no meio do caminho. Chegaram a matar um sumatra, conhecido pela curiosidade e agressividade. Depois de algumas horas de contenda, de repente, o casal fazia as pazes, e novamente juntos, a paz se restabelecia até a próxima briga...
Há um mês, a fêmea apresentou-se meio adoentada e o macho cuidou dela, inclusive indo buscar a comida no topo do lago e, através de um "beijo", repassava o alimento para a fêmea. Durante dois dias montou guarda, no cantinho em que ela se colocou. Mas, infelizmente, ela morreu. O macho ficou totalmente desorientado.Rodava pelo lago o dia inteiro, de cima a baixo, de lado a lado, super apressado, estressado e agressivo com os demais.
Há uma semana ficou mais tranqüilo. Nadava normalmente mas, não comia mais. Na hora em que era colocada a ração, ele optava pelo fundo do lago, no mesmo local onde sua companheira tinha escolhido ficar. Aguardava a ração terminar para subir novamente. Perdeu o brilho, a listra azul e as pintas ficaram opacas.Ontem, ele se foi...
Optou pela morte? Nesse caso, não posso dizer que peixes não raciocinam. Aprendemos que o instinto animal é pela sobrevivência, mas, por sentir falta da companheira, ele vai contra o próprio instinto e, inteligentemente, deixa de se alimentar. Como entender esse tipo de lógica, considerada tão humana, em um písceo?
Já vi casais humanos tão unidos que, quando um dos companheiros parte o outro perde totalmente a vontade de continuar e, em pouco tempo, também se vai. Entretanto, é a primeira vez que presencio essa situação em outro reino animal.
Eu, particularmente, só reforcei minha teoria, que por sermos "humanos"achamos e explicamos tudo a partir do nosso comportamento, mas, a natureza é a mesma em todos os reinos. Se assim não fosse, como explicar o comportamento do meu peixinho? Como explicar seus cuidados em alimentar a companheira
carregando o alimento na própria boca? Como explicar seu suicídio? Não conseguiu viver sem a companheira ou entrou em depressão pela falta dela? Deixou de se alimentar por tristeza ou porque perdeu a vontade viver?
Como não temos acesso a essas respostas e estamos tão voltados para nosso próprio egoísmo de "únicos", não prestamos atenção, ou mesmo,
não valorizamos e nem compreendemos a natureza como um todo.

É fim de tarde . Momento em que alimentamos nossos peixinhos.Confesso que por algum tempo, o lago não me trará muito encanto. Mas, por certo, outras oportunidades gratificantes de observar o AMOR surgirão e, o laguinho receberá, novamente, todo o encantamento que esse sentimento encerra...

Nilsa Augusta dos Santos Quintas.

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