OS DOMINGOS
Paulo Mendes Campos
Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a
sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde
transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das
cores, preciosas andorinhas.
Na tarde - lembro - uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer
pela beleza.
Domingo - lembro - era o instante das pausas,
O pouso dos
tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de
carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da
encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras
geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a
rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas
caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As
crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os
suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando
palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.
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terça-feira, outubro 04, 2011
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