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domingo, setembro 20, 2026

O QUERERES. Caetano Veloso.

Onde queres revólver, sou coqueiro

E onde queres dinheiro, sou paixão

Onde quer descanso, sou desejo

E onde sou só desejo, queres não

E onde não quero nada, nada falta

E onde voas bem alta, eu sou o chão

E onde pisas o chão, minha alma salta

E ganha liberdade na amplidão


Onde queres família, sou maluco

E onde queres romântico, burguês

Onde queres Leblon, sou pernambucano

E onde quer eunuco, garanhão

Onde queres o sim e o não, talvez

E onde vês, eu não vislumbro razão

Onde o quer o lobo, eu sou o irmão

E onde quer cowboy, eu sou chinês


Ah, brutal flor do querer

Ah, brutal flor, brutal flor


Onde quer o ato, eu sou o espírito

E onde quer ternura, eu sou tesão

Onde quer o livre, decassílabo

E onde busca o anjo, sou mulher

Onde quer prazer, sou o que dói

E onde quer tortura, mansidão

Onde quer um lar, revolução

E onde quer bandido, sou herói


Eu Queria querer-te amar o amor

Construir-nos dulcíssima prisão

Encontrar a mais justa adequação

Tudo métrica e rima e nunca dor

Mas a vida é real e é de viés

E vê só que cilada o amor me armou

Eu te quero e não quero como sou

Não te quero e não quero como és


Ah, brutal flor do querer

Ah, brutal flor, brutal flor


Onde quer comício, flipper-vídeo

E onde quer romance, rock'n roll

Onde quer a Lua, eu sou o Sol

E onde a pura natura, o inseticídio

Onde queres mistério, eu sou a luz

E onde quer um canto, o mundo inteiro

Onde queres quaresma, fevereiro

E onde queres coqueiro, eu sou obus


O quereres estares sempre a fim

Do que em mim é de mim tão desigual

Faz-me querer-te bem, querer-te mal

Bem a ti, mal ao quereres assim

Infinitivamente pessoal

E eu querer querer-te sem ter fim

E, querendo-te, aprender o total

Do querer que há, e do que não há em mim

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