Júlio Machado |
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ÂNGELUS
Sob o sono dos sinos, silente,
o caminho velho,
de ferro entre os telheiros.
Telégrafos telégrafos telégrafos
de interrompidos fios, hirtos
restos de renda, sem bilros.
Moleza discreta de insetos,
frios no chão de areia
ou sob o oco da madeira:
dormentes, urupês, orelhas.
Apenas, leves, borboletas,
amarelo sobre a ausência de cabeças,
o prisco rasgo de céu azul,
sem sutilezas.
O viés ameno de um vento,
o obrar em esculturas de esterco
seco, em alto e baixo
relevo.
Muro branco de azulejos,
pele de reboco entre avenca
e fendas, resguardo do que foi,
se já não era. Heras.
Heras.
Bocejo ao longe,
parco fôlego em carvão e bronze
do último trem, que não viera.
Um resto de banco, o chicote, o colchete,
bota e esporas do estafeta,
cuja boca, que hoje escarra,
já não beija.
E um medo em mim,
que vejo, de que a vida
isso mesmo (e só)
seja.

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