PAPEL PASSADO
Libério Neves
Se, por acidente, moléstia ou velhice, algum dia eu
vier a ver-me (resto) imóvel no lençol, a depender, por
caridade ou pelo amor, do vosso gesto difícil, esse
gesto de lavar meus panos de matéria e de limpar os
meus resíduos deste mundo, assim constantemente
no cotidiano de uma lenta espera do expirar de tudo,
isto será profundo para vós e doloroso para mim.
E certamente é certo que não terei palavras, nem
gestos, para vos agradar; é certo que os meus olhos
lá serão de piedade, olhando as vossas fisionomias
desanimadas olhando-me nos panos, e sofrereis
demais e eu bem mais desesperadamente.
Antes que isto porventura ou positivamente ocorra,
lavro a declaração presente, antecipada, de que
no quando (eu) assim restar, imovelmente mudo,
contudo ainda vivo, estarei a todo instante, em
mente, beijando as vossas mãos em mim santifi-
cadas, nessa final humilhação do corpo, essencial
talvez à filtração da alma.
domingo, março 01, 2020
PAPEL PASSADO. Libério Neves. Poesia
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