CELEBRAÇÃO DAS MARÉS
Alexandre Bonafim
III
Do poema nada nos resta
a não ser essa viagem
rumo aos mares,
esse gosto de naufrágio
ao findar das paixões,
esse astrolábio partido.
O poema,
peixe cego,
barco amputado,
nada nos ensina,
em nada modifica
a força das marés.
Rastro de espuma
na pele dos acasos,
o poema finca as âncoras
no sal, na eternidade,
onde nossas ausências
ardem o grito dos corais.
O poema é nudez precária,
procela sem ventos, sem nuvens.
Quando nele adormecemos,
acordamos com os ossos fraturados,
vergastados pelas maresias.
O poema é tão inútil
quanto o mar ao fim da tarde.
Por isso seu esplendor é límpido
como a beleza do silêncio.
quinta-feira, setembro 12, 2019
CELEBRAÇÃO DAS MARÉS. Alexandre Bonafim. Poesia.
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