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sexta-feira, junho 14, 2019

Suma Teológica. Art. 6 — Se esta doutrina é sabedoria.

Art. 6 — Se esta doutrina é sabedoria.
(I Sent., prol., a. 3, qI, 3; II Cont. Gent., cap. IV)
O sexto discute-se assim — Parece que esta doutrina não é sabedoria.
1. Pois nenhuma doutrina que receba de outra os seus princípios, merece o nome de
sabedoria, cabendo ao sábio ordenar e não ser ordenado, como diz Aristóteles. Ora, esta doutrina
recebe de outra os seus princípios, como do sobredito aparece (a. 2). Logo, não é sabedoria.
2. Demais — À sabedoria compete provar os princípios das outras ciências, por onde é chamada cabeça
das demais, como se vê no Filósofo. Ora, não justifica esta doutrina os princípios das outras ciências,
nem é, portanto, sabedoria.
3. Demais — Adquire-se esta doutrina pelo estudo, mas recebemos a sabedoria por infusão, e, por isso,
se conta entre os sete dons do Espírito Santo, como se vê na Escritura (Is 2,2). Logo, esta doutrina não é
sabedoria.
Mas, em contrário, a Escritura (Dt 4, 6): Porque nisto mostrarei a vossa sabedoria e inteligência aos
povos.
SOLUÇÃO. — De toda a sabedoria humana, é esta doutrina a mais alta, não relativa, mas
absolutamente. Pois sendo próprio do sábio ordenar e julgar, e, pela causa mais alta, considerar as
inferiores, sábio se chama, em qualquer gênero, quem lhe atende à altíssima causa. Assim, no tocante à
construção, o artífice que traça a planta da casa é chamado sábio e arquiteto, em relação aos operários
inferiores, que aplainam a madeira e preparam as pedras; donde o dito da Escritura (1 Cor 3,10): Lancei
o fundamento como sábio arquiteto. Também, no que respeita à vida humana em conjunto, é o
prudente chamado sábio, enquanto ordena os atos humanos ao fim obrigatório; donde outro dito da
Escritura (Pr 10, 23): A sabedoria é, para o homem, prudência. Quem, portanto, considera a causa
absoluta mais alta do universo, que é Deus, deve ser chamado sábio por excelência. Pelo que também
se define a sabedoria conhecimento das coisas divinas, como se vê em Agostinho. Ora, o próprio da
sagrada doutrina é considerar a Deus, causa altíssima, não só enquanto cognoscível por meio das
criaturas — o que souberam os filósofos, como diz a Escritura (Rm 1, 19): O que se pode conhecer de
Deus lhes é manifesto — senão também naquilo que só ele de si mesmo conhece e foi aos outros
revelado e comunicado. Por isso, tal doutrina em sumo grau merece o nome de sabedoria.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Não recebe a sagrada doutrina os seus princípios de
nenhum saber humano, senão da ciência divina, a qual regula todo o nosso conhecimento, a título de
suprema sabedoria.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Os princípios das demais ciências ou são por si evidentes, e não podem ser
provados; ou se demonstram noutra ciência por algum motivo natural. Porém, o conhecimento próprio
desta ciência assenta na revelação, e não em premissas naturais. Donde, não lhe cabe provar os
princípios das outras ciências, mas só julgá-las; porque tudo o que nelas repugnar à verdade desta,
condena-se, de vez, como falso, segundo o Apóstolo (2 Cor 10, 4-5): Derribando os conselhos e toda a
altura que se levanta contra a ciência de Deus.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Por ser o juízo próprio do sábio, e por haver dois modos de julgar, deve a
sabedoria ter dois sentidos. O primeiro modo de julgar é por inclinação: por exemplo, quem tiver bons
costumes, por atração da virtude, pode com acerto julgar dos atos que se devem praticar moralmente.
Por isto está em Aristóteles: o virtuoso é medida e regra dos atos humanos. — O segundo modo é pelo
conhecimento: como o instruído na ciência moral poderia julgar dos atos de virtude, mesmo se a não
tivesse. Ora, o primeiro modo de julgar as coisas divinas pertence à sabedoria enquanto dom do Espírito
Santo, segundo a Escritura (1 Cor 2,15):O espiritual julga todas as coisas; e Dionísio: Hieroteu é douto,
não só por aprender mas, antes, por sentir as coisas divinas. O segundo modo de julgar é próprio desta
doutrina, enquanto se adquire por estudo, embora sejam os princípios recebidos pela revelação.

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