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segunda-feira, junho 01, 2015

Nossa única certeza. Gabriel Tebaldi. Política

Nossa única certeza
Gabriel Tebaldi

No Brasil, assassino é defendido como vítima da sociedade, "menor em conflito com a lei", criança que não sabe o que faz
O Brasil é um projeto que deu errado. Essa é a inevitável constatação quando debatemos a sociedade, nos envolvemos em polêmicas e percebemos que a intolerância e o desprezo pela verdade viraram rotina.

Nesse Brasil fracassado há um médico de nome Jaime Gold. Cardiologista, trabalha no hospital de Fundão, no Rio de Janeiro, onde atende a população pobre numa estrutura em ruínas. Diariamente recebe bandidos baleados, esfaqueados ou agredidos de toda forma, salvando a vida de quem tira outras.

Os dias de Jaime são dedicados a cirurgias em quem a sociedade preferia ver morto. Ao contrário, porém, o médico acredita que sua função é melhorar a vida das pessoas, e não ser o juiz delas. Assim, se suja de sangue e passa horas numa ação que nem sequer será agradecida.

Jaime é mais um dos milhares de médicos que dão duro, fazem seu melhor e vivem o inacreditável no trabalho. É um dos milhares que a tantos salva em silêncio enquanto os hipócritas gritam discursos sociais que não transformam ninguém. E como milhares de médicos, Jaime sai da periferia, chega em casa e lê “especialistas” dizendo que os médicos são uma elite corporativista.

Ao abrir a Folha, se depara com Bráulio Luna, médico PHD e livre docente da USP dizendo que “os filhos da elite não atendem pobres e atuam onde vão ganhar mais”. Na mesma reportagem, Gold lê que o “perfil dos médicos” é de “brancos que nunca trabalharam”. Cansado, pensa no dia que passou e se questiona em que mundo vivem os especialistas. Depois de cuidar dos outros, resolve cuidar de si. É aí que pega a bicicleta e vai pedalar.

No país atolado no poço, o ciclista lembra que o governo recomenda o “uso de bicicletas velhas e baratas” para não atrair bandidos. Pedalando próximo à lagoa, Jaime é esfaqueado por um jovem de 16 anos com 15 passagens pela polícia. Considerado uma “criança” pela lei, o menor deixa o médico no chão enquanto foge com a bicicleta.

A facada acerta Jaime abaixo do peito. Desorientado, é socorrido por uma ambulância que leva o médico “da elite” para o hospital público. Resta-lhe, agora, torcer para que lutem por sua vida do mesmo modo que ele lutou pela de tantos. Mas o destino é cruel: aquele que com suas mãos livrou bandidos da morte, é morto pelas mãos de um bandido.

Com a vida ceifada, Jaime não tem tempo para ver o absurdo que lhe sucede. Logo a lei frouxa é acompanhada pela opinião de quem inverte a razão e enxerga o mundo com suas ideologias. Aí o assassino é defendido como vítima da sociedade, “menor em conflito com a lei”, criança que não sabe o que faz.

Eis que o Extra dá outra facada com a manchete “Sem família e sem escola”. Para o jornal, o pobre menor foi abandonado pelo pai e expulso da escola, o que explica suas ações. Nas palavras de Eduardo Goldenberg, árduo defensor dos Direitos Humanos, o menor atacou Jaime “como se cravasse a faca na sociedade que tudo lhes nega; na polícia que os aterroriza; no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva”.

Por alguma razão Jaime torna-se culpado pela colonização, pela crise familiar, pela exclusão social dos negros e pelas desgraças de seu assassino. Enquanto isso a mãe do menor diz que “o jovem de bolso vazio vai roubar”, como se pobreza e criminalidade fossem indissociáveis.

Curioso observar que o “menor abandonado” mora num apartamento do Minha Casa Minha Vida, está matriculado no Ciep, numa academia popular de judô e conta com o Bolsa-Família de sua mãe. O jovem, portanto, é sustentado pelos nossos impostos; pelos impostos de Jaime; e nós somos os culpados?

Reinaldo Azevedo resume: “O lixo moral dos nossos dias é asqueroso e impõe ao homem comum, que trabalha, que estuda, que luta para ganhar a vida, a pergunta permanente: ‘O que você pode fazer em benefício daquele que aponta um arma contra a sua cabeça? Onde está a sua culpa na facada que você levará um dia?’”.

Nosso projeto falido de país criminaliza a decência e permite que jovens zombem da lei, da polícia e até dos que lhe abraçam. Vítimas se tornam algozes e assassinos são vitimizados. Ontem foi Jaime; amanhã, outro de nós. E no futuro incerto, a impunidade é nossa única certeza.

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