UMA ANÁLISE PSIQUIÁTRICA DO ASSASSINO DO CARTUNISTA GLAUCO, QUE AGORA, SOLTO PELA JUSTIÇA, ASSASSINOU DE NOVO.
Marcelo Caixeta, médico psiquiatra
Quando era para soltar o Cadú, assassino do cartunista Glauco e de seu filho, em SP, eu fui na mídia e avisei, não vai dar certo. Por exemplo, fui no programa do Oloares Ferreira, Balanço Geral, Rede Record, e discorri ao vivo. Cito os motivos abaixo:
1) o diagnostico dele era de esquizofrenia, eu não concordava. Como ele ficou em dois hospitais psiquiátricos em Goiânia, tive acesso a dados médicos dele, que mostravam que não tinha comportamento de doente esquizofrênico ( em 35 anos de psiquiatria pesada - estudada e experienciada - nunca vi um “esquizofrênico” com comportamento tão “legal” e descolado - talvez seja o primeiro ) . Era bem articulado, era universitário, fazia Direito, depois Gastronomia, namoradas, , amigos, saído, sociável, ativo, falava bem, tinha bom contato ( nada disto o doente esquizofrênico tem ) .
2) No recente latrocínio que ele cometeu, saiu de casa para “tocar o terror”, estava dirigindo, estava com comparsa, tentaram empreender fuga, esconder o crime, depois mitigar o crime, ou seja, atitudes planejadas, ativas, pragmáticas, teleológicas ( com um objetivo ) que não são , de modo algum , típicas de um crime esquizofrênico ( falo isto com a experiência e conhecimento de um médico especializado em psiquiatria forense, especialista ainda não consultado em Goiânia, onde parece que a polícia só dispõe de “psicólogos forenses” ).
3) O crime esquizofrênico é aquele onde o paciente, que não sai de casa, o tempo todo recluso, não trabalha, não interage, ouve uma voz que diz : “sua mãe é o diabo, está obrigando você a fazer coisas com seu corpo, quer transar com você, está influenciando seu cérebro com um chip que ela instalou lá”.
4) Ou então, daquele esquizofrênico andarilho que, totalmente alheio da sociedade, trabalho, namorada, faculdade, amigos, etc, sem pragmatismo, ouve uma voz, tem um “domínio do diabo sobre o seu corpo” : “jogue uma pedra na cabeça daquela mulher do outro lado da calçada”. Isto é crime esquizofrênico.
5) no caso de Glauco, ao que parece, Cadú desentendeu-se por causa do uso de substâncias psicoativas, maconha ou “Chá-do-Santo-Daime” que ele foi buscar junto ao cartunista. Não deu certo, não se sabem os motivos, houve discussão, briga, assassinato em várias etapas ( prendeu o cartunista, pegou o revólver dele, teve “tempo para raciocinar”). Tentou fugir, esconder o fato, negar, etc. Portanto, mais uma vez, um crime sem a característica impulsividade, apragmatismo, esquizofrênico. É absurdo o diagnostico de esquizofrenia só por causa de delírios, só por causa de “vozes”, só por causa de impulsividades, só por causa de “agressividade aparentemente não-motivada”, pois a maioria das doenças psiquiátricas dá isto.
6) portanto, a hipótese mais provável é a de uma doença bipolar, que predispõe para a toxicomania, dependência química, e esta, lesando o cérebro, vem piorar a doença bipolar.
7) Cadú, saiu da cadeia com o “diagnóstico e tratamento” para esquizofrenia, isto já era um indício de que não iria dar certo. Na minha opinião , a doença era outra, requereria outro tratamento.
8) Outro problema é o tipo de tratamento que recebeu, em Caps. A maioria dos Caps não conta com médicos psiquiatras, por não querer pagar o suficiente, governos contratam para Caps médicos clínico-gerais, não especializados, que comumente não conseguem fazer face à casos psiquiátricos complexos e difíceis como este.
9) O desfecho da tragédia mostra que ele não estava controlado psiquiátricamente, mostra que ele estava ( continuava ) usando drogas. Será que a Justiça recolhia relatórios médicos constantemente ? Os relatórios diziam que ele estava bem ? Estava sendo visto por médico especialista em psiquiatria forense? Ao menos especialista em psiquiatria ? Fazia regulares testes de screening para toxicologia ? (uso de entorpecentes ). Muito provavelmente a resposta é não, o que compromete todo o prognóstico, culminando com desfechos fatais como este, ao meu ver, um “erro governamental-médico-judiciário crasso”, erro que, ao contrário de erros médicos, não são punidos com cassação de diplomas. Sabe-se , aliás, que a máxima punição que um juiz pode receber é a aposentadoria com recebimento de seu salário....
10) O Governo, motivado e animado por grupos de Direitos Humanos, psicólogos, promotores ou juízes humanistas, vem negando a necessidade de “manicômios judiciários” ( aliás, até os hospitais psiquiátricos comuns eles vêm fechando, imaginem os hospitais judiciários de segurança...) ( o que havia em Goiás, novinho em folha, nunca chegou a funcionar ). Cadú precisava estar sob diagnóstico, tratamento, vigilância, em hospital psiquiátrico de segurança, com médico psiquiatra forense. Nada disso havia em seu tratamento, mais um motivo de tragédia anunciada. Em toda área governamental dá para engambelar, até decisões jurídicas nos supremos tribunais são “engambeladas” com casuísmos, achismos, recursividade infinita, como se viu no “mensalão” e outras “pizzas mais” . No entanto, em medicina, quando se engambela é isto aí : morte.
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Marcelo Caixeta, médico psiquiatra
quinta-feira, setembro 04, 2014
UMA ANÁLISE PSIQUIÁTRICA DO ASSASSINO DO CARTUNISTA GLAUCO, QUE AGORA, SOLTO PELA JUSTIÇA, ASSASSINOU DE NOVO. Marcelo Caixeta. Psiquiatria, Medicina
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