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quarta-feira, setembro 10, 2014

Desejo de desejo. Djulia Justen. Psicanálise

Desejo de desejo
Djulia Justen

Desejo é uma palavra mágica. Ela aparece desde os contos infantis até naquilo que corremos atrás para realizar a cada dia. O que nos move é o desejo, ainda que não saibamos sobre ele. Ao fazer uma escolha, por menor que seja, está em cena um desejo.

Parece tão fácil dizer “meu desejo é...”, mas ao tentar completar a frase várias perguntas surgem. O que eu quero hoje é o mesmo que vou querer amanhã? Por que desejo determinada coisa? Qual é o traço do desejo na minha história? Por que corro tanto atrás de realizar algo e quando chego perto parece que não era aquilo que eu queria? Por que sempre fica aquele gostinho na boca de que falta algo mais quando um desejo se realiza? Por que quanto mais me esforço para realizar meu desejo algo sempre dá errado e acontece o contrário do que eu esperava? E aquela questão que sempre retorna: qual é o meu desejo? Qual é o desejo da mãe? O que deseja um filho? O que deseja uma mulher? São perguntas constantes em cada movimento que fazemos para encontrar satisfação em nossas vidas, seja profissional ou erótica.

A série Desejo de desejo toma como pano de fundo essas questões para apresentar temática do desejo em psicanálise no nosso cotidiano. Com esse conjunto de pequenos textos, não buscamos dar uma resposta, mas sim lançar mais questões sobre este ser errático e obscuro que é o desejo.


O que nos constitui: o desejo do Outro

Somos desejados antes de nascer. Antes mesmo que um pequeno gérmen de vida se aloje na barriga da mãe, há um projeto de uma criança na mente dos pais. Quando o pequeno ser de fato começa a se formar, já estão escolhidos nomes, profissões, gostos e o que poderá ter de parecido de cada um dos pais. Essas pequenas coisas tão importantes, que aparecem antes e depois do nascimento de uma criança, são as inscrições do desejo dos pais.

A primeira formulação de Lacan sobre o desejo é “o desejo do homem é o desejo do Outro.” Quem é este Outro? É o Outro primordial, a mãe, os pais. É através do desejo deles, por serem sujeitos que algo está falta, por não serem completos, por desejarem é que possibilitam à criança o acesso ao desejo. Portanto, para desejar é preciso ser desejado por este Outro primordial que está em falta, que não é completo e por isso deseja.

No seu desamparo, a criança precisa de cuidados. Ela depende da assistência dos pais para ser alimentada, saciada, vestida e amada. Assim, os pais ocupam um lugar primordial para a criança: os pais são aqueles que podem realizar o que ela ainda não consegue e ela os ama profundamente. Assim, a criança quer ser o que os pais desejam. Ela procura ocupar o lugar de ser o que completa os pais. Mas, no meio de querer ser o que eles desejam, a criança se questiona sobre algo que está além desse lugar almejado por ela. Há algo que aparece nos ditos dos pais que a instiga a formular a seguinte pergunta: “eles me dizem isso, mas o que é que eles querem?” Existe algo para além do que os pais dizem que querem. Eles desejam alguma coisa que não só a criança. Por mais importante e de imenso valor que seja um filho para os pais, há algo que eles buscam além da criança: o trabalho, o estudo, o amor entre os pais. É aí que entra em cena essa falta que é o desejo. É por ver que os pais estão em falta que a criança se nota como um ser em falta, que pode desejar outra coisa e saber que não é possível satisfazer e completar os pais.

Não desejamos uma coisa qualquer, o que quer que seja. Nosso desejo tem como base a vivência que tivemos com nossos pais, do que eles fizeram na vida, do que eles se ocuparam. Não é um desejo único e original, uma criação nossa, mas sim um desejo que está enraizado naquilo que o Outro, no lugar dos pais, desejou. Não nos é possível negar nossas origens. O que desejamos vem de longe e está conosco: está na água em que nos banhamos, está no lugar de onde viemos, está na nossa história.

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