CÁLICE
Chico Buarque
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de
mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de
sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a
labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se
escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da
outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força
bruta
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse
cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como
é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um
grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me
atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer
momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai, afasta de mim esse
cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De
vinho tinto de sangue
De muito gorda a porca já não anda
De muito
usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra
presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa
vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da
cidade
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse
cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de
sangue
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato
consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio
veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu
juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguem me
esqueça
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
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