sábado, julho 08, 2017

Um índio. Caetano Veloso. Poesia

Um Índio 
Caetano Veloso

Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante 
de uma estrela que virá numa velocidade estonteante 
e pousará no coração do hemisfério sul 
na américa num claro  instante 
depois de exterminada a última nação indígena 
e o espírito dos pássaros das fontes de água límpida 
mais avançado que a mais avançada 
das mais avançadas das tecnologias 
virá impávido que nem Muhamed Ali 
virá que eu vi 
apaixonadamente como Peri 
virá que eu vi 
tranqüilo e infalível como Bruce Lee 
virá que eu vi 
o axé do afoxé,  Filhos de Gandhi 
virá  
um índio preservado em pleno corpo físico 
em todo sólido , todo gás e todo líquido 
em átomos, palavras, alma, cor, 
em gesto, em cheiro, em sombra, 
em luz, em som magnífico 
num ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico 
do objeto sim resplandecente descerá  o índio 
e as coisa que ele dirá , fará não dizer  
assim de de um modo explícito 
virá impávido que nem Muhamed Ali 
virá que eu vi 
apaixonadamente como Peri 
virá que eu vi 
tranqüilo  e infalível como Bruce Lee 
virá que eu vi 
o axé do afoxé,  Filhos de Gandhi 
virá  
 

e aquilo que nesse momento se  revelará aos povos 
surpreenderá  a todos não por ser exótico 
mas pelo fato de poder estar sempre 
estado oculto quando terá sido o óbvio