segunda-feira, maio 15, 2017

Se a doutrina sagrada é uma só ciência. Suma Teológica. São Tomás de Aquino

Art. 3 — Se a doutrina sagrada é uma só ciência.
(I Sent., prol., a. 2, 4)
O terceiro discute-se assim — Não parece uma só ciência a doutrina sagrada.
1. — Pois, como diz o Filósofo, cada ciência se ocupa com um só gênero de objetos. Ora, criador e
criatura, objetos da doutrina sagrada, não pertencem ao mesmo gênero. Logo, não é uma só ciência a
doutrina sagrada.
2. — Ademais, a doutrina sagrada trata dos anjos, das criaturas corpóreas e dos costumes humanos, se
bem tais assuntos respeitem a ciências filosóficas diversas. Por onde, não é uma só ciência a doutrina
sagrada.
Mas, em contrário, a ela se refere a Sagrada Escritura no singular, quando diz (Sb 10, 10): E lhe deu a
ciência dos santos.
SOLUÇÃO. — É só uma ciência a doutrina sagrada. Pois, da potência, como do hábito, deve-se
determinar a unidade pelo respectivo objeto, considerado na ideia formal e não materialmente. Assim:
homem, asno e pedra convêm num só conceito formal de cor, objeto da potência visiva. Ora,
considerando a Sagrada Escritura vários assuntos como divinamente revelados, conforme dissemos
antes (a. 1 ad 2), todas as coisas divinamente reveláveis comunicam num só conceito formal do objeto
desta ciência. Donde as abrange a doutrina sagrada como sendo uma só ciência.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A doutrina sagrada não assenta conclusões a título igual
sobre Deus e as criaturas, mas sim de Deus principalmente, e das criaturas enquanto se referem a Deus
como princípio ou fim; o que não tolhe a unidade da ciência.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Nada impede se distingam as potências inferiores ou hábitos por objetos,
todos dependentes de uma potência ou hábito superior; pois estes últimos consideram o objeto por
modo formalmente mais extenso. Assim, o sentido comum tem por objeto o sensível, que abrange o
visível e o audível; por onde, apesar de ser uma só potência, estende-se a todos os objetos dos cinco
sentidos. Semelhantemente, a doutrina sagrada, suposto seja uma somente, pode ocupar-se com os
objetos de ciências filosóficas diversas, sob um aspecto, enquanto reveláveis divinamente; de modo que
ela parece impressão da ciência divina, saber simples e singular de todos os objetos.